Q.I.- Fanfic Interativa
42 O Circo dos Horrores
Notas iniciais
O Circo dos Horrores
“A vida é nada mais do que um espetáculo de abominações, um jogo onde sobreviver significa perder.”
Yvi
“ Por que estamos aqui? Essa é uma pergunta que os seres humanos fazem todos os dias, qual o sentido da vida, porque foram criados, quanto tempo lhes resta. Todas essas perguntas deixam as pessoas com uma incógnita em suas mentes. Esses humanos medíocres e imprestáveis, não compreendem o seu verdadeiro lugar. Sempre desejam cada vez mais e mais, nunca se saciam, são um buraco sem fundo, sempre em busca de algo que preencha o eterno vazio de suas almas grotescas.”
“Seus corações não passam de um músculo oco que bombeia sangue, seus cérebros mal podem pensar, suas almas estão corrompidas e suas emoções são meros mitos. Os seres humanos se gabam de sua superioridade e inteligência, de serem os únicos animais racionais. No entanto existem três coisas que eles não sabem sobre eles mesmos. Primeiro: o ser humano é a pior praga da terra, destrói tudo o que vê, mata tudo o que toca, é simplesmente uma máquina de destruição solta pelo mundo. Segundo: o ser humano é o único ser vivo que destrói sua própria casa, porque querendo ou não, moramos neste planeta e a cada dia mais eles acabam com a natureza e dão lugares a indústrias poluentes que não tem outra serventia a não ser reduzir o nosso tempo.”
“E terceiro: o ato mais grotesco de todos, o ser humano é a única espécie do planeta, que maltrata e mata os outros de sua espécie, e esse terceiro ato posso confirmar do fundo de minha alma, sou um exemplo vivo disso. Uma simples vítima da maldade, arrancada de seus pais, presa em uma jaula, e agora sou um simples objeto de diversão para pessoas maldosas e pecadoras que desejo de todo meu coração que ardam nas chamas do inferno.”
“Não sei quando leram esse diário que escrevo neste momento, se é que alguém um dia terá o prazer de folheá-lo, mas caso você chegue a lê-lo, por favor, te peço por Deus, que nunca, nunca visite este circo.”
A garota terminou enfim sua última página do diário aproveitou a distração dos seguranças e jogou-a por entre as grades de sua prisão particular, e viu o diário despencar morro abaixo até parar perto da estrada de barro que dava acesso ao circo. Naquele momento pessoas estavam dentro da lona dourada, divertindo-se vendo crianças e jovens se apresentando em situações bizarras. Ela podia ouvir as gargalhadas da multidão, mescladas com xingamentos. Pode distinguir o nome “aberração” diversas vezes.
Ela seria a próxima, a apresentação estava terminando, naquele momento desejou ter morrido ao nascer, desejou nunca ter aquela deformidade que a transformava em um objeto de diversão para todos os outros. Um prazer masoquista e doentio, ela havia viajado o mundo todo, sempre escondida, ela e os outros. E cada viagem, mais um entrava para o grupo e às vezes, um conseguia fugir, ela invejava a sorte destes que conseguiam fugir.
Ela tinha sete anos quando foi sequestrada e colocada naquele maldito circo. Agora com quinze anos, ela simplesmente ansiava por sua morte, ou pelo dia em que conseguisse se livrar das grades que agora a prendiam. Todos os dias era maltratada, obrigada a ficar numa gaiola suja, alimentada com um copo de água por dia e um pão seco, isso quando tinha o pão.
Banho, somente uma vez na semana, mas tinha de usar sempre a mesma roupa. Um vestido branco de bailarina com uma capa que escondia o motivo de ela estar ali. Uma tiara dourada enfeitava os cabelos loiros visivelmente maltratados pela falta de cuidados.
Ela deslizou os dedos pela grade fria e enferrujada, segurou-a com força, abaixou a cabeça deixando que uma cintilante lágrima lavasse o seu rosto retirando parte da maquiagem colocada nela a força pela dona do circo, uma senhora de cinquenta e poucos anos que adorava torturar os seus bichinhos de estimação.
Ela pode ouvir os barulhos da multidão, a outra apresentação acabaria logo e ela seria levada ao palco. Os seguranças abriram a grade e puxaram-na com força para fora, ela deixou-se ser arrastada por eles. A cada passo estava mais próxima de seu inferno particular. Suas pernas bambeavam, mas os dois homens parrudos pouco se importaram e levaram-na a uma salinha atrás do picadeiro, apelidada carinhosamente de “abatedouro”.
A dona do circo deu uma tapa em seu rosto ao perceber que a lágrima havia borrado uma parte da maquiagem. Yvi olhou-a com ódio, queria ver aquela mulher mutilada e cremada na sua frente.
– Da próxima vez que borrar essa porcaria vai receber uma punição pior. Você me entendeu?
– Sim senhora- ela respondeu timidamente, sem forças para reagir.
– E faça tudo direito dessa vez, ou prometo transformar sua vida em um inferno.
“Ela já é um inferno.” Pensou, mas nada disse apenas assentiu com a cabeça, ouvindo a multidão que clamava incansavelmente por mais. Ela viu o garotinho que se apresentava ser trazido. Chegara à vez dela. Os seguranças a levaram, a luz a cegou por uns instantes, pode ver a plateia assoviar e gargalhar, um bando de ricaços que se divertia vendo o sofrimento dos jovens presos naquilo que eles ainda tinham coragem de chamar de espetáculo.
Ela encarou a multidão com seus olhos cor de prata e soltou a capa de tecido branco, revelando o par de asas brancas que ela escondia. Enquanto o público ia à loucura, ela dançava graciosamente no ar, dançava livre, encantando a todos, mas apesar de danças a própria liberdade, seu destino era simplesmente estar presa.
° ° °
Tabitha Nakamura
“Todos me veem alegre, mas ninguém dorme comigo para ver as lágrimas molharem o meu travesseiro.”
A sala apesar de pequena era muito bem organizada, as paredes eram amarelas como o resto da mansão, doze cadeiras acolchoadas se alinhavam em três filhas que davam de frente para uma parede branca, atrás das cadeiras havia uma estante de mogno gigantesca que ocupava a parede inteira, ela estava abarrotada de livros e pergaminhos que a garota desconhecia. Não havia janelas na sala, para evitar o calor aparelhos de ar condicionado foram acoplados na parede, tornando o ambiente gélido. E por fim preso ao teto, um projetor que apontava para a parede branca.
A garota sentou-se rapidamente, apertando o corpo contra si na tentativa de gerar calor, seus pelos arrepiaram-se e sua pele adquiriu um tom um tanto roxo, ela sentiu o choque térmico, afinal passar o dia inteiro no calor do Cairo, para depois entrar em uma sala climatizada não era a melhor sensação de todas. Os outros se sentaram, ninguém sabia o que estava fazendo ali, no entanto tinham a impressão de que devia ser algo realmente importante.
O senhor Gullar andava um tanto misterioso, quase não saia do escritório, almoçando e jantando no mesmo, ninguém sabia o que ele estava escondendo, mas parecia que tudo seria revelado ali. O senhor Gullar entrou na pequena saleta a passos duros sem olhar para ninguém, seus cabelos estavam em desânimo completo, seus olhos ganharam olheiras e a sua alegria contagiante havia sumido num piscar de olhos.
Desde que ela chegara ao Egito às coisas mudaram, agora ela tinha medo de que a qualquer hora aquele trio dos horrores aparecesse e os atacasse de surpresa. Ela tinha entendido que eles queriam vingança, e não se pode duvidar das intenções daqueles que estão sedentos pelo sangue de seus inimigos.
Seria bem melhor se ela tivesse ficado em casa, com sua família, em segurança. Seria bem melhor do que estar correndo risco de vida, dentro das paredes daquele Instituto, ela só se perguntava como estaria sua família naquele momento, com toda certeza imaginando que a sua vida estava as mil maravilhas e que ela finalmente estava em segurança, era mentira!
– Bom pessoal- ele disse trancando a porta da saleta- o que eu tenho para dizer é algo muito sério e que não deverá sair daqui!
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