Q.I.- Fanfic Interativa
16 O Encontro do Pégaso Escarlate - Parte Um
Notas iniciais
O Encontro do Pégaso Escarlate — Parte Um
“Voar sempre cansa — por isso ela corre, em passo de dança” – Eugénia Tabosa
Anya Pentilivruscky
Bran puxou o cachecol para cima dos lábios, ocultando parte de seu rosto. Ele usava um corro preto que deixava seus cabelos dourados um tanto incomodados, já que eles gostavam de ser rebelde. Com o casaco pesado, parecia duas vezes maior e mais gordo do que realmente era, já a calça deixava as pernas finas o tanto em desencontro com o tamanho dos braços no casaco. Ele parecia um boneco de nele, tirando o nariz grande e vermelho, os olhos negros e a pele bronzeada. Brandon não era da Rússia, tinha vindo da Austrália fazia duas semanas, e desde então a vida de Anya tinha virado um inferno. No momento em que a viu, em meio a neve que chegava até os joelhos da garota, Bran pegou-a no colo e a rodou, dizendo que era o bebê mais lindo que já tinha visto. Perguntou se ela tinha dois ou três anos, mas se surpreendeu quando Senhor Petor informou que Anya tinha seis meses de vida. Seis meses e o tamanho de uma criança de três anos. Essa era Anya, com seus cabelos louros em aura de anjo, os olhos cinzentos refletindo uma tempestade de neve e casaco de lã escondendo-a do mundo. Bran nunca mais a deixou em paz.
– Vamos buscar os americanos – Senhor Petor disse – Vamos não – se corrigiu – Vocês vão. Tenho de cuidar do Instituto, seria terrível se Sebastian conseguisse invadi-lo no primeiro dia de funcionamento. Bran, por favor tome conta de Anya.
– Eu não sou um bebê – Anya protestou.
– Como se eu fosse acreditar – Petor piscou para a filha adotada seis meses atrás. – Brandon, não desgrude os olhos dessa menina hiperativa. E por favor não vão brigar, sem confusão. Joe irá com vocês.
– Joe é um idiota – Bran reclamou, pegando Anya no colo, enquanto a menina esperneava em seus braços. Bran a encheu de mordidas no pescoço, enquanto Anya se inclinava para trás e tentava chutá-lo. Bran achava que poderia ser seu irmão mais velho, mas ele não era. Bran jamais seria e jamais poderia desejar ser. Ele não podia ter o sangue que Anya tinha.
– Sendo um idiota ou não, ele é o único que pode dirigir – Petor piscou para Bran, enquanto o menino colocava Anya no chão – Vocês dois... – ele sorriu – Uma hora de amam, outra estão entre tapas...
– São as coisas que devemos fazer com bebês irritantes. – Bran provocou-a, enquanto Anya se juntava a perna de Petor, seu protetor.
– Um dia, quando Anya atingia a puberdade, vamos ver quem será o bebê irritante, Bran – Petor disse, chamando a atenção do menino. – Basta tempo até que vocês se casem.
– Ah, por favor, tenha dó de mim – Brandon ergueu a mão, pedindo piedade – Anya será tão tábua quanto ela é agora, além de irritante e boba.
– Você tem uma queda por tábuas – Petor o segurou pelo pescoço, bagunçando seus cabelos enquanto a touca caia no chão. – Acha que não sei? Seu quarto está repleto de fotos de uma atriz tábua.
– Quem te deu permissão pra entrar no meu quarto? – Bran se desvencilhou de Petor.
– Vão, os americanos chegarão logo.
Brandon, desde então, estava bem quieto, enquanto deixava que Joe fosse sozinho na parte da frente do ônibus, o que era praticamente um milagre, já que o garoto adorava se sentar no banco do acompanhante. Enquanto o silêncio devorada a alma dos três, Anya tentou formular uma lista de características dos americanos. Diziam que eram na maioria feios e falavam de uma forma muito engraçada. Riam de quase qualquer coisa e na maioria das vezes eram ingênuos. Anya não gostava da idéia de ter americanos em sua casa, principalmente agora que tinha envelhecido. Com seis meses de idade, Anya tinha dois anos na aparência. Petor disse que provavelmente dali seis meses ela teria mais dois anos e assim formaria uma aparência de quatro anos. Em um ano ela crescia o equivalente a quatro anos de idade. Era como se fizesse aniversário quatro vezes por ano. Mas isso era somente uma suposição, ninguém sabia quando ela iria envelhecer. No final de semana poderia ser uma adulta formada, ou então continuar com dois anos. Era imprevisível. Sendo filha de quem era, então, duvidava ainda mais de que o resto de seus poderes poderia ser bom. Dentro de alguns anos Anya já seria uma velha ou já estaria morta.
– Como será que os americanos parecem? Será que são feios?
– Espero que não – Bran respondeu, pela primeira vez soltara algum som e surpreendentemente estava calmo e até gentil – Quero que alguma menina bonitinha esteja entre eles. É bom ficar com alguém de vez em quando, levando em consideração que a única menina do Instituto é você e você é uma pirralha de seis meses.
– Dois anos – ela corrigiu-o.
– Seis meses – ele mostrou a língua, irritando-a.
Bran gostava de irritá-la, era como seu passatempo preferido. E na verdade Anya gostava de ser irritada. Era o jeito dele demonstrar que gostava dela. A estrada estava escorregadia por causa da neve que tinha caído de noite. A temperatura oscilava entre dez graus positivos e cinco graus negativos. O dia era uma bola de cinzas, o céu não possuía cor e neve se via além do horizonte. O carro se movia num ritmo bom, enquanto os borrões de outros carros cobertos de uma camada fina de neve passava voando por eles. Muitos acidentes aconteciam por causa das estradas geladas, por isso não era bom arriscar. Joe era muito cuidadoso.
Brandon nunca gostara de Joe Luísio, o francês. Joe era uma espécie de mãe para Anya, ele lhe dava mamadeira, trocava suas fraldas, lhe dava banho e lia histórias de ninas para ela. Bran normalmente o chamava de mariquinha, pois Joe era muito protetor e atencioso, cozinhava para eles e arrumava a casa. Anya gostava de Joe, era como um verdadeiro irmão mais velho. Bran jamais seria como Joe. Joe tinha a pele escura como chocolate, os olhos profundos e pretos como carvão e os lábios grossos. Os cabelos num estilo Black Power e rastafári. Ele sempre mudava o visual, nunca parava com um cabelo só. Uma vez inventou de fazer alisamento, o que não ficou muito bom.
Brandon possuía cabelos dourados, num castanho bem claro. Os olhos profundos e cinzentos pareciam mais com negros. Tinha pele morena, embora os dias na Rússia tivessem deixado-a ressecada. O nariz era grande e reto, com sobrancelhas ligeiramente arqueadas e traços angulosos.
Anya talvez fosse a mais comum entre eles, afinal era russa. Com os cabelos louros curtos até os ombros, os olhos se destacavam em cinza claro, diferente do cinza de Bran. Tinha pele clara e um nariz adoravelmente arredondado. Anya era uma bela criança para sua idade.
O carro estacionou próximo ao aeroporto, no estacionamento coberto. Joe virou-se para trás, vendo seus acompanhantes. Anya retribuiu o olhar, porém Bran o ignorou. Tipicamente infantil, Brandon quando decidia não gostar de alguém fazia de tudo para não gostar.
– O tutor deles vai ligar para meu celular quando chegarem – Joe explicou, se contorcendo pelo banco do motorista e pulando para trás. – Mas acho que demorará. Eles saíram da América faz uma hora.
– Chegarão daqui um tempão! – exclamou Bran – Que merda... Terei de ficar aqui com você e com esse chato.
Anya virou os olhos para Brandon, que exibia a carranca e os braços cruzados. Afundando nos bancos, Bran parecia muito mais novo do que era. Ele tinha quatorze anos e era até alto para sua idade, porém agia como se fosse tão novo quanto Anya.
– É melhor não ficar deste jeito perto dos novatos.
– Não são novatos. – Anya lembrou-o.
– Estou falando dos alunos que estão vindo para o Instituto, não os americanos – Joe chamou-a para seu colo e Anya deu um salto gracioso indo até ele. Se aconchegou nos braços de Joe e ficou encarando o teto – Agora seremos veteranos e teremos de ser responsáveis. Nada de briguinhas idiotas, Bran, aposto que os americanos não mantém brigas entre os veteranos.
Pobre Joe, ainda não conhecia Ariel Meylle e Edgar Lewis.
Anya se mexeu desconfortável no colo de Joe. Embora não gostasse das provocações de Bran, e gostasse ao mesmo tempo, não queria que ele mudasse. Mas não disse nada. Sendo filha de quem era, era melhor ficar quieta. Já estavam sendo generosos demais por acolhe-la.
– Acha que eles vão ser esnobes? – Brandon disse, por fim.
– Como assim? – Joe ergueu as sobrancelha.
– Eles estão vindo para nos proteger de Sebastian, principalmente a Anya, e eles são treinados, não acha que ficarão se achando? Somos os únicos do Instituto e eles já estão lá no Instituto da América faz uns cinco anos.
– Seis – corrigiu Joe. – mas acredito que não, eles serão muito legais, aposto.
– Não fique apostando coisas que não pode pagar – Bran se esticou no branco – Somos órfãos e pobres miseráveis. Somente a Anya é rica aqui.
– Anya também é órfã. Ela foi adotada por Petor e ele é seu pai e ponto – Joe sibilou para Bran. O menino louro dourado abriu os olhos.
– Não podemos simplesmente ignorar o que a Anya é. Ela é o que Sebastian mais quer no momento.
– Ou não. Ele a deixou fugir, não se lembra? – Joe interrompeu-o. Anya estava se sentiu muito mal com toda aquela conversa.
– Nenhum pai quer que o filho fique longe – Bran disse por fim, com força – Nenhum pai prefere o filho morto a perder a fortuna toda.
Joe soltou Anya, que se encolheu sozinha no banco. Com os pés em cima do couro, eles a observaram. Ela estava muito pálida, como era típico quando ficava apavorada. As bochechas ruborizadas mostravam que estava irritada. Ela não gostava de quando começavam a falar de seu pai, principalmente quando o chamavam de Sebastian, que era o nome pelo qual ela morria de tremores e arrepios. Papai nunca lhe tinha machucado ou erguido a voz. Nunca fizera nada de errado com ela, não entendia como ele poderia ser tão ruim. Mesmo assim, ele era o culpado por Anya ser quem era agora. Ela era uma pessoa que morreria logo, uma pessoa que não tinha muita esperança. Dentro de horas ela podia virar uma garota de quinze anos ou trinta. Podia envelhecer tão rápido quanto seu coração batia.
Anya sentiu alguma coisa agarrar-lhe o tornozelo.
– Ei, pequena, não se preocupe com o que esse bobão diz – Joe sorriu para ela, com os dentes brancos e alinhados. Diferentemente dos de Brandon, que eram amarelados e tortos.
Anya puxou seu tornozelo das mãos grossas e grandes de Joe. Não gostava que tentassem confortá-la, embora a atenção fosse boa. Embora soubesse que Joe não a odiava, também sabia que ele não gostava de seu pai e que adoraria matá-lo, o que a magoava muito. Bran na verdade era a pessoa que mais a magoava, afinal ele dizia que seu pai tinha enviado monstros para irem atrás dele e de sua família. E que papai tinha matado os pais dele. Bran era terrível. Anya sabia que papai jamais poderia fazer algo assim. Ele era sempre ta dócil e gentil com ela, falava de mamãe com freqüência e sempre de forma adorável.
– Deixe-a – Bran disse, com sua voz de garoto – Ela não está querendo colo agora. Algumas crianças costumam preferir ficar sozinhas quando estão deprimidas.
– Não estou deprimida – Anya o interrompeu, virou seu rosto vermelho para ele, junto com os cabelos louros que brilhavam refletindo na luz fraca de iluminação do estacionamento – Estou irritada. Com vocês dois. Não gosto que fiquem falando do meu pai.
– Mas ele é um problema – declarou Joe, irritando-a ainda mais.
– Pare de falar assim do meu pai! Seu verme imundo e nojento! Eu te odeio, EU TE ODEIO! – ela pulou no banco, mas um braço se passou por sua cintura e a puxou ainda no salto, colocando-a em seus braços e a envolvendo com força. Bran a imobilizou com a força que tinha e tentou fazê-la desistir de atacar Joe. Embora odiasse Joe, Brandon não queria que ele se machucasse com as unhas afiadas de Anya. Aquela menina não cortava as unhas fazia semanas!
– Calma – ele sussurrou entre seus cabelos louros, deixando o hálito quente na orelha dela – Calma... O Joe é mesmo um verme nojento, mas tenha calma...
Ela ainda tinha o coração disparado, o rosto vermelho e as mãozinhas prontas para arranhar a pele escura de Joe, mesmo assim Anya foi parando, até estar totalmente fora de perigo. Ela não pediu desculpas a Joe, na verdade era ele quem deveria pedir. Encostou a cabeça no peito de Bran, tentando se enfiar dentro do casaco entreaberto dele. Era quentinho lá dentro e no momento Anya sentia-se fria como o inverno na Rússia. Ela conseguia mudar a temperatura do corpo, entretanto não tinha muito domínio sobre isso. Logo batia os dentes enquanto seu esqueleto inteiro tremia. Bran a deixou se esconder dentro do casaco pesado, mas tomou cuidado para não prender os cabelos dela no zíper da blusa. Ainda demoraria muito para os americanos que os americanos chegassem.
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Brandon Samartin
Peter Bradley Adams – Between Us
Anya caiu no sono alguns minutos após entrar em seu casaco. Os cabelos louros refletindo na luz da precária iluminação do estacionamento coberto deixava a menina parecendo um anjo de aura inocente. Seus bracinhos o abraçavam dentro do casaco, chegando até suas costas, nas costelas. Não era tão pesada quanto parecia.
Joe chamou sua atenção após ter certeza de que Anya estava dormindo.
– Ela gosta de você tanto quanto gosta de mim – comentou.
– Não. Ela gosta um pouquinho mais de mim – Bran sorriu, seu sorriso torto.
Joe entortou o nariz, porém não revidou.
– Você a irrita e briga com ela, mas mesmo assim ela busca refúgio com você. Não consigo fazer com que Anya se sinta tão segura assim comigo. – ele admitiu.
– É que eu sou melhor que você. – Bran piscou para o amigo, que apenas soltou ma risada fraca, para não acordar a menor.
– Acho que Anya me vê mais como uma mãe do que como um irmão protetor – ele disse, por fim, com um suspiro chateado. – Queria ter uma irmãzinha menor para cuidar. Parece tão bom, é solitário ser órfão e ao mesmo tempo filho único. Se eu tivesse pelo menos um irmão, a falta dos pais nem seria tão grande assim.
– Somos todos irmãos – Bran o interrompeu – Eu e você, Anya... Você o mais velho, age como se fosse a mamãe. Eu, o do meio, sou o arteiro mas que sempre sai sem levar sermão e Anya é a nossa irmãzinha e é mimada por nós.
– Sabe, esse nome, ele sempre me lembrou um farol que tinha perto de casa. Meus pais foram morar em cima do penhasco exatamente por causa daquele farol. Se chamava Anya Glossyer, eu simplesmente amava ir até ele brincar. A lâmpada dele já estava queimada fazia anos, e era considerado um farol inativado e inútil, afinal a tecnologia hoje permite que os navios tenham GPS e tudo mais para se localizarem.
– Anya me lembra uma estrela. Minha irmã mais nova costumava chamar uma constelação que ela inventou de Anyalice, dizia que tinha o formato de uma sinfonia.
– O formato de uma sinfonia? – Joe ergueu uma sobrancelha.
– Sim. Eu nunca entendi qual era esse formato, e nem sei como reconhecer tal constelação, mas amava ouvi-la falando, deitávamos na grama do quintal e admirávamos o céu...
– Ao menos você teve irmã.
– E ela morreu. Na minha frente – Bran abaixou os olhos para encarar os fios louros de Anya. A menina soltou um suspiro, se aninhando um pouco mais para dentro do casaco, até esconder totalmente o rosto. – Você nem pode imaginar a dor que eu senti... Os dias em que fiquei de luto. Me senti tão doente, eu nem me preocupei com a perda de meus pais, mas Alice... Ela era um tesouro para mim. Uma pequena forma do mundo dizer que existe um pouco de felicidade até mesmo nos lugares mais escuros. E ela morreu, gritando meu nome e pedindo a minha ajuda. Mas eu fui tão egoísta que só consegui correr e me esconder para que não me matassem também. – sua voz tinha um misto de arrependimento e dor. – Se eu soubesse tudo o que podia fazer... Com poderia usar o meu corpo... Teria salvado minha família inteira. Mas naquela época eu nem me conhecia direito. Era um pirralho de doze anos.
Joe não disse nada, deixou que o amigo refletisse sobre seus próprios assuntos, afinal não tinha como ele dar opinião sobre algo que nem sabia. Ele nunca tinha tido um irmão ou irmã e seus pais morreram de doença, pouco a pouco, quando enfim partiram, Joe já esperava por isso e não se abalou muito. Seu luto já tinha começado nos últimos meses de vida dos pais e por isso ele já estava forte para aceitar. Mas Brandon não. Ele de repente viu a família totalmente destruída. Foi o único sobrevivente do massacre.
– E eu tenho certeza absoluta que foi Sebastian, esse cara vive correndo atrás de superdotados – Bran acrescentou com raiva – Quando eu o ver, irei matá-lo. Vou fazê-lo pagar por Alice, por meu pai e por minha mãe. E por Anya também. Ela vai morrer por causa dele.
– Não sabemos. Pode ser que Anya pare de crescer. Petor me disse que acha que Anya pode controlar o crescimento do próprio corpo, mas é algo difícil. Se ela souber, poderá se congelar com quinze anos, ou voltar aos tempos de bebê. Ela já é muito inteligente para uma menina que nasceu seis meses atrás.
– Ela se desenvolve mais rápido – lembrou Bran.
– Mesmo assim. Ninguém aprende a falar do dia para a noite, e você lembra como foi quando ela aprendeu a primeira palavra, não parou mais.
Brandon assentiu, lembrando-se do dia. A primeira palavra que ela tinha dito era “pirralha”, pois Bran a chamava assim o tempo todo.
Sorriu. As lembranças eram boas quando se referiam a pessoas vivas.
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Joe Schimdt
Observar o jeito como Brandon falava de sua família era muito triste, principalmente quando lembrava dos próprios pais. não entendia porque todo superdotado tinha de ser órfão, lembrava-se de que Petor tinha explicado que sempre que o Instituto descobria um novo superdotado, Sebastian também descobria e assim corria atrás dele com todas as suas forças. Ele era um homem cruel, capaz de matar qualquer humano normal para pegar um que lhe rendesse algum estudo. Joe não gostava de lembrar dos pais, principalmente da mãe. Ela era patinadora, tinha ganhado medalhas durante a vida toda e representara a França nas Olimpíadas de Inverno. Ganhara prata. No ano em que adoeceu, ela estava treinando para conseguir um ouro. Foi avassalador quando soube que ela tinha câncer. Principalmente depois quando descobriu que o pai também estava com câncer. Os dois ficaram no hospital, definhando até que morressem sem dor, dormindo.
Era o melhor jeito de morrer, refletiu Joe. Ao lado da cama de quem você ama, dormindo. Sempre achara hospitais nauseantes, mas agora os amava pois lembrava-o de seus pais. Duas horas dentro daquele carro enquanto esperavam. O calor era confortável, porém sua barriga começara a roncar. Arrependeu-se de não ter trazido uma garrafa de café.
Joe era terrivelmente apaixonado por cafeína. Poderia fazer qualquer coisa por um pouquinho. Café era o seu alimento principal na dieta que fazia. Ele tomava ao acordar e no final da tarde, cerca de metade da garrafa, três e às vezes quatro xícaras. De qualquer jeito, com leite, com açúcar ou puro. Frio ou quente, ele amava. Gostava de ficar mais agitado, e também amava a adrenalina. Servia como um estimulante para ele. A adrenalina e a cafeína o acalmavam.
O celular tremeu no bolso direito da calça, dando-lhe um arrepio repentino. Pegou o aparelho com os dedos grossos e o colocou no ouvido apertando o botão para atender a ligação.
– Chegamos, Professor Petor, por favor venha nos buscar. Estamos na plataforma Três. Adeus.
Desligou antes que Joe pudesse dizer que ele não era o Professor Petor. Mesmo assim, avisou que iria recepcionar os americanos e que Bran poderia ficar no carro com Anya. Não lhe agradava que o irmão do meio, o arteiro, ficasse tomando conta da menor, a inocente, porém não tinha outra coisa a fazer, levando em consideração que ela já estava dormindo fazia tempo e que estava dentro do casado de Bran. Por fim, saiu.
O vento, mesmo no estacionamento coberto, era forte e o frio inevitável. Puxou a touca para baixo das sobrancelhas e o cachecol para cima dos lábios grossos, enquanto atravessara o estacionamento em direção as portas automáticas que o levariam para a plataforma de desembarque e embarque. As luzes o cegaram por alguns segundos, mas sua visão logo voltou ao normal. Enquanto procurava pela Plataforma Três, avistou ao longe uma figura um tanto engraçada. Uma menina, de cabelos brancos feito a neve da Rússia e agasalho masculino estava com dificuldade em abrir seu café. Parecia que nunca tinha visto um copo de isopor antes. Foi quando seus olhos se acostumaram e se fixaram nela. Tinha uma visão aguçada e por isso podia ver as coisas a distância. Ela usava um agasalho do exército americano. Ele piscou, começando a correr em direção a ela, mas antes que chegasse um garoto de agasalho quase idêntico parou ao seu lado, com as sobrancelhas erguidas em desaprovação e abrindo o café para ela. Estranhamente a menina de cabelos brancos mantinha os olhos no chão, como se fosse cega ou tivesse perdido algo. Pegou o café e não agradeceu, somente levou a bebida aos lábios. Joe ficou tentado a ir lá e roubar aquilo dela. Com cuidado, se aproximou da dupla de americanos. Não sabia se eles conseguiriam se comunicar, mas...
– Olá, americanos – ele disse, com suavidade. – Sou Joe do Instituto da Rússia.
– Olá, Joe – ele ouviu, mas quem disse não foi o menino de sobrancelhas erguidas, nem a garota de cabelos brancos, mas sim alguém atrás dele. Joe se virou rapidamente, assustado. Era um homem gordo, de cabelos ralos e uma quase-careca. – Sou Joe. Somos charas.
Joe piscou os olhos, reconhecendo a voz no celular.
– Professor Joe? Do Instituto na América?
– Exato. – Joe assentiu. – Sei falar bielo-russo. Ahn... Edgar e Gloss – ele apresentou os outros dois que estavam antes na mira de Joe. Argh, quantos Joes! Isso me deixa confuso, realmente... Vamos fazer o seguinte, leitor, o Joe da América será conhecido como Professor entre nós, ou somente gordo. O Joe da Rússia será conhecimento somente como Joe mesmo.
Joe pediu para que pegassem as malas e se surpreendeu quando viu os outros americanos. No total eram seis, só para proteger o Instituto por uma semana. Era terça-feira e eles ficariam até sexta para assegurar que os novatos estivessem seguros. Enquanto ninguém ali fosse treinado, ainda seriam vulneráveis perante Sebastian. Os novatos chegariam na quarta no final da tarde, o que dava para os americanos algum tempo para se acomodarem.
– Eu dirijo. – Joe avisou, enquanto colocava as malas dentro do porta-malas do carro.
– Você? Mas quantos anos você tem?
– Dezoito – Joe ergueu os olhos – Já passei dos dezesseis faz tempo, Senhor Professor.
– Me chame de Joe.
– Prefiro professor, Joe já basta eu – ele fechou a porta e então abriu a das laterais para que os americanos entrassem.
O Professor foi o primeiro, ele parecia bem divertido com a idéia de ir no banco de trás. Para a surpresa de Joe que pensou que ele viria na frente junto com ele. Logo o nomeado Khaos entrou, puxando consigo uma menina de tiara dourada que possuía longas orelhas de gato rosa claro, igual seu cabelo. O menino das sobrancelhas estranhas também entrou atrás, deixando a garota dos cabelos brancos para ir no banco da frente. Ela não se incomodou com isso, na verdade quando Joe a percebeu já havia entrado no carro. Ele, então, se apressou em ir dar a partida.
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Anya Pentilivrusky
Acordou quando o carro já tinha voltado a andar. O calor era insuportável e ela logo se desvencilhou do casaco de Bran. Olhou ao redor, para os novos olhos que a encaravam. Encolheu os ombros. Pares de olhos, azuis, dourados, negros e até de duas cores a observavam com curiosidade. Olhou para Bran, que sorriu com seus dentes afiados.
– Americanos – ele falou. – E pode dizer se achou eles feios, só tem um aqui que entende o que você fala.
Ela olhou ao redor, tentando decifrar quem era.
– Então você é a curiosa Anya? – um homem gordo ocupando dois lugares no banco se apressou em dizer – Sou Professor Joe, mas para não se confundir me chame apenas de Professor. Então, como é que acontece? Digo, arde ou dói quando você cresce?
Anya piscou os olhos enevoados, ainda desorientada de sono. Voltou a cabeça para Bran, que apenas lhe devolveu o olhar enevoado. Era agradável ver seus olhos cinzentos como tempestade e refletindo aos seus próprios olhos cinzentos como neve suja.
Uma menina ao lado de Anya cochichou algo no ouvido de outro garoto de cabelos escuros e olhos puxados. Anya ficou encarando os cabelos rosa dela. Eram esquisitos, porém a menina ponderava em achar que eram tingidos. Com muito interesse, tentou ouvir o que eles falavam, mas era algo enrolado, quase engasgado, e Anya não entendeu uma coisa que falavam. Bran a puxou, tentando dizer em seu ouvido que era feio ficar encarando as pessoas estranhas, mas ela não tirou os olhos daquela menina. Sentia que ela, de alguma forma...
– Kawaii! – a garota rosa exclamou de repente, assustando a Anya de uma forma que a menina nunca foi assustada. Quase caiu das pernas de Bran e seus cabelos louros se arrepiaram. – desu!
Bran segurou Anya pelos pulsos finos. Ainda impactada pelo grito, Anya não olhou mais para a garota de cabelos rosa, tentando não chamar a atenção dela. Enquanto isso, ouvia a conversa quase silenciosa entre um menino louro e de sobrancelhas engraçadas com a garota de cabelos brancos no banco da frente. Joe, sempre muito atento na estrada, andava devagar na pista congelada. O Professor estava quase dormindo, com a boca aberta e os olhos semi-cerrados. Bran chamou-a baixinho.
– Eles são estranhos – disse quase no ouvido da garotinha.
– Uhum – ela concordou, enquanto dava mais uma olhada nos americanos. – Mas não são feios. Só esse gordo.
– Tem razão – Brandon soltou uma risada fraca. – Perdeu o sono?
– Dormi por quanto tempo?
– Umas três horas, por ai. Eles demoraram um tempão pra se acomodar. Na cidade ficaram olhando para todas as janela, impressionados com o menor dos prédios.
– Estrangeiros – sorriu Anya, mesmo que nunca tivesse visto outro estrangeiro sem ser aqueles.
Com isso, a conversa acabou, pois um impacto tirou o carro da pista, lançando-o para o ar e então fazendo-o capotar em direção a floresta. Anya bateu a cabeça contra a testa de Bran e desmaiou na hora.
Acordou um pouco depois, quando já se passavam cinco minutos. Olhou a redor. O Professor gordo estava desacordado, com sua barriga esmagando as pernas do garoto loiro das sobrancelhas esquisitas. Este tentava acalmar em vão a menina de cabelos brancos, que estava mordendo os lábios tão fortemente que sangue escorria deles e contrastava com sua pele branca. Seus olhos erma negros como carvão, ela tremia da cabeça aos pés enquanto os cabelos brancos se grudavam com sangue que estava vindo de algum lugar atrás da orelha.
A menina de cabelos rosa estava jogada no colo do garoto de olhos puxados, que também estava desacordado. Ninguém estava preparado para aquilo. Com receio e muita hesitação, Anya virou o rosto para ver o que tinha acontecido com Bran. Um medo tomou conta de seus ombros pequenos e ela tremia as mãozinhas. Tinha medo, pavor, de que ele tivesse sofrido. Quando seus olhos chegaram nele, soltou o ar que prendia. Brandon estava com a cabeça encostada no banco, os cabelos presos no gorro e um sorriso torto nos lábios. Os olhos cinzentos com tempestade esticados junto com o sorriso. Ele ergueu a mão ensaguentada, tocando o rosto de Anya. O vidro da janela ao lado dele tinha estourado com o impacto no parapeito de segurança e ele tinha um corte ao lado do rosto, por pouco não tinha atingido seu olho. O corte não era profundo, porém grande. Ia da sobrancelha até o começo do lábio inferior. Não escorria sangue, porém cacos de vidro eram visíveis dentro de seu ferimento. Ela não ousou olhar por muito tempo, tentou focar somente em seus olhos e seu sorriso.
– Está sentindo dor, Anya? – perguntou com doçura.
– Não – a menina balançou a cabeça, levando junto seus cabelos e o resto de orientação que tinha. Ficou desnorteada por alguns segundos, com uma leve dor na nuca, mas logo se recuperou. –, e você, Bran?
– Sim – ele sorriu, ainda mais esticado – Muita. Principalmente nas costelas, acho que quebrei.
Ela o encarou, séria e preocupada.
– Mas não precisa ficar assim, acho que não é nada sério – ele disse, com expressão gentil. Brandon sabia quando deveria ser mais agradável.
– O que houve? – ela perguntou, por fim, virando a cabeça para os lados e vasculhando alguma informação do que pudesse ter acontecido, porém só pôde ver o que já tinha percebido antes.
– Acho que alguma coisa nos atingiu. Talvez um outro carro ou...
– Joe! – ela gritou, se atirando para trás e indo até o bando do motorista. – Joe!
Ela encontrou o menino com o rosto do volante. A garota de cabelos brancos lhe deu espaço para que ela fosse até o banco de Joe e o tirasse dos cacos de vidro. Ele tinha cortes do rosto e o cinto de segurança estava colocando seus ombros para trás, o que deixava sua cabeça em uma posição estranha como se...
– O pescoço – ouviu a voz gélida e sem vida atrás de si e logo virou o rosto para encarar a menina albina – Quebrou.
– Você me entende. – foi a única coisa que Anya disse – Quer dizer, você fala.
– Na sua mente – a menina albina sorriu, e pela primeira vez Anya percebeu que ela não tinha movido os lábios, mas ainda os mordia com força. “Na sua mente”... Telepatia... -, ele quebrou o pescoço.
– Mas vai viver? – ela segurou os ombros da garota branca, movendo-a para frente até se aproximar o suficiente dela para sentir o cheiro de seu sangue no hálito.
– Ele está morto. Eu estou vendo. A vida dele, o tempo de vida. Era pra ser hoje – disse na mente de Anya, com neutro humor, não era visível nenhuma emoção em sua voz, uma monótona voz profunda e cheia de doçura inexplicável. – Quando o vi pela primeira vez já percebi que hoje seria o dia. Lamento pela sua perda, mas não adianta nada chorar por isso. Afinal você tem de aproveitar sua vida o máximo que conseguir, Anya Pentilivrusky, você não tem muito tempo. Pelo menos não se tudo continuar desse jeito. O futuro muda muito e você tem de saber fazer as escolhas certas para chegar em uma conclusão ou não. Eu sou autista, por isso não converso muito, odeio quando gaguejo ou mina língua se prende no seu da boca e começa a me sufocar, é horrível. Mas por telepatia é bem mais fácil dialogar. – ela sorriu com os lábios cheios de sangue, e de alguma forma parecia muito agradável. – Eu só posso conversar assim com pessoas de mente fraca ou que ainda não têm um domínio sobre seus dons. Por isso não converso assim com meus amigos, mas você tem mente fraca e assim eu facilmente consigo entrar dentro dela. Não é algo ruim, mas você tem um dom realmente inexplicável e perfeito. Se souber controlá-lo conseguirá ser eterna, nunca mais envelhecerá. Mas se perder o controle amanhã pode perecer de velhice.
Anya piscou enquanto absorvia aquilo. As palavras da menina eram muito fortes e simplesmente profundas. Ela podia ler o que Anya estava pensando naquele momento, conseguia sentir o jeito como a albina vasculhava suas informações mais profundas. Era horrível isso. Queria que ela parasse.
– Me chame de Gloss, albina não é um apelido muito agradável – Gloss sussurrou em sua mente, agora era possível sentir um pouco de afeto em sua voz – E tudo bem, eu paro.

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