Q.I.- Fanfic Interativa
19 O Encontro do Pégaso Escarlate - Parte Três
Notas iniciais
O Encontro do Pégaso Escarlate – Parte Três
“Um lar sem filho é um sino sem badalo” – Carmen Sylva
Gloss Violett
Maroon 5 – Won’t Go Home Whithout You
Gloss virou-se para encarar o homem de cabelos escuros e cacheados, caindo nos olhos azuis cristalinos. Ele tinha uma cicatriz no lábio e as feições angulosas tornavam-no uma sombra viva. A profundidade de seus olhos e o jeito como seu nariz se sobressaía ficavam intimidadores.
– Vejo que trouxe amigos – o homem aplaudiu com fingida empolgação. Por outro lado, Anya se desvencilhou do pégaso, que tentava mordiscar seus cabelos e correu para os braços do homem, que a pegou com cuidado e sorriu voltando os olhos para os outros dois. — Surpresos?
Gloss piscou os olhos, atônita. Edgar porém não estava surpreso como ela, mas sim com raiva rugindo nos ouvidos e tornando seu rosto vermelho. Seus punhos cerrados indicavam que ele ainda sentia ódio pela Batalha do Desamparado. Gloss tocou seu ombro, despertando-o da onda de raiva. Sebastian ignorou-os completamente, brincando gentilmente com as mãos da filha, que o envolviam com uma força e saudade tremendas. Ela não estava com medo, por outro lado, se aconchegava a procura de segurança. Gloss quase teve vontade de vomitar daquela cena, nunca tinha imaginado Sebastian com uma filha que ele amasse.
Por fim ele levantou os olhos, dando um sinal para que o pégaso fosse embora. Obediente, o animal pulou do prédio em direção ao céu negro e sem estrelas da Rússia. Tinha escurecido e a viagem fora turbulenta. Gloss ainda sentia seus dedos duros de frio.
– Entrem, está mais quente lá dentro. – Sebastian se virou, chamando-os.
– Nunca! – Edgar grunhiu. – Você vai esperar enquanto eu acabo com sua raça.
– Minha raça? Está falando de Anya? Ela é minha raça – ele ergueu a menina segurando-a pelas axilas. – Então, vamos, anda. Mate-a. Acabe com ela. Eu não me importo, é só uma bola vermelha de pele rosada.
A menina olhava meio sem entender para eles. Gloss tentou invadir a mente dela para saber o que ela estaria pensando, porém não conseguiu. Algo a bloqueava, algo forte. Como se Sebastian estivesse bloqueando a mente da própria filha. Era algo realmente incrível e Gloss nunca tinha ouvido falar em outra pessoa que pudesse. Edgar, porém, não estava pensando em outra coisa além de tentar acabar com Sebastian. O que seria impossível, afinal Sebastian era mais velho, mais experiente, tinha poderes maiores, uma mente mais desenvolvida, e a casa era dele. Com um pequeno mover de dedos, Gloss notou que não poderiam lutar contra ele, pois Sebastian já tinha chamado dois de seus monstros para segurarem-nos pelos braços.
Ao toque, Gloss notou que eram na verdade ventos negros e rodopiantes, mas assim que olhou diretamente para um deles, viu um garoto vestindo roupas rasgadas, segurando uma faca. Os cabelos ruivos brilhavam a luz da Lua, os olhos profundos e verdes escondidos atrás de cílios longos e sobrancelhas grossas. Os lábios do menino estavam rasgados de tanto ele os morder. Ivan... Gloss piscou os olhos, tentando tirar aquilo da cabeça, e notou que conseguia ver através do monstro. Mas logo perdeu o fio do pensamento, pois foi empurrada em direção a escada da cobertura. Pôde ver pela última vez Sebastian carregando sua filha, e só conseguiu pedir em oração que ele realmente amasse Anya.
Jogados numa prisão, Gloss e Edgar tentaram abrir as grades, mas eram fortes e contra superdotados. Mesmo tentando manipular a mente dos monstros, Gloss falhou. Os dois só podiam se sentar num canto, lado a lado, mergulhados em seus pensamentos. Gloss naquele momento estava pensando em como tinha deixado os outros, Cat e Khaos, no carro. Será que eles estavam bem? Se perguntou isso mais de uma vez, até ter certeza de que estava se corroendo. Tentou desviar os olhos, para eles sempre voltavam para Edgar. Tentava buscar forças dele, mas parecia que o próprio menino estava fraco. Numa surpresa, Gloss se encolheu, abraçando os joelhos. Só podiam esperar até que alguma coisa acontecesse. A morte deles, ou a salvação.
– Dizem que ficar preso numa cela com um colega de quarto faz com que você dialogue mais e reflita sobre suas ações e busque auxílio nele. – Edgar disse, com cuidado, ainda olhando fixamente para frente. – Mas o silêncio dessa vez está me matando aos poucos. Diga alguma coisa, Gloss, eu deixo você entrar na minha mente se precisar.
Ela negou com a cabeça. Tinha medo de saber os pensamentos de Edgar, e na verdade tinha medo de ver seu passado, assim ela nunca tinha tentado romper a barreira na mente dele. Tentou se concentrar, procurando as palavras que usaria e então segurando o ar com força e soltando devagar. Tinha de se concentrar muito, não queria gaguejar ou demonstrar seu autismo numa hora como essa. Ser autista tinha suas vantagens, mas também as desvantagens. O silêncio, para Gloss, era algo que a revitalizava, não a corrompia.
– Eles vão vir nos buscar – foi a única coisa que saiu, num sussurro tão baixo que somente Edgar conseguiria ouvir.
Ele não respondeu, e novamente ficaram num silêncio mortal. Mas agora o silêncio não era mais mortal, e sim aconchegante. Quase quente. Com isso, o frio se espantava do corpo de Gloss, tornando-a uma bola pesada e cansada. Queria dormir e acordar no Instituto, longe de Sebastian ou da Rússia. Ela pousou a cabeça no ombro de Edgar, tentando achar uma forma confortável de se apoiar. Ele de repente a empurrou forte e quase a jogou para o chão.
– Não durma! – ele disse entre os dentes – Se dormir só vai ajudar a Sebastian! Se esqueceu que ele age nos sonhos?
Gloss abaixou os olhos, envergonhada. Nem tinha se lembrado disso, parecia desatenta, avoada. Até mesmo retardada. “Típico de uma menina autista”, pensou com desdém. Essas seriam as palavras de Ivan, caso ele estivesse vivo. Com os dentes cravados nos lábios, excluiu aqueles pensamentos. Pensar naquele homem não a ajudaria em nada. Não queria parecer burra, ainda mais perto de Edgar, que teria total razão de dizer que ela era. Em vez disso, o silêncio voltou, e ele estava tão mortífero quanto o primeiro. O clima mudava com qualquer coisa que acontecesse. Talvez os nervos a flor da pele estivessem causando aquele mal-estar nos dois, ou então fosse o simples medo de que ninguém se desse ao trabalho de virem buscá-los. E em parte era porque Gloss se sentia culpada por ter deixado Anya com Sebastian. Não sabia mais onde a menina estava, não conseguia rastreá-la em lugar nenhum. O que diria para seus superiores? O que diria para Madame Gláucia? Tinha falhado como tantas outras vezes. Nem sabia porque ainda fazia parte da Resistência. E então pela primeira vez se lembrou de Rose, a novata do clube. Uma menina de mente forte, mas que não conseguia colocar barreiras na própria mente. Gloss sorriu, enquanto tentava se lembrar de como tinha sido seus primeiros dias na Resistência, e então piscou os olhos. Encarou Edgar, enquanto ele brincava irritadamente com seus próprios dedos. Seu sorriso sumiu e seus olhos se tornaram lilases. Torceu para que Rose ainda fosse fraca.
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Khaos Sagara
Train – 50 Ways to Say Goodbye
Ele sentiu o corpo arqueando num gemido de dor. Estava totalmente destruído, com dores musculares e sentindo os braços arranhados, enquanto se levantava e escutava os ossos da coluna reclamando. Tinha os braços estendidos nos joelhos, Cat estava ao seu lado, com o corpo num ronronado sonhador. Não parecia ter sofrido muito. Khaos sentiu que seu corpo reagia aos comandos de se recuperar de tudo. Com o pescoço, observou a janela quebrada e a neve que caía do lado de fora do carro. Piscou enquanto sentia alguns flocos tentando invadir seus olhos por trás dos cílios longos. Com cuidado, pulou o corpo de Cat e pisou na estrada congelada, quase escorregando. Se apoiou no carro e por sorte não acordou a menina, que ronronou novamente, virando-se de barriga para cima e com as mãos numa posição que pedia carinho.
Olhou em volta, a procura de qualquer sinal de vida. O céu começava a escurecer quando sentiu que alguém segurava seu ombro, tocou o pulso do indivíduo e o girou com precisão, jogando-o de joelhos para dentro da porta do carro, com o joelho colocou seu rosto no banco e o prendeu daquela forma, com os braços virados numa posição nada confortável. Ele levou alguns segundos para identificar o garoto russo que estava no carro junto deles na hora do acidente. O deixou sair vivo, enquanto o menino se contorcia e agarrava os pulsos, gemendo de dor. Khaos pensou em se desculpar, mas nem adiantaria, o menino não iria entender o inglês e nem ele o conhecia o suficiente para se abrir assim. Com cuidado, enfiou a mão dentro do carro e tocou o tornozelo de Cat, acordando-a instantaneamente, com as garras esticadas e as orelhas se mexendo junto com seus cabelos. Ela tinha os olhos como os de um gato, com íris amareladas e riscos pretos. Seus cílios se enrolavam para cima, pretos. Ela rosnava com os dentes a mostra. Mas depois de vê-lo, se animou e ronronou com excitação. Khaos passou a mão pelos cabelos da menina.
– Pensei que demoraria mais a acordar – ela admitiu. – Como se sente? Está dodói? Deixa a Cat lamber, língua de gato cura qualquer coisa. – ela colocou a língua para fora.
– Depois eu te mostro o lugar onde sua língua será bem vinda – ele disse interrompendo-a – Agora devemos nos focar em Gloss e Edgar. Onde estão? Até agora só vi esse russo idiota.
– Não os vi também. Quando acordei, estávamos sozinhos. Então voltei a dormir.
– Voltou a dormir? Mas nem olhou em volta? – ele parecia prestes a explodir.
– Eu queria dormir com você – ela abaixou o rosto, ruborizada e com as orelhas caídas. -, estava tão sereno...
Khaos soltou um suspiro cansado, virando-se para o russo, que estava encarando o diálogo deles como se fossem loucos. E de fato Khaos não pensava muito diferente sobre a língua grosseira de Bran.
– Você, garoto – Khaos apontou para ele – Sabe onde estão meus amigos?
Brandon ergueu as sobrancelhas, com cara de quem tinha acabado de ouvir alguém gritando como um louco, correndo pelado pela Grande Avenida Sky. Khaos respirou fundo, bufando e olhando ao redor. O que fariam agora? Estavam no meio do nada, com um carro em ruínas, o motorista morto, um russo e nenhum sinal de Gloss ou Edgar. Quão loucas as coisas ainda ficariam?
Khaos não poderia se arrepender mais de ter dito aquilo. A fina camada de neve se transformou em tempestade que quase os congelou. Com cuidado, ele tentou pensar me algo para fazer, antes de notar que Cat já estava no meio da estrada, enquanto os faróis dos carros eram um borrão. Por fim, ela começou a acenar para um caminhão que parou perto deles. Com as presas a mostra, ela abocanhou o pescoço do homem antes que ele fechasse os vidros e deslizou as garras para o peito dele, abrindo um corte no lugar em que seu coração estava. Agora aquele homem seria servo de Cat, tão fiel quanto um gato.
– Venham. – ela os chamou – Vamos encontrar Edgar e Gloss.
Ela subiu no caminhão, sem esperar mais. Khaos agarrou o braço do garoto russo, que ainda estava perplexo pelo que Cat tinha feito, vendo o sangue escorrer pelo pescoço do homem. Ele foi arrastado até atravessarem a estrada. Khaos o pegou pelo pescoço e o jogou para dentro do caminhão, indo logo em seguida. Fechou a porta com força suficiente para quebrar a parte interna da trava de segurança. Xingou mentalmente, teria de segurar a porta até o final da viagem, que droga. Cat deu as coordenadas para eu mais novo servo. Diziam que os gatos tinham sido servos uma vez, num tempo antigo, e de fato Cat parecia ser alguém que colocava pessoas no chinelo, mesmo assim ela nunca tinha mordido uma mulher, somente homens. E todos tinham mais de trinta anos. Khaos nunca soube se era ritual ou simplesmente fetiche.
Mostrando um pedaço de cabelos brancos, ela disse para que o motorista seguisse aquele cheiro, e funcionou. Khaos sempre viu que Cat arrancava cabelo das pessoas quando elas não estavam esperando, uma vez ela até pegou um pouco do seu, mas nunca soube para o quê exatamente, agora entendia. Cat, mesmo que não parecesse, era um tanto esperta para um gato, que normalmente são preguiçosos e muito caseiros. O russo foi no banco do meio, o que separou Khaos de Cat. O garoto não gostou muito disso, mas não reclamou, era melhor que o russo ficasse a vista e que ele segurasse a porta, afinal Khaos nunca tinha confiado muito em russos.
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Lucinna Astrolov
Quando Rose apareceu dizendo que tinha recebido uma mensagem de Gloss, não acreditou que realmente tivesse. Quer dizer, era impossível que Gloss se comunicasse com a menina sendo que agora estava na Rússia, certo? Tentou não questionar o quão longe as habilidades de Gloss conseguiam chegar, pegou um casaco e logo contou a Madame Gláucia o que tinha acontecido e que ela e Rose estavam indo para a Rússia para salvar Gloss e Edgar. Um erro fatal, é verdade. Madame Gláucia disse com todas a sílabas que “Duas garotinhas não tem força suficiente para lutar contra Sebastian”. E enviou Ariel num vôo que estava quase saindo do aeroporto. Luci não conseguiu esconder o quão indignada ficou.
– Ela enviou a mensagem para mim! – Rose disse quando estavam sozinhas no jardim, tomado café, enquanto Ariel deveria estar a caminho de uma batalha épica entre filha de um homem comum e Sebastian. – Eu que deveria ir! Por que ela enviou para mim e não par aos outros? – Rose encarou o rosto inexpressivo de Luci. Naquele momento, a garota dos olhos verde musgo só conseguia pensar em tudo o que já tinha perdido por “não ser capaz”. Sempre que decidia algo era barrada pelos oficiais. Nunca conseguia fazer o que queria e teve de viver na sombras dos outros para que a protegessem. E Ariel, Ariel era a menina de ouro do Instituto, ela poderia muito bem vencer Sebastian sozinha. Só esqueciam, porém, que na Batalha do Desamparado o motivo pelo qual Ariel não morreu foi o escudo de Lucinna.
Cerrou os punhos. Talvez devesse ter deixado a menina morrer, pelo menos assim Luci agora estaria no avião e armada com tudo o que precisasse para derrotar Sebastian. Com a raiva uivando nos ouvidos, nem prestou atenção no que Rose estava dizendo.
–...com minhas próprias mãos. – a menina menor concluiu, tomando um longo gole de café.
– O que disse?
Rose a encarou e então soltou um suspiro irritado. Ela não era de muita paciência, mesmo assim parecia agradável aos olhos de Lucinna.
– Eu disse que se pegarmos dois pégasos, poderemos chegar na Rússia primeiro que Ariel, se não levarmos coisas pesadas, claro. Eu poderia manobrar um pégaso com as próprias mãos.
Luci piscou os olhos, enquanto refletia sobre aquilo.
– É uma brincadeira – Rose percebeu o quão séria a amiga estava. – Ei, eu estava brincando.
– Mas é excelente! – Luci levantou-se da cadeira, já procurando suas botas de cavalgar. Com o nariz torcido, Rose se levantou também. Tomou o resto de seu café e colocou a xícara de lado, ficando pronta para sair correndo a qualquer minuto. Luci olhou para ela, com excitação e energia. Não tinha encontrado ninguém que a apoiasse e concordasse em se aventurar em alguma loucura junto dela. Agora tinha. Sorriu para si mesma. – Já!
Saíram em disparada para os estábulos.
Zeus e Hélio estavam agitados, pareciam pressentir que a tempestade se aproximava. Apertando a cela em Zeus, Luci olhou por cima do lombo do cavalo para ver se Rose tinha conseguido prender Hélio, mas a menina estava em plena sincronia, como se tivesse amarrado cavalos a vida toda. E de certo modo, havia. Na fazenda, Rose adorava cavalgar.
Mas pégasos eram diferentes. Além de voar, eles também eram ariscos.
– Monte – incentivou Luci, enquanto terminava de apertar Zeus. Hélio era um cavalo grande, cinzento e rápido como o vento, daí veio seu nome. Rose, porém, o montou com graciosidade e facilidade, até parecia estar montando um pônei. Luci tinha demorado muito até conseguir montar seu primeiro cavalo, imagine um pégaso. Respirando fundo e tentando não passar vergonha na frente de uma novata, se apoiou no arreio e levantou a perna o mais alto que podia, passando-a pelo cavalo e se sentando gentilmente em suas costas. Piscou, incrédula. Tinha conseguido fazer aquilo! Sorriu vitoriosa, enquanto direcionava Zeus para a porta do estábulo, com Hélio e Rose logo atrás. O pégaso abriu as asas, sentindo o vento da tempestade tomando-o de adrenalina. Ele bufava, estava pronto para fazer séries de acrobacias. Zeus era o mais velho e obediente pégaso, mas também era o mais aventureiro e destemido. Sendo assim, era provável que ele descesse os céus, cortando as nuvens, como verdadeiro raio. Daí veio seu nome. – Feche a porta – ordenou Luci, enquanto o cavalo batia as asas cinzentas e jogava correntes de ar que bateram as portas dos estábulos com força brutal. Luci encolheu os ombros, tremendo de medo que Madame Gláucia as encontrasse. Mas nenhuma luz do Instituto se acendeu, e ela sorriu, ainda mais vitoriosa.
Tocou a barriga do animal, dizendo gentilmente que ele poderia voar. E Zeus não esperou muito para isso. Correndo rápido pelo campo plano do Instituto, abriu as asas e se impulsionou para um salto, saindo do chão e fazendo o estômago de Luci revirar. Era ótimo voar com pégasos, porém era terrível subir aos céus com um. Rose veio logo atrás dela, com Hélio seguindo o trajeto de Zeus. Os dois cavalos estavam trotando pelos céus, lentos. Quando Luci tocou a barriga de Zeus mais uma vez, agora um pouco mais forte, ele saiu em disparada, começando uma corrida incerta com Hélio, que também veio como um furacão. Rose gargalhou, com o seu animal tão rápido que seus cabelos eram escovados para trás do rosto. Luci se permitiu rir também, enquanto alçavam vôo em direção aos céus congelados da Rússia.
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Anya Pentilivrusky
Enquanto observava o pai apertando algumas coisas em seu computador, olhou ao redor. Aquele lugar estava do mesmo jeito como se lembrava, bagunçado e cheio de folhas espalhadas pelo chão, balcão e mesa. Café e xícaras por todos os lados. Papai era um café-maníaco e a cafeína servia como um estimulante para sustentá-lo. Sebastian Pentilivrusky acreditava que dormir era algo desnecessário enquanto o mundo oferecia tanto para se aprender e tomar dele. Com isso, Anya tentou encontrar os desenhos que ela tinha dado a ele, mas não encontrou nenhum, nem mesmo colados na geladeira, como papai costumava deixar.
– Por que fugiu? – ele perguntou, por fim, virando-se para ela com os olhos cheios de sofrimento. Aqueles olhos... A única coisa que provava que eram mesmo pai e filha. Nada em Anya lembrava Sebastian, somente aqueles olhos de azul cristalino. Um dia perguntara se tinha puxado os cabelos de mamãe, já que nunca tinha visto-a, mas papai somente disse que não queria se lembrar da mulher que o abandonou. E agora Anya era outra mulher que o tinha abandonado, e até hoje ela desconhecia o motivo. Era como se tivesse se esquecido.
– Por quê? – ele perguntou de novo, tirando-a dos devaneios.
Anya foi salva pelo som de passos no corredor. Sebastian se virou, com raiva nos olhos, porém não mudou quando viu seu servo se curvando e então o reverenciando, até que se levantou e continuou a caminhar em direção ao homem de cabelos negros.
– Senhor Sebastian.
– Diga, Shuuya. – Sebastian mostrou em seu tom de voz o quanto estava enraivecido.
– Nossos espiões detectaram falta da presença das outras crianças no carro.
– Eles estão vivos?
– Até onde vi, somente um morreu. – Shuuya não ousou encarar os olhos de seu Senhor.
– Porque não matou os outros quando podia?
– Havia um deles rondando o carro, como um vigia. Não me aventurei.
– Medroso! – Sebastian o interrompeu com um tapa no ar, os olhos faiscavam. Anya se lembrava de como o pai falava com seus empregados, quando tinham alguns, era exatamente deste jeito, sempre mal-humorado e irritado. – Covarde!
O menino não respondeu, não havia humilhação maior para um soldado do que ouvir seu capitão dizendo que ele era um covarde, um indigno do título de homem.
– “Informante”. – Sebastian disse, com desdém – Quando foi que um homem digno desse título não pôde defender a si mesmo? Saía antes que eu te mate...
Shuuya se curvou e virou as costas, saindo apressado, mas tentando não demonstrar seu nervosismo. Anya observou o menino de costas. Ele era louro, de cabelos até as orelhas, os olhos esticados em castanho claro sugeriam que ele tivesse alguma descendência asiática, sua pele branca exibia uma marca de nascença em formato de L, sempre que ele se inclinava para reverenciar seu Senhor. Anya notou o jeito engraçado como ele andava, como se estivesse se arrastando, ou com alguma dor entre as pernas.
O pai se virou para ela, com o olhar cansado. Tinha olheiras profundas e aparentava ser um mendigo. A barba voltava a crescer, enquanto suas roupas e seu fedor eram insuportáveis. Papai não parava um segundo. Tinha comprado uma cafeteira e assim não perdia tempo nem para fazer o café. Ele não dormia, não comia, não tomava banho. Anya não gostava disso, mas ele era seu pai, tinha de aceitá-lo de qualquer jeito, certo?
– Veja, que malditas crianças eles me mandam... – pressionou a têmpora – Superdotados... Você sim é uma superdotada, Anya, não eles. Seus poderes que são realmente importantes. Imortalidade... – ele tocou os cabelos da filha, suavemente – É algo muito bom de se ter...
– Eu não acho isso – a menina abaixou a cabeça, sentia arrepios de olhar os olhos faiscantes do pai – Não consigo controlar.
– Você ainda é um bebê – ele disse, apenas, tirando sua mão a cabeça da filha – Não tem nem mesmo um ano de vida. Poderes grandes trazem grandes responsabilidades, e assim você terá de se esforçar mesmo para conseguir ter domínio. Mas é óbvio que conseguirá, você é uma Pentilivrusky, afinal.
Anya concordou com um meneio, tentando não demonstrar seus verdadeiros pensamentos. “Eu não quero isso”, ela dizia para seus botões, “eu só quero crescer, normal como todo mundo”. Mas antes que pudesse erguer os olhos para seu pai, os passos no corredor soaram mais uma vez, só que agora eram desesperados. Shuuya, o servo e informante, apareceu novamente, com suor escorrendo a testa e os olhos num vívido terror.
– Eles invadiram o prédio. – contou rapidamente, balbuciando.
– Quantos?
– Eu só vi pégasos.
– Pégasos? – Sebastian piscou – Nunca mandaram pégasos... Pois bem, mande Escarlate capturar esses pégasos. Quantos?
– Dois. – Shuuya abaixou a cabeça – Mas não sei se tinham mais, somente dois estavam na cobertura quando cheguei, e já saíram voando.
– A cobertura... – Sebastian estalou os dedos, assim dois monstros seus se aproximaram.
Anya os encarou. Eles eram quase invisíveis para ela, como se não existissem. Eram fumaça negra se movimentando pesadamente no ar, deixando tudo muito tenso, mas ela não sentia medo deles. Estranhamente. Sabia que eram pesadelos, mas ela nunca tinha tido um pesadelo, afinal. Não sabia nem mesmo o que deveria temer ou não.
– Dois Páginas-Vivas estão sobrevoando o hotel, eles agüentam até dois pessoas cada, então se preparem para confrontar quatro Inferiores bem armados e treinados. Mandem Hansk junto, ele saberá o que fazer. – e terminou a ordem com um movimento de mão, indicando a saída. As duas sombras se deslocaram para fora do escritório. Shuuya permaneceu quieto, encarando o chão, ajoelhado de uma forma torta. Sebastian logo se lembrou do garoto – Por favor, leve Anya daqui e tome conta dela, não deixe nenhum Inferior chegar perto da minha filha, ou eu cortarei coisas mais importantes.
Shuuya assentiu, se levantando e pegando o braço fino de Anya com força, arrastando-a para fora da sala.
– Espere – Sebastian disse, e Shuuya parou imediatamente – Anya, com o que meus servos se parecem, os outros dois que entraram aqui?
– Com nuvens de fumaça, papai – a menina respondeu, observando a pequena linha curvada que eram os lábios do seu pai. Ele, embora fosse incrivelmente raro, estava com a curva voltada para baixo.
– Excelente. Agora vá.
E com isso, Anya perdeu o pai de vista, sendo arrastada por um corredor de salas sem fim.
º º º
Bradon Samartin
Embora não entendesse uma palavra que os americanos diziam, sabia que estava indo em direção a Anya. Sentia isso. Não sabia como, mas sentia. Ela estava viva, em algum lugar do centro da cidade, num hotel grande. Suas habilidades permitiam que ele sentisse e rastreasse a presença de seus mais profundos amores, e isso o permitiu rastrear sua irmã quando ela tinha morrido. E isso o ajudou a saber que seus pais também estavam mortos. E agora isso o ajudava a saber que Anya vivia e que ela estava numa sala estofada, onde era impossível que saísse. Junto dela estava outro menino que Bran não conhecia. Os americanos mantinham um silêncio mortal, enquanto observavam a pista com curiosidade estranha. Bran não se deu ao trabalho de tentar entender o que eles diziam de vez em quando, ficava olhando para as próprias mãos, para as unhas roídas, sentindo vontade de acelerar aquilo e ir logo ao encontro de Anya, mas sabia que derrapariam na pista caso fizessem isso. E o servo parecia ter plena consciência disso.
Quando entraram na ponte que ligava a cidade, Bran sentiu o peito explodindo no peito. Ansioso para que chegasse logo ao hotel. Conseguia sentir que Anya estava mais perto, sua presença era mais forte. Ele podia até mesmo se embriagar do cheiro doce que deixava no ar. Era outra coisa que somente Bran conseguia fazer, ele sentia o cheiro da alma das pessoas. Não o perfume que acabou de passar, mas a alma. Sim, a alma tinha cheiro, e era um que não podia se mudar nunca. Não era preciso tomar banho para melhorar. Bastava ser uma pessoa boa. Ou má.
Abriu os olhos, respirando fundo. Virando a rua, ele sentiu que o hotel estava próximo, e quando avançaram pelo segundo quarteirão quase perdeu o foco, sentindo o cheiro adocicado de Anya, que lembrava a torrões de café. Ele esbugalhou os olhos, pulando para fora do caminhão. Não deu satisfação aos americanos, afinal eles não entenderiam nada e isso quase o deixou alegre. Gostava de não ter de dar explicação às pessoas. Correu em direção a porta do hotel, rolando-a e se vendo de frente com pessoas estranhas, de olhos totalmente negros, sem pupila ou íris. Com hesitação, deu passos calmos, indo até o balcão de recepção, onde uma moça não muito diferente dos outros estava com um sorriso no rosto.
– Posso ajudá-lo? – perguntou com doçura.
Brandon a encarou, pensando no que diria, mas antes que dissesse, o elevador se abriu, revelando um menino de cabelos louros e olhos incrivelmente avermelhados, num castanho café hipnotizante. Ele encarou Bran antes de abrir um leve sorriso desdenhoso.
– Se perdeu na cidade, turista? – enfiou as mãos no bolso e começou a caminhar calmamente até o balcão – O que ele quer, Lúcia?
– Você... – Bran farejou o garoto, sentindo um leve aroma de café doce. O encarou. – Você que estava com Anya. – com impulsiva ação, empurrou o garoto contra o aquário do saguão e o prendeu contra a parede, colocando o cotovelo na garganta do menino. O garoto apenas abriu um sorriso ainda mais desdenhoso, enquanto cruzava os braços.
– Sim, eu estava com aquela menina. Ela é impressionantemente bonita quando está com dezessete anos, não é mesmo?
– Ela... – Bran foi pego de surpresa – Mas você... – jogou o garoto novamente contra o vidro do aquário, fazendo a cabeça dele quase rachar o mesmo.
– E-Espere ai, Brandon Samartin. – o garoto abriu outro sorriso desdenhoso – Achou que eu não tinha meus truques?
– Como sabe meu nome? – Bran exigiu a resposta, com raiva transbordando na voz. Enquanto isso os americanos entravam no saguão, cheios de “Oh my God”, de um jeito que Bran achouq eu estavam abismados. Mas ele não. Ele estava possuído pela raiva.
– Já ouviu falar que mentes fracas são fáceis de manipular? – o garoto o empurrou de leve para longe, libertando sua garganta – Meu nome é Kano Shuuya, prazer, Bran.
– Você não tem o direito de me chamar assim.
– Por que não? Afinal sou eu encabido da segurança da filha de Sebastian.
– Onde está Anya? O que fez com ela? – Bran avançou, com os punhos cerrados em socos certeiros no queixo e nariz do garoto, mas ele desviou facilmente das duas mãos.
– Ela está segura.
– Me diga onde!
– Lá em cima – Kano indicou o elevador – Mas lá tem um monte de monstros... Acho que eles não te aceitariam como um convidado sem hora marcada...
– Me leve! – Brandon trincou os dentes.
– E por que eu faria isso? Tem alguma coisa melhor para me oferecer? Olhe que eu ganho muito bem pelos meus serviços aqui.
– Então você é um mercenário? – Bran ficou surpreso, nunca tinha visto um assassino de aluguel.
– Sim, eu sou – Kano abriu um sorriso largo. A alma de Kano fedia a esgoto. Bran se arrepiou quando percebeu isso. – E então, o que me oferece? Sebastian me prometeu uma noite com a filhinha dele.
– O quê? – Brandon piscou os olhos, atônito e em choque.
– Brincadeirinha – Kano começou a rir – Mas sua cara foi hilária...
– Pare de brincar, isso é sério! – o garoto gritou, apontando o dedo para o rosto de Kano – Me ajude e eu te dou o que quiser. Uma casa, uma família, dinheiro, alguém que você deseja encontrar...
– Alguém... – Kano pareceu comovido com aquela alternativa, ergueu os olhos, eles marejavam e tornavam o castanho ainda mais claro – Você só quer a garota?
– Só – Bran concordou.
– Mas nós queremos outros dois prisioneiros – anunciou uma menina, assustando Bran. O sotaque americano dela era detestável, porém ela falava bem a língua russa. Tinha cabelos louros queimados e madeixas tingidas de rosa. – Gloss Violett e Edgar Lewis.
Kano a encarou, avaliando-a de cima a baixo e então assentiu com graça.
– Só se você me prometer uma noite, gracinha.
– Vá para o inferno. – ela sibilou.
– Estou apaixonado por você – Kano se virou, apertando o botão para que o elevador se abrisse. – Por favor, primeiro as damas mal-educadas. – ele sorriu para a menina, que apenas entrou sem olhá-lo. Brandon se esticou e entrou no elevador, junto com mais três americanos. Já estava farto de tanta gente americana... Se não fosse pelo seu fedor, ele até poderia se declarar com amor eterno para Kano, pelo menos ele era um russo legítimo. Ou aparentava ser.
Já podia sentir as veias se inflando de adrenalina. Sentia que logo estaria entre a vida e a morte.

(Kano Shuuya)
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