Q.I.- Fanfic Interativa
20 As Sombras Tem Olhos
Notas iniciais
Alice Dallas
"Esqueça os tempos de aflição, mas nunca esqueça o que eles te ensinaram."
Queen Of Storms- Falling Flower
Mary dormia tranquilamente em sua cama, seu rosto estava sereno e esbanjava uma aura pura como a de um anjo, parecia que ela estava sonhando e era um sonho bom. No entanto Alice não conseguia dormir, era como se o sono tivesse tirado férias para ela. Embora estivesse cansada e bocejasse a todo segundo, ela simplesmente não conseguia dormir.
Livrou-se das cobertas e calçou seus chinelos, andou na ponta dos pés até a porta, abriu-a com cuidado para não fazer nenhum ruído e assim que saiu do quarto, andou a passos rápidos e silenciosos pelo corredor, desceu as escadas e jogou-se numa poltrona que havia perto da janela.
Havia chovido aquela tarde, mas parecia que iria chover mais, pois uma nuvem cinzenta se aproximava, as estrelas que enfeitavam alegremente o céu desapareciam lentamente como dando um adeus a Terra, enquanto a chuva ficava cada vez mais próxima.
Alice não gostava de ficar olhando a chuva, chuva só lembrava tristeza e ela não queria mais lembrar das tristeza de sua vida. Levantou-se da poltrona, o sono ainda não tinha chegado. Ela ficou andando para cá e para lá pela sala como uma louca, quando na verdade apenas queria cansar-se mais ainda até que se tornasse impossível não dormir.
Para a sorte dela e do Instituto, ela não conseguiu dormir e voltou a sentar-se na poltrona e olhar para a tempestade que se aproximava e para o bosque que começava a ser molhado pela chuva. E só então ela percebeu que havia certa movimentação nos bosques. Como se fossem pessoas, mas algo dizia a ela que não eram. Ao olhar atentamente percebeu que não eram pessoas, eram seres envoltos por uma sombra escura.
Seria que ela teria dormido? Estaria sonhando? Não, ela tinha certeza de que estava acordada e continuou a observar os seres que pareciam conversar fazendo um círculo na frente da floresta. Ela se sentiu tentada a escutar o que eles falavam, mas o Instituto era mais seguro do que do lado de fora.
Ela continuou a observá-los. Um deles, o que parecia ser o chefe do grupo, pôs-se no meio do círculo, era difícil adivinhar para que direção eles estavam olhando, afinal só o que dava para ver era um monte de sombras que pareciam estar fazendo uma reunião.
Foi então que as sombras foram se dissipando, revelando o que se escondia por trás das sombras, Alice preferia que eles tivessem ficado ocultos. Eram seres humanoides, mas com a massa muscular bem maior que o normal, a pele deles era cinzenta e cheia de sulcos lembrando o aspecto de uma estátua, eles tinham uma cara horrível que lembrava a de um morcego, suas línguas pareciam ser línguas de cobra, tinham garras nos pés e nas mãos, chifres de touro enfeitavam suas cabeças e asas emanavam de suas costas.
Eles lembravam algumas estátuas que enfeitavam os casarões da Europa e eram chamadas de Gárgulas. E sim, aquelas criaturas lembravam Gárgulas, só que maiores e mais assustadoras. Ela olhou para o centro das criaturas, lá estava agora uma mulher alta e esguia, possuía os cabelos negros e encaracolados que iam até a metade das costas, seus olhos eram negros e ameaçadores, ela usava um vestido preto e longo, com uma lisa faixa de seda branca em sua cintura, presa na faixa, havia uma adaga que parecia estar manchada de alguma coisa, que Alice supôs ser sangue.
As criaturas olharam para o Instituto e Alice jogou-se no chão, com medo de que eles a identificassem. Ela rastejou para longe da janela, e quando viu que não seria vista, levantou-se e correu, subindo as escadas numa velocidade que ela mesma desconhecia que tinha. Ela sabia que a menina albina que cuidava dos cavalos e o "gênio" haviam ido até a Rússia, mas os outros veteranos haviam ficado.
Ela correu para o quarto de Ariel, batendo diversas vezes sem resposta, foi então que ela lembrou-se de ter visto Ariel sair de carro do Instituto. Correu até o quarto de Luci, mas também não teve resposta. Restava apenas um veterano, o garoto de óculos que ela não lembrava o nome. Correu até o quarto dele, batendo desesperada e a porta abriu-se de súbito.
O garoto pôs os óculos no rosto, parecia que ele ainda não tinha ido dormir, pois usava a camisa e calça do dia-a-dia.
– Algum problema?
– Sim...- ela leu o nome "Clevence" escrito na porta do quarto- Clevence não é?
– Sim sou eu, o que houve, você está pálida! Teve algum pesadelo.
– Pior, tem algumas coisas do lado de fora do Instituto.
– Que tipo de coisas?
– Sei lá, parecem... Gárgulas!
O garoto arqueou as sobrancelhas numa mistura de surpresa e medo, era visível em seus olhos azuis que ele estava nervoso. O garoto pegou a jaqueta vestindo-a rapidamente, puxou Alice para mais perto e disse em seu ouvido quase que num sussurro:
– Acorde todos os outros do Instituto, eu vou atrás da Madame Gláucia, quero que você leve eles até o porão, ouviu?
Alice acenou com a cabeça. Ambos correram em direções opostas. Enquanto corria, Alice batia e gritava em todas as portas que encontrava, e quando os alunos saíam para fora dos quartos, ela gritava desesperadamente para que eles os seguissem. Depois de ela garantir que todos-inclusive Mary-estavam em segurança, ela os levou até o porão. Onde Clevence e Mada Gláucia já os esperavam, sem ter tempo de conversar, eles desceram as escadas de madeira. Madame Gláucia estava mais nervosa do que o costume.
A mulher foi até uma estante do lado esquerdo do porão, uma estante de mogno avermelhado abarrotada de livros e cheia de teias de aranha. Ela apenas moveu um livro um pouco para a esquerda, a estante moveu-se revelando uma passagem secreta. Ela fez sinal para que todos passassem, e depois de todos estarem naquele corredor escuro e úmido a passagem fechou-se atrás deles e as luzes do corredor se acenderam. Eles andaram por mais alguns metros chegando a uma sala ampla e branca, cheia de camas, caixotes e computadores, além de algumas armas que estavam penduradas em um canto na parede.
Madame Gláucia apertou um botão vermelho e outra porta fechou-se, deixando-os completamente trancados naquele salão que provavelmente ficava no subsolo. Clevence sentou-se em um dos computadores, digitando alguns códigos desconexos e olhando afoito para os monitores que mostravam todos os cômodos do Instituto.
Os novatos pareciam estar sonhando, sequer podiam imaginar que um simples Instituto tivesse toda aquela aparelhagem digna de uma sociedade de espiões. Alguns gritaram pedindo explicações, Madame Gláucia temerosa, apenas puxou uma cadeira e sentou-se em silêncio, observando um por um dos seus pupilos.
– Onde estão Luci e Rose- ela gritou surpresa ao perceber que as duas não estavam entre os novatos.
– Elas não estão no Instituto- disse Clevence que ainda digitava algumas coisas no computador- saíram em pégasos depois que todos foram dormir.
– Aquelas teimosas- sibilou Madame Gláucia enquanto encarava os que ainda estavam ali pedindo por uma explicação, ela pensou em dizer que aquilo era uma simulação, mas se as Gárgulas invadissem o Instituto, eles teriam que lutar, então era mais cabível dizer a verdade- Sei que estão esperando por uma explicação, mas acreditem, não é nada fácil contar para vocês.
– Ainda assim eu quero uma explicação- gritou Alice- quero saber o que são aquelas coisas e porque elas estão aqui.
– Você terá sua explicação minha jovem, deixe apenas eu encontrar as palavras certas!- Mada Gláucia olhou para o chão com uma expressão de tristeza, depois de alguns minutos ela apenas disse- Clevence, é melhor você contar!
O garoto deixou o computador de lado e ajeitou os óculos no rosto, olhando sério para todos os novatos que estavam ali:
– Como sabem, o Instituto teve oito fundadores. Cinco deles sofriam do distúrbio de Ausgebiltede, três eram pessoas comuns que apenas queriam nos ajudar. Hoje, eles estão dispersos pelo mundo e apenas Joe e Madame Gláucia ficaram no Instituto Original que é esse aqui, os outros cinco estão procurando locais com maior concentração de jovens com esse distúrbio para fundarem outros Institutos, um vai ser inaugurado na Rússia.
– Está faltando um- disse Alice- o que aconteceu?
– Eu ia chegar nesse ponto- Clevence olhava para baixo e ajeitava os óculos que teimavam em deslizar pelo seu nariz- O outro, simplesmente traiu o Instituto, ele queria formular a sociedade perfeita, uma sociedade sem doenças e evoluída, onde não houvessem problemas de inferioridade.O nome dele era Sebastian.
– E isso não é bom?-perguntou alguma dos novatos.
– Seria, se esse desejo obsessivo não tivesse subido a cabeça dele. Ele começou a sequestrar pessoas e injetar nosso DNA nelas, querendo que elas também criassem dons assim como nós. Ele começou aos poucos enlouquecer- Clevence encarou os novatos, seus olhos estavam inexpressivos- e ele tinha um poder.
– E qual era?-perguntou Alice, mesmo sabendo que a resposta não seria a que ela queria ouvir.
– Ele poderia trazer a vida nossos piores pesadelos. E nós lutamos contra ele, todos os antigos membros do Instituto enfrentaram o deserto de monstros que ele havia criado de nossos próprios medos. Eram cinquenta jovens, mas apenas alguns poucos jovens conseguiram voltar com vida, fomos derrotados no que hoje chamamos de "Batalha do Desamparado".
– Então quer dizer que ele ainda está a solta?-perguntou um dos novatos já com certo medo em sua voz.
– Sim, ele está atrás de um livro que tem a resposta para todas as doenças. Na minha opinião foi Deus quem criou, mas é apenas um mito e não sabemos como esse livro surgiu. Sabemos apenas que Sebastian está na Rússia e conseguiu capturar Gloss e Edgar, não temos respostas de Khaos e Cat, ou de qualquer membro do Instituto na Rússia. Ariel foi para ajudá-los e pelo que parece Luci e Rose também.
– E o que ele quer na Rússia?-perguntou Alice.
– A filha dele- Clevence sentou-se novamente na cadeira e voltou a digitar códigos desconhecidos- sabemos apenas que suas criaturas estão aqui e que pelo que parece Volúpia, uma de suas "serviçais" vieram junto. Sinto muito terem de passar por isso tão cedo, mas se for necessário, teremos que lutar!
Lutar! Aquela palavra fez todos os pelos de Alice eriçarem, ela sentiu que Mary estava com medo, mas não sabia consolá-la, apenas rezava para que os monstros fossem embora e deixassem eles em paz.
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