Q.I.- Fanfic Interativa

22 O Encontro do Pégaso Escarlate - Parte Final


Notas iniciais
Espero que gostem, aqui é a Meell. Hoje tentarei fazer mais um capítulo para compensar minha ausência ontem.

O Encontro do Pégaso Escarlate – Parte Final

“O mar é eterno movimento; palpita nas vagas, esfuzia nas brisas, corisca e ulula, espadana e acaricia, braceja e espuma” – Buarque de Lima

Gloss Violett

Selena Gomez – Come & Get It

Não dormir tinha se tornado um desafio. O cansaço fazia as pálpebras pesarem no rosto. Edgar, por outro lado, tinha os olhos azuis elétricos, ligados no mais alto farol de sua mente. Diziam que os olhos eram as janelas da alma, mas para Edgar a janela era sua sobrancelha, que se movia de acordo com seus pensamentos. Gloss sempre tinha achado graça de suas sobrancelhas dançarinas, mas agora não conseguia encontrá-la. Nenhuma piada conseguiria lhe arrancar um sorriso. Sempre a falta do senso de humor lhe tinha trazido paz, mas agora ela desejava conseguir rir de qualquer coisa idiota.

– Você... – ele arrumou a frase na cabeça – O silêncio nunca a incomodou, certo? Você consegue ficar tão quieta, como se fosse um cadáver. Isso me assusta.

– Não se preocupe, estou viva.

– Não foi isso o que quis dizer – Edgar se virou para ela, abraçando os próprios joelhos – Me assusta que você seja tão morta dentro de si. Tão indiferente e sem voz. Eu sei que isso não é algo que o autismo faz. Não gosto disso em você. É horrível.

Ela não disse, dando-lhe o silêncio como resposta. Se sentia amargurada com aquelas palavras, ainda mais que seus olhos continuavam lilases, mesmo que ela encarasse o chão de pedra. Era úmido e frio lá, os guardas continuavam intactos, não conversavam entre si, como se fossem estátuas de fumaça. Mas ela sabia que ao menor indício de fuga eles iriam atrás.

– Desculpe – Edgar disse, por fim -, não queria magoá-la.

– É a verdade, afinal. – Gloss mantinha os olhos afastados dele, não queria que a visse daquela cor. Não com aquela cor.

Edgar também não disse mais nada. O silêncio era uma bela forma de dar respostas das quais você não queria realmente dizer. Às vezes eram boas, às vezes não. Gloss não conseguiu separar a resposta dele entre os dois grupos, por isso deixou no meio. Piscou os cílios, sentindo os olhos caindo de cansaço e sono. Logo estava adormecida.

Acordou quando sentiu Edgar com a respiração própria de sua face. Ele estava suando e por isso gotículas pingavam gentilmente em seu rosto. Ele estava com os lábios entreabertos, com os olhos serenos e os cílios louros quase invisíveis.

– Você não sonhou, certo? – foi o que ele disse, ainda próximo. Gloss se afastou com um rápido escorregar.

– Não – falou, enquanto tentava evitar o rubor nas bochechas brancas.

Edgar se aproximou, mais, tomando-a com um susto pelo braço e trazendo para perto. Nunca que Gloss esperaria isso de Edgar. Ela estava tão apavorada quanto embriagada, seus olhos quase pulavam para fora das órbitas em seu tom intenso de lilás.

– O que é isso? – ela perguntou, deixando-se aconchegar perto de seu ombro, com a perna por cima da de Edgar.

– Quero contato. – ele respondeu, sério – calor humano.

– Mas eu não gosto de calor – ela disse, mesmo que agora não soasse assim tão ruim.

– Desculpe – Edgar soltou-a – Esqueci que você é autista.

– Não é porque sou autista – ela se irritou. Embora estivesse se contorcendo de raiva, seus olhos não se tornaram escuros, mas continuaram lilases, como sempre ficavam. Era até chato tê-los assim, tão reveladores.

Embora o clima não estivesse tenso, também não estava romântico, como Gloss pensou que estaria quando finalmente Edgar demonstrasse sentimentos por ela. Ao contrário, estava quase normal. Normal! Como poderia estar? E ele nem ao menos parecia interessado. Com um profundo suspiro, odiou sua primeira experiência com um garoto. Era horrível que tivesse sido com Edgar, outra pessoa não muito experiente com isso. Antes que pudesse concluir que tinha sido um fracasso, notou que sombras se moviam agitadamente pelo corredor ao lado da sela. Se apressou em sair dos braços de Edgar e se agarrou as grades, enfiando o nariz para fora e tentando ver o que acontecia. Monstros de fumaça negra, como fumo, estavam barateando para cima do corredor, onde iriam para fora do prédio. Gloss não entendeu muito bem o que acontecia, até que escutou um chiado no meio de sombras do outro lado do corredor. Com um rápido saltar gracioso, da escuridão um menino muito magro e ágil saiu, tão depressa e silencioso que nenhum dos guardas o viu. O garoto de touca preta mantinha o rosto oculto pelas sombras, mas seu nariz pontudo e seu sorriso de menino travesso diziam que ele adorava o que estava fazendo.

Enfiou a mão por dentro das grades, chamando Gloss com um movimento rápido de dedos ossudos e finos. Ela se aproximou, receosa, mas ele apenas moveu o dedo para dentro da fechadura e a abriu com um sorriso torto. Pegou o ombro de Gloss e a trouxe para debaixo de sua jaqueta. Estava escondida e engolida pelas sombras, agora, tentando não se sentir assustada. Quando notou, já agarrava o corpo magrelo do garoto, tentando buscar forças dele. Sentiu que mais alguém estava sendo empurrado em direção e ela, e percebeu que era Edgar. O menino os arrastou silenciosamente, enquanto eles tropeçavam em seus próprios pés. Era difícil andar sem saber para onde ia. O resgate foi rápido e silencioso. Quando chegaram até as sombras, o garoto indicou um quadrado na parede, por onde entrava ar. Ele os empurrou quando percebeu que estavam hesitantes. Jogada para dentro, Gloss caiu num vão estreito e sentiu os ombros escorregando de encontro com as paredes de prateado ofuscante. Sentiu todo o peso do corpo sair dela enquanto caía pelo tubo do lado de fora do hotel. Pensou que morreria ali mesmo, mas foi pega por uma mão fina e gentil, quente como uma tocha.

– Nyan, peguei a Gloss-Chan! – ela olhou para cima, vendo as orelhas de Cat. Agradeceu a menina mentalmente por tê-la salvado. Gloss nunca foi fã de gatos, mas talvez agora passasse a gostar deles.

Edgar foi o próximo, e outro pégaso o agarrou, dessa vez era Luci. As duas meninas desceram voando em círculos, próximos a calçada do lado oposto ao do hotel. Quando chegaram ao chão, todos eram só sorrisos, menos o russo.

– Tenho de entrar. – ele avisou, dizendo com um inglês horrível que fez os ouvidos de Gloss doerem.

– Eu com certeza vou inventar alguma coisa que torne o sotaque russo em algo melodioso e harmônico – Edgar cuspiu as palavras.

– Ele me disse que precisa achar a irmã dele – Rose contou, a menina estava acariciando um dos pégasos de pelagem cinzenta. – Meus pais eram descendentes de russos. – ela explicou.

– Tudo bem. Mas quem é sua irmã? – Gloss questionou, sentindo um aperto no coração. Anya ainda estava lá dentro e agora eles a tinham deixado com Sebastian. E mesmo que se sentisse assim, culpada, Gloss jamais voltaria para buscar a menina e arriscar a vida dela e de seus amigos. Era apenas uma garota, e os outros eram bem mais importantes. Mesmo que aquilo soasse muito egoísta, era a verdade. Uma alma nunca valeria mais que a de seis pessoas.

– Anya – Rose respondeu – Temos de voltar a buscá-la, sabe lá o que esse monstro está fazendo com ela.

– Nada do que precisem ter medo – assegurou o garoto da touca preta, que agora tinha deixado os cabelos louros a mostra e exibia seu rosto anguloso e ainda mais infantil. – Sebastian gosta muito de sua pequena filha, jamais faria algo para machucá-la. Podemos deixá-la aqui com ele, Anya ficará bem.

O russo exclamou alguma coisa, estava vermelho como um pimentão. Rose traduziu tudo com o mesmo tom irritado do garoto:

– Mas ela é apenas uma criança! Não vou deixá-la aqui! Se quiserem, podem correr, covardes, mas eu vou entrar. – ela sorriu, animada – Eu gosto desse garoto.

– Já é a segunda vez que me chama de covarde em menos de meia hora – o garoto louco respirou fundo – E eu prefiro ser covarde do que ter minha cabeça cortada. Sebastian já me tirou muita coisa pela última vez que fugi e voltei arrependido.

– O que ele fez? – Gloss perguntou, em toda a sua inocência. Luci arregalou os olhos, como se dissesse “Eu estava querendo fazer a mesma pergunta!”. Edgar soltou uma gargalhada animada e prazerosa.

– O que Sebastian poderia ter tirado dele que o deixou como um cão obediente? – ele disse em tom de sarcasmo – Este garoto é a maior desonra de um homem! Tão inútil que nem pode receber o título de um, na verdade. Ele é castrado, isto está óbvio.

Castrado. Gloss absorveu aquelas palavras até entender o que elas significavam. Ele não podia ter filhos. Ele não tinha... Seus olhos se tornaram tão verdes quanto uma esmeralda, ela se virou para o garoto, exclamando mil pedidos de perdão. Mas ele apenas soltou uma risada fraca e passou as mãos pelos cabelos louros.

– Já é a segunda vez que dizem que não mereço o título de homem, em menos de meia hora... Ah, estou começando a acreditar – ele suspirou – O que fazemos? Se querem a dica de um cãozinho obediente – ele piscou para Edgar -, sugiro que arranjem mais pessoas para irem buscar essa menina ai. Com certeza ela será de grande utilidade para vencer Sebastian, mas só nós não daremos conta. Ele mandou todos os monstros de seu domínio para protegerem o prédio.

– Cale a boca, cãozinho – Edgar levantou a mão, irritado – Como saberemos se você é ou não um simples espião? Desde onde sei, você tem muito medo de Sebastian.

– De fato tenho – o garoto concordou com um meneio desajeitado – Mas tenho ainda mais medo de que ele vença, e se for preciso eu ficarei ao lado do mais fraco para ajudar a matar Sebastian. Somente a morte dele pode nos trazer paz. – ele então lançou um longo olhar para um rosnado que vinha em meio ao grupo de americanos. – O que foi, garota?

Cat estava com as unhas a mostra e os cabelos eriçados, numa posição de ataque ao lado de Khaos. Ela apenas rosnou mais forte e disse:

– Eu não gosto de cães.

º º º

Alice Dallas

Karmin – Acapella

Alice viu pelo canto do olho que ao longe a fumaça negra era densa, mas quando encarava os monstros via somente gárgulas. Entendeu que aquilo deveria ser algum tipo de magia. Ao comando de alguém mais baixo que o restante, eles atacaram as janelas de vidro da parte de salas de aula do Instituto. Estremeceu quando o vidro quebrado lançou o som do estilhaçar ao vento, que o desfazia quanto mais longe chegavam. Notou pela primeira vez que o céu não estava com estrelas e que o ruídos dos animais do campo tinham terminado. Era incrível que isso acontecesse no meio de uma fazenda, onde os animais ficariam mais a vontade de gritar suas músicas de acasalamento. Sentiu um aperto forte em seu braço e se virou apavorada, mas logo se recuperou ao ver que era apenas Clevence. Ele a olhou de cima a baixo, tentando decidir se mandava-a de volta para os novatos ou se a mantinha ao seu lado. Por fim, disse:

– Devemos chegar até eles antes que...

Sua fala não foi concluída pois uma explosão tomou conta da ala de salas de aula do Instituto, onde antes as gárgulas estavam atacando. Alice sentiu um arrepio em sua epiderme. Sem perceber o que fazia, começou a correr apavoradamente e a gritar o nome de sua irmã, em uma tentativa vã de tê-la em seus braços. Sabia que a ala de aulas estava longe da Casa do Refúgio, mesmo assim não conseguia deixar que o medo e o horror a consumissem. Tinha matado homens inocentes e ela sempre ficava imaginando se a vida iria lhe cobrar alguma coisa por causa disso. E sempre que tentava formular alguma forma a vida lhe fazer pagar por seus pecados, seus olhos se voltavam para Mary. A menina... Ela também era inocente.

– Espere, Alice! – Clevence a segurou pela cintura, puxando-a para trás. A menina esperneou em seus braços, queria correr em direção a sua irmã, mas a medida que gritava, as gárgulas iam virando as cabeças humanóides na direção deles e começavam a avançar. Aquelas que antes só prestavam atenção no Instituto, agora caminhavam temerosamente em direção aos superdotados. Clevence a apertou mais, fazendo-a não ter ar suficiente para continuar a gritar. Por fim, calma e com suor escorrendo a testa, Alice parou.

Ele não a soltou, por outro lado, apertou ainda mais seu abraço, temeroso de que ela fosse recomeçar. Olhou em volta, onde as gárgulas já tinham se preparado, estavam com olhos brilhantes e pareciam demonstrar em seus sorrisos diabólicos que adorariam fazer picadinhos deles. O membro menor do clã apareceu com suas botas de couro e cabelos arrumados para trás das orelhas. Era um garoto pequeno, de menos de quinze anos, com um sorriso amigável e estranhamente cruel.

Antes que ele pudesse dar as palavras finais ou mandar uma ordem para seus aliados, uma sombra passou por Alice, fazendo a garota recuar e tropeçar nos pés de Clevence. Alguém, armado de adaga e espada, mantinha um rosnado feroz no fundo da garganta, pronto para defender seus “amigos”. Clevence não reconheceu-a como nenhuma das veteranas. Deveria ser outra novata que tentava provar sua coragem, como Alice estava fazendo. Ele simplesmente detestava mulheres que queriam provar serem destemidas. A guerra nunca tinha sido um lugar para tão grande delicadeza, ele ouviu uma vez um dos superiores falando.

– Vão, eu cuido deles – ela grunhiu, com a voz grossa que normalmente meninas delicadas não teriam. Clevence não gostava muito daquele tom autoritário.

– Você é apenas uma novata – ele revidou. – Se alguém vai ficar aqui, esse alguém sou eu.

– Pare de bancar o machinho – a garota brandiu a espada, que brilhou a luz da Lua. Com um movimento tão rápido que impressionou Clevence, ela destruiu um dos monstro a lado dele e o transformou em poeira negra. Pulou graciosamente e rapidamente em direção ao próximo, começando a dizimar todos que encontrava. Clevence a encarou, mas ainda segurava Alice com força e não poderia soltar a menina agora. Com hesitação, virou as costas e continuou sua corrida até a Casa do Refúgio.

A garota que ficara para trás agora se movia com ainda mais velocidade. Ela parecia um fantasma, aparecendo e desaparecendo num piscar de olhos. Curvou-se em direção ao próximo que mataria e enterrou a adaga em seu peito negro. A gárgula gritou em dor e sofrimento, depois explodiu em poeira. Com os cabelos louros batendo contra as costas, pulando de um lado para o outro e sentindo o suor grudando as madeixas rosa, verdes e pretas, tingidas por ela mesma, Rebecca deslizou a lâmina de sua espada pelo peito nu de outra gárgula, seguindo com a mão virando em direção ao peito de outra próxima, livrou-se da primeira gárgula e tirou a adaga da segunda, indo em direção ao próximo. Estava trabalhando com leveza e graça, quase como um raio, devastando o exército inimigo. Sentiu o sangue subir pela garganta e queimar sua boca. Não conseguiu gritar, engasgou-se com seu próprio vômito e caiu curvada para frente. O corpo estava em um espasmo, enquanto sentia uma dor aguda na omoplata. Virou o rosto para cima, vendo ligeiramente alguém de feições infantis e duvidosas. O garoto apenas sorriu, curvando-se e tirando seu pequeno punhal das costas da menina. Com um beijo entre os cabelos dela, virou-se, fugindo pela relva que ocultou a visão de Becca.

º º º

Brandon Samartin

Bruno Mars – Grenade

Enquanto mantinha os olhos fixos no hotel, sentia que o taxi já estava roncando com o motor. Queria poder sair daquele carro e correr em direção a Anya, porém seria impossível. Agora eles a estavam abandonando naquele covil, prontos para abrir mão da pequena para salvar as próprias vidas. Egoístas, pensou Bran, porém ele mesmo estava sendo egoísta ao querer que os outros arriscassem suas vidas apenas para salvar Anya. Ele não entendia, porém, porque deveria aceitar aquilo de tão bom grado. Agora estava no carro junto com o russo e mais dois americanos. Pela primeira vez na vida, odiava os americanos tanto quanto odiava Sebastian, e também odiava russos asiáticos. Tentou manter a raiva apenas em sua mente, porém era impossível com aquela conversa. Por algum tempo até pensou que gostava de Kano, mas logo ele começou a conversar em inglês com os americanos e descobriu que estava totalmente errado em relação a ele. Ah, como aquela pirralha lhe fazia falta... O que diria a Petor? Que tinha aceitado deixar sua querida filha adotiva nos braços do pai biológico dela que era um louco diabólico. Tudo com um grande sorriso nos lábios. Quão irresponsável tinha sido? Seu pulso tremia enquanto o taxi avançava em direção a ponte que os levaria para a auto-estrada.

Olhou para fora da janela do carro, que se embaçava com sua respiração. O céu estava sem estrelas e sem Lua, tudo numa vasta escuridão típica da Rússia nas noites de inverno. A neve tinha cessado e agora uma leve neblina rodeava os postes de luz que iluminavam a estrada. Com um nó na garganta, não conseguia engolir aquilo que estava fazendo. Seu pulso ainda tremia. Seus olhos se abaixaram para a perna, agitada. Ele costumava ficar hiperativo quando suas emoções floresciam, e naquele momento o nervosismo e o medo tomavam conta dele. Queria acreditar que Sebastian de fato não faria nenhum mal a Anya, mas era quase impossível. Não poderia acreditar que aquela menina estaria segura sem que fosse em seus braços. Tomou consciência de que talvez gostasse dela um pouco mais do que queria admitir. Ela era uma criança, afinal, e crianças todo mundo adora. Tentou se convencer de que era apenas isso.

A cada metro, seu coração se tornava uma bola amassada e pesada de papel molhado, sendo atirado no teto de um banheiro público. Por fim, deixou que as pálpebras se fechassem em um consolo infeliz para seu coração. Era um vazio grande que sentia agora, como se não houvesse nada que preenchesse seu corpo. Uma quentura angustiante deixava o carro ainda mais desconfortável. O calor humano. Se aquilo era ser humano, então Bran se condenava por ter nascido um.

º º º

Roxanne Bowdem

Adele — Skyfall

Enquanto seus olhos se perdiam em meio as luzes da aurora boreal, conseguiu detector que uma pequena camada de neve começara a cair e o vento trazia um frio que invadia até mesmo a sua lã mais pesada. Tudo o que mais adorava no mundo em apenas um lugar. A Noruega de fato era um paraíso perdido em meio ao frio. O clima tinha se tornado muito mais agressivo ao passar das semanas, e os estudos indicavam que algo com relação ao aquecimento global trazia aquela mudança rápida. Roxanne sabia que era por causa dos Bóreus. Lipe continuava a tocar sua gaita, enquanto Caer cutucava o fogo sua vareta preferida. O velho fazia uma coleção inteira de varetas que encontrava. Roxanne culpava sua idade avançada por essa loucura. Ela levantou os olhos, observando as cores e as estrelas, num emaranhado de universo. Um frio pequeno de meio-mundo invadia seus olhos. Aquela era a paisagem mais linda do mundo, julgou. Encolhendo-se a medida que o frio a atravessava, foi para o lado de Caer, aquecer-se ao fogo.

– O Instituto me enviou uma mensagem hoje – anunciou Caer. – Querem que eu produza mais pégasos.

– Idiotas – Roxanne sorriu, observando a forma como as labaredas crepitavam e subiam o mais alto que lhe eram permitidas. Nas cores o calor, contradizia tudo o que acontecia ao redor, com o inverno chegando sem avisos na Noruega.

– De fato – concordou Caer, deixando de lado a vareta e se esticando. As pernas começavam com espasmos típicos dele. Era um velho muito debilitado para estar acampando junto com os dois jovens do lado de fora do chalé.

Roxanne e Felipe mantinham uma amizade com Caer, o quarto fundador do Instituto no Estado Unidos. Caer, na opinião de Roxanne, era o mais importantes deles, porém assim que começou a dar suas idéias sobre como deveriam administrar o Instituto, eles o barraram e o mandaram para o fim do mundo. Hoje, quem pedia ajuda era eles. Caer simplesmente os ignorava. Não tinha nutrido nenhum ódio, porém não estava disposto a colaborar com a guerra deles contra Sebastian. Roxanne puxou a touca para cima dos cabelos negros. Seus olhos azul vívidos se fixavam hora no fogo, hora na aurora. Enquanto isso, Lipe começava uma outra música triste.

Ele também era um superdotado abrigado por Caer. Roxanne nunca gostou dele, ainda mais após aquele dia no píer.

Enquanto trabalhava com a mente para recordar todo o diálogo que ouvira entre Felipe e outro homem no porto, notou que estava ficando agitada. Tinha de fazer algo logo, antes que Caer entrasse em uma cilada. Com sorte, Roxanne o tiraria com vida dela. Sentiu a lâmina da adaga que carregava no bolso espetar sua cintura, e logo remexeu-se para o lado, tentando aliviar a pele. Vendo a branca camada de respiração que saía de sua boca enquanto respirava, passou as mãos umas nas outras. Logo poderia aquecê-las com sangue.

A música de Lipe era depressiva e triste, quase como um soneto de morte. anunciava um suicídio. Uma guerra, talvez, mas nada agradável. Ele sabia tocar a alma das pessoas junto com sua música, e aquilo era a única coisa que Roxanne admirava no menino. O jeito como seus cabelos negros caíam para o lado esquerdo do rosto e as feições angulosas. O queixo pontudo e o nariz de batata igual ao de Caer. Tinha olhos tão negros quanto os cabelos, e sempre que devolvia um olhar mal-humorado, parecia desejar no fundo de se coração que Roxanne morresse congelada. Morrer congelada não parecia algo tão terrível assim, afinal era o grande amo de Roxanne.

– Vamos dormir, crianças.

Como sempre, Caer os chamava de crianças. Talvez por sua idade avançada, pensou Roxanne. Simplesmente não se cansava de listar todas as coisas da velhice que afetavam Caer.

Levantando-se, tirou a adaga da blusa e atacou o pescoço de Lipe, que estava com a cabeça baixa, tocando sua gaita. Com um gemido de dor, ele esperneou até cair no chão. Seu sangue vermelho tingia a neve ao seu lado e ele agonizava em sofrimento agudo. Caer não pareceu impressionado com a proeza de Roxanne. A menina se ajoelhou ao lado do companheiro de criação, dando-lhe outro ataque, desta vez na omoplata, atingindo seu coração Lipe morreu no mesmo instante, sem deixar nenhuma última palavra para o mundo de neve.

Roxanne se levantou, limpando a lâmina da adaga e batendo a neve da lã.

– Sim, vamos dormir.

(Rebecca)

Notas finais
Roxanne: http://s9.favim.com/610/140203/accessory-blue-eyes-brown-hair-girl-Favim.com-1334381.jpg Caer: http://www.theatrepeople.com.au/sites/default/files/images/Geoffrey-Rush_395.jpg --------------------------------------------- Novos personagens e um cenário novo. O que será que Caer e Roxanne tramam na Noruega? :3 Só nos próximos! >.< ~imitandoMurilo