Q.I.- Fanfic Interativa
40 O Desertor
Notas iniciais
O Desertor
Kano Shuuya
Enquanto virava a cabeça por cima do ombro, conseguia vislumbrar o pálido rosto que lhe sorria, sádico. Quase sedento por sangue. Sabia que tinha passado um pouco dos limites, mas nada que uma divisão de sobremesas não ajudaria.
– Que foi, francês?
– Já disse que não sou francês! — vociferou o moreno.
Kano deu de ombros. Um erro fatal. Por sorte teve reflexos suficiente para escapar do golpe da adaga de Loui, que tinha sido retirada de dentro de seu bolso do casaco. Kano, infelizmente, não tinha trazido uma arma eficiente, apenas seu cérebro, lábia.
– Já usufruiu muito de minha paciência.
– Eu sei — Kano sorriu, sarcástico.
– Ainda me surpreende o fato de ainda suportar tua presença. — O britânico revirou os olhos. — Tens sorte de ainda estar com a cabeça colada ao pescoço.
A resposta de Kano foi um sorrisinho frio. Sentiu uma gota de suor frio derramar-se por sua nuca. O sorriso vacilou. Algo ao contorno de Loui realmente dizia que o que o outro alertara não era apenas ameaça.
Secou a gota, mexendo nos cabelos louros para disfarçar. Fitou o outro, que olhava para o lado, provavelmente focalizando-se em algum canto aleatório. Piscou os olhos, fortemente, quando tivera a impressão de que vira algo brilhar ao entorno do inglês. Começara a ver as auras como medida de poder há alguns dias, porém nunca se preocupara a olhar para Loui. Sua aura brilhava, ofuscante. Seria capaz de deixá-lo cego se olhasse por muito tempo. Balançou a cabeça, tentando por desfazer o dom, ainda confuso com o brilho.
Loui voltou os olhos, que agora estavam fixos no pescoço de Kano. O menino vacilou, afinal aquilo era intimidador, e assim que Loui o focalizou, sua aura avançou num brilho tão forte que apenas estar por perto faria as pálpebras fechadas arderem. Porém não sentia calor do brilho, o que dizia que ele não era o Sol e também que ele não era... Quente.
– O que tanto tenta desviar o olhar, pequeno traidor? — perguntou o inglês, com um ar mais calmo.
Kano voltou a abrir as pálpebras. Aliviado, não havia mais brilho, apenas o garoto magro e sádico que lhe sorria de prazer. Kano percebeu que estava com uma expressão de pânico. Logo arrumou o rosto.
– Algo errado? — Ouviu o maior amaciar a voz, como se zombasse dele. Dobrou-se para frente, encolhendo os ombros, afim de ficar na altura de Kano. — Eu assusto você, é? — Um sorriso travesso brincou nos lábios do mesmo.
O menor, após algum esforço, conseguiu revirar os olhos, fazendo ar cômico. — Pf.... — Soltou um pouco de ar. — Você não me dá medo. Talvez um pouco de graça, mas não medo. — Engoliu uma falha em sua voz, trincando os dentes.
O sorriso de Loui se alargou, voltando a levar a mão ao bolso, donde guardava a adaga. Kano achou que daria seu último fôlego, quando Loui arrancou a adaga do bolso e segurou-a, com a ponta da mesma voltada para seu cotovelo.
– Parece que chegaram. — Seu sorriso fora um pouco mais amedrontador do que de costume.
"Quem chegou?", mas mal pensou e já percebeu de quem se tratava. Talvez o jeito malicioso e sádico como o traidor sorria, ou o jeito como ele soletrava silenciosamente "traidor", voltando aquela bofetada para a cara de Kano. Os dois, traidores, cada um de um lado do tabuleiro. Alguém sairia ganhando e alguém perdendo. Kano só esperava estar do lado certo.
– Pequeno Shuuya, que prazer revê-lo! — os pelos de sua nuca se arrepiaram, mas não era Sebastian, e sim seu fiel chefe de guarda, Roger.
– Deixei de ser pequeno há muito tempo — o loiro revidou, com as mãos afundadas nos bolsos do casaco. Conseguia sentir o gorro causando calor.
– São dois contra um, renda-se.
Loui soltou uma gargalhada gostosa.
– O que foi que acabei de ouvir, Roger? Está pedindo para ele se render? Mas cadê a diversão?
Kano conseguiu sentir o local onde a adaga de Loui havia raspado. Era tão pequeno, nada mais que minúsculas bolinhas de sangue se formavam por cima da pele, mas tinha de funcionar. Concentrou toda a força naquele ponto, de onde o sangue começou a fluir. Sentiu o músculo reclamando. Afinal era o sangue dele que estava retirando, não das veias ou de algum outro lugar. Depois ficaria com fadiga, mas salvaria sua vida.
Conseguiu formar a camada grossa e erguê-la, até se tornar num escudo bom o suficiente para cobrir de seu peito até os joelhos. O sangue ficava duro, como pedra, e então Kano já não se sentia tão ameaçado.
O inglês deu um risinho frio enquanto observava o outro criar suas defesas. Seus olhos esquadrinharam a área. Uma gargalhada ecoou enquanto o calcanhar esquerdo de Loui passava pelo lado do escudo, acertando-lhe a bochecha. Colocou novamente os pés ao chão, observando a queda do outro. A lâmina dançou em suas mãos quando olhou a face esbranquiçada e atônita de Kano.
– Acontece, pequeno Shuuya, que assim como você, eu também sei me desenvolver rapidamente. Apesar, é claro, dos meus dons serem muito mais fortes que os seus...
Kano ergueu-se, fraco e sentindo o braço mais do que exausto, praticamente desmaiado. Como se não fizesse mais parte do corpo. E o pior: O sangue não tinha voltado par adentro da pele, mas se espatifou no chão. Ele tinha perdido muito mais do que poderia.
– Não vai matar seu ativo, Loui. — ele sorriu, sentindo o sangue que vinha da parte interna da bochecha. Com o impacto deveria ter mordido ali.
– Esqueceu que seu ativo aqui sou eu, pequeno Shuuya. — Loui o agarrou pelo casaco, e como o corpo estava quase entrando em estado de fraqueza absoluta, Kano foi jogado de joelhos perante seu adversário. — Jure lealdade extrema a mim, e veremos se eu tenho piedade.
– Vai confiar nas palavras de um mero traidor, francês? — Kano sorriu, com o sangue manchando os dentes.
– Você me interessa. — Loui o soltou, fazendo-o cair de cara no chão, sem forças para se apoiar e sentindo o impacto. Mais sangue jorrou dentro da boca e teve de engolir aquela bola metálica, fazendo-a descer estreita pela garganta.
– Não quero sua piedade. — Kano disse, com força — Pode me matar, idiota.
– Isso é bem mais divertido — Roger disse, enquanto avançava, mas Loui colocou a mão na frente de seu peito.
– Deixe-o. — respirou fundo. — Não conte a Sebastian, ou eu mesmo te mato.
Loui levantou os olhos, encontrando Roger, que mantinha uma expressão séria, quase dura no rosto. Não se sabia se era medo ou apenas seu jeito de encarar um homem a beira da morte.
– Sim, senhor — ele disse, por fim. Grave.
– Ótimo. Agora saía, volte e diga a Sebastian que seu traidorzinho foi morto com sucesso. Invente alguma luta fabulosa e pode falar que você o matou, eu deixo.
– Entendido. — Roger se inclinou, numa respeitosa angústia e sumiu num piscar, como fumaça.
Uma fumaça negra.
O olhar de Loui se esculpiu num sorriso de prazer macabro, olhando para o outro, quase morto, aos seus pés. Por algum breve momento, Kano fechara seu sorriso e deixara-se deitar ao chão. Olhando para baixo, o inglês notou que o olhar do moribundo cruzava-se com o seu, aplicando-lhe um ponta pé no rosto, resultando em deitar-lhe de barriga para cima. Fitou-o com desprezo em mescla com sadismo.
– Por que se agarra tanto à vida? — Perguntou, calmamente, agachando-se ao seu lado.
A resposta não veio imediatamente. Kano demonstrou a intenção de olhá-lo novamente, mas recuou, com medo de outro chute. Murmurou algumas palavras desconexas, donde o nome do britânico se encontrava entre.
– Pois que seja assim, estúpido. — Loui aproximou seu rosto do rosto do outro, dando-lhe um sopro em sua boca. O sangue parara de escorrer pela ferida, que já se fechava, e a cor voltava para o rosto do louro. — Você me deve tua vida e um pouco mais, bastardo. — Murmurou, antes de levantar e girar nos calcanhares, pondo-se de costas ao outro.
– Que tal um beijo? — Kano se levantou, sentindo as forças voltando. — Sei que está louco para me beijar.
– Seria agradável, caso você não fosse o pequeno Shuuya. Por favor, vá ver seus amiguinhos e me diga o que eles planejam fazer. Estão me dando tanta dor de cabeça que eu me recuso a voltar para lá.
– E por que eu iria ser seu espião? — Kano se colocou de pé, mas logo sentiu tontura.
– Ainda pergunta?
Kano apenas respirou fundo e assentiu de leve.
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