Q.I.- Fanfic Interativa
37 Não Importa...
Notas iniciais
Kjirsten Milani
“A morte é apenas a faxineira, fica com aqueles que a Vida não quer mais.”
A faca prateada era iluminada pela rua, o homem de aspecto demoníaco se aproximava cada vez mais dela, ela não entendia que havia acontecido com ela. Onde estava sua coragem? Onde estava aquela vontade insana de matar o seu pior inimigo? Ele estava bem ali, na frente dela, então porque ela não fazia nada?
O vento uivava loucamente, como se fosse feito de gritos, as nuvens cinzentas haviam escondido a lua e a fauna noturna não estava mais lá, tudo o que havia naquele bosque sombrio, era ela e seu inimigo. Suas pernas tremiam e o seu coração acelerado incomodava seu peito, ela queria gritar, mas a voz não saía, queria correr, mas estava paralisada de medo.
O homem se aproximava vez mais, com um sorriso no rosto, o mesmo sorriso que ela fez quando matara um de seus capangas naquele beco escuro, será que ela morreria ali? Sem fazer nada? Então sua vida foi uma grande e completa mentira?
O homem girou a faca entre os dedos, ela fechou os olhos, mas pode sentir o hálito quente e doentio do homem, ele estava de frente para ela. Ela aos poucos abriu os olhos, e assim que sua visão ficou nítida, ela pode ver que a faca vinha em direção ao seu pescoço.
Ela acordou sobressaltada, ensopada de suor, ela ainda tremia e ouvia o vento, como se ainda estivesse naquele bosque escuro, passou os dedos pelos olhos voltando à realidade. Estava em seu quarto de uma pousada que ficava próximo ao prédio onde Sebastian se escondia.
Kjirsten tentou recuperar o fôlego, aquele era um dos pesadelos de Sebastian, com certeza ele já sabia que ela estava em seu encalço e fez aquilo como um aviso. Mas ela não iria desistir de cumprir a tarefa que ela mesma havia determinado para o próprio futuro. Ela saiu de cima de sua cama, era uma pousada simples, no entanto confortável e alegre, mas ela não queria saber de decoração naquele momento.
Rastejou até o banheiro, lavando seu rosto, querendo que o toque gélido da água a acordasse, ela secou o rosto em uma toalha próxima e olhou-se no espelho. Seus cabelos ruivos e cacheados estavam em desânimo completo, seus olhos que antes eram vívidos e curiosos, agora era um par de olhos sem vida e sem ânimo, adquirira olheiras profundas e a palidez tomava conta de seu rosto. Será que havia virado um monstro? Já não sabia mais o que era. Sabia apenas que seu corpo e sua alma pediam por sangue e não podia ser de qualquer um, tinha que ser sangue daquele que tirou tudo dela.
° ° °
A garotinha ruiva estava sentada diante de uma vela, adorava brincar de fazer o fogo mexer-se e criar formas diversas, ria fazendo-o aumentar a ponto de queimar os móveis, ou diminuir e transformar-se naquela pequenina chama azulada. Seu pai e sua mãe olhavam para ela com carinho.
Em outras circunstâncias, ela já teria sido internada em algum hospital para tentar resolver o seu “problema”, mas eles gostavam dos dons dela. E sempre diziam que ela praticasse pra alcançar a perfeição. Quando conseguia alguma habilidade nova, seu pai comprava-lhe uma nova boneca e sua mãe a deixava comer toda a sobremesa, como uma recompensa pelo bom trabalho.
– Mamãe- a boa mulher deu um sorriso meigo e gentil para a garotinha ruiva- eu sou um monstro?
– Claro que não filha, quem te disse isso?
– As minhas colegas da escola, elas dizem que eu sou uma aberração!
– Vem aqui querida- seu pai chamou-a, a garotinha correu e aninhou-se no colo dele- você não é um monstro, é apenas diferente.
– E tem algo ruim em ser diferente?
– Não querida, veja só, eu e a mamãe somos muitos não é?- a garotinha acenou com a cabeça em afirmativo- mais ainda assim nos amamos e sabe por quê?
Ela acenou negativamente:
– Por que todos são diferentes, filha, pode olhar na rua, não existem duas pessoas exatamente iguais, então quando te chamarem de monstro não ligue, elas estão com inveja de você- a garotinha abriu um sorriso alegre enquanto abraçava o pai e sua mãe passava os dedos por entre seus cabelos. Não havia nada de errado em ser diferente.
° ° °
– Ele vai pagar!- a ruiva olhava-se no espelho, chorava descontroladamente, ele havia tirado tudo dela, havia destruído a sua vida, ele tinha que morrer.
Ela não se importava mais quantas pessoas teria de matar, quanto sangue teria que ser retirado pelas suas mãos, mas ela mesma iria cortar o pescoço dele, ela própria iria tirar a única coisa de valor que ele tinha: a vida.
Ela olhou-se raivosa, ele havia feito aquilo com ela, se ela era uma assassina era tudo culpa dele. Ela era apenas mais um monstro que ele criou, apenas mais uma vítima da obsessão dele. Não se importava no que os outros iam dizer, não se importava se a condenariam. Sequer se importava em ir para o céu ou para o inferno, ela o mataria, custasse o que custasse.
Ela passou os dedos gastos pela sua silhueta no espelho, ela própria se odiava, se odiava porque havia se transformado em nada mais nada menos do que um monstro em busca de vingança. Perguntava-se se era mesmo ela que olhava naquele espelho. Não, não era ela, era outra pessoa, e uma pessoa pior do que ela jamais pensou em ser.
Deixou que as gotas quentes de sua tristeza lavassem todo o seu rosto, e num espasmo de ódio, rachou o espelho em um soco, o sangue corria entre seus dedos, mas já não sabia o que estava fazendo, ou se aquilo tudo ainda era um pesadelo.
° ° °
Ela ouviu um grito ensurdecedor vindo do quarto dos seus pais, queria que fosse apenas um pesadelo, mas o grito era real e bem audível, mesmo com medo ela escorregou para fora de suas cobertas e saiu do quarto, andando pelo corredor que dava acesso ao quarto de seus pais, a porta estava entreaberta e um líquido saía de dentro do quarto.
A passos lentos ela andava, seu corpo inteiro tremia e a sua imaginação começara a lhe pregar peças. Ela chegou à frente do quarto pisando no líquido que enegreceu a sola de seus pés, era um líquido quente e pegajoso e com certeza não era água.
Ela segurou a maçaneta fria sentindo o leve choque térmico, fechou os olhos e empurrou a porta com força, quando abriu os olhos não pode abafar o grito de horror, caído no chão estava o seu pai, pálido, com as pupilas dilatadas e sem cor, um corte profundo em seu pescoço, seu sangue se espalhavam em uma poça pelo chão do quarto.
Um homem encapuzado esfaqueava sua mãe com uma fúria que Kjirsten nunca imaginou ver, a camisola de seda branca que ela costumava usar agora estava vermelha do seu próprio sangue. Kjirsten caiu de joelhos na poça do sangue de seu pai, a janela estava arrombada indicando que o homem havia entrado por ali.
O assassino de seus pais jogou a faca longe e ajoelhou-se perto dela, ela fechou os olhos preparando-se para morrer, sentia o hálito quente de seu possível assassino, mas tudo o que pode sentir foi à mão calejada do homem acaricia-la, sujando sua face de sangue, um sangue tão vermelho quanto seus cabelos.
– Vou cuidar de você minha querida Kjirsten!
Ao ouvir a voz do homem, Kjirsten sentiu seu sangue ferver, e uma parede de fogo a separou do homem, vendo que poderia fugir ela correu para a porta da frente e escapou para a rua, gritando por ajuda, até ficar sem forças e apagar no meio da rua.
Depois apenas lembrou-se de acordar no hospital, onde uma mulher de roupas requintadas levou-a ao Instituto. Ela lembrava-se apenas de seguir um garoto pálido até uma sala onde eles treinavam. Naquela noite, ela acordou sobressaltada com um bilhete ao seu lado, onde estava escrito: “Um dia você vai me agradecer pelo que fiz. — Sebastian”.
° ° °
Ela enfaixou a mão ensanguentada, enquanto examinava o seu reflexo no vidro estilhaçado, estava ficando louca, ou pior, ficando igual a ele. Ela era uma assassina, se pudesse voltar no tempo nunca teria entrado naquele quarto, teria simplesmente dormido calmamente e fingir que nada havia acontecido, melhor seria se tivesse nascido morta a ter aquelas malditas habilidades.
Seu sangue fervia e como de costume fagulhas emanavam das palmas de suas mãos, procurou acalmar-se ou toda a pousada estaria em chamas. Passou os dedos pelos ferimentos provocados pelo corte, o tom vermelho coloria a gaze que ela encontrara em uma caixa branca embaixo da pia.
Mordeu os próprios lábios tentando não gritar de dor, mas não era o simples ferimento em sua mãe que doía, mas aquele ferimento que ficaria marcado para sempre em sua vida. Como ela já ouviu dizer algumas vezes, nenhum ferimento dói mais do aquele que fica marcado na alma, e a sua alma já estava cheia destes ferimentos.
° ° °
Fazia exatos três dias que fugira do Instituto para conquistar a sua façanha, conseguir a vingança que ela esperava á anos. Estava escondida em uma casa abandonada da esquina, em uma rua escura e assustadora o que afastava todo tipo de curiosos. Por sorte havia feito amizade com o bibliotecário, um homem alto e corpulento que apresentou para ela o mundo belo que ela ainda não conhecia.
O velho Tobias-ou Tobby como ela o chamava- era simpático e aparentava ser de confiança, sempre dava a ela conselhos e deixava que ela levasse mais de um livro para ler, em poucos dias ficaram amigos. Ela mostrou a ele suas habilidades e contou para ele sua história e seu objetivo. Como um bom amigo, ele a ouviu pacientemente.
– Não acha que a vingança pode te fazer mal?- o homem coçou a rala barba que crescia em seu queixo.
– A mim não vai fazer nada- Kjirsten deu de ombros enquanto pegava um livro de romance água-com-açúcar de uma das prateleiras- mas a ele vai e muito!
– Mas se ele for tão perigoso quanto você me disse, sozinha não vai conseguir nada, porque não volta ao Instituto?
– Eles nunca entenderiam Tobby, vivem ocupados demais tentando aprimorar as suas habilidades e se esquecem de que ele anda matando pessoas inocentes, me recuso a ficar de braços cruzados quando simplesmente posso fazer algo por elas.
– Suas intenções são boas Kjirsten, mas o seu desejo de vingança pode te corromper um dia e você sabe disso, é como um veneno que apenas vai te matando aos poucos.
– Não me importo com o que ela faça comigo, ele matou os meus pais, merece isso.
O homem abriu um sorriso amarelo, deixando que o silêncio reinasse por poucos minutos, até a garota devolver o livro visivelmente tedioso para a sua prateleira, a ruiva tamborilou os dedos pelo braço da cadeira onde estava sentada, olhando para o velho bibliotecário, num olhar como se pedisse que ele iniciasse uma conversa:
– E você tem algum plano em mente?
– Tenho, sei onde fica uma das bases dele e vou dar um jeito de me infiltrar, aprendi como fazer isso no Instituto.
– Não tem medo de ser pega?
– Não, na verdade seria até bom se eu fosse pega, assim eu poderia me aproximar dele e – ela fez uma linha imaginária em sua garganta com o dedo indicador.
– Mas sozinha você é vulnerável, mas existe alguém que pode te ajudar!
Ele levantou-se de sua cadeira e caminhou até uma das prateleiras mais distantes. Puxando um livro grosso de capa de couro que mais lembrava uma bíblia. Ele abriu em uma página e deu o livro a ela. A página era um pouco amarelada, mas as letras estavam intactas.
“Fantasmas”
Um antigo clã oculto nas florestas tropicais, ninguém sabe ao certo a origem dessa lenda, sabe-se apenas que pessoas relataram a existência de cidades secretas dentro de florestas conhecidas mundialmente, segundo a lenda, é um clã formado apenas de mulheres que tem diferentes tipos de habilidades e vivem pacificamente com lobos, corujas e outros animais.
– No que isso vai me ajudar?- Kjirsten jogou o livro em cima de uma cadeira- é apenas uma lenda!
– Aposto que no Instituto você deve ter aprendido que desde a antiguidade pessoas tem as mesmas habilidades que vocês têm não é?
– Sim!
– Esse clã existe, e se você quer tanto derrotar esse homem, vai precisar da ajuda dele.
– Posso me virar sozinha.
– Não Kjirsten, não pode!
– E porque não?
– Porque seus pais queriam que eu te protegesse.
° ° °
A água quente do chuveiro serviu para retirá-la de todos aqueles pensamentos estáticos, o passado já não a importava, pouco ligava para o futuro, queria apenas poder viver o presente. Embora fosse apenas viver biologicamente, pois sua alma já estava morta. Era uma casca sem vida, apenas uma marionete que seguia as ordens de seu dono.
Já não se reconhecia, apenas sabia que era Kjirsten Milani, que todas as pessoas que ela amava estavam mortas, e que ela tinha que cumprir o seu dever naquele mundo: vinga-los e só. Após um banho quente e demorado, ela desligou o chuveiro, sentindo o ar frio refrescar o seu corpo, enxugou-se com uma toalha roxa que os donos da pousada deixaram no banheiro.
Olhou-se no espelho rachado, suas olheiras haviam sumido, mas seu rosto ainda era pálido, seus olhos ainda estavam sem vida e ela não mais se reconhecia. Não era mais ela e sim outro ser que passara a viver dentro dela, desde o dia em que seus pais foram mortos bem na sua frente.
Vestiu um vestido florido que encontrou dentro da mala, penteando os cabelos já secos, passou um pouco de pó pelo rosto, amarrou uma faixa vermelha por sua cintura e lá escondeu uma simples faca, pequena e prática.
Não importava mais, se eles estavam mortos não poderiam impedi-la, ninguém poderia impedi-la, nem mesmo ela. Arrumou a mala e desceu as escadas, entregando a chave na recepção. Se ainda houvesse alguém do Instituto na Rússia, os convenceria a ajuda-la, e se não a ajudassem, que fossem a merda, ela iria cumprir o seu dever, mesmo que para isso tivesse que perder o pouco que restava de sua humanidade, se é que ela ainda era humana.
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