Q.I.- Fanfic Interativa
18 Não Existem Finais Felizes
Notas iniciais
Rose Annebelle Danvers
"Cada um pensa em mudar a humanidade, mas nenhum pensa em mudar a si mesmo" (Leon Tolstoi)
Sentia-se solitária, mas não seria a primeira vez que a solidão viesse bater em sua porta. Ela nunca teve a aproximação de ninguém, exceto a de seus pais, e depois da morte deles ela sentia-se mais sozinha do que nunca. Havia feito alguns amigos no Instituto, os veteranos que se autodenominavam a "Resistência". Mas agora a maioria deles estava fazendo algo na Rússia, provavelmente tentando defender o Instituto do tão famigerado Sebastian.
E deixaram para ela instruções bens claras, se um dos novatos tivesse um pesadelo que fosse, desse a ele rapidamente uma colher de chá do remédio que estava no armário branco do segundo andar e depois chamá-lo em particular para participar da Resistência. Apenas ela e Luci tinham ficado para tomar conta dos novatos, e se eles fossem atacados teriam que fazer o máximo para se protegerem. Mas algo dizia que eles não seriam atacados e que havia algo mais importante a ser buscado na Rússia.
A chuva caía fracamente, as janelas eram embaçadas pelo frio e as gotículas de água brincavam enquanto desciam pelo vidro, passando umas a frente das outras, como se estivessem apostando uma corrida. O bosque ao redor do Instituto ganhava um tom cinzento, que apesar de triste era lindo, mas de todo modo era triste.
Rose se perguntava se Deus existia mesmo, ou se a criação do universo foi apenas um mero acidente. Mas se por um acaso, Deus existisse? Então porque ele permitia que coisas más acontecessem? Será que ele era fraco? Será que ele tinha pena de repreender os maus? Olhando pelo que ela tinha aprendido, Deus amava todos os seus filhos igualmente e a humanidade tinha livre arbítrio, e também que todos passavam por provações que fortaleceriam sua fé.
Com ela aconteceu o contrário, sua fé apenas abaixou até se tornar uma mísera semente de melancia. Se Deus existisse, talvez estaria preparando algo para ela, mas só se ele existisse. Como Edgar havia dito, não importava no que ela acreditava, mas havia um livro mágico, cavalos que voavam e fadas. Aquilo não tinha nenhuma lógica. Mas o mundo onde ela vivia também não era nada lógico.
– Ainda acordada Rose?- Luci sentou-se ao lado dela, usava um roupão de seda esmeralda, seus olhos tinham um leve tom roxo o que indicava que ela também não conseguiu dormir, seus cabelos ainda estavam arrumados, e analisando tudo, Rose concluiu que ela nem deitou-se- Você precisa descansar!
– E você também, mas no entanto estamos as duas acordadas.
– Está pensando em alguma coisa? Há algo que queria me contar?
– Existem coisas que eu quero contar, mas minha mente é uma verdadeira confusão- ela olhou para baixo, segurando uma lágrima que teimava em querer descer- minha vida está uma confusão!
– Eu te entendo, não é fácil estar passando por isso tudo Rose, mas no fim você vai descobrir que tudo isso só serviu para o seu crescimento, depois disso vai poder suportar qualquer coisa.
– Espero que sim... Eu só queria saber, dentre tantas pessoas no mundo, porque eu? Eu nunca fiz mal pra ninguém, sempre obedeci meus pais, então porque eu sofro tanto.
– O mal é como um leão Rose, ele escolhe as presas mais vulneráveis. Você sempre teve um espírito aberto e um coração de ouro, por isso ele te escolheu.
– Então porque Deus não impediu?
– Isso, eu não posso responder- Luci acariciou o rosto de Rose, que agora era banhado por algumas lágrimas cintilantes- quer um chá?
Ela acenou afirmativamente com a cabeça, enquanto voltava a espiar a chuva. Fraca, cinzenta e melancólica. Assim como seu passado. A cada segundo a chuva tornava-se mais forte, as gotas caíam com mais fúria, e em pouco tempo a fina e fraca chuva cinzenta, transformava-se em uma chuva forte e furiosa, como se as nuvens estivessem chorando de tristeza.
Ela continuou olhando para o bosque, agora úmido e mais cinzento do que nunca por conta da neblina que o encobria. O céu ganhou um tom cinza-escuro, o sol desapareceu de vista transformando os tons coloridos do Instituto, em uma monotonia neutra, que variava entre branco, preto e cinza. O primeiro relâmpago pode ser visto clareando o bosque, seguido do barulho imponente do trovão.
Luci sentou-se carinhosamente ao seu lado, dando-lhe uma das xícaras de porcelana que trazia. Rose bebericou o chá que ela indicou ser de camomila, precisava mesmo acalmar seus ânimos. Algumas lágrimas ainda desciam por seu rosto. Mas Luci as enxugou dando um sorriso.
– Não chore, para toda história sempre tem um final feliz.
Rose nada disse, apenas bebeu o resto do chá entregando a xícara a Luci.
– Só tem um problema!- ela levantou-se com um olhar triste e sem rumo, de alguém que acaba de voltar de um enterro- Isso não é uma história Luci, e não existem finais felizes.
Antes que Luci pudesse dizer qualquer coisa, Rose subiu as escadas rapidamente. Ela não podia ajudá-la, ninguém pode retirar a dor de alguém que já sofreu demais, e por mais que tentasse amenizá-la sempre sobraria alguma coisa. Sempre teria uma sombra negra ao lado dela, dizendo-a que ela sofreria para sempre.
° ° °
Estava no que parecia ser uma mansão abandonada, as paredes estavam descascadas como se fizessem anos que aquela casa não via uma pintura, haviam estilhaços de vidro e porcelana por todos os lados, os telhado apresentava falhas e teias de aranha decoravam a maioria dos locais.
Alguns ratos passeavam em meio aquele cenário desolado. Rose não sabia onde estava e como havia ido parar ali, andava a passos lentos e atentos para qualquer movimento que se fizesse presente naquela casa. Ela andou pelos cômodos da casa, todos tinham as pinturas descascadas e o mesmo aspecto tétrico, parecia até um filme de terror.
Então ela chegou a sala, restava apenas uma estrutura de madeira comida por cupins do que deveria ser um sofá, a televisão estava espatifada em um dos cantos, havia musgo e bolor na parede e alguns cogumelos já começavam a aparecer. Insetos de todos os tipos rastejavam no chão ou estavam presos nas teias de aranha só esperando o momento de serem a janta do dia.
A lareira porém estava intacta, os tijolos estavam limpos e a grande estava polida e sem nenhuma ferrugem, a lenha estava cuidadosamente arrumada e parecia ter sido colocada ali a pouco tempo. Foi então que de súbito a lareira se acendeu. Ela sentiu uma respiração ofegante em seu pescoço, virou-se para trás mas não havia ninguém lá. Continuava a sentir a presença, estava muito próxima. Ela não sabia o que era, mas sabia que agora estava sonhando e que aquilo era mais um pesadelo.
Ela ouviu um sussurro e virou-se, diante dela estava uma figura humana, sentada no sofá que fora magicamente restaurado. Ele a olhava com ódio, embora ela não pudesse distinguir quem era:
– Bem-vinda ao meu pesadelo Rose.
– Quem é você?
– Eu? Eu não sou ninguém que você queria conhecer, sou o medo, sou a personificação do mal Rose e você é minha!
A figura partir pra cima dela, segurando-a pelos pulsos, eles rolaram pelo chão, Rose gritava de dor e de desespero, queria sair dali.
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Ela acordou ensopada de suor frio, estava em seu quarto, deitada em sua cama. Agradeceu a qualquer coisa por estar viva e estar de volta ao seu quarto. Luci chegou ao seu quarto rapidamente. Seus cabelos continuavam arrumados, ela ainda não tinha dormido.
– O que aconteceu?
– Mais um pesadelo- Rose olhou para seus pulsos, que agora tinha marcas roxas e profundas, quase pretas, havia sido Sebastian- foi ele Luci.
– Calma, eu vou pegar o remédio, você fique aqui e não durma de novo.
Luci sumiu no corredor, voltando segundos depois com uma colher e o vidro de líquido cor de âmbar. Ela engoliu o líquido ardente, bebendo um copo de água logo depois para diminuir a sensação de queimação.
Na opinião de Rose, não existiam finais felizes e se eles passassem a existir, ainda estavam muito longe de aparecer.
Rose Annebelle Danvers
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