Q.I.- Fanfic Interativa
15 Além do Céu Azul
Notas iniciais
Machael Bernhardt
"Não há ventos favoráveis para alguém que não sabe onde quer chegar."
A flor flutuava levemente pelo ar, seguindo o mesmo trajeto feito pelo dedo do garoto. Depois de dar singelos giros pelo quarto como se fosse uma dançarina, a flor foi colocada nos cabelos de Mary, sendo apoiada na orelha. A garota olhou-o com um lindo sorriso. Acariciando a face de Machael enquanto ajeitava a flor em seus cabelos.
Alice descansava em uma das camas, lendo um livro que Machel não identificava, mas que parecia ser muito interessante. Ela estava calada e concentrada em seu livro, mas se o garotinho tivesse olhado direto, perceberia que ela sorria para ele.
Machael adorava passar boa parte do tempo com Mary, era com ela que ele aprendia as coisas que não sabia antes. Era com ela que ele se sentia inteiramente seguro. Como Mary havia dito, eles ainda não eram amigos, pois não tinham total confiança um no outro, mas ele logo conquistaria a confiança dela e seriam melhores amigos.
Já se aproximava a hora do jantar, e os novatos tiveram um pequeno intervalo para poder se recuperar do treinamento cansativo daquele dia. Machael não sabia o motivo pelo qual tinham de treinar tanto, como se estivessem preparando eles para algum tipo de exército ou algo parecido.
Ele próprio tivera de levitar objetos cada vez mais pesados, começando com lápis e tendo de para quando chegou a vez de levitar um criado-mudo, ficou com dor de cabeça por alguns minutos, mas logo lhe deram uma pílula e ele pode voltar a treinar, como se aquilo fosse apenas uma brincadeira. Tinha grande facilidade com objetos pequenos e leves, mas quanto mais pesado era o objeto, mais difícil era de fazê-lo levitar. Era como se eles não respondessem a seus dons.
Mas ele não protestou, era uma criança, tinha habilidades que as outras não tinham, mais ainda assim era uma criança e não devia questionar os mais velhos, até porque eles estavam ajudando-o a aumentar o que ele considerava ser seus dons especiais.
O garotinho andou pelo quarto em direção a janela. Observou o sol que já sumia por trás das colina, olhou o céu que ganhava o tom alaranjado que ele considerava belo, algumas estrelas já apareciam no céu para dar as boas-vindas as pessoas que as observava, e a brilhante lua já ganhava espaço entre elas. A lua tinha aspecto diferente, não era mais a bola branca e iluminada de algumas noites atrás, agora era apenas uma singela fatia, como se algum monstro tivesse ido até ali e roubado boa parte dela.
– Mary?- a voz calma e suave do garoto quebrou o silêncio que reinava no quarto.
– Sim.
– O que houve com a lua?
– Como?- a garota foi até a janela e procurou pela lua, quando a encontrou deu um leve sorriso- ela é assim mesmo, vive mudando.
– Vive mudando?
– É, em algumas noites ela parece uma bola em outras é como se tivessem tirado uma fatia dela e em outras ela nem aparece.
– Então não gosto mais da lua-ele respondeu com um tom sério.
– Porque?
– Ela é falsa, não gosto de gente que vive mudando.
Mary não pode conter uma risadinha pelo comentário do garoto. Era apenas um ano mais velha que ele, mas sabia mais coisas, porque Alice as tinha explicado e embora Machael não fosse seu irmão, ela sentia que tinha o dever de mostrá-lo os fascinantes mistérios do mundo.
– Não é que ela seja falsa, ela apenas... Tem que mudar!
– E porque ela tem que mudar? Porque ela não pode ficar de um jeito só? Não seria mais fácil?
– Bem...- Mary procurou as palavras certas para tentar explicar ao garoto o porque de a lua ter que mudar- É porque ficar de um jeito só é chato, seria ruim se a lua fosse uma só todas as noites.
– E o porque o sol não muda também? Ele vive do mesmo jeito todos os dias, e todos gostam dele.
– Mas o sol é generoso! Todos os dias ele vai para detrás das colinas e deixa que a lua venha.
– Então se eu for até as colinas eu vou conhecer o sol?
– Não, porque quando ele some, na verdade está indo aquecer outro lugar.
– Uma pena!- o garoto encostou os cotovelos no parapeito da janela e apoiou o queixo em uma das mãos, observando o tom alaranjado que lentamente desaparecia dando lugar a um verde brilhante- e pra onde ele vai?
– Como assim?
– Você disse que ele vai aquecer outra lugar não é?
– Sim!
– Então, onde é esse outro lugar?
– Bom, ele vai pro outro lado do planeta.
– Eu posso ir pra o outro lado do planeta também?
– Claro que sim! Um dia você irá para o outro lado do planeta.
O garoto sorriu de alegria, se Mary disse que ele iria para o outro lado do planeta, é porque ele iria para o outro lado do planeta. Confiava nela, embora ela ainda não confiasse totalmente nele, mas um dia confiaria.
– Mary?
– Sim.
– E o que tem além do azul?
– Que azul?
– Aquele azul- ele apontou para o verde que agora tomava uma tonalidade azulada que mais tarde se transformaria em preto-o que tem além dele?
– As estrelas, outros planetas, imensidões de coisas que não existem aqui na Terra.
– Esqueça o outro lado do planeta, agora eu quero ir além do azul.
– Tudo bem, se tiver muita vontade, você pode ir aonde quiser.
– A qualquer lugar?-seus olhos brilharam de um jeito que nunca tinham brilhado antes.
– Sim- Mary bagunçou seus cabelos- pra qualquer lugar.
– E você vai comigo?
Ela sorriu calmamente enquanto o observava, ela era como uma irmã para ele. E se ela virasse sua irmã, ele poderia levá-la para qualquer lugar.
– Não sei...
– A Alice pode ir, eu gosto da Alice!
Mary sorriu novamente, mas dessa vez com mais alegria.
– Sim Machael, eu vou com você.
– Então agora somos amigos?
– Sim, somos amigos!
As bochechas de Machel ficaram com um leve rubor de alegria e ele abriu um sorriso gigantesco, se seu rosto fosse maior o sorriso também seria maior. Seu coração batia rápido numa festa que nunca terminaria e ele fez com que as rosas depositadas em um vaso próximo dançassem no ar como se fossem um grupo de bailarinas.
E com a luz ofuscante das estrelas, aquela cena tornava o quarto mais bonito e mais alegre. E por causa daquilo, Mary ficava mais alegre e como consequência Machael ficava mais alegre. Ela agora era sua amiga, e os amigos confiavam uns nos outros.
Iriam até o azul, e se possível, além dele!

Mary Dallas
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