Q.I.- Fanfic Interativa
36 Último Lembrete
Notas iniciais
Último Lembrete
“É sempre dolorosa a separação de almas que talvez só nas regiões misteriosas do além-túmulo tenham de se encontrar.” – Júlio Ribeiro

Pousou os dedos no prato do broto de feijão, ele cresceu rapidamente, envolvendo seu dedinho magrelo e a apertando, enrolando-se na mão e depois no punho de Candy. Subia pelo braço e alguns outros ramos iam crescendo do primeiro e se enroscando ainda mais, até o cotovelo. Soltou um suspiro cansado, deixando a planta com um puxão forte o suficiente para arrancá-la do prato e matá-la no mesmo instante.
– Anda muito insensível nesses dias, Senhorita Cândida.
Não respondeu, apenas passou pelo piano e olhou para a partitura já amarelada de tanto tempo. Aquela música existia antes mesmo dela nascer. Com cuidado, sentou-se no banco do piano, acariciando o veludo negro com delicadeza. Por fim, pousou as mãos nas teclas já encardidas. Ninguém limpava aquilo fazia décadas... A poeira voava por todos os lados livremente, as janelas ficavam fechadas e era proibido abri-las, o chão era uma camada grossa de negro e as paredes antes brancas agora já estavam cinzentas. Seus cabelos se grudavam com tamanha oleosidade, o rosto era um brilho intenso e a pele era pegajosa. Nunca tomara um banho na vida. Ou se tomou, não lembrava.
– Quer tomar um pouco de chá, Senhorita Cândida? – ele perguntou.
Candy já estava cansada de lhe responde em vão. Casto nunca a deixaria, afinal ele era seu segurança particular. Desde que se conhecia por gente Casto lhe perguntava e comentava coisas sobre seu comportamento. As únicas palavras que conhecia eram as que Casto já havia dito. Nenhuma outra criatura falara com ela durante todo seu crescimento e por isso não pensava que talvez pudesse existir um mundo, ou países, nações, nem mesmo que talvez existisse mais criaturas como ela. Como já disse, desde quando era um bebê a única companhia que tinha era Casto, e ele não era bem um humano. Miava e se lambia para tomar banhos, tossia bolas de pelos e se coçava com as patas traseiras. O rabo era grosso e o pelo caramelo. Os bigodes longos e negros lhe davam um ar mais sério, enquanto os olhos heterocrômicos estavam pintados de verde e amarelo.
No quarto de Candy só haviam cinco paredes, uma mesa onde pratos e sementes eram trocados todos os dias (Candy nunca soube quem os trocava), uma cama dura e sem cobertores para noites frias, uma mesa menor e mais precária com uma máquina de escrever que (sabe Deus como) ainda funcionava e o piano. Atrás do piano, é claro, havia dois outros instrumentos que Candy só ousara tocar uma vez. Um violino e um contrabaixo. Os papeis que usava na máquina de escrever nunca acabavam. Sempre que ia dormir amanhecia com uma pilha nova de papeis limpos, e nunca conseguia encontrar o que já tinha escrito. O quarto não possuía portas, apenas uma janela alta o suficiente para que Candy não alcançasse, e se de alguma forma ela conseguisse, haviam barras para impedir uma fuga. Casto conseguia entrar e sair de lá quando quisesse, o que deprimia ainda mais a menina. O gato tinha dito que seu aniversário sempre aconteceria na noite em que uma luz entrasse pelas barras da janela e tocassem o piano, fazendo-o soar sozinho. Isso acontecia numa freqüência que Candy não conseguia contar. Os intervalos entre um e outro aniversário eram deprimentes. Até agora o piano tinha tocado sozinho apenas nove vezes.
– Você não gostaria de tomar um banho, Senhorita Cândida?
– Cale a boca! – gritou com raiva, apertando as teclas do piano fortemente.
Não entendia porque com ela a música nunca acontecia. Não entendia porque é que seus dedos não conseguiam formar aquela música que sempre escutava em seu aniversário. Tentava em vão. Afinal não era apenas tocar aleatoriamente? Uma vez tentou seriamente fazer aquilo e só conseguiu fazer um acorde, o qual tocava constantemente tentando de alguma forma fazer o piano tocar sozinho, mas nunca conseguia. Seus dedos eram rápidos e passavam pelas teclas como vento, tocando aquela difícil parte da música, mesmo assim não conseguia tocar as partes mais simples. Era como se as teclas certas fugissem dela.
Levantou-se, brava. Empurrou o banco do piano, fazendo-o cair na sala com um estrondo e então a poeira se levantou, fazendo Candy ter vontade de espirrar. Seus olhos marejaram enquanto entravam em contato com o pó e uma náusea terrível bateu em seu rosto. Logo estava vermelha. Quando finalmente se livrou da vontade de tossir, bateu com a mão onde Casto estava empoleirado, retirando o gato dali. Jogou-se na cama com força, enquanto rolava até o canto da parede. Lá, se encolheu até que fosse apenas uma bola de cabelos negros e pedaços de pano costurados em desanimo.
º º º
“O medo é, dos sentimentos humanos, o mais dissolvente, porque nos leva a fazer muita coisa que não queremos fazer, e deixar de fazer muita coisa que queríamos e necessitávamos fazer” – Josué de Castro
Hatsune Miku – Romeo and Cinderella
Esperando enquanto o vento levava a poeira embora para a outra extremidade do quarto, Candy tocava o novo acorde que tinha conseguido encontrar nas teclas do piano. Agora sabia duas partes daquela música que ecoava pelo quarto em seus aniversários. Não era nenhuma satisfação, afinal tinha demorado mais três anos até conseguir. Todos os dias tinha de tocar, tentando decifrar o resto, mas era como se aos poucos a música fosse se esvaindo de sua memória e ela só se lembrava do que já sabia tocar. Havia uma partitura na frente do piano, a qual Candy nunca saberia ler. E por algum motivo ela sentia que aquelas notas era a música inteira. E mesmo assim... Agonizava tentando entender aqueles círculos e aquelas linhas. Mas não conseguiria sozinha. Casto nunca tinha mencionado a partitura, e ela duvidava que ele soubesse tocar o piano.
– As nuvens estão bem animadas hoje, Senhorita Cândida. – Casto pulou para dentro das barras da janela.
Candy não se conformava como é que aquele gato podia entrar e sair e ela não. Nunca tinha visto as tais nuvens, nem mesmo sabia de onde vinha aquela luz que entrava pelas grades em seu aniversário. Agora tinham se passado doze aniversários e ela tinha tido coragem de pegar um dos instrumentos atrás do piano, e na verdade foi com um deles que encontrou as notas que faltavam para completar a segunda parte da música. Quando tentou usar o terceiro, porém, foi um desastre. As folhas na mesa e escrever continuavam a vir, os pratos e as sementes de feijão também.
Pousou os dedos nas teclas, tocando com vontade, até que a ponta deles começassem a doer. Deixou o banco do piano, andando aleatoriamente em direção a mesa de pratos. Sempre tinha sido uma mesa muito estranha, de metal, branca e prateada, diferente de todo o quarto, que era de madeira rústica. A cadeira era feita de ferro e o assento muito duro e agarrava os fios da saia de Candy. Outra novidade, Casto tinha lhe trazido cinco novos vestidos, uma saia e uma camiseta. Não podia negar que ficara feliz de poder escolher que roupa vestir em cada dia, porém adoraria ter liberdade em vez de um guarda-roupas.
Se sentou na cadeira e colocou a mão sobre um dos pratos, enquanto o pequeno broto se desenvolvia e lhe agarrava a mão. Ele era bem mais forte que os outros na mesa, porém não menos amoroso. Com brutalidade a envolveu e a palma de sua mão não foi mais visível. Seu caule era groso e bem mais forte do que normalmente seria. Candy piscou os olhos surpresa com aquilo, nunca uma planta tinha ficado tão forte de uma hora para outra. Folhas brotaram e lhe envolveram os dedos, fazendo-os desaparecer também. Feijões estouraram enquanto subiam pelo braço da menina e passavam pelo cotovelo rapidamente. Com os olhos arregalados de terror, Candy puxou-se fortemente para trás, caindo da cadeira e levando a planta e o prato junto. Esmagou o broto de feijão entre os dedos e rasgou as folhas que a envolvia. Com os dentes arrancou o caule do punho e logo a planta morreu entre seu cotovelo e caiu no chão, sem forças. Ela estava ofegante, tremendo de pânico.
– Suas habilidades estão avançando de uma maneira muito boa, Senhorita Cândida. Mas acho que seria melhor treinar o quanto você desenvolverá algum broto. – Casto saltou para a mesa de pratos, colocando a cabeça para fora da mesa e a olhando de cima. Os bigodes negros estavam muito maiores e o pelo ainda mais castanho do que nunca. As patas sujas de lama indicavam que o tempo estava chuvoso do lado de fora da prisão de Candy, mas como a menina nunca tinha visto chuva, lama ou qualquer outra coisa assim, julgou apenas que o pelo estava mais escuro naquela região.
– A música serve para estimulá-la. – Casto saltou da mesa e pousou ao lado da menina, que ainda estava assustada com o a pouco acontecera.
Candy se levantou, ignorando o gato que a seguia. Pulou sobre a cama e rolou até a parede, formando uma bola avermelhada. A saia cor-de-vinho e a camiseta cor-de-sangue formavam uma mistura muito interessantes contra os cabelos negros e os olhos ainda mais escuros de Candy, e a pele pálida da menina.
– O que você quer? – perguntou por fim.
– Nada, Senhorita Cândida, apenas estou te seguindo.
– Um pouco óbvio... – a menina suspirou, caindo sobre os joelhos e deixando a cama com um estrondo no chão. A poeira voou para longe. Agarrou o gato e o trouxe até perto do peito, num abraço silencioso. Os joelhos estavam latejando, mas qualquer outra dor que não fosse a de seu coração poderia ser ignorada. Queria ser livre... Queria poder entrar e sair daquelas barras. Não se importava de sempre ter de voltar, mas queria ao menos sair... Uma vez estaria bom! O calor do animal a envolveu, enquanto ele ronronava entre seus braços e se aninhava.
– Não esperava reação deste tipo vindo da senhorita, Senhorita Cândida.
º º º
“Os medrosos não pecam, antes pecam os bravos porque são arrogantes” – Raquel de Queiroz
Hatsune Miku – Black Rock Shooter

Esperava com paciência extraordinária enquanto o tempo passava e a luz aos poucos ia subindo. Tinha tirado a partitura do piano numa espécie de conspiração. Sempre que a música tocava a partitura parecia virar sozinha, como se algum fantasma estivesse lendo-a enquanto tocava. Agora, sem partitura, talvez algo diferente acontecesse. Porém, quando a luz entrou pelas barras e seu aniversário aconteceu, as teclas foram tocadas perfeitamente, até a terceira parte da música.
Até onde ela já tinha conseguido decifrar.
As partituras caíram de suas mãos enquanto Candy corria em direção ao piano. Ele estava parado, mas a luz continuava lá. Se sentou rapidamente no banco de veludo e então olhou para as teclas amareladas. Virou-se ao sentir alguma coisa puxando seus cabelos negros e lisos, ensebados. Encarou a luz que vinha das barras, cegamente. De repente seus olhos se acostumaram com a claridade e conseguiu distinguir uma forma arredondava, porém cortada ao meio. Era não branca, mas prateada, tão brilhante que Candy pensou que estaria cega de verdade, mas não estava. Pela primeira vez na vida estava vendo de verdade.
– Isso, Senhorita Cândida – Casto pulou para o lado dela, apertando duas notas do piano. – é a Lua. É ela quem ilumina seus aniversários. Agora já foi quatorze luas. Venha, vamos dormir. Quem sabe Ela não lhe dá um presente quando acordar.
E dormiu com doçura, até acordar pela manhã. O quarto estava todo iluminado, mas Candy não sabia como. Ele sempre estava iluminado quando acordava pela manhã. Já tentara ver se era alguma luz que vinha das barras, mas parecia que o lado de fora era uma branquidão sem tamanho.
Subiu na mesa de escrever, enquanto encarava a máquina. As folhas de papel estavam novas, como sempre, em uma pilha de cera de dez. Colocou a primeira dentro da máquina e olhou para as teclas redondas. Não eram em nada parecidas com a do piano, mas mesmo assim fluíam do mesmo jeito quando encontrava as partes certas da música. Candy não sabia escrever. Ou pelo menos tinha esquecido. Até onde se lembrava ela acordara no quarto branco e ao passar do tempo recebeu visitar do gato que sabia falar. As teclas da máquina de escrever estavam invertidas de uma forma muito estranha para qualquer outro ser humano que conhecesse uma máquina de escrever, mesmo assim era daquele jeito que Candy escrevia. Usando o som das teclas para formar uma música na mente.
Merry Go Round
A chuva interminável continua caindo
A chuva calma e fria
Ela continua a cair, se recusando a parar
Como se estivesse quase carregando os meus sentimentos.
Eu sempre achei a sua gentileza fosse voltar
Algum dia, mas aonde
Parada do carro
Eu me pergunto o que você vê
Á sua frente?
Nós continuamos correndo e parece que nós vamos alcançar
Mas não iremos
Desse jeito
A chuva continua a cair suavemente
Uma chuva levemente solitária
Irá molhar tudo ao redor
É como se ela pretendesse acalmar o meu coração
Eu estou sempre olhando as suas
Belas costas, mas estes sentimentos enroscados
Me apontam para outra direção
O quê está esperando por mim
No final de minha procura?
Nós continuamos correndo
E parece que nós vamos alcançar
Desse jeito
Nós continuamos correndo
E parece que nós vamos alcançar
Desse jeito
Olhou para aquelas letras que em nada combinavam para ela, tirou o papel da máquina de escrever e colocou o segundo. Fazia isso todas as manhãs, mesmo que não fizesse sentido. Se sentia mais livre enquanto escrevia, como se em alguma coisa aquelas teclas fizessem sentido.
Kagerou Days
No dia 15 de agosto, perto das 12:30 da tarde
O tempo estava agradável
Os raios de sol estavam tão fortes que me faziam sentir doente
Conversava contigo sem mais na da para fazer
"Mas sabes, eu não gosto muito do verão" murmurastes descaradamente
Enquanto acariciava um gato
Ah, correstes atrás do gato enquanto ele te fugia
E o sinal do semáforo mudou subitamente para vermelho
Um caminhão passou de repente e acertou-te enquanto eu gritava
A cor do sangue espalhado com o teu perfume chocou-me
O calor que parecia mentira ria a dizer "Isso tudo é real"
Tudo escureceu com o som das cigarras que pertubam a cor de um lago de verão
Acordei com o som de um despertador ao pé da minha cama
Que horas são agora?
Dia 14 de agosto, pouco depois das 12h da manhã
Lembrei-me do irritante som das cigarras
Mas,sabes, é um bocado estranho
Lembro-me que estava neste mesmo parque no sonho de ontem
"Por que é que não vamos para casa"
Quando começamos a andar pessoas a nossa volta começaram a olhar para o céu com a bocas abertas
Uma viga de metal caíra e acabou por te perfurar
O teu grito violento e o som do vento ecoava pelas arvores mas mesmo assim
O calor desnatural que gozava comigo dizia "Isso não é um sonho"
Enquanto minha visão escurecia pareceu-me ver-te a sorrir
Quantas vezes esse calor sarcástico já me fez desmaiar de um mundo para o outro
Esse ciclo tem-se repetido por décadas, e é o que tenho me apercebido
Neste tipo de historias clichês há sempre apenas um final
Deve existir por entre esse dias de verão repetitivos
Mal te empurrei para o outro lado da rua, o caminhão acertou-me diretamente
A cor do sangue espalhada refletiu nos seus olhos e no teu corpo petrificado
O calor chocado irritava-se enquanto eu ria "Toma o que mereceste "
Esse dia de verão que parecia ser normal
Levou ao fim de algo
No dia 14 de agosto ao acordar na sua cama
Uma rapariga murmurou
"Falhei outra vez" enquanto abraçava um gato...
Parou de escrever naquelas linhas. A folha estava quase cheia, e ela gostava de usar todo o espaço, porém não sentia mais necessidade de continuar. Tirou a folha da máquina e encarou as duas folhas que já tinha escrito. Correu os olhos com curiosidade enquanto tomava cuidado para não pular uma linha sequer.
Satisfeita, atirou duas bolas amassadas em direção ao canto do quarto, onde elas permaneceriam escondidas até o final do dia. Onde, talvez, a Lua não as encontrasse.
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