Púpilos da máfia
3 O Almoço: Florence Churill
Notas iniciais
Era clara a tensão que havia na mesa, isso não se devia aos mafiosos mais velhos, meu pai e Carlo conversavam animadamente, e isso era uma característica inacreditável de alguém que criara a máfia como meu pai. Ele era uns dez anos mais velho que Carlo, e a diferença era não só fisicamente visível como também era possível analisar os dois devida a confiança que tinham um com o outro. Apesar do tempo na máfia Carlo, ainda um Sottocapo — mas pronto para se tornar Don — tinha um tique ao conversar sobre planos com outro mafioso, ele erguia a sobrancelha esquerda toda vez que meu pai citava o dinheiro envolvido com o tráfico de armas em Salina, a cidade vizinha a que morávamos, o foco do comércio ilegal bélico do país, e se todos os mafiosos não tinham envolvimento naquilo, pelo menos 99% deles, tinha, com certeza.
O principal negócio dos mafiosos de Litoria, nosso país, são os Cassinos, as casas de Strippers, boates e derivados, mas coisas com armas e drogas acabam entrelaçando com o fio principal. Era por esses fios entrelaçados que estávamos naquele agradável almoço. Don Herdig, pai de Carlo, tinha um intermediário, e sabia que um dos familiares dos Kriston, outra família, estava vendendo drogas nos nossos bares em Salina. Segundo o principio Cosa Nostra, não se pode ou deve se apossar de dinheiro de outras famílias de mafiosos, e no momento que isso ocorria no nosso bar, as coisas envolviam o nosso dinheiro. Por isso eu tinha certeza que fosse o Kriston que fosse ele levaria uma surra do meu pai.
Quanto a minha participação no almoço, se baseava em prestar atenção nas músicas que uma mulher cantava no fundo do restaurante, as músicas se mantinham com um foco nos anos 20 e por isso algumas me faziam sacudir a cabeça enquanto esperava a salada que eu tinha pedido, quanto a Matthew, ele estava apenas sentado na minha frente, tentando prestar atenção tanto na conversa quanto em mim, e era engraçada a cara de desentendido que ele fazia.
— Talvez devesse focar só na conversa – Comentei olhando para a cantora – Vai ficar com menos dor de cabeça ao sair daqui.
Ele soltou um riso e abriu um sorriso lateral.
— Você é bem atenciosa – Ele comentou focando em mim.
— Eu diria detalhista – Respondi virando lentamente o rosto para ele – Mas, na verdade, era bem óbvio na sua expressão que estava tentando estar atento em duas coisas diferentes.
— E qual o problema? – Ele perguntou.
— Não tente prestar atenção na conversa deles, se eles precisarem de nós eles vão chamar – Respondi erguendo as sobrancelhas para ele em sinal de compreensão.
— Você age como um capo, mas não passa de uma... – Antes que ele pudesse terminar sua frase, inconscientemente dita, completei a sentença.
— Não passo de uma Consigliere? – Falei enquanto elevei minha taça de vinho e o observei com desdém, era obvio que sua participação da famiglia era mais uma obrigação do que uma tradição bem aceita – Saiba que eu estou envolvida com isso desde os nove anos e apesar de ser mulher e ser mais nova que você, sei muito mais sobre o que eles fazem do que você...
Senti o olhar do meu pai pesar sobre mim, eu sabia que ele apenas observava com o canto do olha mas a frieza vinha como um vento de inverno, ele estava em negócios e eu podia atrapalhar tratando o filho de um Sottocapo daquele jeito. Matthew ficou me observando por alguns instantes, enquanto eu discretamente suspirava e retornava a meu sorriso falso e facilmente detectado como tal, a música voltou a correr em minha mente e deixei que o meu novo amigo falasse.
— Eu não sabia que você era Consigliere...- Ele falou sincero, então observei-o mais atentamente – Pensei que fosse cargo para pessoas mais velhas.
— E é, mas meu pai confia mais em mim do que em qualquer pessoa – Respondi – E faço o que posso para manter essa confiança, por isso estou nesse cargo, mas não me assustaria em levar um tiro na cabeça do meu próprio pai se fizesse algo para que ele duvidasse de mim.
— Isso é um pouco assustador – Ele falou achando um pouco sinistro e um pouco engraçado ao mesmo tempo, não sabendo que aquilo era realmente a verdade.
Ficamos em silêncio por alguns instantes enquanto nossa comida chegava, eu tinha perdido todo o apetite, mas por insistência do meu pai, eu consegui comer metade do meu prato enquanto observava o restaurante com mais atenção. Era um lugar simples, com paredes cinzas que o deixavam obscuro, era pequeno, e tinha a disposição pouco mais de seis mesas, apenas uma grande janela para a calçada e luzes cobertas por panos vermelhos que deixavam o ambiente ainda mais obscuro. Era um dos lugares favoritos para encontros mais escondidos do meu pai, e a comida era natural, vantagem para mim, que sou vegetariana. Chamou minha atenção quando a senhora que cantava aumentou sua voz com Feeling Good de Nina Simone, a observei atentamente enquanto absorvia a música da minha cantora favorita.
— Gosta desta música? – Ouvi Matthew perguntar.
— A letra é algo que queria levar para vida – Respondi – Sentir-me livre como um peixe no mar, seria maravilhoso.
— Mas viveria com medo de tubarões – Ele respondeu estrategicamente, fazendo com que eu me virasse para ele.
— Eles são menos perigosos que nossos pais – Respondi erguendo um lado do meu lábio.
Ele riu com o comentário e pude observar seu sorriso com mais atenção, apesar de ser um sorriso inocente, continha, como se fosse algo constante e natural, um toque divertido de malicia, ele era um cara muito bonito, fosse quem fosse isso era inegável, era muito mais inocente do que eu e muito menos preparado para as consequências que podiam vir daquilo a qual estávamos envolvidos, distraidamente ele passava a mão pelo curto cabelo louro revelando os olhos cor de mel ou amêndoa, seus lábios eram finos, mas formavam uma linha perfeita em seu rosto, e seu olhar distraído o fazia até charmoso. “COSA NOSTRA” veio em minha cabeça e me virei um pouco envergonhada, sem saber porque.
— Florence? – Meu pai chamou e eu levantei o olhar para ele um pouco desconcentrada – Vamos filha?
Assenti e me levantei, meu pai se despediu de Carlo e eu segui seus passos lhe apertando a mão e dando-lhe um beijo no rosto, ao se despedir de Matthew meu pai falou alguma coisa em seu ouvido e depois apenas lhe deu um tapa nas costas, mas o cara não parecia afetado, só um pouco confuso. Fui até ele e ofereci a mão em sinal de despedida, ele apenas sorriu e balançou a cabeça, mas ao pegar minha mão levou-a até os lábios, mantive o olhar frio sobre ele e não me incomodei com a tentativa dele em fazer com que me sentisse mal. Apenas agradeci o almoço e segui meu pai.
Passamos pela porta do restaurante em direção ao carro que já estava a nossa espera, entremos no banco traseiro e esperei meu pai dar as ordens ao motorista, que ainda dava a volta pelo carro para chegar em seu lugar.
— Para onde agora, Don Churill? – Disse Thomas se referindo a meu pai, quando ele era chamado de Don, cenas de o poderoso chefão vinham na minha mente, e imagina meu pai como Marlon Brandon no seu digníssimo papel de Don Corleone, mas na verdade, em meus olhos, era só meu pai.
— Salina, King Street – Ele falou inexpressivo, me deixando curiosa com o endereço.
Enquanto eu me arrumava, desprendendo o meu cabelo e o deixando livre em minhas costas, tentava entender a mudança de destino do meu pai, mas o único modo de descobri-la, era perguntando.
— Posso saber por que estamos indo para Salina? – Perguntei, esperando permissão.
Ele concordou e começou a sua explicação.
— Joshua Kriston é nosso querido traficante, que merece uma lição – Ele respondeu, e eu apenas ergui uma sobrancelha – Ele é nosso alvo, seu alvo.
— Meu? – questionei, não tinha costume de fazer esse tipo de trabalho.
— Quero que você mostre a todos que não estou cometendo um erro jogando uma mulher tão jovem no meio de tudo isso – Ele explicou – E por isso quero que dê o seu melhor, dê uma lição nele, bem dada e depois o mande para longe de Litoria, entendeu?
Com um meio sorriso no rosto, assenti e olhei para frente.
— Perfeitamente.
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