Pérgamo
2 Capítulo 2
Sexta-feira. Faith voltava para casa no mesmo horário do dia anterior. Estava feliz por estar na janela do lado contrário ao sol, mais feliz ainda por ter ao seu lado alguém que não a sufocava. Os fones estavam em suas orelhas mas deles não saía musica alguma, ela apenas se perdia nos próprios pensamentos.
— Você viu a notícia que saiu no jornal essa manhã? — perguntou o estranho.
— Desculpe? — indagou Faith para certificasse de que era com ela.
— A noticia que saiu no jornal hoje de manhã, você viu?
— Não… — disse a garota sem muita animação, sem saber qual a intenção da pessoa que atrapalhava seus devaneios, mas percebendo que ele aguardava um sinal para que pudesse continuar o assunto, então completou sua fala — Qual foi?
— "Em protesto à fazendeiros, militantes invadem fazenda e cortam barriga de vacas prenhas" — citou olhando para um horizonte fictício como se pudesse ler a noticia bem a sua frente, continuou virando-se para a garota — deixando-as sangrar até a morte!
Faith não havia lido, mas essas noticias sempre a deixavam enjoada e desesperançosa.
— Humanos são a escória. — balbuciou a garota por fim.
— Eu sei, certo? É o que eu sempre digo! Ora se eu pegasse um filho da... Perdão, um desgraçado desses, não sei o que eu faria! — manifestou-se o homem.
Ela sabia o que gostaria de fazer. Ela tinha vontade de fazer, mas não poderia revelar seus desejos sem que fosse chamada de louca, nazista, desumana.
— Quero dizer, o que uma pessoa dessas merece? — continuou o estranho.
— Prisão perpétua. — respondeu ela, mesmo que não fosse esse seu pensamento verdadeiro.
Ela levantou a cabeça virando-se para o moço, seus olhares se encontraram. Naqueles segundos parecia que o tempo havia parado. Tudo passava em câmera lenta, ela sentiu como se houvesse encontrado algo que não sabia que havia perdido, um conforto, um entendimento, um lar.
Ele sorriu para ela, os olhos de ambos não se mexiam.
— Eu não acredito em você. — murmurou o estranho.
— Não? — perguntou ela, curiosa com sua observação.
— Diga-me, — ela apenas conseguia ouvi-lo. Sua respiração e sua voz tomava todo o mundo. Não havia barulho externo, nem das pessoas conversando nem dos carros a sua volta. Seu cenário era preenchido com os olhos âmbar que a fitavam de volta, todo o resto não passava de um borrão que sumia ao poucos enquanto ela se perdia naquela visão — o que você acha que eles merecem?
Ela não podia, não devia falar. Sequer conhecia esse homem, embora sentisse que fosse um pedaço de si. Algo em sua mente a forçava a querer confiar nele com sua própria vida, a contar todos os seus segredos.
— Eu acho... — ela era compelida a conta-lo, mas seu consciente sabia que não era correto, a luta continuou por alguns segundos mas era inevitável — tortura, eles merecem tortura.
O estranho fingiu surpresa, não muita, apenas uma erguida de sobrancelha para não parecer complacente embora o resto de sua expressão fosse de claro interesse.
— Como você faria? — perguntou ele num tom baixo que apenas ela parecia ouvir.
Ela não queria contar, mas precisava, não era sua escolha.
— Deixa-los imóveis em uma cama de cirurgia e cortar sua camada adiposa, expondo-o por completo. A partir dai ele teria cerca de duas horas de tortura intensa, todos seus órgãos internos seriam possíveis de manipular, a dor de nó intestinal, o sufocamento causado por lesões pulmonares, a dor de sentir um pedaço do seu fígado arrancado, ou mesmo a extração sem anestesia do apêndice. É claro que sempre temos a castração como opção de causar dor, no entanto seja qual tenha sido a opção escolhida, é importante não matá-lo no processo. Colocar bactérias, aquelas decompositoras de tecido vivo, espalhada por seu tórax a aberto. Fechar seu corpo e esperar.
— Esperar pelo que? — a pupila negra do homem estava dilatada de tesão, cada palavra dita por ela soava como um esporro vindo dele.
— Esperar que morresse, lentamente, sentindo a dor, incapaz de evitar, de fugir, de pedir ajuda. Os gases liberados pelas bactérias o inchariam, ele ficaria grotesco. Como saber do que ele morreu? Fome? Infecção? Dor? Ele a fez sofrer, ele merece sofrer.
Num solavanco a hipnose foi interrompida, ouve uma freada brusca que os empurrou para frente, desconectando os olhares, ela sentiu como se tivesse caído de oito andares dentro da realidade. Sua pele queimava. Olhou ao seu redor e percebeu que estava próxima de seu ponto, levantou-se envergonhada e confusa demais sobre o que havia acontecido para conseguir ver a face do homem.
— Meu nome é Samael — disse ele quando ela passou.
Faith foi embora sem olhar para trás.
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