Pérgamo

3 Capítulo 3


Faith não lembrava do rosto do estranho no ônibus, mas os olhos âmbar a seguiram nos sonhos durante uma semana, acompanhado de suores noturnos, pesadelos e até mesmo paralisia do sono. Sempre que conseguia acordar tentando livrar a mente das imagens perturbadoras, sentia que havia algo a observando no escuro. Um vulto que passava rápido demais, escuro demais e através de sua mente racional era interpretado como uma tentativa de adaptação de seus olhos às sombras.

Já faziam sete dias que não dormia direito. As consequências disso eram bem evidentes: falta de atenção, surgimento de leves olheiras arroxeadas ao redor da pálpebra e falta de apetite por conta de um náusea incessante.

Ela já havia desistido de tentar recobrar o sono no quarto dia de tortura mental, ao invés disso passava o resto da madrugada na internet, vendo filmes ou besteiras que a fizessem desligar a própria mente.

Sabendo que isso iria acontecer esta noite, Faith pegou indicação de várias série com alguns amigos, precisava lembrar-se onde havia anotado. Mochila.

Acendeu o abajur negro em cima de seu criado-mudo, a luz amarela fraca se espalhou pelo quarto, tornando-o uma grande penumbra. Engatinhou até o pé de sua cama onde sua mochila estava jogada. Sem muita paciência abriu o zíper e puxou o caderno. Sua espiral parecia estar presa em algo, puxou com mais força. O caderno saiu, mas trouxe junto com ele o estojo (ela agradeceu internamente por tê-lo mantido fechado ou teria sido uma verdadeira chuva de lápis e canetas), seu Kindle e um livro. O livro. Aquele estranho livro que não era pesado ou grosso, apenas uma capa sem nada gravado, um livro certamente misterioso.

Esquecendo-se do objetivo principal, tornou a sentar-se encostada na cabeceira da cama portando o livro em mãos.

Quando o abriu não sabia o que esperar, cogitou um diário perdido, grimório de magia ou mesmo um livro estrangeiro. Oração.

São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate; sede nosso auxílio contra as maldades e ciladas do demônio. Instante e humildemente vos pedimos que Deus sobre ele impere, e vós, Príncipe da milícia celeste, com esse poder divino, precipitai no inferno a Satanás e aos outros espíritos malignos que vagueiam pelo mundo para a perdição das almas.

Era uma bíblia? Não fazia sentido, era fino demais. Ela conhecia aqueles versos, sua avó já havia declamado para ela diversas vezes em noites tempestuosas e mesmo deitada em seu leito de morte, no hospital Saint John.

Faith, por mais irônico que pareça, não era uma pessoa religiosa. Ela era agnóstica mas possuía surtos frequentes de ateísmo. Fechou o livro e orou como a muito tempo não fazia. As palavras não representavam nada para ela, apenas lhe trazia conforto e saudades.

... ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum...

A garota tentava lembrar-se de alguns versos ensinados por seu pai antes de se matar.

Ela perdera muitas pessoas na vida. Sua mãe morrera no parto de forma inexplicável, seu pai cometera suicídio quando ela tinha sete anos e sua avó enfrentara um câncer a cerca de dois anos, também deixando-a. Quando perdeu seu pai, Faith passara a morar com sua madrinha e tia, Elaine, irmã de seu pai, mas que a tratava como filha desde o nascimento.

Elaine era casada com Davi, ambos médicos, sempre ocupados com o trabalho, mesmo com todo amor e conforto material que tentavam dar à Faith, ela acabou crescendo muito sozinha. No entanto nunca se sentiu solitária.

Todos da família pensaram que ela passaria a vida em psiquiatras, imersa num profunda depressão. Por conta disso Elaine ficava ao seu lado para que não houvesse um vácuo muito grande em sua vida em relação ao agente materno. Quando seu pai desistiu, escreveu em sua carta de despedida que Faith era muito mais forte na idade que tinha do que ele poderia jamais ser, ele gostaria de saber como. O resto de seus parentes não sabia como reagir ao tomarem conhecimento de sua mortem, passando boa parte do tempo distraindo a menina, levando-a em viagens, fazendo o máximo para que não perguntasse do pai. Com a idade ela foi entendendo o que estava acontecendo, mas não sentiu-se triste. Sinceramente, mal lembrava deles. Sentiu um grande pesar por não estarem junto a ela, mas Faith sentia-se muito amada em seu lar com Elaine e Davi.

No seu ano de debutante ela viu a avó morrer, foi a primeira vez que de fato ela ficou de luto. Dessa vez no entanto todos tinham certeza que ela teria de ver um médico para de recuperar. Erraram. Ela passou de fato vários meses de luto, mas então ela havia superado assim como todas as outras pessoas.

Não é que ela seja insensível ou coisa parecida. É claro que ela se sentia triste, mas era como se ela tivesse uma visão maior de tudo aquilo. Não uma aceitação ou conformismo, nunca houve em sua mente a crença de um lugar pior ou melhor. Céu para sua avó ou inferno para o seu pai jamais passara por sua cabeça, para ela ambos foram para debaixo da terra e fim.

Mas agora lá estava ela, rezando o salmo 23. Invocando do fundo de sua memória o traço familiar mais longínquo que se recordava.

... a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor por longos dias; amém

Lágrimas rolaram e ela dormiu o resto da noite com a luz ligada e o livro na mão.

Notas finais
Espero que gostem :)