Notas iniciais
Essa é uma história que queria ter postado há um tempo e que felizmente tive oportunidade.

Maya acordou com o som da chuva crepitando sobre a janela do quarto. Abriu os olhos lentamente, percebendo estar cercada pela escuridão da noite, onde apenas a luz da lua entrava do quarto. Movendo as mãos por seu rosto, levantou-se espreguiçando o corpo e sentindo a letargia do sono a abandonando aos poucos. Puxou o lençol com suavidade ao redor do corpo, inclinando para pegar o celular na mesa de cabeceira sentando-se na beirada da cama.

Ainda não tinha recebido a mensagem que estava esperando, o que a deixou mais ansiosa do que o normal. A resposta instintiva do seu corpo foi procurar pelo pacote de cigarro que estava sempre a mão e bufou ao ver que não tinha nenhum sobrando. Felizmente ainda era cedo e desde que tinha acabado de escrever seu livro tinha tempo de sobra. A lembrança de seu novo livro e o conteúdo dentro dele fez com que sua ansiedade aumentasse. O motivo era simples: a inspiração de sua história estava deitada bem atrás dela.

Espiou por cima do ombro, vendo-o respirar tranquilamente e sem nenhum incomodo aparente. Quando despertou com os grossos pingos de chuva batendo contra o vidro, esperava os habituais gemidos de dor e xingamentos de frustração saindo daqueles lábios que deveriam se ocupar com palavras de amor. Reteve a vontade de tocar na única parte do corpo que ele julgava ser imperfeita, que não pertencia a ele e suspirou por não controlar os batimentos de seu coração. Maya levantou devagar com medo que se o acordasse a dor voltasse a tomar conta do corpo dele. Vestiu-se com rapidez e na ponta dos pés deixou a casa, parando apenas para apanhar o guarda chuva atrás da porta.

Ela esperava retornar antes que ele desse falta de sua presença. Se esforçaria para isso, para não ser mais uma perda. Arrependeu-se de não ter escrito um bilhete, optando por equilibrar o guarda chuva entre o ombro e a curva do pescoço para escrever uma mensagem. Prometia que voltava em breve. Apressou os passos pela rua, tomando cuidado para não ser vítima das poças de lamas jogadas pelos carros. Antes que guardasse o celular no bolso, senti-o vibrando em sua mão e sorriu como se tivesse dezessete anos imaginando ser uma resposta dele.

Eles amaram o livro. Querem publicar o mais rápido possível— seu agente tinha escrito.

Ela riu com a emoção que não sentia a anos dando passos corajosos pela rua. O bar estava a poucos metros dela e poderia comemorar fumando seus últimos cigarros. Sim, últimos! Depois do que passou queria ter certeza de estar com a saúde plena. Prometeu a si mesma que nunca mais tocaria em um maço depois desse. Por poucos segundos mentalizou estar de frente para a mesma mulher insegura de meses atrás, colocando a mão em seu ombro e a encarando de maneira orgulhosa.

— Você vai conseguir! Não se preocupe — imaginou-se dizendo enquanto a outra figura assentia.

Talvez pudesse ter alertado a si mesma no passado sobre o que aconteceu em seguida. Primeiro, sobre não mexer em celulares no meio da rua, nem que fosse para mandar mensagem para a sua inspiração contando que tinha vencido suas barreiras assim como ele. Demorou um tempo para Maya perceber que não era apenas a luz do celular que iluminava seu rosto e quando ergueu o rosto era tarde demais.

Ele não acordou com o barulho da chuva, nem com as dores que por anos o acompanharam. Mas, sim, com o som de um impacto.