Páginas sobre a chuva

2 Bebidas e cigarros: um vício de pai para filha


Quando Maya despertou com o telefonema de seu agente, percebeu que havia alguma coisa muito errada. Passou os dedos por seu rosto, encarando o teto de seu pequeno apartamento no Brooklin e se preparou para atender Gerry.

— Espero que esteja sentada — ele disse sem a cumprimentar.

— Acabei de acordar, isso serve? — respondeu virando-se na cama e suspirou ao ver que estava sozinha. Ainda era difícil lidar com a ausência de Darren desde o divórcio, mas como sua amiga Lisa sempre repetia, era questão de dar tempo ao tempo. Sentou-se, não querendo ser embargada pelas lembranças e passou os dedos por seus cabelos ondulados. — Aconteceu alguma coisa?

Gerry ficou em silêncio por alguns segundos, como se decidisse como era a melhor maneira de dar a notícia para Maya. Ele sabia que a mulher não sabia lidar bem com notícias ruins e com aquela não seria diferente. Maya respirou fundo para não reclamar da demora na resposta de Gerry, mas se fechasse os olhos poderia se imaginar segurando na cabeça calva do homem de meia idade e o sacudindo até arrancar as respostas necessárias.

Ele pigarreou.

— A editora acabou de ligar e disse que você tem mais três meses para mandar o novo livro. — ele disse fazendo Maya ficar boquiaberta. Antes que pudesse argumentar, ele acrescentou: — E eles querem algo realmente novo, fora de sua zona de conforto. Ou sua zona de mistérios, como queira chamar.

Coçando a testa, Maya respirou fundo.

— O que eles querem exatamente?

— Um romance, Maya. — esclareceu e a escritora suspirou assentindo consigo mesma. Era a resposta que mais temia. — Sei que não está em condições de escrever um, mas acho que será uma boa chance de se reerguer. Qual foi a última vez em que publicou algo? Dois, três anos? Um romance vai ser um choque para os seus leitores que já estão acostumados com os livros criminais, mas pense nas pessoas que tanto reclamavam que você não desenvolvia determinado casal. Todos vão ficar felizes com a sua nova obra e curiosos com a sua mudança.

Maya tinha que admitir que Gerry estava certo. A última vez que apareceu em uma notícia foi quando seu divórcio foi anunciado, meses atrás. Chegou a receber cartas dos fãs que torciam para que ela e Darren se acertassem por mais que fosse em vão. Ainda assim, um romance era a última coisa que poderia ser escrita e planejada por ela. Seu coração ainda estava ferido e a saudade era grande, todavia nada se equiparava ao ódio que por muitas vezes tomava seu corpo.

Com essa confusão mental, a possibilidade de ter uma nova obra em três meses era praticamente nula.

— Eu tenho escolha? — questionou.

— Temo que não. Sei que vai conseguir, Maya! — Gerry encorajou. — Tenho que desligar. Boa sorte. Ah, e mande feliz aniversário para a sua mãe. — desligou.

O aniversário de sua mãe. Maya tinha esqueci completamente que era naquele dia. Reteve a vontade de dar um tapa em sua cabeça e se levantou da cama. Parou no caminho até o banheiro e deu mais uma olhada na direção da cama vazia. Escrever um romance seria um real desafio.

*********

Era o terceiro cigarro que fumava desde que acordou. Estava recostada em seu carro de frente para a rústica casa pertencente a sua família enquanto tragava lentamente e soprava a fumaça. Alguns membros da família eram visíveis pela janela, na maioria crianças correndo de um lado para o outro. Estava prolongando a entrada na casa e não se arrependia disso. Parecia que quanto maior a distância que queria manter dos familiares, mais eles queriam saber dela.

Maya suspirou antes de jogar o restante do cigarro no chão e pisar na butuca. Parou para se olhar no reflexo e ajeitar o que não estivesse perfeito. Sua pele negra escondia um pouco das olheiras pelas noites mal dormidas. Seus cabelos escuros e ondulados desciam por seus ombros, moldando seu rosto redondo e os olhos amendoados. Forçou um sorriso e se satisfez com o resultado.

Assim que entrou foi recepcionada por suas três tias e os primos saudosos. Forçou o sorriso ensaiado e o manteve mesmo quando suas tias disseram que lamentavam pelo divórcio. Elas nunca a tinham parabenizado pelo trabalho.

— Onde está minha mãe? — teve que praticamente gritar para ser escutada em meio a música alta, conversas paralelas e a brincadeira das crianças.

— No escritório — Leslie, sua tia mais velha, disse. — Ela está há um tempo lá dentro. Deveria ir ver como ela está.

Maya assentiu indo na direção da mãe. Teve que desviar de alguns primos pequenos que corriam e cumprimentou brevemente os que tinham quase a sua idade. Talvez fosse desconectada deles por ser a prima mais velha e estar acostumada em estar sozinha. Quando adentrou o escritório de seu pai, uma corrente de lembranças a abateu. Infelizmente a maioria não era boa.

Seus olhos observaram cada canto do cômodo vendo as diversas garrafas de bebidas que seu pai tanto apreciava. Sua boca se torceu ao encontrar sua mãe segurando uma garrafa de uísque e a encarando. Era quase como se ela esperasse que seu pai ressurgisse atrás daquilo. Mas os rins dele o tinham abandonado depois de anos abusando da bebida. O magro corpo de Margareth Kincaid, mãe de Maya, se encolheu mais ainda antes de devolver a garrafa para o devido lugar.

Era um alívio encontrar sua mãe sem nenhuma marca roxa pelo corpo ou querendo justificar o comportamento abusivo do marido, querendo culpar somente a bebida e não quem consumia. Margareth se assustou ao se virar e ver sua filha parada na porta, mas rapidamente substituiu a expressão saudosa por alegria.

— Querida, você me assustou — ela disse abraçando Maya que retribuiu. Sua mãe era a única pessoa daquela casa com quem conseguia ser verdadeira. — Pensei que não viria. — ela disse. Torceu o nariz ao se afastar e pressionou os lábios. — Andou fumando? Isso pode te matar, Maya! Fumar é um vício nojento.

— Beber também e não me recordo de você reclamando com meu pai.

— É e agora ele está morto.

Demorou alguns segundos para perceber que sua mãe parecia nervosa. Olhava para os cantos do cômodo, como se uma assombração fosse surgir a qualquer momento, e esfregava uma mão na outra. Engoliu em seco diversas vezes antes de forçar o sorriso novamente. Para quem era fingidor, como Maya, enxergar a mentira era fácil.

— Está tudo bem? — indagou estreitando os olhos.

Margareth riu.

— Claro que sim. E você?

Maya suspirou.

— Gerry ligou dizendo que a editora me deu um prazo para um novo livro. — ela disse querendo manter a atenção da mãe nesse assunto e não em algo que envolvesse seu divórcio. — Só que dessa vez querem que seja um romance.

Os olhos escuros de sua mãe brilharam empolgados.

— Isso é ótimo, querida. Sempre quis te ver em gênero diferente dos mistérios sangrentos. — confessou se arrepiando. — De qualquer maneira, você tem o meu apoio e da família inteira.

Maya assentiu.

— Estou pensando em passar um tempo fora. — confidenciou, vendo-a arquear uma sobrancelha. — Lisa me ofereceu a casa dela em Miami. Estou a meses naquele apartamento vazio e não consigo escrever nada. Preciso me afastar um pouco.

Margareth deu um olhar solidário para sua filha e pegou em sua mão apertando entre os dedos calejados.

— Quando quiser conversar sobre o que aconteceu... — deixou a frase em aberto, mas Maya entendeu o que ela queria dizer.

— Nossas tias estão preocupadas com você. Está há muito tempo aqui.

Margareth encarou as garrafas de bebida novamente e suspirou. Maya sentiu pena de sua mãe por sentir saudades de algo que sempre a machucou. Durante sua adolescência teve ódio do pai e só sentiu devidamente protegida quando se mudou. Temeu por sua mãe durante anos, visitando-a sempre que possível e Margareth nunca tinha tempo de esconder as marcas das surras. Poderiam apedrejá-la, mas se aliviou quando viu o caixão com o corpo de seu pai descendo por sete palmos de terra.

Tinham se passado cinco anos, mas era como se seu pai ainda estivesse vivo em cada uma daquelas garrafas. Ela tinha o cruel pensamento que todos os homens de sua vida tinham a decepcionado. Seu pai, seu tio, seu ex-marido... A lista era grande.

— Não consigo sentir falta dele — murmurou atraindo a atenção de sua mãe. — Antes tinha tanta raiva, mas depois que ele morreu foi... — deu de ombros. — Como se um estranho tivesse morrido.

Margareth ergueu um dedo na direção do rosto de Maya.

— Você não sabe o motivo de ele ser daquele jeito.

— Sim, mãe. Eu sei. Ele era um alcoólatra nojento. Essa família é cheia de vícios nojentos, como o meu por cigarro ou o da tia Rose por jogatina. E nem preciso mencionar o tio Samuel, preciso?

Maya viu sua mãe ficar exasperada.

— Nunca mais mencione esse nome novamente! — ela berrou. — Esse homem destruiu a nossa família.

— Ele pode ter sido o gatilho, mas o estopim foi meu pai. — Maya passou a mão pelo rosto percebendo que estava perdendo toda a calma e soltou o ar. — É melhor eu ir embora, mãe. Preciso fazer as malas. Feliz aniversário. — virou-se de costas abrindo a porta do escritório e percebeu que a maioria dos seus parentes tinha parado seus afazeres para prestar atenção na conversa. Todos se assustaram ao ver Maya e fingiram uma conversa.

— Seu pai se culpava por aquilo o que aconteceu. — Margareth sussurrou.

Maya abaixou a cabeça encarando seus sapatos.

— Ele culpava a todos nós, mãe.

Ela foi embora sem se despedir de ninguém, não hesitando em ligar o carro e dirigir para longe. Parou no estacionamento de seu prédio e bater no volante com a raiva que conteve. Catou o maço em seu bolso, botando um cigarro em sua boca e o acendendo. Recostou sua cabeça no banco e suspirou aliviada.

Essa era a única herança que seu pai tinha deixado. Um vício para escapar dos problemas.