Purr-suation
3 Patrols
Notas iniciais
— Você está muito fora de si, não acha, gatinho tolo? — Perguntou a mascarada enquanto encarava o parceiro.
O louro virou-se no mesmo instante com confusão expressa no olhar. A garota morena sorria de maneira desafiante enquanto o vento suave batia em seus cabelos. Sua perna pendia ao ar devido à sua posição sobre o teto da Opera Garnier. O garoto estava na posição que normalmente ficava quando vestia o uniforme: apoiado pelas pontas dos pés, assim como um gato.
Assim que seus kwamis lhes foram concebidos, os dois jovens passaram a ter características dos respectivos animais. A postura, hábitos alimentares, modos, impulsos, inclusive os gostos—principalmente os gostos. Marinette passara a optar por alimentos mais naturais, como frutas, verduras, entre outros. Também recebera doses de carinho e mais amor. Sem contar a confiança que conseguiu, por mais que não fosse tanta, chegava a ser grande progresso. Já Adrien havia comido mais peixe do que o normal. Sua bebida favorita havia se tornado leite. Sua postura e maneira de sentar haviam mudado. Ele conseguia ser mais ágil que qualquer um ao seu redor, podia entrar em qualquer lugar sem ser notado. Sua higiene havia se tornado mais frenética: tomava cerca de quatro banhos ao dia, e se irritava com qualquer sujeira. Céus! Ele até ronronava!
Naquela noite, Ladybug, a super-heroína mais famosa da cidade, estava praticamente de repouso. Ela não teve tempo para comer antes da patrulha, já que havia trabalhado em alguns designs novos. Chat Noir, como seu bom parceiro, sugeriu que deveriam passar em algum drive-thru para comprar comida. Não era uma má ideia, então a garota topou, e assim foram na direção de algum local que parecesse interessante. A expressão dos atendentes fora de tão surpresa que nenhum dos dois heróis esqueceriam tão cedo.
E lá estavam eles, no topo de um dos maiores monumentos da cidade: a Opera Garnier. A famosa construída durante a grande reforma da capital francesa orquestrada por Napoleão III e o Barão Haussmann. O local servira de cenário para diversos filmes ou programas, e era um dos locais favoritos de Marinette. Ela amava o inverno porque era quando a programação cultural parisiense abria com grandes diversidades.
— Eu? — O garoto procurou por algo dentro da sacola de viagem de comida e retirou, dali um hambúrguer de peixe frito e mordeu a ponta, pegando da mesma sacola maionese, rasgou com o dente, e colocou-a por cima da salada. — Eu estou perfeitamente normal, minha Lady.
— É a segunda vez que você deixa de escutar o que eu digo — resmungou a garota em meio à outra mordida no lanche, saboreando cada pedaço.
— Prometo que passarei a prestar mais atenção — concluiu ele ao morder novamente seu sanduíche e limpou os lábios com a parte de trás da luva — O que dizia?
— Falava sobre este seu sanduíche — a garota soltou um riso discreto. — Peixe, Chat?
— Hábitos de felino — disse o garoto ao sorrir de canto para a jovem. — O sabor é a-purr-xonante.
— Você não fez piada com isso — provocou a morena.
— Pode apostar que eu fiz — disse o garoto ao se aproximar dela. Seus dedos enluvados se aproximaram dos lábios rosados da menina e deslizaram até o outro lado, onde terminava a linha de abertura. Os olhos da jovem ficaram fixos aos dele, confusos, porém, surpresos. Ele soltou outra risada abafada e limpou os dedos em um guardanapo. — Ketchup — respondeu.
O olhar da garota baixou e ela passou os próprios dedos sobre os lábios para limpar o resto do conteúdo. Em sua visão, Chat Noir sempre fora o super-herói galanteador, mas por mais que a cantasse em grande parte do tempo, ela ainda o via como seu parceiro e a pessoa que mais confiava no mundo todo. Nunca escolhera depositar sua confiança nele, mas o destino traçara assim, e assim que seria durante um bom tempo. Se ela não acreditasse nele, os movimentos seriam falhos, e vice-versa.
Após aquele estranho momento, o ar foi preenchido com um clima incomum. Como Ladybug, Marinette nunca havia corado antes. Até porque sua forma heroína era tão confiante e segura de si mesma, que nunca havia falhado de forma tão absurda quanto naquele instante. Seus olhos azuis se levantaram e encararam os grandes e preenchidos verdes dele. Ele ainda sorria enquanto uma mecha de sua franja caía sobre um dos olhos.
— Quando foi a última akuma? — Perguntou a garota, cortando aquele silêncio que a torturava.
— Há quase uma semana — respondeu o louro. —, Hawk Moth deve estar aproveitando o inverno também.
— Isso não parece muito estranho para você?
— Não, minha Lady — o garoto jogou o último pedaço de seu sanduíche para o alto e o abocanhou. — Prefiro pensar que tudo continua normal.
Ele estava certo. Ladybug se preocupava demais com tudo aquilo. Como as akumas eram normais, a falta da presença delas causava certa anormalidade no ar. Talvez os cidadãos da cidade estivessem bem demais para se preocupar com as energias negativas—os principais atrativos das pequenas borboletas do mal.
Marinette olhou para o céu estrelado e mordeu o último pedaço de seu sanduíche enquanto observava as estrelas e tentava formar as constelações sem muito sucesso. A lua estava bela, minguante, um pouco mais à direita do centro escuro. Seu corpo parecia mais leve quando ela se concentrava no céu. A garota desviou o olhar de cima e o pousou abaixo, tentando enxergar o poste que tinha um relógio marcando 23:14. Ela tinha um trabalho de francês para acabar e também teria uma grande e importante reunião do grêmio estudantil. E ela tinha de participar, já que fora escolhida como representante de sala, ou seja, teria de anotar pedidos dos alunos antes do horário de almoço.
— Chat, acho que podemos encerrar — disse ela ao colocar o lixo dentro da sacola de viagem.
Ele assentiu e fez o mesmo que ela. Os dois se levantaram e pularam ao chão, caminhando até a lixeira mais próxima onde pudessem jogar os restos de embalagens e papéis.
— Boa noite, minha Lady — aproximou-se dela, colocou-se em um joelho e beijou-lhe a mão.
A garota afastou sua mão dos lábios do garoto-felino e sorriu, jogando seu ioiô no pilar de um dos prédios mais próximos, mas antes de puxar o fio e leva-la junto dele, o garoto colocou sua mão enluvada sobre o ombro coberto pelo uniforme de joaninha dela e a fez virar-se em sua direção.
— Algum problema, chaton? — Perguntou a garota, ainda segurando o fio.
— Você se lembra daquela garota que pediu para que eu desse cobertura quando o Evillustrator atacou? — Perguntou o louro e garota pareceu surpresa com a questão. Seu ioiô voltou para suas mãos e ela se virou de frente para ele, assentindo com a cabeça. — Marinette, sabe?
— Hm… sim. Por que? — Chat nunca havia visto a morena daquele jeito, nervosa.
— De onde vocês se conhecem?
No mesmo instante, Ladybug desviou o olhar de seus olhos preenchidos e começou a balbuciar palavras freneticamente. Seu comportamento era completamente estranho, e causou dúvidas no garoto. Qual seria o motivo dele perguntar sobre sua identidade real? Oh não, não pode ser! Ele havia juntado as peças? Ele havia descoberto?
— É uma amiga minha — a garota o olhou de relance, continuando: —, longa história.
— Ela é tímida, não?
— Eu não diria isto — respondeu a heroína. — Olhe, Chat, eu realmente preciso ir.
Antes mesmo de ouvir qualquer resposta vinda dele, a garota jogou seu ioiô no mesmo monumento de antes e saiu balançando no ar, a caminho de sua casa. Seu estômago estava completamente revirado, e ela sentia-se assustada, arriscada na própria identidade. Não era possível que Chat pudesse imaginar quem ela era sem a máscara estampada. Ela mudava muito ao se transformar na figura heroica da cidade.
Algo que Marinette pensou assim que tocou os pés no piso revestido em madeira de seu quarto, foi que todo cuidado tomado por ela ainda era pouco.
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Por que Adrien havia perguntado sobre Marinette?
Sua cabeça estava lhe torturando, não conseguiu processar os motivos de Ladybug partir tão cedo depois de ouvir a pergunta. Tímida? Por que perguntar se ela é tímida?, pensou o garoto. Assim que seu bastão tocou o piso do exterior da mansão Agreste, ele saltou para sua janela, onde sempre deixava uma fresta aberta, e adentrou seu quarto.
— Plagg, de-transformar — disse ele, tendo seu corpo dominado por uma luz verde que retornou suas roupas normais ao seu corpo.
O garoto olhou para o kwami que flutuava ao seu lado, com uma expressão dramática estampada no rosto. Do nada, o pequeno ser começou a rir e Adrien pôs-se irritado perante à situação.
— O que foi? — Perguntou o louro ao caminhar na direção de sua cama.
— “Ela é tímida, não?” — O kwami fez sua melhor imitação da voz do garoto e pôs-se a rir novamente. — Primeiro você sonha com ela, depois sai com ela, e agora pergunta dela para a Ladybug? Alguém está trocando o amor de sua vida por uma cidadã qualquer?
— Eu só queria saber os motivos dela ser tão diferente comigo do que com os outros — Adrien jogou-se na cama, olhando para o teto. — Você acha que ela ainda me odeia, Plagg?
— Não sei, me dê meu camembert e depois discutimos isto — o kwami balançou as patas e pousou sobre a nuca do garoto, que afundava seu rosto no travesseiro.
O garoto bufou e se levantou da cama, caminhando na direção da bolsa que usava na escola, dali tirando um pacote de camembert, o entregando para o kwami, que abriu a tampa ansiosamente, jogando um dos pedaços para o alto e engolindo-o sem piedade.
Adrien caminhou na direção do banheiro, decidindo tomar um banho para relaxar seus músculos tensos. Assim que se despiu e ligou a água quente, começou a pensar em seu sonho. Ele era apaixonado por Ladybug desde o momento que a viu com toda aquela segurança, salvando cidadãos e cuidando da cidade como se fosse sua própria vida. Marinette era a garota de sua sala, que sempre gaguejava ao seu redor, mas parecia ter confiança quando se tratava de outros assuntos.
E se ela ainda guardasse ressentimentos?
A maneira de como eles se conheceram não havia causado uma ótima impressão, já que o garoto fora pego por ela enquanto tentava remover o chiclete de Chloé de seu assento. Meses se passaram, mas Marinette continuava a agir de modo estranho perto dele. Como se ela estivesse desconfortável ao seu redor. Não conseguia terminar uma frase sem gaguejar em pelo menos uma das palavras, ou falar algo coerente. Seu pensamento à princípio fora que ela fosse tímida demais, mas suas atitudes provavam o contrário, e agora, Ladybug também era cúmplice.
A água quente escorria pelos ombros marcados em cicatrizes do garoto enquanto seu braço estava posicionado em uma das paredes. Seus olhos estavam fechados, tentando recapitular a cena de seu sonho. Por que havia sido tão bom? Tão real? Seria sua mente lhe dizendo que estava na hora de desistir de Ladybug?
Mas e se Marinette também o odiasse?
Um pensamento veio à cabeça do garoto de modo tão imediato que o surpreendeu ao ter um subconsciente tão à mostra. Seus olhos verdes se abriram e miraram o azulejo escuro, abrindo um sorriso de canto.
Marinette não sabia que ele era Chat Noir.
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