Purr-suation
4 Pardon
Notas iniciais
— Ladybug! — Um grito soou atrás da garota, que se virou no mesmo momento.
Ali ela viu apenas uma parte do rosto do mascarado que estava pendurado no pico da Torre Eiffel. A menina correu em sua direção e puxou-o pela luva de garras afiadas, fazendo o garoto voltar à posição de ataque.
— Vocês não podem me impedir de explodir! — O homem mascarado mostrou seus dentes em um sorriso maligno e se aproximou.
Desta vez, o cidadão akumatizado era um homem baixo e robusto, com um chapéu de jornalista e um macacão escuro, com mangas compridas e brancas. Seu rosto era coberto por uma máscara azul-marinho pintada sobre os olhos e ele possuía um microfone de repórter, que era de onde saíam suas explosões localizadas. Ladybug não conseguia imaginar de onde ele havia saído, ou o motivo para ter guardado emoções negativas, o que ocasionalmente atrairiam a akuma.
Depois de um tempo de luta, os dois heróis foram parar no topo da torre mais alta da cidade, junto do Explosor, como se autodenominava. Uma de suas explosões foi tão forte que atirou Chat Noir para a borda do topo, fazendo-o perder o equilíbrio e ficar balançando no ar até que Ladybug fosse resgatá-lo.
— Chat! — Gritou a garota. — A akuma está no microfone!
A garota usou o poder que seu kwami lhe proporcionava, o Lucky Charm, e conseguiu uma caixa de fogos de artifício. Seu primeiro questionamento foi do que ela conseguiria fazer com aquilo. Em seguida, sua mente começou a ajudá-la a montar estratégias e conseguiu pensar na perfeita. Posicionou-os perto dos grandes holofotes e olhou para Chat, indicando toda a estrutura ao seu redor. Pelo que pareceu, ele compreendeu o que ela quis dizer e usou o seu poder, Cataclismo.
Sua garra passou por toda a extremidade da estrutura, apodrecendo-a rapidamente, fazendo com que os pedaços estragados do aço caíssem sobre o Explosor como uma gaiola grande. Ladybug então acendeu os fogos com a explosão que o homem lançou sobre os holofotes. As explosões a seguir eram frenéticas e começaram a circular o repórter enquanto ele se confundia com tudo aquilo ao seu redor, deixando o microfone cair ao chão.
Chat pegou-o e jogou a peça para a garota, que sorriu e quebrou-o sobre sua coxa. A pequena borboleta roxa saiu voando e a menina fez seu famoso ritual de purificação.
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Já estava anoitecendo quando a segunda akuma da semana fora derrotada. Ladybug se encontrou rodeada de vários jornalistas enquanto segurava a vítima pelo braço, o levando para longe da multidão. Chat a seguia enquanto os microfones e câmera se localizavam em ambos. O garoto segurava seu bastão de modo confiante enquanto caminhava e sorria, sabendo que havia feito a coisa certa novamente. E melhor? Ao lado dela.
— Chat — disse a jovem, quase que num murmuro. — Eu preciso de-transformar.
— Eu te dou cobertura — respondeu o garoto enquanto dava um passo à frente dos jornalistas.
Ladybug enlaçou seu ioiô em alguma estrutura distante e puxou, levando-a com o equipamento. Quando os jornalistas se aproximaram para procurar a garota, o garoto exibiu seus bíceps cobertos pelo látex e lançou seu melhor sorriso galanteador, trazendo toda a atenção para si. Após ser coberto de perguntas sobre a outra heroína e as akumas, o garoto pode ver que seu anel estava bipando. Plagg deveria estar exausto.
Com uma desculpa, agradeceu-os e esticou seu bastão, acabando no topo de um prédio desocupado qualquer, onde realizou sua de-transformação. O céu já estava escuro quando Plagg caiu sobre as duas palmas unidas do garoto, que sorriu inocentemente para o kwami.
— Queeeeeeeeijo — exigiu o ser enquanto fazia a cena mais dramática que Adrien já havia visto.
Do bolso interior de seu casaco, retirou um embrulho que continha três pedaços de camembert. Ele pedia para o cozinheiro embalá-los bem, assim não tendo problemas com o forte odor que o queijo trazia.
— Três? Você está querendo me mimar hoje — disse o kwami ao engolir o primeiro pedaço em apenas uma abocanhada.
— Talvez — respondeu o garoto ao olhar para os lados.
— Agora me diga o real motivo — Plagg engoliu o segundo pedaço em questão de segundos.
O garoto desembalou o terceiro e entregou para as pequenas patas do ser que agora flutuava sobre suas palmas. A noite estava estrelada e calma, do jeito que ele gostava. Nada a reclamar. Ao encarar o olhar duvidoso do kwami, sorriu novamente e pôs-se a dizer:
— Coma com calma — olhou para o prédio há poucos metros de distância. — Tenho planos para esta noite.
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Uma sensação que sempre agradara a Adrien era a de saltar de telhado em telhado. Era algo que o fazia sentir-se livre, e ele não dispensaria por nada. Jamais. Depois de todos estes anos se sentindo preso em sua própria moradia, o garoto não conseguia mais manter-se parado. Tinha de se transformar no Chat Noir o máximo possível, até a sensação de prisão passar.
O garoto estava apoiado sobre os pés, com joelhos esticados para as laterais e as mãos sobre o telhado de um dos prédios. Seus olhos estavam vidrados naquela esquina onde se estabelecia a padaria, e ali ficou observando durante um longo período. Os pais de Marinette ainda não haviam fechado, e estavam com grande movimento naquele dia. Ótima distração.
Seus luminosos olhos verdes se localizaram, automaticamente, na janela redonda que ficava no último andar. Sabendo que a varanda dava para o quarto da menina, aquela janela só podia ser dele também. E a luz estava acesa. As flores que rodeavam o cercado delicado estavam quase murchas, então ele imaginou que ela talvez saísse para regá-las. Enquanto isso, seguiu analisando os elementos que compunham o cenário: a cadeira de praia, a pequena mesa, o cata-vento que girava com a brisa suave e parava, luzes ornamentais decorativas e mais plantas. Sem contar com o alçapão.
Adrien já esteve lá anteriormente, tanto como Chat, como ele mesmo. Mas como Chat não passou da varanda. E como Adrien, não passou do quarto. O garoto apreciava aquele espaço de maneira absurda. Desde pequeno, sempre teve o desejo de ter algum lugar na casa onde houvesse qualquer tipo de ar livre, como uma varanda, ou sacada, já que seu pai o impedia de brincar no quintal. Mesmo não tendo amigos, sua infância não fora tão horrível quanto a adolescência, pois era repleto de brinquedos caros e divertidos que ocupavam grande parte de seu tempo para, sequer, pensar em ter contatos sociais. Mas quando atingiu a adolescência, começou a ter contato com livros e filmes, percebendo que, as pessoas de sua idade, tinham amigos, colegas, inimigos e namoradas(os). E à medida que fora crescendo, seu pai começou a enchê-lo de responsabilidades de sua carreira de modelo. Começou a agendar cada vez mais ensaios fotográficos e deixar o garoto sem tempo para respirar. Fora com muito esforço que conseguira convencer seu pai de que não aguentava tudo aquilo, e que, também, precisava de contato com outras pessoas de sua faixa etária. De início, o Sr. Agreste não ficou satisfeito, mas logo, com algumas exceções e regras estabelecidas, “liberou-o”.
Como o esperado, Marinette surgiu do alçapão com um regador em mãos. A garota o posicionou no chão, ao lado de sua cabeça, e subiu o resto da escada. Ela vestia um pijama composto por uma camisa de manga longa branca e uma calça longa rosa, sem estampas. Por cima, um grande casaco cinza de tricô. Ela pegou o regador ao seu lado e começou a dar água às rosas que compunham o cercado. Chat decidiu que era hora de entrar em ação.
Com seu bastão, foi sorrateiro até o topo do outro prédio, descendo do teto e caminhando na direção da garota, para cumprimenta-la abaixo do céu escuro. As luzes ornamentais eram a única iluminação presente além das estrelas longínquas. Quando o louro fora colocar a mão sobre o ombro dela, a jovem deixou o regador cair, jorrando água sobre o chão, e pegara o pulso do garoto com uma de suas mãos. Seu corpo completamente virado na direção dele.
— C-Chat? — Perguntou ela, parecendo surpresa. — O que faz aqui? Você me assustou!
— Perdão, Princesa — ele levantou as mãos em modo de rendição enquanto a menina soltava seu pulso. — Aliás, belos reflexos.
A morena revirou os olhos azuis e o garoto sorriu de canto com a ação. Logo, Marinette se agachou para pegar o regador caído e bufou ao ver que toda a água de dentro havia caído. Posicionando o objeto de plástico acima da mesa, voltou a olhar para o garoto atrás de si.
— Agora, responda minha pergunta — colocou as mãos na cintura enquanto arqueava uma sobrancelha.
— Vim te visitar, Princesa — o garoto aumentou o sorriso. — Sentiu saudades?
— Responda minha pergunta, Chat — sua sobrancelha esticou-se ainda mais.
— Qual o problema em uma visita?
— O super-herói mais querido da cidade me visitando em uma noite aleatória, quais as chances? — Suas mãos soltaram-se de sua cintura e caíram em um cruzamento de braços acima de seu peito.
O motivo real, nem Chat sabia. Fora no impulso que decidira que tinha de visitar a garota. Ele a via todos os dias, podia fazer perguntas como sua forma desmascarada, mas ainda assim, ele sentiu que precisava vê-la com a máscara. Só assim ganharia coragem para ouvir suas respostas.
— As chances são grandes — protestou o garoto, se aproximando do cercado, onde se encostou.
— Você mal me conhece, gato bobo — seus xingamentos o lembravam de alguém.
Mas eu gostaria, pensou. Marinette nunca havia lhe prendido a atenção de modo tão funcional antes. Seus olhos pareciam mais azuis naquela noite, e pareciam refletir as estrelas em suas írises claras. Talvez fosse possível montar constelações a partir daquele curto rastro de visão. Por mais que Chat já tivesse admitido diversas vezes que seu coração pertencia à Ladybug, sabia que havia suas exceções, como a liberdade, seus amigos, e um pouco dos olhos azulados de Marinette.
Em tempo que Ladybug trazia a confiança e força consigo, Marinette era tudo que ele precisava para se sentir bem. A maneira de como ela agia lhe trazia conforto, assim como sua companhia, por mais que ele tivesse provado pouco deste gosto. Não era muito segura de si, ele podia ver, mas tinha a esperança carregada consigo mesma. Ele mal podia esperar para provar de seus abraços e ver se o conforto era apenas fachada.
— Estava cansado — respondeu ele ao olhar para os prédios adiante. — Lutei contra uma akuma hoje, meu corpo dói, e imaginei que você poderia cuidar de mim.
Não era total mentira, já que ele realmente estava cansado e machucado. Aquelas explosões fizeram vários destroços baterem contra o corpo dele, que, por mais que estivesse protegido pelo látex de seu uniforme, ainda não fora o suficiente. A garota permaneceu parada em sua frente, agora com os braços caídos pelas laterais do corpo, e caminhou na direção do louro, que se pôs numa tensão inexplicável.
Marinette estava com seu rosto a centímetros do dele, já compartilhando da mesma respiração. Seus grandes olhos azuis estavam fixos aos do garoto, mas sua expressão não era de tentada. Ela não parecia querer fazer qualquer avanço para beijá-lo, então ele sequer tentou.
Aliás, ele não havia visitado ela para isso.
— Ok — ela jogou os braços para o alto de modo que soasse como convicção. — Mas se vou cuidar de você, melhor ir para dentro, já que o frio está absurdo.
Ele assentiu e caminhou atrás da garota, que levantou o alçapão e posicionou seus pés sobre a escada. Após ela, o garoto que descera, pisando sobre o chão, que tinha seu piso revestido em madeira.
Enquanto o quarto de Adrien tinha um clima gélido e vazio, o quarto de Marinette era completamente o oposto. Suas paredes pintadas de rosa berravam conforto ao local. Toda aquela decoração de flores, barquinhos de papel, pequenas luzes ornamentadas, quadros de paisagens e a vista — principalmente a vista — de seu quarto para a cidade; traziam um ar mais “vivo” para o quarto. E não era tão bagunçado, afinal. Quando Adrien passou a conhecer um pouco mais sobre a mestiça, só podia imaginar que toda sua vida era baseada na bagunça, já que ela era muito atrapalhada. O que não passou por sua cabeça, a respeito do assunto, era o fato dela gostar de moda. Se Marinette seguisse as regras de Gabriel Agreste, o que para Adrien parecia ser o certo de todo designer, ela não podia ser tão bagunçada.
— Sente-se aqui — a garota deu dois tapas sobre o estofado do divã que ficava no canto do quarto e caminhou na direção do alçapão que levava à cozinha, pelo que o garoto se lembrava.
Assim que a garota desceu as escadas, Adrien sentou-se e encostou as costas sobre uma almofada rosa que era muito macia, por sinal. Suas mãos estavam pairando sobre seu abdome e seus olhos se fixaram à região da escrivaninha. Ela tinha um computador com a tela grande, mas não era maior que as quatro telas que ocupavam o quarto do garoto. Acima da longa mesa, um quadro de avisos cheio de anotações, fórmulas, horários e rascunhos. E mais acima…
— Voltei — disse a garota ao colocar uma bandeja sobre o piso, subindo antes de pegá-la de volta.
Enquanto caminhava na direção dele, o garoto sorriu. Mas seu sorriso não saiu do modo malicioso como sempre saía, e sim, inocente, feliz ou até mesmo grato. Observou-a puxar a cadeira giratória para perto do divã, para servir de apoio à bandeja. A menina, então, sentou-se ao chão, o que chocou o herói.
— Eu esquentei leite e alguns croissants congelados — ela entregou o prato com três croissants não muito grandes. — Eu que fiz.
— Então devem estar magníficos — respondeu o garoto, ainda sem remover seus olhos dela.
— Trouxe gelo também e… — ela agora olhava para ele — … aonde dói?
Não era algo que ele costumava fazer de uniforme, apenas em casos urgentes de bexiga cheia ou machucados, mesmo. Pegou o sino que pendia em seu pescoço e baixou-o, levando o zíper consigo. O pequeno barulho que a peça de metal fez sempre o deixava mais confortável que o normal. Logo, o pêndulo estava acima do ápice de seu boxer, não o revelando. Todo seu abdome estava marcado com partes vermelhas e pequenos ferimentos onde o sangue já havia secado, mas ainda estavam na coloração quente, e doíam.
O rosto de Marinette aderiu-se à coloração do sangue seco enquanto ela pegava o pano sobre a bandeja. Assim que o molhou na água morna que havia trazido, começou a prensá-lo nas regiões machucadas do tórax do herói. Adrien sentiu dor, pois tudo ali estava sensível, mas resolveu não demonstrar pois a garota pensaria que estava usando muita força. Porém, fora impossível esconder a dor quando o pano passou nas partes onde o sangue havia secado.
— Desculpe — a garota olhou para Chat, que gemendo, parecia se contrair no estofado.
— Não é sua culpa — ele respondeu ao recompor sua postura anterior.
Ela assentiu e seguiu passando o pano, dessa vez, com mais leveza. Adrien não podia negar que estava gostando, até porque nunca fora mimado daquele jeito. Quando pequeno, caía direto da escada, pois seu lugar favorito era ali. Tudo que acontecia após era uma das empregadas de seu pai correr para avisar ao homem, que apenas mandava seu motorista leva-lo ao hospital, enquanto ele trabalhava em seus designs. Tudo que Adrien precisava era uma mãe. E era tudo que elenão pôde ter.
— Bem, acabei aqui — disse ela ao terminar de passar o pano, abrindo uma caixa de curativos que Chat não notou antes. — Por que você está com estes machucados?
— Por causa da luta, foram várias explosões hoje — ele disse, mas a garota não pareceu satisfeita com a resposta.
— Achei que a cura da Ladybug ajudasse nisso… — ela murmurou para si mesma, mas Chat escutou.
— Ajuda em vários aspectos, na verdade — Adrien olhou para o prato com os croissants em seu colo. O cheiro já invadia suas narinas e ele não havia comido um sequer. — Mas às vezes, quando o machucado é dentro do uniforme, não cura.
— Isso explica as cicatrizes nas costas… — novamente, ela murmurou para si mesma. E novamente, ele ouviu.
— Quais cicatrizes? — Perguntou ao se ajeitar no divã.
— Ahn… as de Ladybug. Ela me mostrou uma vez. É, são grandes! — Disse a garota ao hesitar um tanto. — Mas achei que a cura dela não funcionasse apenas nela mesma.
— A única coisa que sei, é que conserta nossos uniformes. Mas por dentro, continuamos com os machucados.
Ela assentiu, parecendo um pouco tonta com todas aquelas informações. Do nada, a garota se levantou dos joelhos e jogou as mãos para o alto, mais uma vez. Adrien notou que era o sinal que ela fazia quando queria deixar de se incomodar com algo. A primeira vez que ele a viu fazer aquilo, foi quando ela discutira com Chloé. E em todas as outras.
— Tome seu leite, ou vai esfriar — ela se afastou do divã e caminhou na direção de sua escrivaninha, por onde os olhos verdes seguiram.
Ele não havia notado antes, mas ela tinha alguns pôsteres espalhados pela parede daquele canto. Não eram pôsteres de bandas, cantores ou atores. Eram de modelo. Do modelo. De Adrien. Fotos que ela, provavelmente, retirara de suas revistas. Ele começou a excluir a opção em que ela o odiasse. Mas e se aquelas fotos fossem para olhar ao acordar às manhãs e sentir seu ódio fulminar no sangue?
A garota voltou para ele mais uma vez, agora com os curativos em mãos. Ela começou a coloca-los sobre os machucados do garoto, que se sentiu muito bem ao receber a sensação dos dedos finos dela rodeando sua pele. Parecia como em seu sonho, só que menos íntimo. Em algum dos momentos, seus olhos azuis se encontraram aos dele, e ela corou. Adrien sabia que ela era mistura de chinesa com francês, mas de sua parte oriental, só tinha os cabelos de herança. Seus olhos não tinham qualquer traço de sua metade, já que eram grandes e bem azulados. Ele se lembrara que o pai dela tinha estes olhos, por mais que não o conhecesse tão bem.
— Você está bem, Princesa? — Perguntou ele ao mordiscar a ponta de um dos croissants, sentindo o maravilhoso sabor amanteigado.
— Por que não estaria?
— Parece incomodada — abocanhou a massa. — Me diga, há alguém te incomodando?
Ela parou de aplicar os curativos e mirou seu olhar arqueado para ele. Por alguns segundos, ficaram daquele jeito, e Chat não parava de comer mais de seu croissant.
— Além de você, ninguém — disse ela ao aplicar outro curativo. — Por que pergunta, gato bobo?
Era algo que ele não entendia: o motivo dela falar com tanta confiança perto de Chat, mas falhar perto de Adrien.
— Você odeia alguém? — A pergunta dele pegou-a de surpresa.
A menina retirou as mãos do abdome dele e cruzou seus braços, sentando-se sobre os joelhos, analisando o olhar esverdeado dele. Agora, Chat não possuía nenhum sorriso no rosto. Apenas sua expressão curiosa. E ele notara que estava começando a deixa-la irritada.
— Não — respondeu por fim. — Qual o…
— E você ama alguém? — Interrompeu-a.
Dessa vez, Marinette ficou ainda mais vermelha que ao ver o peitoral do garoto. Seus lábios tremeram de maneira como se estivesse se segurando para não soltar algo indesejado ali. Ela pareceu mais desconfortável do que ele, que fez a pergunta.
— P-por que pergunta, C-Chat — gaguejou, e ele sabia que algo estava errado.
— Então alguém tem seu coração, Princesa? — Abriu seu sorriso lateral que era o sinal mais malicioso que ele podia exibir.
— N-não…
— Qual o nome dele? — O garoto se aproximou dela, colocando o prato de lado.
— Você está abusando de sua liberdade, g-gato bobo! — A garota cruzou os braços e o encarou, com raiva.
— Pardon, Princesa — ele mordeu o lábio inferior, com seus olhos localizados aos dela. — Você fez demais por mim e eu estou retribuindo de maneira injusta.
As mãos enluvadas dele se localizavam, agora, no pescoço fino da jovem. Ela estava totalmente vermelha na região das bochechas, e seus lábios estavam entreabertos, como se recebesse um choque de surpresas e não soubesse como reagir.
— V-vá embora, Chat.
Ele se agachou à altura dela, o que a fez cair para trás, com as costas e joelhos arqueados, mas os braços ainda esticados, mãos apoiadas ao chão. As pontas de seus joelhos quase alcançavam o abdome exposto do garoto. Ele sabia que tinha alguns músculos formados ali, mesmo antes de ser Chat, até porque também posava para revistas de praia.
— Estou te deixando nervosa, Purr—incesa? — Perguntou ele ao ronronar.
O garoto se aproximou tanto que os dois já compartilhavam da mesma respiração, mais uma vez naquela mesma noite. Os olhos dela ainda estavam fixos aos dele, e ela parecia esquecer como se respirava. O mesmo dele. Suas mãos continuavam no pescoço dela, mas a garota estava surpresa demais para retribuir qualquer tipo de toque.
Seu rosto se aproximou ainda mais do dela, depositando um beijo em suas bochechas macias, afastando-se em seguida, sorrindo de canto.
— Muito obrigado pela companhia — finalizou ele, antes de subir seu zíper e levantar-se, pegando o outro croissant do prato —, e pelos cuidados.
Sem esperar qualquer resposta da garota ao chão, abriu a janela da escrivaninha dela e saiu por ali.
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