Purr-suation
5 Emperor
Notas iniciais
— Peça a tarefa para a Mari, ela fez — disse Alya ao voltar para se sentar ao lado da garota adormecida.
O garoto assentiu enquanto olhava para seus livros empilhados sobre a mesa. Nino estava ouvindo música em um volume tão alto que as batidas podiam ser escutadas através dos fones. Seus dedos deslizaram pelos próprios fios louros enquanto ele procurava a tarefa feita em seu caderno, sem muito sucesso. Adrien saíra de casa em pura pressa, deixando de fazer diversas coisas, como pentear o cabelo e levar a tarefa. A tarefa não era um problema tão grande quanto o cabelo penteado, pois ele levando ou não levando ela, não seria confundido com Chat Noir.
E, por mais que ele gostasse mais dos fios rebeldes que seu uniforme proporcionava, ele ainda tinha de manter a repartição do modo ajeitado. Não gostaria de enfrentar problemas com sua identidade secreta. Não ainda. Mesmo que a grande maioria preferisse descobrir a verdadeira Ladybug — inclusive ele —, seu nome estava incluído.
Alya, a melhor amiga de Marinette, autora do grande e majestoso Ladyblog, escrevia teorias sobre as verdadeiras identidades dos dois. Mal ela sabia que o próprio Chat Noir se sentava à sua frente todos os dias.
Adrien sempre soube que ele era muito diferente de sua versão heroica. Sua confiança mudava de 0 para 100%. Quando era o herdeiro Agreste, era sério, tímido, comportado e contraído. Mas ao acionar seu kwami e revelar sua outra — em sua opinião, verdadeira — forma, tornava-se totalmente descontraído, divertido, extrovertido e sem-vergonha. E era o que ele mais gostava, na verdade.
— Nino — o loiro tocou o braço de seu amigo, que removeu os fones dos ouvidos, com a batida ainda em ritmo. — Você não fez a tarefa, certo?
— Apenas dois exercícios — o garoto respondeu e fez um sinal, como se pedisse permissão para colocar os fones de volta ao seu devido lugar.
O modelo assentiu e seu amigo voltou a escutar sua música. Alya não havia feito, e Nino também não. Sua última e única opção seria pedir a tarefa para a garota que ele quase beijou na noite anterior. Ele não havia sequer cumprimentado ela naquela manhã. Se sentiu horrível por aquilo, já que eram amigos. Pelo menos, ele pensava que eram.
Só se sentiu intimidado pelas próprias atitudes. Ela não sabia que era sua identidade verdadeira que esteve em sua casa na noite anterior, mas ainda assim, sua consciência pesava. Que diabos deu nele? Por que deixou seus hormônios dominarem seu cérebro? Tudo que ele arranjou para usar de desculpa, foi que seu sonho interferiu muito no calor do momento.
Mas ele não podia perder pontos em nenhuma matéria. Fora uma das condições que o mantiveram na escola. Decidiu que teria de pegar a tarefa da mestiça, e assim, se levantou do assento, subindo o pequeno degrau em direção a ela. A garota parecia dormir sobre seus braços cruzados, então ele teve de tocar o ombro dela levemente, para não assustá-la.
— Marinette — sussurrou ao aproximar seus lábios dos ouvidos dela, ato que o relembrou da noite anterior.
— Não, mãe… eu só fui dormir tarde — resmungou ela, parecendo sonhar —, nenhum gato de rua me visitou…
Ele sorriu para si mesmo ao escutar o comentário, mas mudou a expressão repentinamente.
— Eu queria saber se você poderia me emprestar sua lição — disse ao deslizar a mão para a nuca dela.
O gesto fez com que ela sorrisse e soltasse uma risada lenta, quase como se fossem grandes amigos de longa data.
— Não beije meu pescoço — gemeu ela.
— Não estou — respondeu ele, o que a fez acordar, com uma expressão de assustada.
As pupilas dela se dilataram e suas bochechas tornaram-se da cor de um tomate. A garota pareceu tornar-se cada vez mais vermelha que Adrien chegou a achar que ela fosse explodir.
— A-Adrien?! — Perguntou ao remover os braços de cima da mesa, procurando freneticamente por uma posição para eles. Sem sucesso.
— Desculpe, não quis te assustar — respondeu ele, o que a fez soltar um sorriso de canto bem falho. Forçado.
— N-não assustou, é que eu estava sonhando, digo, viajando… Não! Pensando. Isso, pensando em Física. Não acha que a matéria está super complicada?
Adrien sentiu o olhar de Alya de longe. A garota colocou uma mão sobre os olhos, como se estivesse desapontada. Ele só esperava que não fosse com ele mesmo. Também se questionou do motivo para a mestiça agir de modo tão diferente com ele na versão Chat.
— Você fez a tarefa, certo? — Perguntou ele, ainda deixando-se aprofundar nos olhos dela.
Com um aceno de cabeça, a menina respondeu.
— Poderia me emprestar? Eu esqueci a minha e não posso perder pontos…
Com outro aceno de cabeça, a menina respondeu.
— Obrigado — Adrien sentiu-se num monólogo quando pegou o caderno da garota, levando-o para seu assento.
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— Em uma das únicas oportunidades que você teve, Mari, não conseguiu falar com ele! — Dizia Alya enquanto abria seu lanche de atum.
— Não é minha culpa e você sabe disso! — A mestiça procurava enfiar seu rosto entre os braços, com vergonha do ocorrido.
O fato era que Marinette tentava. E tentava de verdade, mas algo lhe impedia de dizer as palavras corretas por perto do loiro. Sentia-se perdida em seus olhos esverdeados, e não conseguia passar mais de dois segundos em contato visual. Ou qualquer outro tipo de contato, já que tudo soava como impossível.
Pelo menos, com Chat não era daquele jeito.
O resto da noite lhe fora perturbadora, já que a garota só conseguia pensar em como o garoto-gato havia agido com ela. Em sua visão, Chat era seu parceiro, a pessoa que ela mais confiava — e tinha de confiar — e nada mais que isso. A partir do momento em que seus dedos tocaram sua pele, a garota já não sabia mais distinguir as cores ao seu redor. Quando as mãos enluvadas dele deslizaram pelo seu corpo, a garota já não sabia mais distinguir seus pensamentos apropriados dos inapropriados. E quando seus lábios estavam à centímetros dos dela, a garota já não sabia mais distinguir seus sentimentos. Fora tudo muito intenso, e em uma pancada só, exatamente para não sentir a dor que ela traria.
Mas a sensação fora ótima. Ótima.
E ela estaria mentindo se dissesse que não havia gostado.
— Pelo menos você emprestou sua tarefa — Alya disse ao mordiscar a casca do pão.
O cheiro de atum invadiu as narinas da mestiça, o que ela relacionou com peixes, a comida favorita dos gatos. Chat.Chat era um felino.
Ela não havia entendido bem o motivo para ele ter aterrissado em seu terraço de maneira tão inusitada. O loiro provavelmente não sabia sua identidade real, já que ela era muito cuidadosa com os pequenos detalhes, mas ainda assim, ele apareceu ali. E deu a entender que voltaria.
— Alô? Terra para Marinette? — Alya acenou com as mãos enquanto mordia outro pedaço de seu sanduíche. — Você está perdida nos pensamentos de novo!
— Desculpe, Alya — respondeu a garota ao posicionar sua mão sobre os olhos. — Eu só estou preocupada com… os trabalhos.
— Mas já acabamos o trabalho de física, que foi o único passado até agora — a garota dos cabelos da cor das chamas olhou para a mestiça com desdém. Conhecendo Marinette, Alya sabia muito bem que suas preocupações não estavam localizadas em objetivos escolares. — Vamos lá, me diga, o que houve? Essa carinha não é à toa.
Marinette gostara de Adrien desde quando ele fora gentil com ela. Aí que ela descobriu seu coração imenso, e percebeu que ele poderia ser uma das melhores pessoas que já haviam passado por sua vida. Até o momento em que Chat aparecera em sua casa, ela nunca havia duvidado de seu amor. Agora ela já não sabia mais dizer o que sentia pelo gato de rua.
Droga de gato de rua.
— Você acha que ele sente algo por mim? — Marinette agora encarava os olhos castanhos da melhor amiga. — Sente, gosta, ama, qualquer coisa?
Foi a pergunta que calou a garota ao seu lado. Alya havia acabado de engolir o último pedaço de seu sanduíche e limpava sua boca com as costas das mãos, procurando desviar o olhar da mestiça. Marinette já estava num nível de desconforto tão grande que não conseguia achar uma posição adequada para sentar-se nos degraus verdes da escada.
— Está vendo, Alya, eu nunca…
— Não diga isso — a garota segurou os ombros da mestiça com força, fazendo-a olhar diretamente em seus olhos. — Nunca é uma palavra muito forte.
— Mas…
—… e nunca é uma palavra usada para o passado, jamais para o futuro — a garota colocou uma mecha avermelhada atrás da orelha enquanto falava. — Você nunca voou, você nunca matou alguém, você nunca salvou a cidade…
Errado, pensou Marinette, mas resolveu não comentar sabendo as boas intenções que sua amiga ali colocava.
— Eu quero dizer que nós não sabemos, e que nada é impossível. Talvez ele seja totalmente apaixonado por você, ou talvez ele não lembre seu sobrenome, mas nada, nada, nada é impossível — a menina retirou as mãos do ombro da outra e sorriu. — E mais, só há uma maneira de saber o que ele sente ao seu respeito…
— Há? — Marinette deixou seus olhos brilharem em esperança. — Todas as que eu imaginei acabavam em problemas.
— Não essa — Alya retirou o celular do bolso e desbloqueou a tela.
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Nino desligou o celular e olhou para o amigo que parecia curioso. Adrien tentou não demonstrar, mas ele estava vibrando internamente para saber o assunto tratado naquela ligação que durou quase o tempo de almoço inteiro. Quando ouvira seu nome e o de Marinette na mesma chamada, não pôde mais esperar.
— Quem era? — Perguntou, já sabendo a resposta.
— Alya — disse Nino e bebeu um gole de seu refrigerante.
— Por que ela queria saber o que eu sentia em relação à Marinette? — Suas mãos não achavam um lugar fixo para ficar. Ele estava nervoso.
— Não sei. Curiosidade? — Nino estava sem saber para onde olhar, o que deu a entender que ele estava nervoso também.
— Nino — Adrien suplicou ao colocar as mãos dentro dos bolsos de seu casaco preto, arqueando uma sobrancelha.
— Não posso contar — disse o garoto ao olhar agora fixamente para o chão. — Desculpe, Adrien.
— Mas o que há de tão ruim?
— Nada, é só…
O sino para subir às aulas tocou, e o assunto fora instantaneamente esquecido. Os dois pegaram seus pertences e se direcionaram para as escadas, quando Chloé apareceu do nada, agarrando o pescoço do louro, quase o derrubando de costas. Nino não pareceu surpreso, mas Adrien quase gritou em meio à situação.
— Adrikiiiiiiins — a garota cantarolou enquanto beijava a bochecha dele. — Você está sabendo do mais novo e encantador evento, certo?
Adrien deve ter ouvido algo de Nathalie a respeito daquilo, mas não se lembrava com clareza.
— Evento? — Perguntou, tentando afastar sutilmente a garota.
— Sim, o baile — disse ela com os olhos brilhando em esperança. — Meu pai vai fazê-lo, e com um tema ainda por cima!
— Qual seria o tema? — Perguntou Nino, entrando na conversa.
Sua intrusão acabou fazendo com que o sorriso de Chloé se dissipasse. Mas assim que sua cabeça se virou na direção de Adrien novamente, ela voltou a sorrir. Naquele dia, a garota usava um sobretudo amarelo e calças pretas com botas de lã. O cabelo continuava preso alto na cabeça, com duas mechas divididas ao redor da testa.
— Baile de máscaras — ela tocou o peito de Adrien, deslizando seu dedo para cima e para baixo.
Adrien gelou. Não sabia mais se respirava, se sorria, se falava alguma coisa inconveniente ou se saía correndo dali.Máscaras? Iriam reconhece-lo de qualquer modo. E ele não teria mais como esconder sua identidade.
— Você tem que ir — continuou ela com um sorriso de canto. — Papai vai convidar a Ladybug também, junto do Chat Noir. Não é o máximo?!
— Sim, é… — respondeu o loiro, olhando para o chão. — Nino pode ir comigo?
— O quê?! — Perguntaram os dois em uníssono. Nino pareceu espantado com a coragem que seu amigo teve para sugerir algo daquele tipo.
— Eu quero que ele venha comigo — disse ele, olhando para a garota com um sorriso lateral. — Seria divertido, Nino sabe como agitar uma festa.
— Adrien, eu… — Chloé pareceu irritada.
— Vai ver com seu pai, certo? — Completou Adrien enquanto aumentava o sorriso na direção do moreno. — Eu sei que ele vai deixar. Aliás, além do convite extra para o Nino, me veja mais um, para um convidado especial.
Suas mãos tocaram os ombros da garota e a viraram na direção de Sabrina, que, por incrível que pareça, ainda a esperava em um canto qualquer. E assim, com um leve empurrão, a loira saiu caminhando em puro desentendimento.
— Cara, isso foi sensacional! — Nino sorriu e colocou um braço sobre os ombros do amigo.
— Me agradeça depois.
A mente de Adrien estava mais focada em outra coisa.
Se ele fosse como Chat Noir, poderia convencer uma certa mestiça a ir também.
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