Purr-suation
6 Lights
Notas iniciais
Todo final de ano, o prefeito de Paris organizava um dos maiores eventos anuais: as festas natalinas. O evento era reconhecido por vários aspectos, como a comida, os serviços, colunas sociais de todas as revistas, jornais e acessos de mídia possíveis. Sempre acabava por se tornar capa, e pessoas importantes do país eram convidadas a participar, incluindo uma lista de pessoas que pagavam, ou eram apenas convidados comuns. O prefeito costumava chamar os nomes que formavam o governo, e outros de sua simpatia. Desde o nascimento de sua filha, o homem a deixava escolher o tema que formaria a festança, e a garota sempre acabava por escolher algum tema de seu agrado.
E o tema do ano atual seria de Baile de Máscaras.
O maior designer do país — talvez do continente —, Gabriel Agreste, sempre recebia um dos convites. Todo ano, ele e seu filho compareciam ao evento e eram centros de atenções, já que ambos possuíam um papel no mundo moderno. Gabriel, como sendo um homem de honra com projetos incríveis, e seu filho, galã juvenil, que posava para revistas nacionais e internacionais, sendo um grande alvo para um público apaixonado.
Adrien havia conhecido Chloé através da festa. A amizade crescera ali, e os dois haviam criado tradições para todo ano, continuarem provando o valor desse amor um pelo outro. No terceiro ano, Adrien usara uma gravata verde, e Chloé havia comprado um vestido rodado cor de esmeralda. Acidentalmente combinando, os dois decidiram que iriam sempre combinar a gravata com o vestido, independentemente do quão brega fosse parecer. No sexto ano, Chloé decidira que eles teriam de roubar duas taças de espumante e beber, para ver se o gosto melhorava com o passar do tempo. No décimo ano, Adrien havia decidido que os dois deveriam fazer operações de espionagem para descobrir quem estaria roubando os doces de coco da mesa principal. No décimo primeiro ano, Chloé havia flagrado seu pai roubando um destes doces, e a operação havia acabado. Mas outra tradição havia entrado no lugar, quando Adrien e ela haviam se encontrado logo abaixo do visco.
Ele nunca havia levado o ato para o lado sentimental, já que havia sido apenas uma tradição, e eles eram melhores amigos. Então não havia nenhum problema em compartilharem um beijo abaixo do visco todo ano, certo?
Mas a preocupação do loiro se localizava, não no visco, mas em quem estaria abaixo da planta junto dele.
Será que Chloé entenderia seus motivos? Tudo que ele esperava era que ela não saísse magoada dali. Adrien sabia o quão importante o evento era para ela, mas ainda assim, estava cego pelos sentimentos atuais que o dominavam mais que nunca. Ainda que fossem confusos, ele sabia que, naquele ano, o beijo não seria compartilhado com Chloé.
— Adrien, você ouviu alguma palavra que eu disse? — Nathalie parecia irritada enquanto analisava o garoto dos pés à cabeça.
O loiro removeu os olhos do chão e os direcionou aos azulados da assistente de seu pai. A mulher ainda carregava a prancheta no braço enquanto mantinha a postura ereta de sempre. Tudo na mulher era impecável, o que apenas fazia com que o garoto pensasse que ela não se passava de um reflexo exato de seu pai.
— Desculpe, eu estava pensando na… nas provas — Adrien encostou-se ao aro da porta de seu quarto enquanto olhava para a mulher. — O que você dizia?
— Tente prestar atenção, não direi novamente — a mulher bufou e voltou a fixar seus olhos na prancheta mais uma vez. — Seu pai arranjou um horário ainda hoje para a prova de ternos. Ele deixou a gravata à sua escolha, por algum motivo que ele não especificou. Esteja pronto para sair daqui às 17.
Ele assentiu e acompanhou o andar da secretária para longe. Assim que ela estava fora de seu campo de visão, o garoto fechou a porta e caminhou na direção de sua cama, retirando o celular do bolso. Na tela, ele via uma mensagem de Chloé pedindo para lhe ligar. Sem hesitações, o loiro discou seu número e esperou chamar.
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A brisa fria dos dias iniciais do inverno beijava a janela enquanto o anoitecer dançava misteriosamente no céu, em ondas douradas e escuras. Algo que Marinette gostava no inverno era o fato de ter todo o tempo do mundo para ficar em seu cobertor ou em roupas confortáveis, que lhe aqueciam.
Quando menor, gostava de aninhar-se ao corpo de sua mãe enquanto assistia filmes na televisão. Seu pai assava vários croissants amanteigados com recheios de chocolate ou creme. Ela comia daqueles doces até não aguentar mais a dor de barriga de tanto açúcar ingerido. O que lhe caía bem nas noites em que tinha pesadelo, era a grande xícara de bebida cremosa de abóbora. Por isso o inverno era a estação favorita da mestiça. Era repleto de boas memórias!
Marinette estava sentada em sua cama, com uma caneca de chocolate quente ao seu lado, enquanto mexia em seu celular, navegando por suas redes sociais. Em quinze minutos online, ela já havia visto pelo menos três propagandas do grande evento que ocorreria na cidade: a festa natalina. Ela não diria que não tinha o mínimo interesse em comparecer, pois ela morria de vontade de usar o seu novo feito. Levou semanas para fazer aquele vestido, procurando os tecidos certos, se perfurando com agulhas, errando medidas, rasgando partes, refazendo partes. E ali estava ele, escondido no fundo de seu armário, implorando para que ela o vestisse.
E ela atenderia seus pedidos. Sem muito sacrifício.
Mas, como a festa era dada pelo prefeito, mais conhecido como o pai do demônio, ela não teria a mínima chance de ser convidada.
Uma pena, eu ficaria linda no vestido, pensou.
A garota bebeu o último gole de sua bebida e sentiu a onda de calor descer pelo seu corpo. Fechou os olhos para aproveitá-la enquanto durasse. Logo, deixou o celular sobre a cama e desceu as escadas que levavam ao chão com cuidado, já que em sua outra mão estava a xícara. Quando seus pés tocaram o piso de madeira, a garota caminhou até a escrivaninha, onde depositou a peça de porcelana.
Seus olhos miraram a janela automaticamente, e a menina caminhou na direção do vidro, para debruçar seu corpo sobre a haste, olhando para o lado de fora. Nenhum sinal de neve. Ela adoraria subir para a varanda, mas se estivesse ali, ela congelaria. Mesmo sem estar nevando, o frio dominava de modo absurdo. Naquela manhã, quando fora para a escola, sentira que viraria um picolé.
Agora ela vestia uma grande camisa rosa de mangas longas, junto de calças escuras de moletom e um casaco também escuro. Ela teria de colocar um cachecol, um gorro e luvas para sair, então resolveu que o trabalho não valeria a pena toda, e resolveu ficar pelo lado de dentro. Aliás, não queria ter o azar de encontrar certo gato preto novamente.
Porque, desta vez, ela não seria capaz de se segurar.
Seu telefone tocou na cama, e a garota subiu a escada apenas até a metade para pegá-lo. A tela estava fechada com a imagem de sua melhor amiga, Alya, e seu dedo deslizou do canto para o meio, atendendo a ligação.
— Boas novas — disse a garota dos cabelos avermelhados. — Melhor se sentar, pois o que eu tenho para lhe contar agora pode ser equivalente à uma metralhadora.
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— Adrikins? — A voz da jovem soou do outro lado da linha.
— Oi, Chlo — saudou-a. — Você me pediu para ligar…
— Sim, sim. Conversei com meu pai, e ele disse que sobraram alguns convites de recusas, então posso dá-los a você. Só preciso saber a quantidade.
— Três, por favor.
— Vou comunica-lo — Chloé fez uma longa pausa, até que suas palavras voltaram a soar: — Adrien? Para quem são estes convites?
— Alguns amigos próximos meus. Eu gostaria de leva-los comigo, imagino que possam gostar da festa — Adrien encostou suas costas à parede de escalada, encaixando-se entre os apoios para os pés. — Não seria um incômodo, certo?
— Seus amigos, você diz o Nino? — O garoto respondeu que “sim”. — Eu já havia os colocado na lista de convidados. Os convites deles chegam amanhã, sei que são próximos seus e…
— Sério? Você fez isso de verdade? — Adrien praticamente vibrou por dentro ao ver que sua melhor amiga se importava com seus outros amigos. Pelo menos ela havia deixado a fase ciumenta e possessiva. — Mas e quanto à Marinette? Você não a convidou?
Outro longo silêncio na linha.
— O outro convite era para ela?
— Hm, sim.
— Nossa! Como pude me esquecer dela?! Eu entregarei o convite amanhã cedo! Não me esquecerei!
— Você vai entregar pessoalmente?
— Sim, claro. Como um sinal de bandeira de paz, sabe?!
— Fico feliz em ver que você ignorou essa briga boba por mim, Chlo — Adrien sorriu para si mesmo enquanto mirava a paisagem que a janela lhe mostrava. — Bom, obrigado novamente. Até amanhã!
— Tchau, Adrikins. Ah, e não se esqueça da gravata! Este ano, meu vestido será azul.
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— Nino me contou muita coisa na saída da escola. Fomos até o parque e ele insistiu em me pagar um algodão-doce, foi muito fofo, mesmo, Mari, você devia ter visto como os olhinhos dele brilharam e…
— Alya, direto ao ponto.
— Ah sim, desculpe — respondeu a jovem do outro lado da linha. — Então, lembra-se de quando pedi para o Nino observar o Adrien? Ele conseguiu umas pistas.
— Não faz nem um dia direito, Alya!
— Um pouco de pressão e um convite aceito para sair depois da escola um dia, e BUM, informações valiosas!
— Conte-as!
— Prepare-se: — Alya fez uma pausa, mas sua voz soava como se ela estivesse mais ansiosa que a própria mestiça. — Nino disse que o Adrien anda avoado. Sonhando muito, espaçando demais. Ele disse que é por causa das provas, mas falta quase um mês ainda, então é uma desculpa muito esfarrapada.
— Ele pode estar assim por qualquer motivo, não precisa estar necessariamente apaixonado. Talvez ele esteja magoado ou cheio de problemas…
— Não, Mari, você não entendeu. — Marinette quase podia sentir Alya segurando seus ombros. — Nino disse que ele sorri enquanto fala. Ele sorriu enquanto falava sobre física! Física! Quem fica feliz com física?!
— Se você diz. O que eu posso usar para contra argumentar?
— A resposta é: nada. — Alya riu do outro lado da linha. — E tem mais. Nino também disse que ele pediu mais convites para a festa natalina, aquela do prefeito. Ou seja, estamos todos convidados!
— Acho que a formação da frase correta seria: “vocês estão convidados”. Chloé jamais me convidaria para sua festa.
— Nino disse que o Adrien não especificou os supostos convidados. Em todo caso, você pega meu convite e vai. Eu sei que aquele vestido no fundo do seu armário está esperando para brilhar embaixo de um holofote. Ou melhor, de um visco.
— Já é difícil crer que eu vou à festa. Imaginar eu e o Adrien embaixo de um visco… Não, nunca!
— Eu botaria mais fé, garota — disse Alya. Uma voz soou no fundo da chamada e a menina respondeu algo que Marinette não conseguiu ouvir direito. — Tenho que ir agora, se eu não guardar a louça, minha mãe não vai me comprar um vestido novo. Até amanhã!
— Até — disse a morena ao desligar a chamada.
Marinette olhou para o celular durante algum tempo enquanto ele pendia sobre sua palma. Assim, sentou-se sobre o divã e colocou o aparelho ao seu lado enquanto encarava a janela.
Paris tinha a grande fama de cidade da luz, e tinha toda a razão em receber este nome, já que as luzes ali nunca morriam. Qualquer canto da cidade que fosse visto de longe pareceria uma dança estelar em um céu limpo. Marinette amava quando as estrelas pendiam acima, pois parecia um convite para a cidade se juntar à beleza que era exposta ao mundo. Incluindo ela, incluindo todos.
A garota olhou para o celular mais uma vez e pensou, agora, em Chat. Sobre o mesmo divã que ela estava, ele esteve sob os cuidados dela. Ela adoraria pensar mais em Adrien, porém, ultimamente, a única pessoa — ou animal — que ocupava sua mente, era o gato de rua. E ninguém mais.
Para a sinceridade de todos, ela o esperava naquela noite. Ainda tinha um tanto de esperança no peito de que ele viria visita-la. Mas naquela noite que já se estendia para a madrugada, ele não veio. E ela teria de dormir, já que o dia seguinte poderia lhe trazer esquecimentos do famoso gato urbano. E assim, sua mente poderia focar em Adrien. E ninguém mais.
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