— Vire-se mais para a direita, a luz não pegou bem nos seus cabelos — disse o fotógrafo ao desgrudar o olho da câmera.

Adrien colocou seu corpo totalmente contra a parede da catedral. Já estavam naquela sessão há quase três horas, e o garoto só queria colocar suas roupas e ir embora. Não que ele não gostasse do seu trabalho, até porque ele se divertia demais posando, mas porque alguns fotógrafos vinham com um pessimismo imenso e grande pressão para cima dele. Só naquela tarde, o homem levantou o tom de voz cinco vezes (no mínimo).

— Mais, ainda não está perfeito — disse Marquáan, o fotógrafo.

O loiro virou-se ainda mais. O trabalho de um modelo era saber os ângulos que o favorecessem e dessem ênfase no que eles deveriam mostrar. Propaganda de pele, inclinação no rosto; anúncio de roupas, poses que mostrassem a versatilidade do tecido sobre o corpo; sapatos, pernas em movimento para mostrar o conforto. O item a ser homenageado naquele momento era uma linha de roupas sociais. Adrien havia sido vestido em trajes finos, como uma camisa social azul-marinho com suas mangas dobradas até o antebraço e uma calça escura. Sapatos de bico fino e o cabelo totalmente penteado para trás, e voilà, perfeito.

Agora o homem continuava a fotografá-lo enquanto o garoto mudava as inclinações de seu rosto, mostrando total seriedade. Em nenhum momento ele deveria sorrir, pois estragaria o tom sério que as roupas tinham de trazer. Por mais que fosse jovem, o traje lhe vestia bem, como se fosse perfeito. Seus figurinistas souberam escolher corretamente.

O time que o cercava era seu grupo mais fiel. A maquiadora, Cécile; os figurinistas Damien e Jöelle e o ajudante de iluminação, Mathieu. Mesmo que adultos, ainda atuavam — mesmo que inconscientemente — no coração do loiro. E eram sempre estes, pois Adrien os adorava e seu pai tinha consciência disto. Todo desfile, eles o acalmavam para não ficar tão nervoso, já que seu pai não ficava por perto.

— Acho que podemos finalizar por hoje — Marquáan sorriu e passou a mão sobre os cabelos longos. — Obrigado, Adrien. As fotos ficaram ótimas.

Ele sorriu e caminhou na direção da pequena barraca que montaram para que ele se arrumasse. Cécile sorriu para o garoto enquanto passava em sua frente. Damien o chamou e Jöelle já estava atrás da cortina, esperando para que pudesse ajuda-lo com a roupa. Removendo a camisa azul, em seguida, as calças, e logo, seus sapatos de bicos finos. Adrien não tinha nenhum problema em ter os dois o despindo sempre, pois eram como outro casal de pais para ele, o que ele não tinha. Assim que saiu das cortinas, não antes de agradecer ao casal, foi para a penteadeira onde se sentou e observou os traços do rosto onde a maquiagem cobria qualquer tipo de imperfeição sobre sua pele. Cécile havia deixado suas sobrancelhas mais grossas para dar efeito, e o cabelo dele estava, ainda, jogado para trás com uma fina camada de gel, a qual ele tentou se desfazer, bagunçando os fios endurecidos.

— Assim só piorará — afirmou a maquiadora. — Espere para chegar em casa e tomar um banho.

Ele assentiu e abraçou seus braços, tentando aquecer-se com a jaqueta pesada em tons militares que vestia. O suéter preto por baixo era fino, e ele não havia pensado que o clima viria a esfriar. Adrien havia saído de casa com pressa, já que passou grande parte de sua tarde fazendo a prova de ternos para a festa do prefeito. Ele estava mais animado do que nunca para ir, já que seus amigos iriam junto dele naquele ano. Com a ajuda de Alya, Adrien havia pesquisado a cor do vestido de Marinette, para combinar sua gravata. O garoto queria estar mais perto dela possível na noite de Natal.

Assim que saiu da tenda, despediu-se de sua equipe e do fotógrafo, que, por mais que fosse rude, ainda havia feito seu trabalho e o ajudado. Na esquina atrás da igreja estava sua limusine, dirigida pelo seu chofer, o Gorilla. Ninguém sabia seu nome ao certo, pois ele sempre optou pelo apelido. Nathalie esperava em frente ao automóvel, com a expressão séria e os braços para trás do corpo.

Seu uniforme — o terninho escuro com a blusa vermelha de gola alta por baixo — havia mudado. No inverno, seu pai havia lhe proporcionado um sobretudo preto com detalhes avermelhados junto de calças sociais. A mulher usava um cachecol de lã escura, mas Adrien não achou que aquele item fizesse parte de seu uniforme. Principalmente quando notou o nariz avermelhado da mulher e as imensas olheiras formadas abaixo de seus olhos azulados.

— Seu pai está lhe esperando — disse ela ao suspirar. — Ele quer saber sobre a sua… atchim! Sua escolha de terno.

— Você está bem? — Observou o loiro e a mulher assentiu.

— Entre.

Sem mais delongas, ele adentrou a limusine e esperou até que chegasse à sua casa. Assim que seus pés tocaram a entrada para o portão, ele notou que a porta principal estava aberta, o que era curioso. Seu pai nunca a deixava escancarada daquele modo. Quando adentrou o local, percebeu que o escritório também estava aberto, o que chegava a ser ainda mais estranho.

Nathalie passou pela frente do loiro, adentrando a sala e caminhando na direção onde a porta se encostava, o que limitou a visão de Adrien. Ele inclinou um tanto seu corpo para poder enxergar o que se passava do lado de dentro, e então viu um par de meias-calças escuras e uma saia que as cobria, junto de um suéter de lã clara. Aproximando-se ainda mais, viu a mesma touca que havia visto dias anteriores: aquela com a assinatura da jovem.

— Adrien, venha cá — chamou seu pai.

Um tanto surpreso e nervoso, numa mistura esquisita de sentimentos, caminhou para dentro do escritório, ali encontrando uma roda onde estavam presentes apenas seu pai, Nathalie e a garota desajeitada. Ninguém menos que Marinette. Seus olhos verdes se fixaram aos de safira dela de modo repentino. Adrien estava confuso.

— Mari…? O que faz aqui? — Perguntou o garoto e notou uma alteração de cor sobre as bochechas da mestiça.

— Eu a chamei para um projeto futuro meu — disse Gabriel, com os olhos totalmente sérios. — Nova linha de inverno para adolescentes. A senhorita Dupain-Cheng já havia participado de um de meus projetos e eu ainda tinha seu contato, então resolvi chama-la para ajudar.

— Isso é incrível — saudou Adrien, tocando o ombro da amiga, que tornou-se ainda mais vermelha.

— Vocês trabalharão juntos — continuou Gabriel —, já que você é meu melhor modelo e a senhorita precisa estudar comportamentos para extrair gostos.

— C-como o senhor disse que isso funcionará? — Perguntou Marinette parecendo um tomate.

— Eu marcarei reuniões com você — Gabriel olhava para ela. — Os dois frequentam a mesma escola, então devem ter no mínimo uma relação de colega para colega, então a senhorita deve imaginar o que ficaria bem para meu filho em uma passarela e o que ficaria bem para outras ocasiões, roupas que sejam flexíveis para diversas ocasiões.

Marinette revezava seu olhar do pai para o filho, um tanto nervosa, mas assentiu do mesmo jeito. Adrien não conseguia acreditar que seu pai havia lhe tratado como “melhor modelo”, e não como um resultado de sua cria. Não era a primeira vez que o homem havia feito algo deste tipo, mas ainda doía. Ele ainda mantinha suas esperanças no comportamento do mais velho.

— Você está dispensada — avisou o homem ao ajustar os óculos.

A mestiça assentiu e caminhou para fora do escritório. Estaria ela ganhando por este trabalho? Adrien sabia que sempre que alguém trabalhava para seu pai, esta pessoa ganhava reconhecimento e um ótimo histórico para entrar em boas universidades, ou até mesmo conseguir ótimos empregos. Adrien olhou para seu pai, que sentado agora à mesa, não olhava mais para o filho. Ele tomou aquele ato como uma dispensa e saiu atrás de Marinette, que ainda estava à porta, recebendo seu casaco de Nathalie.

— Mari — chamou Adrien, caminhando agora em sua direção.

— A-Adrien — a menina virou-se, puxando a touca para cobrir suas orelhas do frio.

— Fico feliz que meu pai tenha te chamado — disse ele ao sorrir. — Ele estava procurando por alguém para ajudá-lo com a nova linha. Você disse que foi você quem fez a touca? Ele iria adorar.

— E-eu… não. Ele me disse que precisava de ajuda e eu a-aceitei — ela olhava diretamente em seus olhos verdes, o que só causou mais vermelhidão na região de seu rosto. — É uma ótima oportunidade e… pode me ajudar no futuro.

— Entendi — o garoto abraçou seu próprio corpo para aquecer-se e olhou para os lábios dela, que se formavam agora em um sorriso. — Espero que agora possamos passar mais tempo juntos.

Adrien não havia notado o efeito de sua última frase. Quando observou o queixo de Marinette cair, percebeu que as palavras haviam saído de forma que não soasse com o que ele havia pensado. Ou apenas saíram de seu sonho, abstratamente. A garota em sua frente permanecia congelada, de modo que parecesse mais que surpreendida. E aquilo foi mesmo inesperado na visão do garoto.

— Quero d-dizer… mais tempo para o trabalho. Não quero que você perca essa oportunidade…

— O-obrigada — ela sorriu timidamente e fechou os olhos, de uma maneira a se despedir, e assim saiu da casa.

O loiro observou-a atravessar o portão e recusar a carona que Gorilla lhe oferecia, virando a rua seguinte. Adrien sentiu vontade de bater sua cabeça contra a parede, pelo fato de ter sido tão inconveniente com suas próprias palavras. Ele havia assustado a garota! E era a única coisa que ele não queria ter feito.

—-------------------------------------------------------------

Naquela manhã onde os pássaros se escondiam da frente fria e o sol desapareceu em tantas nuvens, Marinette estava com um bom pressentimento. Enquanto caminhava pela rua, na direção da escola — que ficava de frente para sua casa —, avistou a neve cair de forma suave a beijar suas vestes. Paris não era uma cidade onde nevava violentamente, mas o pouco que caía era o suficiente para deixar o dia agradável. A mestiça estava com luvas, senão estaria tentando pegar o máximo de flocos possíveis.

Quando chegou à escadaria da escola, procurou tomar cuidado com as botas, para que elas não escorregassem no chão liso. A garota apressou o passo assim que se encontrou dentro do local, pois estava dois minutos atrasada para a primeira aula. Ao chegar na sala, notou que a srta. Bustier ainda não estava presente, então suspirou aliviada. Ao se direcionar para o assento, notou que Alya não havia chegado ainda. Alya nunca se atrasava.

Ao olhar para frente, viu que Adrien escrevia algo em um bloco de notas, mas sem Nino ao seu lado. Ela pensou em perguntar para ele por quê o colega havia faltado, mas sabia que gaguejaria e resolveu manter-se calada. A garota pôs-se a observar a classe, vendo que todos estavam em silêncio, aproveitando o clima morno que se estabelecia ali dentro. A mestiça sentiu-se mais confortável dentro de seu casaco. Do lado de fora, ela sentia-se um cubo de gelo.

Chloé e Sabrina já estavam sentadas em seus lugares, e o som da risada estridente das duas era o único que preenchia o silêncio. Para Marinette, por mais que Chloé fosse a pior pessoa que ela já teve o desprazer em conhecer, ainda tinha um imenso bom-gosto para roupas. Nesta manhã, ela usava um vestido branco com listras mostarda, junto de meias-calças marrom e um casaco escuro pesado. Sabrina já usava um suéter voltado para o verde, com calças escuras e uma jaqueta roxa.

Adrien levantou o rosto do bloco de notas e olhou para trás, seus olhos verdes tirando a atenção de Marinette. A garota o olhou durante alguns segundos, sentindo sua garganta secar apenas com o olhar. Quando ele abriu um sorriso então, a garota sentiu que desabaria ali mesmo. Ele usava uma blusa de manga longa cor de vinho junto de calças pretas e uma jaqueta esverdeada. Nos pés, um par de All-Stars do mesmo tom da jaqueta.

— Nino disse que ele pegou a gripe de Alya — disse o loiro ao colocar o cotovelo sobre o banco. — Nenhum dos dois vêm hoje.

— Que pena… — Marinette colocou-se em uma posição de pensativa.

— Por que você não se senta aqui?

A mestiça corou de um modo absurdo. Seu corpo começou a agir sozinho, levantando-se e caminhando em direção ao degrau que levaria ela à mesa onde estava o garoto loiro. Naquele momento, ela estava tão concentrada em não pensar que sequer notou a vigia de Chloé para cima dela. Quando colocou sua mochila no chão, notou o sorriso de Adrien ainda em sua direção. Ele estava com os cotovelos apoiados na mesa e seu rosto sobre as palmas.

— E então, já encontrou inspirações? — Perguntou para ela.

— Sim, você… quer dizer, em você. Não! Para você! — Marinette começou a gaguejar, mas antes de ter o olhar de Adrien sobre ela, a professora adentrou a sala, pedindo por silêncio.

—-------------------------------------------------------------

Assim que a aula acabou, Adrien havia se levantado para conversar com Marinette, mas Chloé agarrou seu pescoço, o fazendo ficar. Ele observou a mestiça sair da sala enquanto a loira segurava de modo forte o seu braço. A menina depositou um beijo em sua bochecha e sorriu para ele. Por mais que a queda mal desenvolvida por Marinette estivesse se expondo, Chloé ainda era sua amiga, e ele precisava dar ouvidos para ela.

— Adrikins! Você já comprou sua gravata? — Perguntou a jovem ao esfregar a bochecha no ombro dele.

— Eu… hm… Não. — Mentiu.

— Melhor comprar logo, talvez você não encontre uma do mesmo tom.

— Ainda não sei o tom exato, Chlo…

— Eu te mandarei uma foto! Aí você saberá — a loira havia soltado de seu braço e estava sorrindo para ele. — Ah, já ia me esquecendo!

Sabrina parecia arrumar suas coisas no lugar, e Chloé esticou apenas a mão para trás, sem tirar os olhos de Adrien. A ruiva colocou dois envelopes sobre a palma da loira, que os pegou e mostrou para o garoto. Os envelopes eram grandes e rendados, com um visco colado sobre a parte de abrir. Todos estavam embalados em plástico. Adrien achou encantador.

— Aqui estão os convites para Nino e Alya, já que eles faltaram.

— Onde está o de Marinette? — Adrien deixou escapar.

A ruiva olhou para Chloé de maneira rápida, como se guardasse um segredo, mas logo, desviou o olhar.

— Dentro de minha bolsa. Vou entregar para ela já, já!

— Ah, sim. — Adrien sorriu. — Obrigado por fazer isto por mim, Chlo.

O garoto inclinou-se e depositou um beijo sobre a bochecha da amiga, que sorriu e caminhou na direção de Sabrina.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.