Notas iniciais
Olá, pessoal! Essa é minha primeira longfic de Amor Doce e estou muito empolgada para trabalhar nela! A última fanfic que escrevi foi há anos, então aproveitei o embalo das ideias de momento e resolvi dar início a esta história, como um desafio de escrita, criatividade e desenvolvimento de trama / personagens para mim mesma. As postagens não serão muito frequentes por conta de minha rotina em off, mas prometo me esforçar para liberar ao menos um capítulo mensalmente. Espero que vocês gostem da história e me acompanhem nesse desafio! Comentários são sempre bem-vindos.

A semana de exposição estava se aproximando mais rapidamente do que Violette queria.

Ela piscou enquanto encarava o calendário, aturdida por um momento. Parecia que apenas dois dias tinham se passado desde a data em que seu pai havia viajado, mas o tempo já tinha avançado em duas semanas. Dali a doze dias ocorreria a abertura da galeria com os últimos trabalhos assinados por Aster — pseudônimo da própria Violette. Depois de anos focada em desenvolver técnicas voltadas para a arte de paisagens e retratos, a jovem tinha passado o último ano inteiro se aventurando no minimalismo; de acordo com Yael, era um movimento artístico que estava ascendendo aos olhos do público e poderia diversificar seu portfólio, algo atraente para um artista. Violette já estava nervosa com essa mudança de ares nas pinturas de Aster, mas além disso também haveria outra grande surpresa na próxima exposição: ela finalmente revelaria ao mundo suas esculturas. Não apenas suas: Vio tinha aprendido a habilidade de esculpir com a mãe, assistindo-a delicadamente quebrando gesso e pedra na oficina quando não conseguia dormir. Ainda quando era criança, as duas se divertiam até altas horas moldando objetos de cerâmica, sujando corpo e roupa com argila e tomando banho juntas antes de irem se deitar para descansar. A mãe de Violette era uma artesã excepcional e tinha uma coleção de esculturas em pedra que tinha feito sozinha no decorrer da vida, além de algumas peças que tinha feito em conjunto com a filha no breve tempo que passaram juntas na Terra. Um tempo muito curto, que teria rendido muitos frutos mais caso tivesse sido maior.

As esculturas que Violette gostava de fazer eram em madeira e tomaram muito de seu tempo. Ela nunca tinha mostrado-as para ninguém além de sua própria família e Yael, que a tinha ajudado a iniciar e gerir a carreira; inclusive, a ideia de expor as esculturas tinha sido de Yael. Vio e o pai debateram sobre esse assunto por meses, até chegar no consenso de que a mãe da jovem merecia ter as obras de arte que havia acumulado durante a vida expostas para admiração do público. Elas foram assinadas com o nome de Mondelis, um pseudônimo póstumo para Monique Delvis escolhido por Violette e o pai, mas o público não sabia que essa artista estava morta. Desde o início da carreira, Violette tinha optado por não revelar sua identidade como a pintora por trás do nome Aster, e havia escolhido o mesmo destino para sua mãe.
O barulho da notificação de uma rede social soou alto no cômodo silencioso, e a moça percebeu que tinha perdido dez minutos olhando para a tela preta do celular e divagando. Desbloqueando-o, Violette viu que se tratava de uma mensagem animada da amiga Lynn, com um anexo em foto de dois vestidos longos lado a lado.

"O que acha desses? Estou entre o rosa e o azul"

Vio revirou os olhos e estava prestes a ignorar a mensagem e pedir desculpas pelo vácuo depois, mas Lynn pareceu premeditar essa reação e o telefone começou a tocar com sua ligação. Vio atendeu com um suspiro.

— Alô.

— E então, o que você achou?! Estou aqui na loja do Leigh com a Rosa, decidindo o que vamos vestir na exposição. Na SUA exposição. Ela me contou que você ainda nem veio procurar sua roupa! — A voz de Lynn estava indignada e ela falava muito e muito alto, como sempre. Antes que tivesse chance de responder, outra voz feminina apareceu na ligação.

— E não veio mesmo! Não me diga que você vai deixar Yael escolher também o que você vai vestir... — Rosalya pronunciou em tom irritado, gerando outro suspiro em Violette. Rosa achava que Vio deixava Yael controlar e decidir grandes aspectos em sua vida e, apesar de não gostar das coisas colocadas nessa perspectiva, Violette achava que a amiga estava certa. O ponto era que proatividade não era algo no qual a pintora se dava muito bem, além da timidez também ser um grande fardo. Primeiro a mãe, depois o pai e agora Yael: Violette sempre tinha preferido ser anônima e deixar que os outros tomassem as rédeas da situação por ela.

— Ahn... Desculpem, meninas. Os últimos dias foram loucos com a preparação das coisas, mas juro que passarei por aí essa semana sem falta.

— Que dia?? — Cobrou a voz exigente de uma Rosalya brava, ainda que Vio conseguisse escutar a risadinha de Lynn no fundo, com a música da loja.

— Hum... Quarta? — Violette se lembrou de um compromisso. — Não, quinta. — Se lembrou da papelada que Yael tinha enviado semana passada e que precisava ser preenchida. — Ah! Sábado, talvez? Ou, não sei, na sexta...

Rosa bufou pelo celular e o barulho fez Vio abrir um pequeno sorriso, sabendo que as amigas só estavam preocupadas em ajudá-la a dar um trato na aparência. Talvez ela estivesse mesmo precisando; como não era reconhecida como a famosa Aster, Violette não se preocupava muito em estar arrumada o tempo todo quando saía nas ruas.

— Bom, arrume um tempo e venha para cá, nem que seja de madrugada. Separei algumas peças que acho que você vai gostar. Falando nisso, você prefere cinza níquel ou verde floresta para a cor de um cinto? Tenho aqui os dois e eu pensei também em um vestido preto com zíper...

Violette se recostou na cadeira macia encouraçada de escritório e deixou as palavras frenéticas das duas amigas preencherem o ambiente pelo alto-falante da ligação do celular. Ela concordava com “uhums” e discordava com a cabeça — até se dar conta de que não a estavam vendo — quando lhe perguntavam sobre suas preferências de cor e estilo. Escolher a roupa com Lynn e Rosalya era quase tão difícil quanto calcular a paleta de cores de uma nova pintura.

Quarenta minutos de ligação se passaram e, quando por fim a chamada foi encerrada com várias ameaças de “vou te esperar aqui sem falta!”, Violette precisou esfregar bem os olhos com ambas as mãos e sacudir a cabeça algumas vezes. A casa em que estava era grande como uma mansão e, no momento, apenas ela estava ali como moradora. Alguns funcionários estavam ali também, como os seguranças e alguma cozinheira que fazia a sobremesa do dia seguinte em troca de hora extra, mas era um domingo à noite e Vio teria dispensado todos eles para ficarem com a família, se pudesse. O pai tinha viajado para a América a fim de resolver coisas do negócio corporativo e tinha ordenado que sua única filha não fosse deixada sozinha na mansão. “Pode ser perigoso e assustador pra você”, era o que Hector Delvis, seu pai, tinha lhe falado. Às vezes, era frustrante ser tratada como uma criança, apesar da passividade de Violette em deixar o comando nas mãos dos outros fosse a principal responsável por esse tratamento. Ela gostava de estar em meio ao silêncio e o sossego de uma casa vazia, ainda que fosse grande, não a assustava; ela tinha vinte e cinco anos, pelo amor de Deus!

Como se fosse uma provocação ao seu argumento anterior, um pequeno feixe de luz pareceu surgir das nuvens baixas no céu da noite e se embrenhou nas árvores do lado norte do terreno da mansão. Era onde estava o principal jardim da casa, mesclando canteiros de flores ornamentais, árvores frutíferas bem-cuidadas e um pequeno laguinho artificial onde viviam meia dúzia de carpas koi, construído em homenagem à sua mãe.

O escritório/ateliê de Violette tinha uma visão perfeita e estratégica daquele lado do terreno, já que tinha sido feito para ser admirado. Ela tinha deixado a varanda aberta naquela noite quente, então não poderia ter sido um efeito óptico causado pela vidraça das portas. Agarrando os braços da cadeira, Vio observou com a testa franzida enquanto a luz branca se tornava cada vez mais fraca entre as árvores, até que se apagou e o jardim voltou a ser iluminado apenas pelas luminárias pequenas embutidas no chão.

Violette estava com a mão a meio caminho de pegar o celular e avisar um dos seguranças, quando parou o movimento e mordeu a parte interna da bochecha. Iria realmente incomodá-los e tirá-los do posto oficial só por ter achado que viu uma luz caindo do céu? Caso fosse uma manobra de assalto à mansão, talvez aquela reação fosse justamente a esperada pela distração. Além disso, Vio basicamente tinha acabado de proclamar em pensamento que era uma adulta que não precisava de tanta proteção. Talvez estivesse ficando paranoica com segurança como seu pai.

Ela levou alguns segundos hesitando se devia ou não ir investigar a fonte de luz, e por fim decidiu, levantando-se. Segurou o celular em uma mão e um spray de pimenta na outra, e atravessou os corredores até uma porta lateral de saída da casa, evitando a entrada principal. Enquanto caminhava até o jardim com passos lentos e a lanterna do celular ligada e voltada para a frente, Vio se sentiu uma idiota. Ela não conseguia acreditar que estava assustada simplesmente por dar uma caminhada em seu quintal após ter visto, sei lá, uma estrela cadente?

Ela chegou ao início do jardim, que tinha um caminho feito de pedras ladeado por arbustos baixinhos aparados em formato arredondado. Enquanto avançava, olhou para os canteiros de flores, que pareciam todas serem amareladas sob as luzes fracas do jardim. Um barulho na água do laguinho a assustou, mas quando Violette se virou, armada com o spray de pimenta e a lanterna do celular, percebeu que tinha sido apenas uma das carpas que havia mexido a cauda sobre a superfície. Vio expirou com força e abaixou as mãos.

— Muito idiota — Ela resmungou para si mesma novamente, se virando para voltar para o interior da mansão, apesar de estar fresco ao ar livre. Era mesmo uma medrosa e talvez seu pai estivesse certo quanto a...

Um farfalhar de pés amassando a grama paralisou Violette no lugar e, em um súbito momento lúcido, ela se deu conta de que de fato tinha alguém ali. O que não sabia era como reagir: correr, gritar, fechar os olhos? Seu primeiro instinto inútil foi realizar a última opção, como uma criança, então ela apertou os olhos e ergueu o spray de pimenta na direção do barulho, como se essa brilhante combinação fosse ser efetiva de algum modo.

Um novo e inesperado som surgiu, algo que parecia um gemido de dor. Vio abriu os olhos rapidamente e procurou a fonte do som, sabendo que não tinha apertado o spray ainda. Outro arquejo de dor, seguido de uma tosse seca, e Violette finalmente viu uma figura masculina apoiada no tronco de uma das árvores, tentando se colocar de pé. Estava de costas para a jovem, então ela não conseguiu ver quem era aquela pessoa; o que ela viu foi algo mais estranho ainda. As costas do homem estavam nuas e eram recobertas de marcas e cicatrizes, linhas finas e grossas que percorriam quase toda a extensão do torso. Não estavam sangrando; pelo contrário, a pele ferida parecia estar se fechando e se regenerando em pele nova, em tempo real, bem na frente dos olhos violetas de Vio. Ela soltou um gritinho esganiçado e deu um pulo para trás.

— Mas o quê...? — A jovem deixou escapar, assustada demais para se manter escondida. O homem também pareceu se assustar e deu um pulo ao se virar para encará-la, o rosto contorcido em uma expressão mista de surpresa e pânico por ter sido pego em flagrante. Os dois se encararam mutuamente pelo que pareceu uma hora, mas foram apenas cerca de três segundos. Apesar de assustada, a mente artística de Violette não deixou de captar as características do homem: cabelo claro, provavelmente loiro, cor dos olhos indecifrável sob aquela luz, rosto aparentemente harmonioso. Ou deveria ser, não fossem as marcas de cortes que se seguiam por suas bochechas e queixo. Abaixando o olhar por um milésimo de segundo para o peito nu do homem, ela notou não os músculos definidos, mas sim a porção de marcas e cicatrizes que, assim como nas costas, parecia estar se curando bem na frente dela.

—Foi essa característica muito peculiar e nada natural a despertar reação em Violette, que começou a gritar e, no pânico, voltou a fechar os olhos e espirrou o spray de pimenta, apesar do homem estar alguns metros de distância e não poder ser afetado. Ela não viu o que ele fez depois disso; pouco tempo depois, surgiram os seguranças, atraídos pela gritaria fina de Violette. Ela ainda apertava o botão do spray mesmo com a lata vazia quando eles a alcançaram nos jardins e a levaram para casa, se organizando para vasculhar os perímetros externo e interno da mansão e analisar as filmagens das câmeras de segurança dos portões.

Violette olhou para trás uma vez enquanto se deixava ser levada, encarando a árvore na qual o homem tinha estado apoiado. Ela percebeu, com confusão, que havia uma marca circular de grama quase preta no chão próximo à árvore, parecida com grama queimada. Vio sacudiu a cabeça e correu para dentro de casa, mas via o rosto machucado e assustado do homem todas as vezes que fechava os olhos.