Purfici

1 Prólogo


"Tolice, talvez, foi se jogar aos braços da mulher do Rei. Antes era só um bando de Fronsaits e outro bando de Grátivys, também haviam algumas criaturinhas irracionais pelo resto do mundo, mas por culpa de uma alma tudo se tornou um caos. Não precisou ela viver mais de um segundo para quebrar todo o padrão existente no universo."

Fragmento de um pergaminho queimado, localizado na cidade de Prata, autor desconhecido.

"Os Fronsaits eram tão belos, principalmente a rainha. Criaturas minúsculas, não chegando a ter um metro de altura, com a pele áspera, gélida e cinza, voavam pelos céus em suas asas transparentes, que nunca criavam um formato padrão. O mais interessante eram os braços longos, às vezes maiores que o próprio corpo, e finos, as mãos eram grandes e os dedos eram proporcionais à mão, mesmo sendo finos. A cabeça achatada, a falta das orelhas e do nariz chegavam a causar repúdio, mas a boca e os olhos eram suas vantagens. Possuíamos bocas, mas a dos Fronsaits eram belas, pequenas, macias e os dentes eram alinhados, retos e brancos, não havia como não desejar tê-las. Mesmo não sendo dotados de uma grande força e agilidade, eles conseguiam ser mais espertos e inteligentes que nós. Exemplo disso era a tecnologia que eles possuíam e a forma que eles caçavam. Suas técnicas também eram bem interessantes, mas nada que fosse superior a nossa. Eram criaturas fascinantes, vi um ou dois bem de pertos em um dia qualquer, mas não houve nenhum contato. A única coisa que não me agradava e não conseguia ver lógica, era criar uma hierarquia entre eles. Reis, rainhas, príncipes, títulos e cargos, não conseguia ver utilidade nisso. Talvez aquilo era feito para organizar sua sociedade por culpa do número da população. Eles eram muitos, talvez o triplo da nossa população, mas viviam pouco e se foram rapidamente por culpa do Gran Claus. Chego até a arrepiar, já que, daqui a alguns dias, talvez, eu também irei e toda a minha raça irá sumir igual ao que aconteceu com os Fronsaits. Choro todos os dias, mas a morte de qualquer forma iria vir, o jeito é me conformar e me libertar de tudo o que é material."

Fragmento do pergaminho Fronsaits, localizado na cidade de Prata, autor desconhecido.

"Nunca fizemos barreiras ou delimitamos uma fronteira, mas sabíamos perfeitamente respeitar o devido espaço de cada um. Os Grátivys, como nós, são muito inteligentes e, por isso, nossas raças dominaram o mundo, controlando todas as criaturas irracionais que andavam juntas a nós. Por mais que fizéssemos algumas trocas comerciais, nunca nos misturamos, até porque nenhum dos lados queria isso, mas infelizmente aconteceu um contato, nossa querida Rainha se misturou com um Grátivys. Coitada, ela não sabia de nada, nem nós sabíamos o que podia acontecer. Nunca nos misturamos, pois nunca tivemos essa vontade de união, mas não havia nada que falasse que não podíamos nos misturar. Talvez fossem nossos instintos falando mais alto, nos privando da catástrofe que agora vivemos. Já faz dez anos que estamos neste novo mundo e o medo é constante do que está por vir. A chuva não para e as plantas morrem sem o sol, os animais que caçamos estão se transformando em outras criaturas e parece que há uma nova doença entre nós. Aquela alma veio morta e nos amaldiçoou por não ser uma de nós e nem ser uma deles. Pelo que ouvi, mais de mil de nós já morreram e mais de setecentos dos Grátivys morreram. É triste, pelo que ouvi, nossos irmãos vão envelhecendo rapidamente, perdendo as forças, seus dons e a racionalidade, até que não aguentam e viram pó. O mesmo com os Grátivys, envelhecem, perdem as forças, seus dons e a racionalidade, por tanta debilidade caem no chão e se tornam objetos inanimados, até que vão aos poucos se desfazendo, virando novamente terra."

Fragmento do pergaminho Novo Mundo, localizado na cidade de Prata, autor desconhecido.

"Eu estou com algo estranho, talvez seja a doença. Éramos mais de milhões e hoje é menos de mil. Está formando sentimentos em mim que eu nunca senti, não sei como lidar com elas, não sei o que fazer para parar com elas e todas as que eu gostava de sentir, não as vejo mais. Eu quero matar, estou com uma sede de destruição. Estamos quase sumindo, caindo aos poucos no chão, o mundo está se livrando de nós e criando outras coisas para se divertir. A chuva parou, depois de mais de mil anos chovendo, e agora existem lagoas tão grandes e salgadas que não conseguimos nadar nelas. As criaturas que antes eram vistas, hoje são outras, demônios que não consigo nem comer direito por culpa do gosto. Criaram uma palavra pra isso, nojo, estou com nojo da carne desses demônios e não consigo me alimentar direito comendo as frutas das novas árvores. É tudo tão novo, a mudança foi tão radical, que me sinto um brinquedo velho e quebrado que os pequenos jogam para o lado quando se cansam. O que está me deixando mais desconfortado é a aparição de repente de uma massa um pouco maior que um Fronsait. Eles são diferentes, são poucos, por enquanto, mas parecem ratos, vivem para procriar e se espalham por aí lutando contra outros demônios, bem parecido conosco, estão caçando essas novas criaturas. Seria a nossa salvação? Não, eles nem notam a nossa existência, como se nós fossemos invisíveis. Somos apenas um pouco de massa aglomerada em um canto entre as árvores à espera da morte. De qualquer forma, se essas criaturas fossem a nossa salvação, não faria mais sentido possuí-la. Os Fronsait já se foram e nós estamos indo. Sem contar que, não somos mais os mesmos. Olho para a minha filha e penso: “Eu irei morrer, você também vai, então por que te amar? Eu quero é te matar para você não sofrer como estou sofrendo.” Estou confuso, não sei o que sinto. Medo, medo, medo... Essa palavra irá representar o que eu sinto."

Fragmento do pergaminho Fim dos Tempos, localizado na cidade de Prata, autor desconhecido.