Purfici

3 A Reunião


Aos poucos, várias pessoas iam entrando em uma sala iluminada apenas por velas. Seus trajes eram mantos negro e longos, cobrindo todas as partes do corpo, e sobre o rosto, uma máscara com formato da face de uma criatura, lembrando um monstro. Após todos entrarem, uma das pessoas que situava perto da porta a cerrou juntando as aldrabas e a trancou fechando os vários trincos. No cômodo estava posto, bem no centro, uma enorme mesa de formato arredondado, feita de madeira escura e em seu contorno, haviam dez pequenas depressões de formato circular. Sobre a mesa, havia uma pilha de gaiolas de ferro, prendendo lebres de todas as cores e tamanhos. Também, em cima da mesa, se encontravam várias taças de prata, alguns candelabros enferrujados e folhas de papéis espalhadas pelos cantos. Em volta da mesa, dez luxuosas cadeiras que rapidamente foram ocupadas, enquanto o resto do grupo permaneceu em pé, de cabeça erguida, observando tudo. Ao fundo da sala, uma enorme lareira de tijolos, acesa por um fogo esverdeado. Já no teto, se encontrava uma enorme pintura rupestre de criaturas estranhas, nunca vistas, em uma terra desconhecida. Por mais que fosse uma pintura estranha, todos a respeitavam e por isso ela estava no teto, sobre eles. Um dos homens que estava sentado, tomou a liberdade e agarrou uma das taças se erguendo e olhando todos que estavam presentes. Pegando uma das gaiolas, retirou uma lebre que parecia enfraquecida ou atordoada, provavelmente alguém havia dado um calmante a ela, e com uma faca, cortou seu pescoço e deixou o sangue escorrer dentro do utensílio. Após enche-la até a boca com o sangue do animal, ele colocou a taça sobre a mesa e levou o animal até a fogueira. Com um sussurro, o homem tacou o animal na lareira e gritou: purifique o nosso alimento. Após o grito, todos da sala seguiram juntos e gritaram o mesmo que o homem havia dito. Quando o silêncio voltou a tomar a sala, saiu de perto da fogueira e voltou até a mesa, tirando de seu bolso uma pedra transparente e com calma, a levou até a depressão que se localizava na mesa deixando-a por lá. Em seguida, os outros membros que estavam sentados fizeram o mesmo e tiraram suas pedras, colocando-as na pequena depressão. Cada pedra possuía um formato, cor e/ou uma tonalidade diferente, não encontrando nenhuma pedra igual a outra. Após isso, o homem que ainda continuava em pé, ergueu a taça e andou pelo grupo, jogando um pouco de sangue sobre as taças em cima da mesa. Quando terminou, os outros nove membros, que antes estavam sentados, puseram-se de pé e ergueram suas taças, com um bride, todos retiraram suas máscaras e beberam um gole do sangue da lebre. Por um momento, as pedras chegaram a brilhar com mais intensidade e os dez membros entraram em um momento de êxtase, como se o sangue proporcionasse a eles prazer. Quando as pedras voltaram a brilhar normalmente, os homens voltaram à postura de antes, colocando as máscaras e se sentando novamente.

–Irmãos, obrigado por terem vindo novamente a nossa reunião semanal. – ele se esticou até alguns papéis e os apanhou. – Vimos que mais um pobre animal foi sacrificado em nome de nossa sede, mas isso é necessário. Todos nós sabemos o nosso objetivo neste mundo. A lebre é o animal mais próximo dos irracionais que caminharam entre os nossos antepassados e por conta disso, é o único animal que nos proporciona poder para executarmos nossos objetivos. O universo já sofreu com um desiquilíbrio no passado e ainda conseguimos ver as feridas do desastre que aconteceu. Para isso, nós existimos, lembrem-se sempre disso. Vocês provavelmente já se cansaram das minhas mesmas falas, porém, de qualquer forma, gosto de reforçar sempre, pois dessa forma me sinto em dia com meus objetivos e penso que, fazendo isso, posso incentiva-los ainda mais em nossas metas. Gosto de acreditar sempre que, entre nós, todos estamos focados em um mesmo objetivo. Enfim... – juntando os papéis que estavam em suas mãos, ele olhou para o que estava escrito por alguns segundos e se virou para os membros que estavam sentados. – Pelo que vejo, estamos com algum problema, certo?

–Sim, senhor. – respondeu um dos homens que estava sentado à direita do superior. – Mesmo coletando todos os vestígios do mundo antigo, através de estudos minuciosos, por incompetência, deixamos uma caverna sem investigar e para a nossa infelicidade, um grupo de arqueólogos acabou encontrando-a e a investigou por completo, encontrando artigos sobre os nossos antepassados.

–Entendo, isso é muito ruim. – disse levando sua mão até a máscara e a tirando para respirar com mais facilidade. – Obrigado, Reinvron, pela informação. Não irei perguntar de quem foi o ato incompetente, por mais que devesse, pois não irei julga-lo em minhas leis. Mas, terei que tomar uma atitude sobre os arqueólogos. Temos que pegar esses itens que eles encontraram, em hipótese alguma isso pode vazar para o mundo dos humanos. Humanos são criaturas racionais, iguais a nós, e por isso, fazem perguntas demais. Tirando o fato que, esses itens que eles encontraram, podem ser de grande utilidade em acrescentar ainda mais conhecimento a nós. Irei mandar dois ou três magos até esses humanos para resolver esse assunto, obviamente se oferecermos dinheiro ou algo similar, eles irão aceitar, essas criaturas são racionais e gananciosas ao mesmo tempo, não se importam com mais nada além deles mesmo.

–Mas, meu senhor... – disse Reinvron novamente, chamando a atenção da sala. Ele esperou a permissão de seu mestre para voltar a falar, após o superior assentir, ele voltou a dizer com firmeza. – O problema dos arqueólogos vai mais além do que imaginamos. Me dei a permissão de mandar um mago para investigar sobre o caso. Além de terem alguns pergaminhos dos nossos antepassados, eles também acharam um artefato importantíssimo. Uma gema petrificada que se quebrou entre eles e os deram o Dom. – um silêncio tomou sala, ninguém na mesa conseguia ficar quieto, olhavam entre si sem conseguir formular uma frase.

–Então... – o superior ergueu a voz, trazendo todas as atenções para ele novamente. – Vejo que a situação é mais delicada do que pensei. – ele descansou sua cabeça no encosto de sua cadeira e com os olhos cerrados, inspirou profundamente. – Terei que pensar mais sobre o assunto, me perdoem, pois não podemos agir por impulso. Enquanto esses arqueólogos andarem entre os humanos, as leis do novo mundo estarão sendo quebradas e por isso esse enorme erro deve ser concertado com urgência. Creio eu que terei que tomar a iniciativa pessoalmente.

–Você não precisa ir pessoalmente cuidar dessa incompetência, senhor. Vejo que a situação é grave, sem dúvidas, mas não vejo necessidade de expor sua imagem à frente de qualquer criatura. Por isso, eu me candidato a estabelecer novamente a ordem do novo mundo. – outro membro, o que se localizava à esquerda do superior, se colocou mais à frente.

–De fato, me enche de alegria quando vejo atos corajosos dessa forma. Estou muito feliz com sua dedicação, Átrinon, mas, infelizmente, eu ainda não sei o que fazer. Eu poderia ir agora ao encontro desses arqueólogos e exercer minha lei, mas seria impulsivo e, além de estar evitando isso, estou querendo pensar mais sobre esse assunto. Nunca lidamos com algo assim antes e me envergonho em dizer isso, porém, não posso mentir. – levando seu corpo mais à frente, o homem colocou suas mãos sobre a mesa com força e olhou fixo para os membros que estavam ali sentados. – Reinvron e Calist, quero todos os documentos, pesquisas, enfim, qualquer coisa que vocês acharam sobre esses arqueólogos. Quero saber cada detalhe da vida deles, do que eles acharam e o que aconteceu dentro daquela caverna. – com uma rápida resposta dos dois membros, “sim, senhor”, ele se virou para o outro lado da mesa. – Tallen e Oldram, a vocês, dou o dever de vigiarem todos os membros do grupo de arqueólogos, ver cada passo e caso eles cheguem a mostrar o que eles encontraram na caverna para algum humano, mate-os. – ele pegou sua máscara e após um longo suspiro, voltou a cobrir seu rosto. – Por enquanto, essas serão as minhas ordens. A reunião está encerrada. – ele se levantou e logo em seguida todos se levantaram também.