Purfici

4 O Desespero


Estava em frente ao espelho observando-se com os olhos estreitos, mas sua atenção estava prensa em outro local. A expressão de sua face ia só decaindo, se tornando cada vez mais triste. Suas mãos, antes jogadas em cima da pia, se ergueram e foram até sua barba grisalha, que a cada dia ia perdendo a tonalidade escura que tinha. Com seus dedos, ele tentava erguer as maçãs do rosto, tão flácidas, na tentativa de se apresentar mais novo, mas logo as soltou deixando-as caídas novamente. Descansando os olhos por alguns minutos, o homem ergueu sua cabeça enquanto dava alguns passos para trás. Quando foi perceber, já estava encolhido no meio do banheiro, abraçando suas pernas com frio, pois estava nu. Quando abriu seus olhos novamente, pelos azulejos estava marcado o número 21. Com uma das mãos soltas, ele a levou para frente rumo ao espelho, que refletia o rosto de uma bela mulher, mas após um resmungo, o reflexo se foi como uma miragem. Em pé, o homem girava em torno do banheiro observando todos os azulejos marcados pelo número, aquilo só o deixava pior. Seus lábios se estreitaram e o queixo tremia, sua boca amargava e seus olhos estavam cobertos de lágrimas, mas ele relutava, não queria mais chorar. Então, para evitar mais derramamento de lágrimas, lentamente o homem seguiu até a pia, lavou seu rosto, assoou o nariz e voltou pro seu quarto. Sentou-se em uma poltrona que localizava-se de frente a uma cama de casal e a observou, como se ela não o estivesse mais o confortando, porém, ele sabia bem que a poltrona continuava a mesma, ele que havia mudado.

– “Se te dessem uma grande oportunidade, mas essa oportunidade lhe custasse muito, você aceitaria?” Ah, como eu sou um tolo. — disse afundando seu rosto entre suas mãos. – Isso não pode ficar assim, é injusto. A sociedade ensina que não podemos fazer justiça com as próprias mãos, mas como ficar quieto nessa situação em que me encontro? Além disso, a sociedade não é capaz de julgá-los. A sociedade não é capaz de fazer o que eles fazem. – ele se levantou e se esticou, fazendo alguns ossos estalarem, logo em seguida seguiu até o guarda-roupa e se vestiu. O homem se perdia em seus pensamentos, formulando novas ideias e conclusões. – Eles precisam pagar pelo que fizeram. É isso mesmo. Na sociedade, não podemos matar, não podemos fazer justiça com as próprias mãos, pois a justiça será feita. Mas neste caso, a justiça não será feita, pois a sociedade não é capaz de julgá-los em sua lei. Até porque eles não estão dentro da sociedade. Aliás, nem eles, nem eu, somos mais partes dessa sociedade, então a lei não é feita para eles e muito menos para mim. – após terminar de falar, ele fechou as portas do guarda-roupa e escorou sua testa sobre o móvel.

– Calma, amor. – uma voz feminina disse empolgada, seguida de uma risada. O homem se virou rapidamente, esperançoso, como se não estivesse acreditando no que havia escutado, mas, quando parou e olhou sua cama, se viu agarrado com a mulher do reflexo.

– Uma ilusão… – arrastando os pés, ele retornou à poltrona e se sentou, vendo sua cena com sua esposa.

– Você disse que tinha algo a me falar. O que era? – com os lábios pintados de rosa e um sorriso humilde, a mulher, com suas mãos, tentava tirar por um instante de seu pescoço seu marido todo empolgado.

– Precisamos falar disso agora? Eu prefiro aproveitar este momento primeiro. – ele parou olhando-a com um sorriso bobo, mas com o modo que sua mulher o encarou, logo o fez recuar, se rendendo. – Ok, ok, Lisa. – ele se ajoelhou em cima da cama e, com os olhos brilhando, disse sorrindo. – Me chamaram para um grupo de pesquisa. – a mulher ergueu suas sobrancelhas e abriu sua boca em um enorme sorriso, como se não tivesse acreditando no que tinha acabado de ouvir.

– Isso é ótimo, amor. Lembro quando você ficava dizendo que queria muito fazer parte de algumas pesquisas e tudo mais. Meus parabéns, amor. Você merece. — ao terminar, ela o abraçou e o beijou.

– Sim, é ótimo. Na verdade, vou te contar o que aconteceu mesmo. Esses dias, como um dia normal, estava na faculdade dando aula, quando no intervalo, me encontrei com um arqueólogo na sala dos professores. Ele veio de uma cidade lá do sul do país procurando por um arqueólogo e acabei sendo indicado por alguns colegas. Enquanto falamos sobre nossas experiências na carreira e tudo mais, surgiu um assunto sobre uma caverna aqui perto da cidade que nunca foi explorada. Conversando sobre essa caverna, ele fez a proposta de forma um grupo e ir explorá-la. Como ele veio sozinho do sul, não possuía nenhuma equipe, com isso, ele me pediu para formar uma. Eu não disse nada no começo porque não estava totalmente crente de que isso iria para frente, mas acabou que hoje ele foi na universidade de novo e tudo se formalizou. – ele parou por um tempo e começou a olhá-la de outra forma. – Você quer ir comigo?

– Espera, sim, claro. Eu vou adorar te acompanhar. – ela se empolgou ainda mais com a pergunta. – E eu sempre quis investigar e tudo mais, colocar a mão na massa mesmo. – chegaram a rir com o comentário da mulher. – Mas, mudando de assunto. – ela o agarrou pela gola de sua blusa e o atirou para cima de si. – Agora que sua empolgação foi explicada, que tal terminarmos aquilo que estava rolando entre nós, em?

– Acho uma ótima ideia. – murmurou o homem e logo após a beijou.

A ilusão se foi e novamente o homem, que ainda permanecia na poltrona, estava sozinho em seu quarto. Descansava sua cabeça sobre o confortável móvel, respirando fundo e tranquilamente. Seus olhos se perdiam em seus joelhos, já suas mãos estavam entregues ao ar, deslizando os dedos indicadores nos polegares. Sentado ali, até parecia estar a espera de algo, mas por culpa da demora, após coçar uma de suas sobrancelhas, tomou embalo e tentou se colocar em pé. Podia dar alguns passos, porém, após um arrepio, ele voltou a se sentar rapidamente. Suas mãos livres se agarraram nos braços da poltrona firmemente e seus lábios se apertaram preparando para o que estava prestes acontecer. Em seu pensamento só vinha uma palavra: “desespero.” Uma fincada em seu peito o fez encolher, seu rosto se enrugou, a dor era insuportável, mas continuou ali parado, apenas esperando. Seu rosto se ergueu até encontrar o teto, encarando-o por um tempo. Em seu estômago se encontrava algo morto, um incomodo que o causava ânsia de vômito, sua boca se abria e sua garganta parecia querer expulsar algo, mesmo não havendo nada para botar para fora. Suas mãos tremiam e a sua respiração estava irregular. Seu coração palpitava, a língua estava dormente e sua visão escurecia. “Não, por favor, passe logo, eu não quero sentir isso. Eu não quero viver assim mais, eu não quero mais sentir essas coisas. Por favor, Deus, se você existe, faça parar, dei um fim a isso tudo de uma vez.” Aqueles sintomas, pareciam até indícios de uma possível morte, porém, mesmo que não estivesse aparentemente bem, ele não se preocupava em morrer, ele só não queria sentir mais dor. Aquilo já havia acontecido outra vez, uma crise que ele não sabia do que era, mas ele conseguia supor. Aquilo estava acontecendo, ou porque ele estava morrendo ou porque seu corpo estava sofrendo modificações, uma modificação totalmente estranha. Não fisicamente e nem exterior, estava modificando algo que ele não sabia o que era, mas estava deixando aos poucos de ser humano, isso ele tinha certeza. Após respirar bem fundo, tudo se foi e seu corpo estava novamente normal. Ele se levantou e seguiu até a porta, se retirando do cômodo. Desceu as escadas rumo à cozinha igual a um senhor, lento e cauteloso, como se estivesse com medo de tropeçar em algum degrau. Desorientado, analisou o que havia de bom dentro da geladeira, queria algo que servisse como remédio para sua vida, mas só achou uma garrafa de cerveja. A observou como se ela fosse um estranho, não se lembrava quando a comprou, porém, de qualquer forma, aquilo não fazia diferença. Após abri-la, se sentou em meio à solidão para beber. Seus olhares seguiam entorno da bebida, não era acostumado a ingerir bebida alcoólica, até porque, Lisa detestava esse tipo de bebida. Com um rangido de porta, seu olhar fixo na garrafa, se desprendeu para vira-se para a sala. Ele se viu entrando com as mãos tampando a boca e um rosto de espanto, pálido como se tivesse visto algo sobrenatural. Em outro cômodo, uma voz feminina o chamou.

– Heilin, é você? – aos poucos a mulher ia descendo ao encontro do homem. – O que foi, Heilin? – ela se desesperou ao ver o rosto pálido. – Meu deus, o que aconteceu, Heilin? – ela o agarrou pelos braços e o sacudiu, mas de nada adiantou, o homem continuou paralisado, preso em outro mundo. – Você já está me assustando com esse silêncio todo, Heilin.

– Mais um… Mais um se foi. – após terminar, o homem caiu de joelhos no chão enquanto sua mulher seguiu junto, o abraçando e chorando muito.

– Como essas imagens irritam… – logo a visão sumiu, porém todo aquele mal-estar voltou do nada. Suor frio, a pressão abaixando, cabeça latejava de dor. O pobre coitado chegava a fechar os olhos, torcendo para que aquilo fosse embora rápido. – Foda-se.

Com um embalo, ele virou a garrafa. Tomando longos goles e fazendo caretas, o homem acabou não aguentando virar a cerveja e cuspiu um pouco dela pelo chão. Mordendo os lábios, sua mão surrou a mesa por culpa da raiva. Não, ele não sabia como se comportar. Ele não sabia o que pensar ou o que sentir, ele só queria acertar algo até sua raiva sumir. Berrava como se quisesse ter feito isso a muito tempo, soltava tudo o que tinha ali guardado em uma sequência de socos na mesa. “Desespero”. Ele não queria mais sentir dor. Quando parou, tentou recuperar o fôlego observando as mãos sangrarem. Estava bem melhor por dentro, tanto que chegava até sorrir mesmo com as mãos ardendo. Parando por um tempo, o homem se virou rumo a pia e seguiu até ela para lavar suas mãos. Após lava-as, enquanto as secava, ele notou que algo havia acontecido junto com sua crise de fúria. Aos poucos, o que era uma surpresa pra ele, aqueles sintomas foram passando sendo que, normalmente, duravam por horas às vezes. Outra coisa que ele notou, foi que sua cozinha inteira estava em pé, flutuando no ar. Algo totalmente incomum e sobrenatural, mas uma novidade, nunca aquilo havia acontecido.

Mais calmo, ele agarrou a cadeira de antes, que no momento flutuava, e ao colocá-la no chão, voltou a se sentar em busca de um descanso. Com um estalar dos dedos, todo os objetos que flutuavam se despencaram até acertar o chão, causando um grande estrondo e alguns até se quebraram. Aquilo tudo era fantástico demais, tudo aquilo que ocorreu veio dele, era o seu novo poder, não era mais uma sequência de ilusões que o confundia e o deixavam pior por culpa de suas ações. Marcado por um sorriso, nem parecia o mesmo Heilin. Sua mão foi até uma gaveta, onde estavam guardadas várias facas, e apontou o dedo para uma delas. Aos poucos, com algumas tremidas, uma faca começou a levitar e se juntou às mãos do homem.

– Inacreditável. Isso é fantástico demais.

A campainha tocou e todos os seus pensamentos se foram. Ele poderia ignorá-la, até porque ele não estava esperando por ninguém. Ele poderia ignorar, pois não estava disposto a socializar com alguém, fingir que estava bem. Ele até se via abrindo a porta e dando de cara com um vizinho irritante querendo saber o seu estado e o que havia acontecido dentro da casa por culpa do estrondo. Ele se virou para a faca novamente.

– Será que posso testar meus poderes nele? – ele ergueu a faca. – O que você acha, parceiro? – seu rosto foi marcado por um sorriso, ele só imaginava a faca acertando em cheia a garganta do vizinho. Seus olhos se fecharam, eram prazerosas demais aquelas imagens.

“Desespero. Entendo bem o que você está sentindo, amigo. Eu senti isso quando era mais novo. Cheguei a me enlouquecer por um bom tempo e acredite, a loucura é um estado de desespero sufocante. Era como se uma revolta te consumisse e por culpa disso sua humanidade era desligada, sobrando apenas uma eterna apatia e frieza. Venha, não fique assim, são apenas alguns passos para a sua liberdade, venha, não perca o foco. Venha até mim, eu estou aqui, tão perto, você só precisa vir.” Aquela voz profunda e feminina. Heilin não conseguia organizar seus pensamentos, era só aquela voz que ele conseguia ouvir. Suas mãos foram até sua cabeça, arranhando-a, uma tentativa estúpida de tentar tirar aquela voz de sua cabeça. Ele sabia de quem era aquela voz e por isso, sua raiva só crescia. “Por que ela está dentro da minha cabeça?” A campainha tocou novamente e tudo se foi. Os pensamentos, a revolta, a raiva, a vontade de destruir o vizinho, o desespero. Ele estava calmo. Saindo da cozinha, seguiu rumo à porta em passos lentos.

Quando abriu a porta, avistou um casal. Uma garota, provavelmente com 18 anos, e um homem na melhor época da vida. Não era o vizinho, mas aqueles ali à frente eram bem mais interessantes. O estranho tomou a frente com um belo sorriso e abrindo os braços, começou a falar.

– Bem, então você é o senhor Heilin. É um prazer te conhecer pessoalmente. Ouvi muito sobre você, aliás, é uma honra estar de frente a você.

– Vá direto ao ponto, quem é você e o que quer?

– Bem, muitos me chamam de Avareza. – ele voltou seus braços para perto do corpo, guardando suas mãos em seus bolsos. – Mas pode me chamar de Diacropeli e essa é minha irmã, Oldram. – aquele nome. Ele queria se jogar contra aquele homem, rasgá-lo, parti-lo, dilacerá-lo.

– Como ousa vir na frente de minha casa? – mas ele não se jogou. Sua voz saiu naturalmente, ele tentava ficar com raiva, mas não conseguia.

– Calma, quero apenas conversar. Podemos entrar? – a mão de Diacropeli seguiu para frente e esticou até Heilin, sinalizando como um tratado de paz, mas nenhum movimento foi feito pelo outro. – Interessante. – os olhos de Diacropeli fixaram em uma faca que flutuava sobre Heilin, apontada para si. – Mesmo com a técnica de Oldram, você ainda consegue manter um certo controle sobre si. – o homem se virou para a mulher ao seu lado.

– Me desculpe, estou ficando aos poucos mais fraca, sem contar que ele é bem mais forte que eu. – ela abaixou seu rosto, tentando ocultar sua vergonha.

– Não se preocupe, é que me surpreendi vendo a faca, mas tudo bem. – voltando seus olhares para Heilin. – Oldram possui a habilidade de controlar os sentimentos de qualquer pessoa, além disso, pode também controlar os pensamentos delas. Você quer muito me atacar, certo? Mas não vai, pois seus sentimentos estão contidos, você vai ficar calminho enquanto a Oldram estiver aqui. Bem, voltando ao assunto. Podemos entrar?

– Bem, se estou sendo controlado mesmo. Eu tenho escolha?

– Com certeza, não.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.