Pupilo

6 Capítulo 06: Azul


Azul. Capítulo 06

Triiiiiim.

Triiiiiim.

Merda. Esse é o toque da merda do telefone... é uma pena que, diferente dos gatos que trepam no telhado durante a noite, essa joça não pare de fazer barulho quando acordo.

Triiiiiim.

”Você provavelmente não devia estar me ligando, desligue a não ser que seja do trab... ”

— O quê?- Eu atendo o telefone de cabeça para baixo enquanto me estico da poltrona. Rapidamente percebo meu erro. – Aqui é o Pablo.

— Eu sei, é seu número.

— Oh, é claro. Obrigado por fazer o meu dia dizendo isso. – Me mexo de forma a fazer com a sensação ruim do atrito em minha pele por estar ali deitado há horas fosse embora. Eu estou bem disposto a desligar essa droga e ouvir o toque doce do bater do telefone. – É do trabalho ou o quê?

— Que eu me lembre eu sou sim. Você disse que queria os detalhes da autópsia.

A voz do desconhecido, que agora me faz vagamente lembrar do seu nome, parece calma e admito que estranhamente empolgada. É bom saber que dormir o bastante desde o última vez que vi um corpo desmembrado. Faz eu achar que meu cérebro está menos avariado.

Soa errado, mas eu deveria me sentir mal por estar ansioso pelas informações?

— Eu chego ai em... – Limpo um pouco da saliva que transbordou pela minha boca durante o solo e no mesmo movimento olho meu relógio... está parado. – Eu chego logo.

— Se você correr talvez dê uma última olhada antes de eu empacotar a pobr...

Tim....

O som agudo se prolonga um pouco mais com uma reverberação suave.

Eu não quis prolongar a conversa e muito menos ouvir o final daquela frase.

Com o mesmo impulso que acertei o telefone no gancho, me levanto da poltrona que permanece amassada com minhas marcas, me lembrando do tempo que passei ali. – Ana. – Eu sussurro de maneira forte enquanto me dou conta que está de noite. Devo ter dormido mais de doze horas.

Espero que Ana não tenha precisado de algo. Por deus, que espécie de marido sou eu?

Pergunta idiota, deus não saberia. Nunca tivera mulher.

A cada passo apressado em direção ao quarto eu sinto meus músculos gritando por socorro, ainda contraídos, amassados, tudo parece dormente ao meu redor.

Detesto estas amostras grátis de morte.

Consigo finalmente parar de me mover como um defunto ressuscitado e chego até a porta entreaberta do quarto.

Sinto o ar gélido e confortável que vem dele.

Olho no pequeno espaço entre a porta e a parede.

Vejo apenas uma estreita linha do rosto pálido de Ana, seus cabelos castanhos caindo pelos ombros.

Talvez eu não devesse entrar, eu não tenho coragem.

Talvez eu me sinto culpado o bastante para me pôr no meu lugar, me castigar com apenas uma estreita visão do paraíso.

Me viro de costas.

Passo minhas mãos entre os fios de cabelo, algo se prende entre eles.

Oh claro, meu curativo barato.

Desço minha mão e junto a ela diversos fios loiros da minha cabeça voltam grudados.

Sinto raiva.

Aaargh merda!

Num único puxão, como quem quebra pescoço de galinha, joguei fora o amontoado de fita.

Doeu pra caralho... mas parou o sangramento. Vai servir.

Minha casa está parcialmente escura. O pouco que se pode ver está iluminado pelas luzes neon que entram pelas venezianas. Nele está escrito: ”Tudo o que puder foder por tudo o que puder pagar”.

Passo a língua entre os dentes sentir o gosto amargo do sono mal dormido e vou até a cozinha.

Na parte de cima da pia ainda imunda há uma prateleira improvisada feita com granito.

Em cima desta prateleira eu guardo uma escova de dente, um enxaguante bucal... algumas coisas que não me orgulho de guardar... bem, o único banheiro da casa está no cômodo onde Anie dorme e...eu sou um covarde.

Abro a torneira com a mão esquerda e molho meu rosto fazendo os traços brancos ressecados de baba se dissolverem.

O enxaguante bucal está provavelmente vencido, assim como eu.

Vai servir.

Ele arde em contato com o interior da minha boca, ligeiramente imagino uma luta sanguenta entre os cidadãos do enxaguante e os das bactérias. Como costuma acontecer no Alpendre do Diabo quando os cuzões dos Carecas do subsolo encontram os pretos do N-9.

Devolvo tudo aos seus lugares, pego meu chapéu, agora felizmente seco e sigo em direção á porta, a cor azulada do letreiro quase me cega ao fechar as pequenas entradas e a abro.

Isso é o melhor que posso ter, que possa dar á minha esposa no momento. Com a esmola que ganho.

Tranco a porta ao sair. A melhor parte de dormir com a roupa que pretende sair é ter o luxo de apenas levantar e estar pronto. Assim como os velhos de ternos caros ao serem enterrados.

O que esperam? Eu não sei.

Desço o pequeno batente e sinto um relevo esquisito em baixo da sola do meu sapato.

É um terço quebrado no chão.

Me abaixo para pegá-lo.

Minha coluna estala como um graveto ao ser quebrado, foi o peso da minha cruz, ou pelo menos o esforço de levantá-la.

Faltam algumas ”bolinhas”, algumas pessoas me diriam que por conta disso não serviria.

Acredito que a parte mais importante de um rosário está no meio, pregado ao crucifixo.

Com um simples nó, eu amarro ao punho junto ao relógio parado.

Espero que ele aprenda alguma coisa e volte a funcionar depois de três dias.

Não acredito que isso realmente vá me proteger, mas me serviu para lembrar que não estou com minha arma.

As mãos frias quase se despregando dos braços inutilmente apalpam minha cintura em busca do coldre.

Barulho de motor acelerando.

Levanto o rosto e quase no mesmo instante meus olhos se cruzam com o do motorista.

Negro, cabelo cortado ”no 02”, bigode grosso caindo até perto do queixo.

Camiseta branca, mas esverdeada da sujeira e resíduos.

Não me parece estranho.

Quer dizer, menos o olhar esbugalhado como se ele estivesse me olhando antes dos meus olhos fazerem parte disso.

— Você tá livre, cara?

Franzo minha testa e comprimo o olhar.

Não tem aquela lâmpada estranha em cima do capô. Tive de perguntar.

O olhar esquisito permanece. Posso perceber um engolir tão seco quanto meu estômago.

O carro freia bruscamente.

— Sempre para você, Patrão.

Como numa metamorfose de homem para barata, o rosto daquele homem mudou drasticamente.

Sorrindo ele sai do carro a abre a porta dos passageiros.

Percebo que usa de forma inclinada para cima. Não sei se ele decidiu abri-la para mim por educação ou por que ele conhece o único jeito de abrir aquela porta, que deveria ser amarela, colorida de uma cor que beira um fruto podre.

Ele permanece segurando a porta. Eu o olho com um ar de gratidão. Apenas por fora.

Entro no taxi e sinto o estofado tão duro e áspero quanto uma pedra de amolar facas.

Não me surpreenderia se ele fizesse isso neste acento mesmo.

Sinto e ouço os amortecedores reclamarem de mais um passageiro. Eu também não estou gostando, então mantenham-se firmes até a delegacia.

Logo em seguida ele empurra a porta com força usando a mesma força direcionada á um lugar específico na porta. Tenho certeza, agora, de que não foi por educação.

Escorrego minha mão pelo estofado, se é que se pode chamar assim, e sinto uma diferença no tecido em uma certa parte. Essa lata-velha vai acabar me fazendo pegar alguma doença.

Meus olhos passam rapidamente por quase todos os detalhes que posso enxergar até fincá-los no retrovisor logo a frente da cabeça do motorista, pude traçar uma linha reta dele até o final do carro.

Estava torto. Torto para mim.

Como num reflexo mantenho meus olhos afastados do foco do vidro. Como de esperado, os olhos daquele cara, um tanto amarelados, aparecem no reflexo e somem ao posicionar o retrovisor no ponto de origem. Reto.

O estranho sorridente vira o rosto, percebo um dente de ouro no lugar de um dos incisivos superiores, seu olhar é de dúvida e não mais de cautela como agora a pouco no reflexo.

”Para a delegacia, por favor ”.

Ele não demonstrou, mas quase pude sentir o cheiro do cagaço ao ouvir aquilo.

Respiro fundo, não sei se para expelir o cheiro alfazema forte tentando esconder o mofo ou para simplesmente busca-lo de novo ao tentar respirar.

Ergo meu punho, olho o rosário preso a ele. Uma fé adormecida me faz querer crer que aquele será um bom dia, pois apesar da fome, me sinto consideravelmente bem e sei que estou com os instintos e sentidos bem mais apurados... não, isso são privilégios de quando se faz o que normalmente se faz.

Dormir.

Um beco, um posto quebrado. Guris sentados nas calçadas.

Me encaram como se soubessem exatamente quem e o que eu sou.

Me dissecam de uma forma terrível, não sei se os ameaço de volta com olhares ou finjo estar olhando para objetos aleatórios próximos a eles para disfarçar.

O carro reduz lentamente. No final da fila de carros eu consigo ver que o sinal está fechado.

Se eu não estivesse no carro de outra pessoa, me sentiria preocupado em parar num sinal vermelho por essas bandas. A rua de baixo, chamamos assim porque após o maldito julgamento houve uma mudança no relevo quase engolindo tudo num buraco, é famosa por assaltos nos sinais.

O sinal abre lentamente, fico grato por isso.

— Grande Bob Bomba, meu chapa.

Uma voz malandra entra pelas janelas como se acompanhasse os passos gingados de um ”nóia” magrelo que se aproxima.

Bob bomba?

Não tive tempo de pensar. Pude ouvir os ferros do acelerador rangendo enquanto meu corpo era jogado um tanto para trás. ”Qualé, seu vacilão. Tá de sacanagem? ”, a voz foi sumindo assim como a rua e novamente percebo os olhos amarelados a me olhar.

Isso já está mais do que esquisito e eu não quero que continue assim.

— Pode ligar a rádio, chapa?

Ele nada disse e apenas acenou com a cabeça.

Girando um dos botões, logo a frente no painel, uma amiga das luzes amarelas e fracas dos postes de rua se acende.

”...oh Beth, what can i do? ”.

Não gasto o que sobrou dos meus neurônios prestando atenção á melancolia da música, mas agora temos algo amais para focar do que suspeitas e...

Treck teck.

Um barulho metálico, um maldito quebra mola para fazer meu corpo chacoalhar e me lembrar que o equilíbrio do meu organismo é tão bom quanto o de um equilibrista bêbado.

Tenho quase certeza de que esta sensação, esta coceira, é mais do que isso.

Vejo os mesmos rostos dos que já vi por trás das grades escuras e enferrujadas das jaulas da cadeia.

Sorrindo e vivendo durante a noite, se escondendo durante o dia.

O sistema sempre foi falho, mas desde quando eu me tornei seu semelhante?

O meu trabalho neste último ano se resumiu a dar carona para esses vermes até a cadeia e manter o olhar falso de quem vai estar vigiando, e o pior é que eles sabem disso.

Eles sabem que entram e saem da delegacia como se fosse um puteiro, entram, se divertem, sentem um pouco de culpa e voltam a vida normal.

Eu não devia esperar pelos chamados, ou pelos papeis que caem em cima da minha mesa com questões específicas escolhidas para mim. Eu quero fazer algo por minha conta.

Eu acho que isso é o que me faz estar dentro desta caixa d’água ambulante indo dar uma volta na pousada gelada do necrotério.

Meus pensamentos são cortados por uma freada suave, diferente das últimas. Olho para fora do carro e vejo os pequenos degraus para a porta da delegacia.

Chegamos.

Ponho a mão no bolso na procura das prováveis vinte pratas que eu iria perder nesse trajeto. — Quanto te devo? – Eu pergunto num tom amigável, amigável até demais.

— Não precisa, oficial. Você já faz... Muito pela cidade e...

Eu começo a me sentir um privilegiado, mas a memória voltara com a fome a meus instintos.

Eu não acredito que estou ouvindo isso.

Eu não acredito que não me lembrei desse sacana.

Bob Bomba, batia na mulher toda semana e sempre estava pelo Alpendre do Diabo esbanjando entorpecentes como um dos maiores traficantes do bairro até que foi preso no meio de uma viagem de pó enquanto tentava amassar a cabeça da mulher com a porta da geladeira.

Passou alguns dias esperando o julgamento e por incrível que pareça esse covarde foi inocentado por falta de provas. Uma semana depois o policial que o levou preso foi encontrado morto, afogado na própria piscina.

Disseram que ele estava bêbado e foi inventar de nadar, péssima combinação.

O intrigante eram as marcas de amarras nos punhos. Ninguém deu a mínima a não ser a gente, quem tá nesse inferno todo dia.

Meus olhos se contraem e sinto algo que parece um orgasmo, porém, de ódio.

Ao me mover numa tentativa de me levantar rapidamente enquanto o babaca está distraído discursando como um retardado mental, piso em um grampeador cromado, todo de alumínio.

Talvez enforcá-lo não seja a melhor ideia.

— Cala essa merda de boca. – pego o grampeador o pressiono contra a nuca do filha da puta.- Que tal você fazer uma coisinha pra mim?

Suas mãos foram rapidamente para o volante, segurando-o tão forte quanto eu seguro o grampeador em sua nuca na tentativa de fazer o espancador de mulher confundi-lo com um cano de uma arma. – Vai com calma, cara, cê não tem que fazer isso. – Ele disse de forma baixa ao perceber o movimento na calçada. O bairro onde estamos, que foi ”reconstruído” junto a vários prédios do governo, é o mais seguro. Tudo foi montado justamente por causa desta delegacia e por conta do fluxo de oficiais e pessoas importantes com seus seguranças, me sinto muito mais em casa do que esse vagabundo.

— Ir com calma como você fez com a sua mulher? É isso? Eu tenho quase certeza que esse seu banco traseiro tem um buraco no estofado cheio de drogas, você quer que eu abra essa merda aqui e chame alguns amigos meus para me ajudar? Abre a porra do porta-luvas.

A mão direita trêmula se guiou até o pequeno botão. Ele o aperta.

O compartimento se abre num movimento de escotilha.

Uma calibre 38 aparece.

— Olha o que o gato trouxe. Passa pra cá. – Estendo minha mão em direção a ele e lentamente a retiro de sua mão. Como quem tira uma panela do fogo para pôr outra, eu guardei minha arma de grampos e pus a 38 em sua cabeça. – Bom garoto. Agora. Esse é o seu pagamento por ter prestado serviço a esta cidade maravilhosa. Porém, Bob Bosta, se eu te ver de novo não importa onde, vou atirar no meio das tuas pernas e fazer o que for preciso para que você faça amigos novos na cadeia. E você sabe o que fazem com pedaços de merda como você por lá.

Ele apenas acena com a cabeça tentando manter a postura, mas é inútil.

Bob bomba já teve moral assim como todos os bandidinhos de meia-tigela, mas uma vez que você os quebra, que faz eles verem a realidade, que sempre serão a escória disso tudo, eles nunca são os mesmos.

Eles percebem que não tem tanto livre-arbítrio.

Abro a porta tranquilamente. Por sorte não é a mesma porta que precisa de um jeito especial.

Não conto forças para batê-la com força. Desejo que a cabeça dele estivesse ali no meio.

Me viro de costas sentindo receio, mas não posso olhar para trás, tenho que reconstruir a imagem de autoridade em mim mesmo.

Paro no meio de um passo.

Ouço o carro indo embora.

Continuo a andar.

Subo os degraus com calma enquanto minha sombra é projetada na parede por conta da luz cor de urina que me alveja.

Não olhei para o céu nesta noite, mas algo me diz que a lua está linda.

— Seus cuzões inúteis da porra!

Não apenas a lua.

O bater dos saltos no chão mais pareciam suaves encontros entre um punho e uma porta.

O tom de voz rouco no meio do grito desafinado evidenciou que há tempos estava lá dentro a falar e pelo seu palavreado culto, pode-se entender que não deu certo.

Sua blusa azul, sem babado, sem estampas ou detalhes não precisa de nada além do decote que vez ou outra se esconde por conta da grossa jaqueta marrom que lhe cobre provavelmente por conta do frio.

A cor se assemelha ao meu casaco. É uma noite fria e mais um vez ele está me servindo para mais do que guardar meus remédios. Meus remédios! Não estou com eles... Mas também não sinto a dor.

É provavelmente o primeiro dia do ano que passo sem tomá-los.

Continuo a andar lentamente, tento entender o que ela diz.

Seus cabelos beiram o laranja. Posso acompanhar o movimento dos fios enquanto seu rosto insiste em virar-se parar porta da delegacia.

— Vou ter que esperar que a encontrem no fundo de um rio também?!?

Penso em questionar o que ela disse, mas num curto espaço de tempo seu rosto se move em minha direção. Nos olhamos por menos de dois segundos antes de nos chocarmos os ombros e folhetos de” procura-se” caírem no chão cinza de cimento gélido da delegacia. Seus olhos são verdes com tons de amarelo, sua boca, vermelha, contrasta a pela branca, que por sua vez, contrasta os cílios pretos.

— Eu sinto muito...

Me ajoelho rapidamente e sem me preocupar som o que havia amais nos folhetos eu os recolho.

Levanto minha cabeça o mais alto possível, mesmo ajoelhado, e olho para cima...tento não demorar muito naquilo para evitar o constrangimento.

Sim, estava realmente bonita.

Me levanto sem tirar os olhos dos olhos verdes que insistiam em olhar em voltar e vez ou outra se voltar para dentro do prédio com um semblante de raiva.

Com os folhetos em mãos, eu os direciono na direção da moça.

Ela os pega e, cercando a barriga com os braços, os mantém perto de si.

— Está tudo bem.

Uma frase curta. Um tanto certeira.

Sem entonações extras. Quase se podia ver o ” ponto final” no fim da sua fala.

Sua voz é suave e calma agora, diferente de antes. Porém, mantendo-se quase tão fria quando o alumínio das maçanetas presas ás portas de vidro da delegacia.

Ela mantém o olhar distante.

Rapidamente passo os olhos pelos folhetos tentando não me perder pelo decote.

” Você viu esta garota.”

Uma foto de uma mulher, provavelmente com uns 30 anos de idade.

Cabelo preto e encaracolado, olhos grandes e pretos.

Que estranho, três piercings no septo. A garota está sorrindo. Parece feliz.

Com um lampejo, me lembrei do que a moça havia dito.

— Você poderia repetir o que falou antes, sobre um rio?

— Pessoas falam, pessoas escutam. – Ela olha para o meu distintivo preso no cinto. – Elenor Sunns está desaparecida há cinco dias. Se quer fazer algo, detetive, ache minha amiga.

Ela retira um folheto e o empurra contra o meu peito apenas até que eu o possa segurar.

Ela se move rápido, sua saia escura balança em seus movimentos como se fosse ser levada com o vento a qualquer momento naquela breve caminhada. É intrigante que ela saiba sobre o que houve, mas tendo em mente os ratos fofoqueiros que ganham uma grana vendendo notícias falsas ou que não deveria ser notícias para esses jornais mercenários, não é impossível.

Uma olhada rápida no folheto e volto meu olhara para ela.

Está perto da esquina, quase sumindo de vista.

— Como eu devo chama-la? – falo o mais alto que posso evitando gritar para que me ouça.

— Não deve.

Ela some sem se importar em saber se eu realmente a ouvi.

Um pouco embaraçado, me viro em direção á porta e sigo caminhando até tocar a maçaneta fria.

Olho para ela. A luz dos postes cria um feixe de luz castigador para minha vista.

Evitando este feixe, acabo olhando Cristo balançar em meu punho.

Me sinto um pecador.

O que diabos eu estava pensando?

Eu tenho uma esposa, eu tenho um trabalho.

Existem mais coisas entre você e estas ruas do que um simples rabo de saia.

Assim espero.

Entro na delegacia e já me sinto em casa.

O constante barulho das vozes, passos apressados, saídas e entradas de salas, das máquinas de escrever, alguns computadores encostados para manutenção e outros poucos sendo usados realmente. Meus passos estalados no piso se abafam ao meu andar alcançar o grande tapete preto que corta a entrada, separando diversas mesas e agentes de ambos os lados, tomando seus cafés e deixando anéis marrons nas folhas, fumando e apagando seus cigarros dentro do café amargo perto de acabar com apenas o que resistiu do pó. O tapete segue reto a uma pequena escadaria, onde está a sala do comissário.

Eu quero evitá-la com todas as forças.

Meus olhos buscam Johnnatan por ali mesmo sabendo que era pouco provável.

”E aí, Pablo. Boa noite. ”

Aceno com a cabeça e um sorriso falso contraindo os lábios e as bochechas.

Mais alguns passos e quase posso sentir o cheiro de madeira velha e amarela vindo da sala de Thomas. Preciso evitar ao máximo que ele tenha conhecimento do meu interesse sobre o corpo da cigana, talvez por sorte minha Tom não é chegado nos forense.

Johnnatan não está aqui, deve estar ainda no andar de baixo. Forma gentil de dizer ”com os mortos”.

Passo pela última mesa e dobro a esquerda da escadaria. Há uma porta que é usada para dois trabalhos sujos: levar o lixo para fora e o trabalho do legista.

Abro a porta metálica empurrando uma barra para baixo enquanto vejo a imagem se formar no fim do beco escuro.

Duas lâmpadas iluminam a placa branca suja e desgastada, com letras vermelhas: Instituto Médico Legal. Não era a placa certa para aquele lugar, mas precisávamos de uma referência.

Aquele beco não era diferente dos outros becos sujos do resto da cidade.

A única diferença era que ao contrário dos vagabundos, os ratos correm de mim.

Eu bato na porta oxidada, um pouco do laranja fica nos ossos da minha mão.

Eu posso ouvir os passos vindo até a porta. Sinto um cheiro agradável e isso me surpreende.

Cheiros agradáveis não deveriam vir daqui. O que mais se aproxima á um cheiro não tão ruim é a maldita pomada que tenho de passar em baixo do nariz para não vomitar e manter o foco.

Me sinto um Hitler com pelos alvos.

A porta se abre e o rosto simpático, porém nada bonito, de Johnnatan me aparece.

Seu cabelo curto ao redor de sua cabeça, mas um tanto comprido de forma desproporcional no topo como se tivesse posto uma cuia em cima e cortado as sobras, está bagunçado. Os óculos de armação preta e grossa um tanto caído.

Acho que depois dos moleques que entregam drogas, ele deve ser quem mais trabalha nesta cidade abandonada pelo criador.

— Eu já estava preparando os sacos mortuários, chegou bem na hora. – Ele diz de uma forma que beira a animação, mas não se estende enquanto termina de abrir a porta e fazer meu olfato ter certeza do aroma misterioso pelo prato plástico que segura na outra mão. Era seu jantar. – Quer se juntar a mim?