Pupilo

7 Capítulo 07: Laranja


Laranja. Capítulo 07

— O que é isso?

Falo com dificuldade enquanto mastigo a melhor comida que já comi há anos.

Pode parecer uma forma muito injusta de julgar uma refeição, afinal estou sem comer há praticamente dois dias, certo? Lembro-me de ter comido uma lasanha no aniversário do Carlos das entregas e ter detestados, lembrar dela agora faz com que minha boca grite por mais.

Estou sentado em uma das duas banquetas de metal prateado da sala, que por sua vez não deixa nada a desejar na limpeza, posso ver meus movimentos nos reflexos das mesas e das gavetas reluzentes quase como espelhos.

Chegar até aqui foi um trabalho árduo, eu teria me perdido se não fosse pelo cheiro daquela marmita que me guiava. Corredores cinzentos que dobravam mais do que meu estômago ao olhar pelas portas entreabertas onde trabalhavam outros legistas.

— É frango. Acho que só. Bem, tem arroz e repolho, mas acho que você deve ter notado.

Ele me faz uma avaliação rápida sobre a quantidade de carboidratos enquanto aponta para a comida com um bisturi visivelmente usado.

Eu, esquivo.

Já havia muito molho ali.

— Este frango morreu dignamente, é a melhor coisa que já comi.

— Queria dizer o mesmo sobre a pobre moça. – Johnnatan segura numa das pontas da maca metálica posta no centro da sala sob uma luz branca fortíssima. Com os olhos baixos ele comprime os lábios e solta um suspiro forte de dó, mas logo contrai as sobrancelhas. – Digo, que ela tivesse morrido dignamente.

Limpo minha boca usando a manga do casaco e deixo aquele pedaço de frango sagrado sobre uma escrivaninha logo ao meu lado direito. Johnnatan está de frente para mim e posso perceber bem que está desconcertado. – Eu entendi. – falo num tom manso, mas foi impossível não deixar aquela sala fria ainda mais congelante.

Naquela maca prateada de mais ou menos dois metros havia um amontoado não contínuo por baixo do grande lençol branco. Entre um relevo e outro era visível a diferença de relevo, como fendas que os separavam. Como montanhas e vales que as cortam. Olhar para aquilo e lembrar do que vi na última vez faz eu me arrepender de ter comido tanto tão rapidamente.

— O que você descobriu? – minha voz sai um tanto destorcida pois percebo um pequeno pedaço do frango preso entre meus dentes. Não resisto em tentar tirá-lo. – Sobre o corpo.

Suas mãos pálidas num movimento rápido e único retira o tecido alvo de cima da maca.

O arrependimento se repete como um déjà vu acompanhado da imagem daquela cena idiossincrática.

Terrível. Sinto o arrepiar até dos pelos que não tenho e me levanto cruzando os braços.

Penso em levantar a mão ao nariz, mas o cheiro está suportável.

É o mesmo odor dos corredores dos novos postos de saúde, porém mais agressivo.

Aquele quebra-cabeça de carne e ossos estendido na minha frente não parece mais tão repugnante.

Acho que boa parte disso pelos olhos fechados que enfeitam seu semblante sem vida.

O tom verde azulado ainda tonifica a pele do cadáver desmontado, parece um dos manequins sujos e quebrados que os garis recolhem nos fins de ano.

Ando alguns passos para frente em direção á maca.

Contraio os olhos.

Busco alguma coisa que salte na minha cara e diga algo como ” Você achou uma pista” mesmo sabendo que não vai acontecer, mas tenho em mente que busco uma irregularidade, algo que me diga algo, qualquer coisa.

— Olhe, Pablo... – Johnnatan se levanta também e numa postura séria deixa sua voz adquirir um tom quase de preocupação. – Eu sei que isso pode parecer algo grande, mas... Você não acha que está forçando a barra?

Como uma daquelas facas falsas, que cortam tudo, anunciadas na TV.

A voz dele corta minha linha de pensamento, mesmo não sendo a mais precisa e bem perto da mais sedenta, me fazendo recuar e o olhar como quem olha um jogo dos 7 erros.

Poderia se traçar uma bela curva entre minhas sobrancelhas e continuar curvando até formar-se uma interrogação em meu rosto.

— O que isso significa?

— Eu... – Estava visível o desconforto nas tentativas falhas de dizer aquilo diretamente, mas ele insiste. – Não tenho intenção de ofender você, mas... veja, eu não consegui esse emprego da mesma forma que você. Não entrei num fila de voluntários enquanto a cidade precisava de alguém para vigiar as construções ou ajudar na limpeza dos escombros ou mesmo do que restou de quem morava embaixo deles. Eu estudei e dei muito duro, sei que não sou tão velho quando Thomas, mas...

Palavra alguma saiu da minha boca enquanto mantive meu olhar fixo naquele rosto oleoso.

Sinto um desejo que mais parece refletir o nojo em ver aquelas acnes estourarem ao serem espremidas. Ou talvez eu apenas quisesse espremer seu pescoço junto ao colar de espinhas.

Palavra alguma saiu da minha boca, mas meus olhos falaram um alto e sonoro: ”O QUÊ ? ”

E Johnnatan? Deve ter visto muitas vezes esse olhar. Entendeu rapidinho.

Tão rápido quanto o gole seco que desceu sua garganta como um gato que tenta escalar uma cortina.

— Vou ser o mais simples possível. Esta mulher não foi levada á força de casa.

— Está começando a parecer que ninguém quer levar isso para frente. – Certo. Chega de apenas olhar. – Não te soa estranho, cara? Vai me falar que ela acidentalmente caiu em cima de uma motosserra ou algo assim?

— Eu não quis dizer isso...- Johnnatan é cortado por mim novamente.

— Ou talvez ela estivesse tão drogada que cortou os próprios membros. Mas me diz, como que ela cortou o braço que restou?

— Não há sinais de luta, merda!

Os ângulos das minhas sobrancelhas se inverteram completamente mantendo a maldita interrogação, mas agora acompanhada de uma azia sentimental. Me sinto bobo. Perdido.

Sinto vontade de perguntar como diabos aquilo aconteceu, como uma criança que quebra o braço pela primeira vez, enquanto sinto um medo tolo e vergonhoso por aceitar o que antes discordava.

Felizmente não tive de fazer isso.

— Não há arranhões ou cortes além dos óbvios, sei que a chamada era para uma moça que havia sido raptada, mas apesar da dificuldade maior em visualizar estas agressões, não vejo nenhum sinal delas. Não houve uma luta, Pablo. Não há pele sob suas unhas. Ao que tudo indica ela quis ir junto...seja lá pra onde eles foram. A causa da morte foi uma fratura na coluna cervical e ela provavelmente não viu de onde veio.

O que isso significa? O que houve então? Por que diabos as perguntas pulam no meu rosto quando tento ver as respostas? Estou me enxugando com uma toalha molhada, e ela fede á lodo.

De acordo com isso as suspeitas do Tom podem estar certas. Foi um crime passional.

Isso costumava ter um peso maior antigamente.

Me lembro de Ana chegar chorando em casa perguntando se eu a amava e se um dia eu perderia a cabeça com ela. Geralmente isso acontecia após ocorrências de agressões domésticas e casos semelhantes.

Eu dizia que não, e hoje em dia vendo como tudo tem piorado.

Sinto que serei eu a entrar no quarto e chorar em seus pés.

— Isso é tudo?

— Por enquanto sim. – Percebo que minha seriedade não é compartilhada, o rosto em frente ao meu está sereno, porém melancólico. – Sinto muito.

— Por mim... – Me levanto e pego o último pedaço de frango em minha mão.- Ou por ela?

Não espero resposta e num último olhar para aquela desconhecida gélida, vejo minha mão se movimentar num enferrujado sinal da cruz.

Vejo, sem foco, cristo balançar em seu descanso eterno e tenho pensamentos idiotas.

Cômicos e pecadores.

Sinto o riso vindo á minha boca como um vômito ácido.

O engulo de volta.

Meus pés giram e aceno com o chapéu como quem tem pressa.

Meus passos seguem lentos.

Lembro-me de ir ao cinema, estava ansioso para aquela sequência que demorara dois anos para ser produzida. Corri para o carro.

Estava tudo ensaiado, o tempo cronometrado.

Bastava entrar no carro e chegar ao paraíso da ficção-científica.

Mas o carro não ligou. Tive que correr por oito quadras na chuva de forma que nenhum foragido faria ao sinal de uma viatura.

O caminho estava cheio de adrenalina e eu tinha certeza que chegaria a tempo.

Mas cheguei 10 minutos atrasado e perdi as letra amarelas do inicio do filme.

Me senti frustrado.

Estou do lado de fora.

Mordo o ultimo pedaço de frango e jogo o pequeno restante que sobrara entre meus dedos para os gatos que caçam lixo por ali, não ia demorar até que aparecessem.

Vejam só, estou alimentando os necessitados.

Me sinto como cristo.

” merda.”

Penso enquanto uma risada suave vem á minha boca.

”tssshhh, Pablo, tsshhh, Pablo cê ta aí? tsssssh”

Quase tropeço em meus próprios pés ao ouvir a voz chiada que estranhamente parecia vir de dentro de mim. Não lembrava que a minha consciência tinha esse tom de voz.

”Vamo lá, cara. Tsssssh, me diz que cê tá aí. tssssh”

Como quem desce de uma serra, meus ouvidos estalaram junto com minha mente e quase pude sentir vergonha de mim mesmo.

Num movimento simples puxo meu casaco e olho para meu cinto.

Lá estava ela, a voz da minha consciência.

Retiro o rádio comunicador que, sinceramente, não lembrava que estava comigo este tempo todo.

Talvez tenha confundido seu relevo com um coldre e... Isso faz sentido.

O retiro do meu sinto o ouço ”click” dos pedaços de plástico que se chocam.

— tssssh Eu pensei que nós ainda usávamos aquele lance de Detetive, sabe? tsssh Câmbio, Detetive fulano e essas coisas tssssssh.

Eu deveria ter reconhecido aquela voz, era o Marcos. Eu o vi sair da delegacia logo que cheguei.

Não faço ideia do motivo desta chamada tão repentina.

Acreditei que pelo ”boa noite” que ele havia me dado deveria estar em algum bordel ou com aquelas garotas...garotas duvidosas da praça da igreja.

Não que seja estranho Marcos me chamar por aqui, afinal, quando os grupos de oficiais foram definidos eles nos dividiram em grupos de quatro.

Me colocaram junto aos outros únicos filhos de latinos.

Nos chamaram de ” Os Café com leite”.

Me sentia um tanto deslocado pois puxei mais ás característica da minha mãe.

A parte do leite.

— tssssh, não é hora pra piadas mano. Tsssssh, Me escuta. Ainda tá na delega ?

— Sim, infelizmente. Quê tá pegando, Marcos? Tsssssssh

— tssssh um mar de merda, bem grande. Tá rolando uma confusão e nós três não tâmo conseguindo conter. Tsssssh, a gente tem que tentar parar isso antes do Thomas saber, não tô afim de discutir com aquela ameixa. Tssssssh.

Eu deveria arrumar uma desculpa. Fingir que quebrei o pé.

Já fiz isso antes.

Mas agora, que cheguei no cinema e percebi que perdi as letras amarelas.

Hoje virou uma noite comum, e vou manter meu objetivo.

Esquecer que existo até uma bala perdida me encontrar.

— tssssh, mano, cê vem ou não? A gente tá numa pousada nova aqui na Ilha, logo na entrada do bairro. Tem uma viatura parada aí e vo...

— Eu estou chegando. Tssssssh.

Well I love a rainy night; I love a rainy night.
I love to hear the thunder;
watch the lightning when I lights up the sky.
You know it makes me feel good.

O rádio já estava ligado quando entrei no carro.

Fazia umas semanas que eu não dirigia sozinho pela cidade.

Tinha um receio de atender chamadas sem companhia, pelo menos as que fossem em algum bairro ou cantinho desgraçado desta cidadezinha.

Admito que não era medo, era apenas, um desconforto.

Mas acho que sinto isso até mesmo na fila do pão.

De qualquer forma, Marcos disse que era na Ilha. Um bairro afastado do centro, das periferias enormes, afastado e isolado o bastante para ser...calmo.

Outrora tivera nome de um Santo e de tão grande era dividida em duas partes, haviam duas pontes que ligavam rapidamente o centro á elas.

Por conta da localização e da facilidade em vigiar o tráfego por meio dos olheiros, rapidamente aqueles bairros viraram sede dos pontos de tráfico da cidade.

Uma das ruas, Cabeça de Serpente, tinha uma aviso pichado num muro da quadra escura: Quer morrer? Segue em frente.

depois do julgamento, as pontes caíram e junto com elas os olheiros, viciados e prostitutas que moravam logo abaixo. Sem ajuda exterior e as guerras de gangues internas os bairros se tornaram uma piscina de sangue e paz.

Nos dias de hoje, chamado de Ilha, é o lugar mais calmo que se pode encontrar.

O trânsito estava fluindo e a música deu lugar á mais outras três enquanto os pneus cansados queimavam os asfalto.

Sinto que pela primeira vez neste bimestre meus olhos estão mais acessos que os faróis.

Ou talvez a minha bateria esteja apenas mais carregada.

Estou em cima do muro. Não sei qual das duas quero que dure mais.

”E aqui estamos nós.”

Metade de um Cd de country e chego na passarela pouco estável que erguemos para alcançar os moradores isolados deste bairro. Feita de muita brita, cimento, madeira e vigas improvisadas de aço.

Temos de reformá-la umas duas vezes ao ano, tentando sempre melhorar.

As luzes iluminam as falhas entre as madeiras enquanto tento aproveitar o leve momento de distração em que olho as águas calmas do rio que rebate as bases de onde atravesso.

Por conta de fatores desconhecidos, as águas baixaram muito e isso nos permitiu não ter de erguer uma nova ponte, assim, vez ou outra, a agua cobre a passarela que não está nem á dois metros acima do nível do rio.

O reflexo das luzes brancas dos postes fazem cortes claros em meio ao movimento calmo e constante. Eu as conto a cada faixa branca que passo.

Já estou na quarta e pela última vez que vim, sei que há mais algumas...12.

5...

6...

7...

Eu penso em como é bom segurar um volante.

8...

9...

10...

Penso em Ana, usando minha camiseta escrita ”Você não pode fumar com a gente.”

11...

12...

13...

”Por deixou que isso acontecesse?”

Eu posso ouvir cada palavra.- Eu não deixei, Ana, eu não sabia... — Sussurro comigo mesmo. Mas. Essa não é a voz de Ana.

— ANA VAI QUEIMAR NO INFERNO COMIGO SEU PORCO MALDITO.

Meu corpo trava, minhas mãos morrem, assim como meu rosto que lentamente desfalece em direção á janela.

Um tronco podre, com seios sangrentos como se para amamentar o próprio diabo preenchem minha vista. Dos quadris dois braços se esticam, verdes como árvores velhas de um pântano, sujas, gotejando, seguram o volante o girando para a esquerda.

Sinto meu corpo tremer e girar junto ao carro. – Não...Eu não.. – Tento dizer algo mas é inútil, como chamar pela sua mãe durante um pesadelo, as palavras não saem, são sussurros.

Enquanto a voz pertinente e arranhada como a de um velho fumante que já não fala claramente parece cada vez mais alta, mais forte, mais alta, meu rosto se vira ao chão e com os olhos abertos sinto um gemer dentre meus ossos.

A cabeça da Cigana, grita mordendo a própria língua, separada do corpo.

Em meu colo.

— PORCO MALDITO! PORCO MALDITO! PORCO MALDITO! PORCO MALDITO! PORCO MALDITO! PORCO MALDITO! – Eu estava...tentando ajudar... PORCO MALDITO! PORCO MALDITO! PORCO MALDITO! PORCO MALDITO! PORCO MALDITO! PORCO MALDITO! PORCO MALDITO! PORCO MALDITO! PORCO MALDITO! PORCO MALDITO! PORCO MALDITO! PORCO – Pare...Pare...- MALDITO! PORCO MALDITO! PORCO MALDITO! — não.... não... PORCO MALDITO! PORCO MALDITO! PORCO MALDITO! PORCO MALDITO! PORCO MALDITO!

Minhas pernas se enrijecem.

Deslizando, meu pé foge do acelerador.

Acerto o freio com os dois pés.

O carro estanca.

14...

15...

16...

Me sinto um balde esquecido embaixo de uma torneira.

Transbordo.

Olho para trás e percebo que o carro derrapou alguns metros antes de parar completamente.

Eu poderia ter caído fora da passarela.

Eu poderia ter...

— Que porra foi essa, cara? Tá pensando que é o David Hasselhoff?

Marcos está com uma mistura de surpresa com preocupação.

Eu penso que não saberia o dizer mesmo se soubesse o que havia acontecido.

Eu abro a porta do carro no mesmo movimento que me levanto.

Lembro que esqueci a chave na ignição.

Meu peito está tão acelerado que penso qualquer um pode vê-lo saltar.

Volto um pouco meu corpo para dentro do automóvel e retiro a chave.

O que tá acontecendo comigo?

— O que tá acontecendo aqui?

— Dá uma olhada, mano.

Demonstrando inquietação ao mexer nos fios encaracolados do corte militar, Marcos se move lentamente para o lado, posso ouvir o arrastar das botas na terra.

Ele não usa as mesmas botas que eu. Ele prefere algo mais militar.

Marcos e eu nos conhecemos na fila do serviço obrigatório. Eu fui dispensado.

Ele não.

A jaqueta de couro preta quase chega a combinar cores com as botas escuras se não fosse pela falta de uma boa mão de graxa. Não lembro ao certo se eram pretas ou cinzas quando novas.

Já se pode imaginar que se ele me pediu ajuda, é por que é algo envolvendo muitas pessoas.

Ele nunca foi bom com elas. Dar comunicados ou entrevistas era um sufoco. Seu jeito simples e unilateral fazia dele um típico brutamontes esperto...se não fosse pelos seus Um metro e Sessenta.

Ele é um dos ”Café com leite” mesmo, ambos os pais eram parecidos, e com ele não foi diferente.

Ao me dar visão do começo do bairro pude perceber que não mentira sobre a localização da pousada. Era praticamente o primeiro prédio ali.

Cerca de dezessete pessoas agrupadas gritando e apontando para a entrada do local enquanto os dois ”cafés” tentavam segurá-los do lado de fora.

— O que foi dessa vez? O proprietário deu golpe e levou a grana de todo mundo?

— Dessa vez não. Parece que os moradores estão há uma semana notando uma mudando na cor e força da água. As coisas só pioraram e eles cansaram de esperar pelo dono que tá lá dentro com medo de levar uma sola.- Marcos fala sorrindo sacanamente como quem adoraria ver isso acontecendo se não estivesse na posição de oficial.

Caminho numa velocidade que oscila quando olho para trás ainda sem ter como reagir ao que houve.

Talvez esta seja a única razão para eu não ter surtado sobre isso. Ainda não creio no que houve.

Consigo ver um ou outro rosto conhecido. É estranho como até mesmo o cheiro desse lugar se diferencia dos outros. Me faz pensar que seria um lugar melhor para trazer Ana de vez em quanto.

Um beliscar gélido vem em minhas entranhas quando digo seu nome agora.

Tento me concentrar.

”Ele não pode tratar a gente como bicho. ”

Ouço uma mulher gritar.

Não sei se ela tem olhado bem para a própria cidade, mas ser tratado como bicho tem sido um luxo.

Chego na porta e vejo meus colegas. – B1, b2. Tranquilo? – Bob e Billy, irmãos. A semelhança é gritante. Mãe mexicana e pai desconhecido.

Reza a lenda que era um cantor de Blues e que antes de sumir deixou dois cigarros dentro dos sapatinhos dos futuros filhos, nos cigarros haviam os dois nomes.

O estranho é que ninguém sabia que iriam ser gêmeos.

O que fez Billy usar sapatinhos rosa por um tempo.

Subo alguns degraus da entrada e pela fresta da porta quase fechada vejo o dono do lugar falar desesperado ao telefone enquanto enxuga a testa suada com um lenço laranja.

Olho todas aquelas pessoas de cima daqueles três degraus.

Por um instante me sinto superior a elas, mas quem sou para me sentir assim?

Eu sou apenas um ”café com leite” nesse mundo, acho que nunca joguei pra valer.

— Escutem todos. – Ponho as mãos em forma de concha na frente da boca. – Eu vou resolver seja lá o que esteja acontecendo e caso eu não resolva, vocês vão resolver. Então fiquem calmos.

Isso soou um pouco Pilatos demais, mas deve servir para acalmar esses enfurecidos.

Abro o restante da porta e quando a mesma volta posso perceber as vozes abaixando.

Sigo com passos estalados no piso de madeira, bem bonito e encerado, posso até me ver nele e não me surpreenderia se eu estivesse mais bonito no meu reflexo.

Mudo a rota um pouco para fugir da pança enorme que escapa pela blusa social mal abotoada.

Quase posso ouvir o reclamar da careca brilhante ao receber as esfregadas do lenço.

Pelo que pude entender, a pressão da água estava fraca enquanto a água em si estava estranha.

Meu pai era bombeiro numa fábrica antiga que agora não sei dizer onde ficava e me ensinou um pouco sobre encanamentos, caixas de água e essas coisas, nós não tínhamos grana para pagar alguém para fazer aquilo que poderíamos fazer.

No fim do corredor está a escadaria para os demais andares.

Portas brancas com uma pequena vidraça, os números escritos em preto deixam claro que são os primeiros quartos á direita. Vejo uma porta á esquerda escrita: ”Saída de emergência”. A abro e vejo a parte de fora do prédio. O cheiro do rio me faz ter ânsia...o que diabos aconteceu...?

Levanto o rosto num suspiro pesado e acima de meus olhos vejo uma escada preta que segue de janela em janela. Não penso muito.

Subo como uma criança sobe em uma árvore, sem pensar que uma hora terá de descer.

Por sorte estão todos lá fora, odiaria ter de ver uma velha trocando de roupa agora.

Tento não olhar para baixo nem olhar para cima, ignorando o quanto falta penso que chegarei mais rápido e ...

— Aqui estamos nós... fazendo o que policias de verdade fazem. – Com um pouco de esforço consigo subir no terraço do prédio. Uma saída metálica de ventilação e um reservatório azul, circular. – Limpando caixas d’água.

Retiro meu casaco e o jogo no piso cinza.

Só agora percebo que estou suando.

Sinto um desconforto ao tirá-lo, como se tirasse minha pele de mim mesmo.

Subo as mangas da minha blusa até próximo aos cotovelos.

Minhas pálpebras tremem.

Primeiro apenas a esquerda, mas logo as duas juntas.

Esfrego os olhos com os dedos como se acompanhando o tempo dos passos.

Merda...a dor. A enxaqueca está voltando.

Olho para trás e vejo meu casaco, ele parece estar dizendo: ”Eu te avisei.”
Volto os olhos para a grande tampa azul com setas apontando na direção correta de se abrir e fechar.

A seguro forte com as mãos.

Vejo minhas veias saltarem com a força.

A tampa gira, um tanto mais rápido do que eu pensava.

Geralmente é necessário muita força ou até mesmo um pé de cabra...

Alguém a abriu recentemente.

Lentamente levanto-a.

O cheiro parece queimar meus cílios.

o cheiro...por deus, o cheiro.

— Por deus...não. De novo, não.

A água alaranjada está servida como uma sopa, mas no prato, ao invés de carnes e legumes.

Há um par de pernas.

Um par de braços.

Há um tronco.

Uma cabeça.

Um rosto.

3 Piercings no septo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.