Punchline

1 Primeiro Arquivo. Paciente 4587


A garota dona do cabelo cor de fogo deixou que seu corpo caísse pesadamente no sofá vinho, tentando não transparecer o quanto estava ansiosa por aquilo. Os olhos, que emanavam uma mistura de excitação e medo, miravam atentos a pequena televisão de tubo a sua frente, esperando apreensiva os chuviscos pararem e o vídeo começar.

Assim que a tela tornou a escurecer e a estática cessar, ela se permitiu abrir um pequeno e tímido sorriso, ao mesmo tempo que prendia a respiração e se ajeitava no sofá. Com os dedos trêmulos, ela apertou o “play” do controle remoto em suas mãos.

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As seguintes gravações são para o propósito expresso de pesquisa médica e é de propriedade exclusiva dos funcionários do Hospital e suas instalações.

— Doutor Maslow, supervisionando agora a paciente número 4587 — A voz calma e controlada, quase robótica, pôde ser ouvida por trás da câmera — Popularmente conhecida como “Mayhem”, foi pega após ajudar o Doutor Jonathan Crane, ou “Espantalho”, a escapar do Asilo Arkham na noite anterior — O homem fez uma pequena pausa, tomando fôlego para continuar a falar — Pode, por favor, olhar para a câmera?

A imagem começou a focar, revelando uma garota no ápice de sua juventude que olhava diretamente para a lente com um grande sorriso divertido nos lábios rosados e um pouco machucados. Os olhos de um azul intenso transbordavam insanidade em seu aspecto mais doentio, enquanto a pele extremamente pálida era marcada por hematomas e cortes recentes e antigos por toda extensão do rosto e pescoço. Seu cabelo, longo e liso, chegava ao branco absoluto, caindo delicadamente por seus ombros e se perdendo em meio ao branco da camisa de força que estava sendo obrigada a usar.

— Por favor, diga seu nome e sua idade para a câmera — O psiquiatra pediu.

A garota limitou-se a rir por um breve momento em claro deboche, e seus olhos se desviaram da lente para encarar algo que estava por detrás dela com curiosidade. Após alguns segundos em silêncio, ela voltou a olhar para a câmera, sorrindo em falsa simpatia.

— Meu nome é Trinity — Pronunciou-se pela primeira vez com a voz rouca, deixando claro que havia gritado o suficiente para provocar pequenas falhas em sua fala — Eu devo ter por volta dos 21 anos — Alargou por um segundo seu falso sorriso, como se estivesse posando para alguma revista, e então voltou para o semblante debochado, parando de encarar a câmera para encarar quem estava atrás dela, Doutor Maslow.

— Precisamos do seu sobrenome também — Avisou.

— Não me lembro — Limitou-se a responder, um pouco confusa.

O psiquiatra soltou um longo e cansado suspiro.

— A paciente sofre de esquizofrenia do tipo paranoica, transtorno bipolar tipo I e transtorno de personalidade dissocial, tendo como consequência disso um forte desprezo pela vida humana, devendo então ser considerada perigosa — Listou calmamente, enquanto a garota observava pouco interessada — Essa não é a sua primeira vez aqui no Asilo Arkham, Trinity. Por que não falamos sobre os motivos que a levaram até aqui?

— É claro — A prisioneira jogou a cabeça para trás, encarando o teto de maneira entediada — Você começa, Steve — Pronunciou lentamente, saboreando cada sílaba do nome do homem que a assistia — As vezes eu acho que você deve se perguntar, enquanto fuma seu Marlboro vermelho na varanda da sua casa de frente para o Parque Saint Mary, se a educação da pequena Kayle vale realmente a pena — Riu — Trabalhar em Arkham? Com todos esses malucos? Se ao menos a sua mulher Eleanor trabalhasse também, ao invés de ficar com a bunda no sofá sem fazer nada a não ser flertar com Terry, o vizinho!

Silêncio.

Depois de alguns segundos em que o único barulho em toda sala era a respiração de ambos, Trinity ajeitou sua postura, voltando a direcionar a sua atenção para o psiquiatra com um sorriso brincalhão nos lábios, em uma mistura nociva de inocência e maldade no mesmo semblante.

— O que foi? Eu disse algo errado?

O som veio antes da dor, e a garota caiu da cadeira em que estava sentada devido a força do tapa em seu rosto antes mesmo de entender o que havia acontecido. O Doutor Steve Maslow estava em pé a sua frente, de costas para a câmera, quase bufando enquanto encarava a paciente que gargalhava no chão como se tivesse ouvido a piada mais engraçada do mundo. Depois de um tempo ela parou de rir, limitando-se a encarar o psiquiatra controlando o riso, mesmo ainda estando no chão, impossibilitada de se levantar graças a camisa de força que imobilizava seus braços.

Sua pele extremamente pálida agora estava manchada com uma vermelhidão gritante do lado direito de seu rosto e algumas lágrimas desciam de seus olhos inconscientemente, porém nem mesmo aquilo a impedia de sorrir abertamente para o homem a sua frente, os orbes azuis brilhando em desafio, quase como se gritassem “acerte-me”, “machuque-me”.

— Me bata — Ela sussurrou com a voz trêmula olhando diretamente para o homem a sua frente. Seu sorriso se alargou mais, e pequenos choques de excitação percorreram seu corpo, fazendo-a tremer como se estivesse doente — Vamos... me bata! — Riu baixinho — Eu sei que você quer, Steve... me bata, ME BATA! Isso te faz se sentir como um homem?

O psiquiatra levantou uma das mãos, preparando um novo tapa visivelmente mais forte, quando um segurança robusto entrou no campo de visão da câmera, segurando seu braço e impedindo-o de descer. Eles trocaram olhares por um breve momento, seguido de um longo e cansado suspiro de Maslow e uma gargalhada divertida de Trinity.

Após isso, o psiquiatra voltou para sua posição atrás da câmera e o segurança ajudou a paciente a se levantar meio a contragosto, colocando-a sentada na cadeira novamente e então saindo de frente da câmera, deixando que continuassem a sessão.

— O que espera conseguir com isso? — O Doutor indagou após outro suspiro, tentando voltar com o semblante profissional que perdera depois da agressão.

— Não é óbvio? — Riu — Eu só quero me divertir, Steve! Já tentou viver a vida sem tantas regras, sem tanta rotina, sem tantos padrões e monotonia?

— Eu gostaria de manter isso de modo estritamente profissional — Sua voz tremulou de raiva, mesmo ele tentando escondê-la — Por favor, refira-se a mim como Doutor Maslow.

— Claro, Doutor Maslow — Pronunciou lentamente assim como da última vez, brincando com as sílabas de seu sobrenome como fez anteriormente enquanto lhe direcionava um olhar particularmente maldoso — Isso quer dizer que não poderemos mais conversar sobre a pequena Kayle ou sobre Eleanor? Eu tinha tanto para falar!

Silêncio.

— O que eu quero dizer — A voz do psiquiatra saiu abafada, como se falasse entredentes. Pigarreou — É que regras as vezes são necessárias, Trinity.

— Só quando você quer acreditar que são, Doutor.

— Estamos vivendo em sociedade e isso requer ordem. E é por não respeitar essa ordem que você está aqui no Asilo Arkham — Fez uma pequena pausa, tentando manter a voz controlada como antes, por mais que pequenas pontas de raiva ainda pudessem ser notadas em seu tom falsamente calmo — Quais são suas motivações?

Os olhos de Trinity faiscaram por um instante, ao mesmo tempo que um grande sorriso emoldurou seus lábios e iluminou sua expressão. Por um segundo ela realmente pareceu feliz. Sem deboche, sem ironias, sem jogos. Apenas felicidade em seu estado mais puro.

Ele é o meu objetivo.

— Doutor Jonathan Crane? — Perguntou, um pouco surpreso pela reação da paciente.

E então a felicidade se foi, dando lugar a uma expressão furiosa. Seus olhos, que antes exalavam excitação, agora transbordavam um ódio insano, como se a alegria nunca tivesse chegado perto de seu semblante e a única coisa que ela conhecesse fosse a raiva. Seus dentes estavam trincados e seu corpo tremia levemente enquanto ela se contorcia de modo quase imperceptível para livrar o aperto da camisa de força de seus braços.

— O Espantalho nunca chegaria aos pés dele! — Declarou em um sussurro irritado.

— Então de quem estamos falando, Trinity? — A voz do Doutor Maslow deixava perceptível a satisfação por provocar reações tão negativas na garota, seu timbre possuía uma provocação sutil que a paciente nunca perceberia devido ao seu estado quase cego.

Os lábios da prisioneira se abriram em um sorriso doentio e seus olhos brilharam insanos mais uma vez, alternando sua atenção da câmera para o psiquiatra.

— É tudo pelo Coringa — O sorriso virou um riso baixo, quase triste, dotado de uma insanidade que só poderia ser sentida naqueles que seguiam o Príncipe Palhaço. Trinity voltou a encarar o psiquiatra com os olhos flamejando — Você não percebe?

Dessa vez o suspiro que o Doutor Steve Maslow soltou foi de satisfação.

— Isso exemplifica as coisas — Comentou, baixo o suficiente para apenas a câmera captar, tanto que o semblante doentio de Trinity não mudou — Podemos começar por esse ponto, então. Por que decidiu seguir o Doutor Crane sendo que seu objetivo é o Coringa?

A garota desviou o olhar para seus próprios pés descalços em súbita tristeza.

— Não é tão simples assim se encontrar com o Senhor C — Seu sorriso agora era triste, e o riso breve que deu soou mais como o começo de um choro controlado — Não basta apenas querê-lo. Ele precisa te querer. Te notar — Seus olhos agora marejados miraram novamente o psiquiatra — É tudo por ele, Steve. Tudo para ele me querer também.

— Entendo — Pigarreou — E por que o Coringa?

Repentinamente seu sorriso mudou, voltando ao aspecto insano de outrora. Seus olhos não tinham qualquer resquício de tristeza, muito pelo contrário, eles agora sustentavam uma perversa animação. Sua expressão voltou a ficar iluminada, e seu semblante era uma mistura nociva de maldade e divertimento. Porém, se você olhasse com mais atenção, havia mais do que insanidade em seu olhar, havia, oculto, um pedido de socorro.

— Por que, Senhor Doutor Steve Maslow? — Seu peito tremeu em uma gargalhada histérica e descontrolada — Porque é tudo culpa dele! — Exclamou em meio a risadas, inclinando seu corpo para frente para ficar mais próxima do psiquiatra. Seu olhar então se desviou dele para a câmera, olhando fixamente para a lente como se nada mais a sua volta existisse — E é por isso que eu estou aqui, docinho. Porque eu quero estar aqui.

A estática tomou conta da tela novamente.

Notas finais
Espero que tenham gostado do capítulo e da ideia da fanfiction! Muito obrigada por lerem até aqui, e, por favor, comentem. É muito importante para mim saber o que vocês acharam, o que mais gostaram e o que menos gostaram e o que deve ser mudado, retirado ou adicionado. Além de que eu adoraria saber o que vocês gostariam de ver daqui pra frente! Me perdoem qualquer erro, e vejo vocês no próximo! Com amor, Hell.