Punchline

2 Segundo Arquivo. Para: Astolfo


“Querido Astolfo,

Eu não sei dizer ao certo quando foi o início de tudo, tampouco saberei lhe dar motivos caso me peça para explicar. Porém, se você quiser saber qual é o meu palpite mais forte dentre todos os que eu tenho, eu lhe diria que tudo começou quando ainda éramos adolescentes revoltados assistindo o noticiário de Gotham com uma mistura de fascinação e medo, desejando secretamente estar lá lutando pela cidade ao lado deles.

O problema, eu acho, é que eu nunca decidi de qual lado eu ficaria.

Já faz um pouco mais de uma semana que eu estou em Gotham, e eu não sei se vou chegar a sentir o sol quente e aconchegante de Metropolis mais uma vez. Aconteceram muitas coisas desde que eu cheguei aqui, Astolfo, e a única coisa que eu consigo dizer sem dúvida nenhuma é que você estava certo sobre essa cidade: ela é amaldiçoada.

Eu estou escrevendo essa carta diretamente do Hospital de Gotham, tendo minhas despesas completamente bancadas pelo milionário (ou seria bilionário?) Bruce Wayne, após um falso acesso de pena e compaixão pela minha condição. Tudo para promover sua imagem, eu acho. De qualquer maneira, isso não importa. O importante é que eu estou sendo devidamente tratada no melhor hospital da cidade – o maior, o mais requisitado, o mais importante, o que possuí a segurança mais fraca e imbecil de todas.

Como você sabe, eu viajei para Gotham para pesquisar sobre o Coringa diretamente da fonte, já que o meu TCC de Jornalismo seria sobre ele. Eu fiz um ótimo trabalho, Astolfo. Eu segui todas as pistas que levavam até ele, falei com alguns de seus capangas menos perigosos e até consegui uma entrevista com o Comissário Gordon. Você ficaria orgulhoso de mim! E foi com essa pesquisa que eu descobri o quão fascinante o Príncipe Palhaço do Crime pode ser. Ele é tão inteligente, tão poderoso, tão... sedutor. E então eu comecei a parar de pesquisar para o TCC e comecei a pesquisar para mim mesma, eu precisava encontra-lo, precisava vê-lo com os meus próprios olhos, eu precisava... eu não sei.

Eu acho que me apaixonei por ele, Astolfo.

Mas eu não estou obcecada. Não, não. Não estou. Não ouse dizer que estou.

Eu comecei a seguir todo e qualquer rastro que ele deixava pela cidade, tentei descobrir sua localização, seus costumes, o modo que ele pensava. E isso me levou até o Hospital de Gotham na noite passada, onde ele estava fazendo um de seus maravilhosos shows. Uma ótima piada, eu tenho que dizer. Em hospitais todos estão sempre tristes e depressivos, ele só queria que eles sorrissem um pouco! E foi por isso que ele espalhou altas doses do gás do riso por toda a instalação, ele só queria colocar um sorriso naqueles rostos tristes!

...mas eu cheguei atrasada demais e as cortinas já tinham se fechado. Todos já haviam saído do hospital, e a única coisa que indicava que o Coringa esteve ali era o ar letal que o gás do riso deixou, e o qual eu inalei até ficar inconsciente. Eles me acharam horas depois quando foram desintoxicar o local. Disseram-me que eu estava rindo mesmo desmaiada, balbuciando coisas que descreveram como “insanas”. E então eu estou aqui.

E agora tudo está tão mais... claro.

Eu finalmente decidi em qual lado eu quero lutar, Astolfo. Percebi qual era e sempre foi a minha ambição, meu propósito, como se todas as escolhas que eu tivesse feito nesses 19 anos levassem até aqui... levassem até ele. Você entende isso, não entende? Por favor, me diga que entende! Porque ninguém entende. Eles acham que eu enlouqueci, Astolfo! Mas eu não estou louca. Não, não, não. Eu não estou. Eu sou completamente sã, não vê? Completamente sã. Mas você não acha que a sanidade não é um pouco superestimada?

As coisas estão ficando confusas na minha cabeça com o passar das horas. O confinamento nesse quarto exageradamente branco de hospital tem me sufocado, meus pensamentos estão afiados como facas e eles me machucam. Você acha que eu enlouqueci? O Doutor acha que sim. Eu não consigo mais pensar com clareza.

Mas eu estava bem quando comecei a escrever essa carta, não estava? Eu não entendo. Eu acho que nunca vou entender. Talvez ele tenha as respostas, não é? Não só sobre a confusão em minha cabeça, mas sim sobre tudo. Talvez ele seja a resposta.

Me perdoe, Astolfo... tudo está tão confuso agora. Eu não consigo mais ter noção do que eu estou escrevendo, eu mal consigo pensar direito. Então, por favor, me desculpe pela caligrafia, e principalmente por qualquer coisa estúpida que eu disser. Talvez o gás do riso realmente tenha me quebrado, assim com o Doutor Martinez sugeriu. Talvez eu enlouqueça, Astolfo. Talvez eu já tenha enlouquecido. O problema é que talvez, só talvez, eu esteja gostando da sensação de ter a sanidade se esvaindo de minha mente.

Mas a loucura é tão relativa, não é? Uma voz no fundo da minha cabeça sussurra que sim. Talvez os verdadeiros loucos sejam vocês, vivendo vidas que não querem viver, presos em trabalhos medíocres, com medo de se divertirem de verdade, reprimindo seu verdadeiro eu. Talvez vocês é que devessem estar presos no Asilo Arkham!

E é por isso que eu não vou voltar, Astolfo. Por favor, não chore por mim. Eu acho que você é a única pessoa que vai realmente sentir a minha falta, e eu vou me odiar todos os dias por te deixar mal. Você é a única pessoa com quem eu me importo de verdade, e se eu pudesse te arrastar para Gotham eu com toda certeza o faria sem hesitar. Mas não há mais nada em Metropolis pra mim, assim como não há nada em Gotham pra você. E, na realidade, nem mamãe e papai se importarão de verdade com a minha ausência... eles estão ocupados demais mantendo a aparência de família perfeita.

Você consegue imaginar os rostos deles quando descobrirem que sua filhinha troféu virou uma seguidora do Príncipe Palhaço? Trocando porrada mano-a-mano com o Batman?! Por favor, filme pra mim! Você precisa concordar que vai ser hilário!

Mas de qualquer maneira, eles têm Thomas. Não tem como errar duas vezes na criação de uma criança, tem? Sabe, eu gostaria de vê-lo nascer... você terá que fazer isso por nós dois, Astolfo. E, pensando bem, eu não quero que mamãe e papai saibam sobre mim, eu não quero nem que Thomas saiba meu nome. Eu quero que me esqueçam. Quero que achem que eu morri ontem no chão desse mesmo hospital, rindo até que a vida abandonasse meu corpo. Talvez seja melhor assim, não acha? Eu quero que você também me esqueça. Eu vou fazer o meu melhor para esquecer vocês.

E acho que não vai ser tão difícil assim quanto parece... eu mal consigo me lembrar do seu rosto. Por algum motivo eu só consigo lembrar de uma carinha feliz quando escrevo seu nome, como se você fosse um objeto inanimado ou algo do tipo. Mas eu tenho certeza que você é real! Eu ainda não enlouqueci a esse ponto, caso contrário provaria que eu realmente estou doente, o que não é o caso... certo?

Bem, não importa. Eu só escrevi para lhe dizer que eu estou melhor do que nunca, e lhe avisar que eu não vou voltar. Gotham é meu novo lar, e eu não poderia estar mais feliz! Eu encontrei o amor, Astolfo, e eu estou disposta a lutar por ele! Eu vou chamar a atenção do Coringa, eu juro que vou conseguir... O Batman vai temer o meu nome!

“Quando eu acordei hoje de manhã eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então”. Lembre-me de mudar meu nome para Alice!

Com amor, Trinity

xoxo”

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A garota dona do cabelo avermelhado abraçou contra seu próprio corpo os papeis envelhecidos pelo tempo, permitindo que algumas lágrimas tímidas escapassem dos olhos azuis dominados por um misto de tristeza e saudade. “Seja forte”, sussurrou para si mesma com a voz embargada, controlando-se o máximo que conseguia para não se desfazer com o choro doloroso que estava preso em sua garganta, dificultando seu ar.

Limpou as lágrimas inconvenientes de seu rosto com as costas de sua mão e soltou um longo suspiro, começando a guardar os papéis cuidadosamente em um envelope mal feito e levemente rasgado pela ação do tempo, também de papel. Os dizeres “PARA: ASTOLFO” estavam escritos em vermelho em letras garrafais, seguido de várias carinhas felizes espalhadas aleatoriamente ao seu redor. Nada de endereço ou remetente, apenas aquilo.

Após arrumar tudo a garota colocou o envelope novamente dentro no baú a sua frente, e estava quase pronta para fechá-lo quando algo chamou sua atenção. Ela aproximou os dedos trêmulos do cofrinho em formato de Yakult que estava guardado cuidadosamente no canto do baú, tocando-o gentilmente enquanto um sorriso triste se formava em seus lábios. O cofrinho possuía uma carinha extremamente feliz desenhada com caneta preta, e um grande “Astolfo” escrito em seu corpo.

O som de riso misturado com choro ecoou pelo quarto, e cessou somente quando ela sentiu os braços de Batman envolverem-na em um abraço apertado.

Notas finais
Como sempre, perdoem-me por qualquer erro. Mesmo revisando várias e várias vezes, sempre alguma gafe acaba passando e nós não percebemos. E, queridos leitores fantasmas, eu vejo vocês! [insira olhar maligno aqui] Funfact: Astolfo realmente existe! Ele é um cofrinho de um pouco mais de 10cm que eu tenho já faz algum tempo. Junto dele, também tem um outro cofrinho (nomeado Adolfo) de mais ou menos 20cm. Graças a eles eu nunca tenho troco em moeda para nada, mas vale a pena! aidjfasidpoasdkasd Espero que tenham gostado e, por favor, comentem. É importante pra mim. ps: e feliz dia do Batman!