Pulsos Atados

1 Prólogo - Emilly


O antigo relógio manteve seus ponteiros apontados ao norte, e ao estalar do pêndulo, indicando meados da meia noite, ela finalmente despertou.

Seus sentidos aguçados, em busca de ameaça. Ela olhou seu redor, através das chamas escarlates, e logo encontrou seu apetitoso banquete da noite anterior.

– Humanos tolos.

Aos poucos, tomou persistência de seu corpo grogue, e logo já podia andar sem tropeçar em seus próprios pés. Ela recordou-se dos gritos desesperados, dos anseios por ajuda, do sabor estonteante penetrando-lhe a boca.

Ela caminhou, com um sorriso arrogante esboçado em seu rosto, pelos corredores úmidos, buscando seus escravos retumbantes, para a servirem como de costume, sem êxito. O lugar estava deserto, sem vislumbres algum de chifres ou asas, ou um sequer ruído. Por um breve instante isso a assustou.

– Charlotte? Sophie? Matthew? Servos! Venham ao meu encontro agora! — ela gritou.

O silêncio ainda amordaçava o local.

– Maldito seja! — Resmungou.

Ela caminhou até o final do corredor obscuro, chegando às escadas, e foi descendo-as cautelosamente. O salão de piso marmóreo, paredes extensas e cortinas azuis-marinho também estava deserto, e isso despertava ainda mais a sua raiva.

– Onde estão todos? — Ela gritou impacientemente.

Ela andou até a fronteira do trono de seu pai para o verdadeiro inferno, ainda que não pudesse compreender o porquê de tal estar vazio também. Nem seu próprio pai permanecia em seu aposento usual. Ela continuou caminhando pelas celas, pelos armazéns de aparatos e nada, absolutamente nada.

Pelos seus pensamentos, ela tentava formular alguma resposta para suas perguntas intermináveis, quando sentiu um rastro atravessar-lhe seus instintos. Não perdeu tempo e se pôs a correr pelas pilastras, até chegar à fonte do "sinal" que detectara. Ela pôde ouvir alguns ruídos de vozes masculinas atrás da parede na qual se mantinha escondida, mas permaneceu insípida.

Ela facilmente atravessou a parede de cimento sem que ninguém a visse ou a percebesse, e ainda em sua frente, estava mais uma coluna para reforçar a estrutura do quarto escuro. Emilly se manteve ali, e logo pôde entender o diálogo.

– Você não deveria ter escolhido ficar aqui. — Um deles dizia.

– Se Deus presenteou cada filho com o livre arbítrio, eu tenho sim direito de estar aqui quando eu quero.

Houve uma pequena hesitação.

– Você não se arrepende?

– Sim. Um pouco. Mas de qualquer forma eu não queria depender de um Deus que só sabe julgar as autoridades. — Suspirou tristemente.

– Deus apenas estabelece regras para podermos entrar em sua Glória, não seria justo um trapaceiro desfrutar dela. — O outro retrucou.

Apesar de confusa pela conversa totalmente incomum, até mesmo para o lugar onde vivia, ela não se conteve e optou por olhar, disfarçadamente, os indivíduos daquela discussão.

Seu olhar encontrou dois anjos, cada um diante de si, um possuía asas com plumas brancas como algodão, repletas de um brilho extraordinário. Seus olhos eram de um azul intenso, seu dorso esguio e musculoso, os cabelos castanhos estavam emaranhados sob seu queixo quadrado. Vestia um traje também branco, simples, que contrastava a cor de sua pele bronze.

No mesmo instante ela deduziu que aquele se tratava de um Anjo da Luz.

"Mas eles são proibidos de entrar aqui". — Sua mente a alertou.

Mas ela não se importava com as regras nem com o mundo naquele instante, ela só conseguia admirá-lo. Seu olhar, com vigor, desviou-se para o outro garoto, que ela sabia que com certeza era das Trevas, devido à camada inflável de energia negra em volta dele. Seus cabelos eram de um castanho-acobreado, seus olhos eram azuis e tão hipnotizantes quanto o do outro anjo. Suas asas, de extremidades viçosas, eram negras como a escuridão da noite. As feições de ambos eram idênticas, o que a fez pensar que de alguma forma, eles eram irmãos.

"Meu pai vai adorar saber disso, pacto com Anjos da Luz é proibido". — Sua mente provocou.

Ela ansiava, necessitava da maldade incessante, do prazer inebriante que isso a fornecia. Ela queria ceder àquela vontade de braços abertos, mas algo a impedia, algo insistia em protegê-los. Ela surpreendeu-se com o seu afeto súbito por aqueles dois desconhecidos. Naquele instante, ela reconheceu uma humanidade escondida dentro de sua áurea. Pela primeira vez, ela reconheceu o que os humanos chamavam de amor.

Foi naquele dia, que Emilly se apaixonou pela primeira vez.