Pulsos Atados

2 Capítulo 1 - A Princípio - Mariana


TERÇA FEIRA

Eu não conseguia esconder o quanto eu estava cansada e farta do dia anterior, que tinha sido um feriado até que legal, com exceção da exaustão que tinha resolvido me dar um oi no dia seguinte.

Acho que o que poderia ter me causado essa ressaca eram os 2 litros de guaraná e as cinco panelas de pipoca que Keyla fizera de bom grado. Debruçada sob meu livro, em plena sala de aula, lá estava eu brincando com a minha caneta e distraída.

Não sou bagunceira, não sou preguiçosa, tão menos irresponsável, só estava tãão exausta do filme de terror e do domingo passado que as minhas forças e vontade para estudar esgotaram-se. Senti uma leve batida em meu ombro e me levantei instantaneamente.

Keyla estava lá do fundo da sala acenando e apontando para o chão, onde se mantinha uma bolinha amassada de papel. Preguiçosamente, eu a peguei e li seus traços cuidadosamente:

Acorda dorminhoca... A gente dormiu mó cedo ontem.

“Ah é!” – Pensei comigo mesma revirando os olhos. – “Esse mó cedo foi às 02h00 da madrugada”

Eu tenho o direito de estar cansada...

Eu escrevi as palavras devagar, e habilmente, joguei a bolinha de volta pra ela.

– Será que alguém poderia me dizer quantos átomos de hidrogênio tem na molécula do ciclobuteno? Querida Keyla você poderia nos dizer, afinal jogar bolinhas de papel pelos ares deve significar que você sabe tudo não? – Professor Quirrel dirigiu-se a ela.

Todos, inclusive eu nos viramos para encará-la.

Pude distinguir seu murmuro de frustração apenas com os lábios. Ela pigarreou e levantou seu queixo orgulhosamente, o que me fez rir baixinho.

– Não faço a menor ideia. – Ela respondeu honestamente.

Quirrel lançou a ela um olhar de advertência.

– Se você não sabe, e não possui o interesse de saber, não atrapalhe aqueles que querem.

– Que eu saiba ninguém aqui quer estudar essas porcarias. – Um grito veio do fundo da sala.

As gargalhadas tomaram a sala em uníssono. Quirrel de repente olhou para mim. Ele saiu dos fundos da sala e se dirigiu para minha carteira.

– Você poderia mostrar querida Mariana, por favor, para seus colegas como é ser um aluno descente? Poderia me dizer quantos átomos de hidrogênio tem na molécula do ciclobuteno?

Eu já deveria esperar por isso.

– Tem 6 hidrogênios na molécula. — Eu encolhi os ombros.

Vish, o discurso vai começar. — Lamentei mentalmente.

– Excelente! Sigam o exemplo dela meus caros alunos – Ele começou a caminhar sob a sala plana – No futuro ela pode ser a futura chefe de vocês, já que ela é uma dos poucos alunos que realmente estudam a minha matéria. Por favor, não se deixem levar em dédalos, não sejam tão curiosos a ponto de desejarem conhecer “novas diversões” – ele gesticulou as aspas com seus dedos — Sigam o exemplo de seus pais.

–Meu pai é lixeiro! – Outro grito ressoou na sala ventilada.

Eu fui incapaz de conter a risada compulsiva que se apoderava cada vez mais de mim, e assim como eu, todos se juntaram na algazarra.

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A biblioteca da pequena cidade de Poshercity era nada mais nada menos realmente bem mal abastecida. Apenas os livros vangloriados do The New York Times reinavam sob suas prateleiras. Mas para a minha alegria também tinha a sessão reservada, com livros mais antigos e desconhecidos.

Ainda que isso soe bem rude, eu ainda gostava muito do lugar.

Ler pra mim é uma evasiva da realidade triste e detestável que temos que viver, é como um filme sendo reproduzido em sua mente, com um roteiro já determinado, mas um cenário e mundo completamente seus. Assim que as aulas acabaram, eu aproveitei o fato de eu ter enchido o pneu da minha bicicleta, e basicamente voei para lá, ainda com Keyla e seus detestáveis diálogos fastidiosos – ou tagarelices como gosto de dizer.

As paredes da biblioteca decrépita eram mistas em tons de laranja e amarelo, descascadas e frágeis – e provavelmente tinham no mínimo 20 anos de idade.

Consegui me livrar de Keyla, com muito custo, lembrando-a da liquidação de estoque que teria na Patzlaff’s modas. Devo ter ficado perambulando entre as estantes, esfregando a ponta dos dedos nos livros empoeirados durante uns 10 minutos. Alguns eram grossos, talvez com 500 páginas ou mais – até porque eu estava na sessão de livros antigos.

Eu devia ficar longe dali, para evitar que minha rinite alérgica atacasse e me deixasse maluca, mas a tentação sempre era maior. Era quase como se os livros sussurrassem através do vento: Venha até mim. Como se tivessem o poder do hipnotismo, e eu fosse a presa.

A textura dos livros eram idênticas, quase não mudavam. Eram em maior parte lisas com pequenas falhas ou com leves ondulações aqui e ali. Mas uma das capas me chamou a atenção.

Não só por sua composição tenaz, mas também pelo seu peso. Não era um livro com muitas páginas, por isso não deveria ter um peso tão grande. Além de suas deformações e diferenças, por baixo de toda aquela poeira e bolor, havia traços que não se percebia com um só olhar, até porque aquele pó o envolvia como um cobertor. A capa era áspera e preta.

Soprei a superfície do livro e uma grande camada de bolor entrou para meus pulmões.

A sensação familiar logo me tomou por completa, e eu comecei a espirrar e sentir meus olhos arderem e lacrimejarem. Depois de finalmente me recuperar, eu olhei para o livro novamente, facilmente identificando a estrela que muitos julgavam ser do diabo, o tão conhecido símbolo do 666. Em seu centro, tinha uma escrita com letras estrangeiras, provavelmente bem antigas. Eu jamais vira tal ortografia.

Meus pés me levaram à recepção, onde uma mulher de cabelos ruivos sorriu.

– Olá querida, vai levar? – Ela apontou para o livro.

–Na verdade... – Eu respondi com um tom meio sem jeito. – Eu queria saber quem é o seu autor.

– Não está na capa? – Ela pegou o livro cuidadosamente de minhas mãos.

Eu pude vê-la zombar de mim pelo sorriso misto de bondoso com você é idiota?

–Querida, a não ser que você seja uma hieróglifa esqueça. Na verdade eu nem sei para que aceitaram essa doação, ninguém nunca nem tocou nesse livro desde que ele foi colocado lá.

Ela dizia as palavras como se o livro fosse só um monte de lixo.

–Há quanto tempo ele está lá? – Eu não pude me impedir de perguntar.

Ela revirou os olhos e balbuciou enquanto revirava o livro até achar o que procurava. Pude perceber sua expressão de surpresa.

– Desde 1988. Nem eu mesma achava que ele fosse tão velho assim. – Ela riu enquanto me devolvia o livro.

– Obrigada. – Eu agradeci enquanto me virava para pôr o livro de volta em seu lugar, ignorando uma premonição tênue que insistia em me dizer, que ali continha segredos, ou talvez algo maior.

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No final de tudo, eu finalmente achei um livro que me atraísse – dessa vez com o meu idioma e minha época. Contemplando minha velha bicicleta, pensei onde eu iria agora, e abruptamente minha mente raciocinou um lugar perfeito.

Havia um terreno, na qual eu sempre visitava desde os meus 13 anos. Era o único lugar no planeta talvez, que me deixasse confortável e em silencio o suficiente para eu conseguir ler um livro. Localizava-se quase do outro lado da cidade, em meio às velhas trilhas de barro vermelho.

O lugar era completamente ermo.

Montei na bicicleta, e pensei durante o percurso até lá no silêncio e no sossego que aquele lugar oferecia. Pensei nos galhos dos carvalhos aninhando-se uns contra os outros, dançando ao som da brisa. O som dos pássaros alegres cantando e voando em meio ao horizonte, na bruma suave que acobertava o local e acima de tudo na paz. Lá era a minha segunda casa e eu sei que ninguém jamais entenderia a razão de eu preferir aquele lugar do que minha própria casa... Mas havia algo naquele lugar, que não podia ser descrito em palavras, que me atraía para si. Como um imã ou algo parecido.

Depois de algum tempo , cheguei a velha estrada de terra. Saí da bicicleta, e comecei a caminhar segurando apenas o seu guidão.

Aquele lugar não era nenhuma novidade. Não havia mudado nos últimos 5 anos desde que estive lá pela primeira vez. No entanto, eu não cansava de contemplá-lo, mesmo que os velhos cascalhos e o céu límpido já tivesse perdido a graça para muitos.

Eu caminhei cantarolando até chegar à baliza do terreno. Demorou aproximadamente uma hora até que eu chegasse no centro do terreno.

Era íngreme e possuía vários carvalhos e variados tipos de árvores. Era uma mini-floresta, ainda que eu preferisse chamar de terreno. O centro do terreno amplo possuía um cedro do libamo característico, que nos dias ensolarados, oferecia uma boa sombra. Era uma espécie de erva daninha — pois era a única árvore que não se aglomerava com as outras.

A relva estava recém-cortada, com o cheiro de capim ainda exalando aos arredores. Estranho.

Ninguém ia naquele lugar, pelo menos não que eu soubesse.

Aproveitei a folhagem rasteira, e a sombra do cedro para me debruçar ali. Inspirei profundamente a brisa limpa e suave, e comecei a ler o livro.

Pouco a pouco, minha mente foi se cansando, e antes que eu me cogitasse, cochilei.

Depois de algum tempo ali, relaxando, eu finalmente retomei a consciência. Os raios de sol estavam laranjas, e o céu que resplandecia um azul intenso agora saturava um misto de violeta com azul turquesa. Era crepúsculo, não precisei de muito tempo para perceber isso.

– É melhor eu correr antes que escureça. — Resmunguei para eu própria.

Segurei no guidão da minha bicicleta, peguei o livro e saí em direção a trilha que eu fizera antes, foi quando eu percebi um movimento atrás das árvores.

Congelei, entorpecida de medo. Quem poderia ser?

Bruscamente uma sombra saiu de trás de uma das árvores e se virou para minha direção. Ao sair da escuridão das árvores, um rosto se formou. Era esbelto, masculino de cabelos levemente avermelhados e olhos azuis. Mesmo com a distância curta que separava nossos corpos, não pude vislumbrar muita coisa, porque ele sumiu atrás das árvores antes que eu pudesse reagir ou dirigir uma sequer palavra para ele.