Pulsos Atados
23 Capítulo 22 – Desalento - Mariana
Tudo começou de uma forma abrupta.
Talvez eu esperasse que ele me enrolasse ainda mais e continuasse me escondendo tudo, porém não foi assim.
– Okay, então chega de segredos. – Ele hesitou esfregando suas mãos, como se estivesse se preparando para um grande desafio – Há muitos séculos passados, quando Deus mal havia criado o universo e o planeta Terra...
Involuntariamente comecei a rir atropelando suas palavras.
– Quero que você me conte sobre o segredo, não sobre religião.
– Mas esse é o segredo, Mariana. Você vai ter que me escutar agora.
Senti um gelo em meu peito no mesmo instante, mas me mantive firme e forcei meus pensamentos a se calarem.
– Continuando... – Ele pareceu murmurar mais para si mesmo do que pra mim – Um pouco adiante do início da criação do mundo, quando já existia o mal e Adão e Eva já haviam pecado, um anjo se apaixonou por uma humana.
Sei que não devia interrompê-lo, entretanto, minha curiosidade foi maior como sempre.
– Espera, isso está escrito na bíblia? – Eu quis saber.
– Não, de forma alguma.
Anjos podiam realmente se apaixonar? E além de tudo por humanos?
– Isso parece ter sido tirado de um livro de conto de fadas, ou de uma mente muito fértil.
– Você já vai entender o que eu to tentando contar. – Ele pigarreou – Esse anjo chamava-se Lúcifer, que você deve conhecer como sendo o primeiro a cair do céu e banido por Deus.
– O Diabo? – Cochichei sentindo um calafrio tenebroso na espinha.
– Sim, vocês humanos devem conhecê-lo assim, mas não sinta tanto medo porque nem sempre ele foi mal assim. – Gabriel fez outra pausa para perguntas, mas como eu não disse nada ele deu continuidade mais uma vez – Existem muitas contradições na bíblia e muitos princípios que foram pregados pelos próprios homens que eram usados por Deus e não pelo Próprio em si. Alguns eram tão privilegiados e honrados que acabaram induzindo e impondo suas próprias doutrinas e sermões no livro sagrado. Isso é um dos grandes motivos pelos quais existem tantas controvérsias sobre tudo com relação a isso certo?
Assenti minha cabeça sem deixar de estar atenta a cada detalhe do que ele me contava, apesar de não estar entendendo absolutamente nada.
– Pois é, não é a toa que existe tanta confusão e argumento para contrariar a bíblia. Realmente muitas questões são levantadas devido à falta de esclarecimento sobre certas coisas. Mas finalmente chegando à parte que eu queria chegar, Lúcifer acabou engravidando a humana. Sem dúvida isso contrariava tudo, todavia, não era algo impossível de ocorrer. Existem diversas teorias, que até mesmo anjos não sabem explicar, mas em suma, ela deduz que ao entrarmos na dimensão do hábitat do ser humano nós aderimos ao corpo e a forma humana. Isso inclui ainda por cima a capacidade de reproduzir, o que é uma total e completa aberração.
– Nephilim. – Minha boca disse por vontade própria.
Gabriel me deu uma olhadela rápida e assentiu.
– Sim, a criatura que não é humana nem um anjo, ela é ambas dentro de um só corpo. É o fruto da relação entre um ser humano e um anjo.
– Mas como? Elas ainda existem? E por que você está me contando isso?
Ele tapou minha boca com a palma de sua mão calando mais uma vez o meu interrogatório.
– Eu vou chegar lá, tenha paciência. Você interrompeu minha linha de raciocínio, mas enfim, o “bebê” na verdade era uma menina. Jamais havia se ouvido falar em tal espécie, e para o seu completo choque e horror Mariana, essa garotinha aparentemente comum era você.
Como ele mesmo já havia declarado, entrei em pleno estado de pânico e confusão. Isso era coisa de louco, ou podia ser só uma forma que ele tinha encontrado para ocupar meu tempo e me assustar com contos para crianças dormirem. Afinal o que eu poderia esperar do irmão de um cara que tinha admitido me perseguir durante minha vida toda?
– Muito bem, isso já foi o bastante pra mim, eu vou embora, você não vai me enrolar mais... – Eu me levantei da pedra decidida, mas ele me segurou pela mão com firmeza .
– Você prometeu que ia me ouvir, Mariana. Eu já tinha te adiantado ao dizer que tudo ia soar muito bizarro.
– Bizarro é toda essa merda que tá acontecendo na minha vida!
Gabriel me puxou para baixo tentando me forçar a sentar novamente, e sem mais forças para resistir, minhas pernas cederam e eu me sentei vagarosamente ao seu lado de novo.
Ao invés de dar um tempo para me recompor, ele foi jogando cada vez mais peso para minhas costas sem me dar tempo para respirar.
– Você foi a primeira de sua espécie a surgir nesse mundo, em sua antiga vida chamava-se Emilly, a primeira Nephilim da história. A bíblia relata que o orgulho e a inveja do seu pai o expulsou do Paraíso, mas também houve outras causas, e o caso dele com a sua mãe foi uma delas. Certamente para tais atos tão imprudentes tiveram-se conseqüências, e essa foi a morte precoce da sua mãe. Ela chamava-se Angeline e ao te dar a luz, acabou não resistindo e faleceu em seu parto. Lúcifer então revoltou-se contra Deus, e foi aí que foi realmente expulso de lá, mas claro que ele não deixaria barato para o seu até então novo adversário. Ele jurou vingança e antes de ser condenado ao inferno junto com seus capangas, ele a embargou para si e levou-a para sua nova casa...
– Espera! – Eu exclamei sentindo-me esgotada de tanta informação e esquisitisses – Eu preciso de um tempo pro meu cérebro voltar a funcionar.
Pega de surpresa pela segunda vez naquele dia, tive um rápido vislumbre do sonho que eu tivera. Como eu seria capaz de esquecer os gritos agonizantes das pessoas que estavam lá naquele lugar da primeira visão, que eu não sabia dizer se era um abismo qualquer ou o próprio Inferno sobre o qual ele se referia?
Senti outro calafrio perturbador roçar minha espinha.
Então aquele maluco estava dizendo que eu era filha do próprio... não, não podia ser! Eu só podia estar paranóica e louca!
– Eu ainda sou uma Nephilim? Eu nunca fui humana? E em minha antiga encarnação eu me chamava Emilly? – Depois de um tempo relacionando meu sonho com o que ele acabara de dizer, consegui empurrar as palavras da minha mente, que a cada pergunta que surgia enlouquecia mais. Sentia como se cada dúvida fosse um carrinho de bate-bate que se colidia uma com as outras. Meu cérebro não conseguia processar aquilo que ele me dizia.
– Não, pelo menos não ainda. – Gabriel respondeu minha primeira pergunta sombriamente.
Engoli secamente, preparando-me para o que viria a seguir, mas nem que eu tivesse feito isso por anos eu teria conseguido me imunizar da absoluta descrença que me atingiu.
– Depois de séculos vivendo naquele lugar, sendo reconhecida como uma das mais poderosas imortais já vistas na eternidade, algo aconteceu, você amou. A filha do poderoso anjo caído, que foi banhada em sangue e crueldade se apaixonou. Isso era algo totalmente errado, sem sombra de dúvidas. Você era famosa por ser impiedosa, tinha até nomes, entre eles Víbora das Sombras, pelo qual era mais reconhecida. – Ele suspirou prendendo seus olhos nos meus – E também tem mais um relato que aconteceu para complicar tudo. De tanto conviver com os demônios e sabe-se lá outras criaturas que prefiro nem mencionar, sua humanidade dissipou-se. A santidade havia se convertido para a pureza insana das profundezas do mal, e então não existia mais tanta diferença entre você e a prole de um demônio.
– Eu... eu virei o quê? – Gaguejei a beira do pranto.
– Demônios, como vocês humanos renomeiam, que são seres que se alimentam de uma energia que as almas dos mortais possuem. Sei que isso é muito confuso mas...
Ergui minha mão para impedi-lo de continuar e retomei a postura:
– Como eu me tornaria um demônio se eu já era amaldiçoada por ser a primeira da raça Nephilim? – Cerrei os olhos já desconfiada que ele estava mentindo pra mim, negando a todo custo a controvérsia que meu interior estava gritando e afirmando para mim.
Gabriel suspirou mais uma vez.
– O inferno é mais ou menos como a dimensão da terra é para anjos, nosso real estado físico sofre mutações em razão da atmosfera que estamos. Tudo nos provoca alterações no estado físico e não apenas nele, mas nos instintos também, desde o ar que se respira, o vinho que de lá se bebe, o fruto que de lá se come, até mesmo à convivência com os seus habitantes, etc. Você era mais do que única Mariana, além de peculiar ou qualquer outro advérbio, era simplesmente invencível. Seus poderes eram oriundos de sua própria natureza esplêndida, nunca existiu, nem nunca existirá alguém igual a você. – Ele tomou um tempo para respirar – É imprescindível afirmar que você era motivo de orgulho para o seu pai.
Ele estava falando sério?
– Pai? – Forcei uma risada sarcástica – Você é louco, essa é a história mais bizarra que eu já ouvi. E onde entra a parte que a minha antiga eu “fodona” vira uma humana insignificante e sai de dentro da barriga da minha mãe?
– Eu vou chegar lá se você me permitir.
Forcei outra risada de sátira, sentindo-me uma total idiota por no fundo do meu coração saber que aquilo era verdade.
– Depois de ser exaltada por tantos éons e seguir sempre imune a qualquer emoção, matando e torturando sem indício de lástima, sua antiga “eu” apaixonou-se por dois anjos, pelo qual um pertencia a Luz e outro as Trevas, ou melhor dizendo, bem e mal. Emilly apaixonou-se por mim e Ariel, é por isso que se sente estranha em nossa presença. Ela faz isso com você, as suas almas foram fundidas em um só corpo. Pode-se dizer que você é uma versão ingênua e pura da minha Emilly, mas ela ainda está aí dentro, esperando até a hora de ser liberta, que não será muito distante.
Não consegui fazer nada além de balançar a cabeça para os lados compulsivamente. Foi nessa hora que o ápice da minha resistência se entregou aos turbilhões do meu pandemônio interior, e então comecei a chorar.
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Gabriel encostou minha cabeça sob seu ombro e acariciou meus cabelos enquanto eu me afundava no choro.
A dor que eu sentia era profunda e tão intensa, que rapidamente interpretei-a como não sendo minha. Vinha de algum lugar muito além de mim, mesmo que eu continuasse sendo eu mesma e pudesse controlar meus próprios movimentos. A dor que eu estava sentindo se tornou a maior prova que tudo o que ele me dizia era verdade de algum jeito.
Apesar de estar soluçando e provavelmente soltando uma secreção nada agradável pelo nariz , ele me confortou, aliviando instantaneamente grande parte daquele ácido que estava corroendo meu interior.
Funguei uma última vez e limpei o nariz (eca!) na manga do meu suéter mesmo. Agora eu estava disposta a ouvir o final, embora ainda não estivesse me sentindo firme o bastante.
– Muito bem, então você era um anjo do mal? – Minha voz falhou miseravelmente.
Gabriel analisou meu estado por alguns segundos, o que me fez pensar que apesar de estar me contando a verdade, ele ainda estava sendo cauteloso e continuava medindo o que deveria ou não dizer a mim.
– Eu sou um anjo do mal, ou sendo mais claro, eu sou um demônio, nunca comparado a você, lógico. Você tinha sua própria espécie maluca que era uma mistura de humano com anjo que é igual à Nephilim, e pra complicar tudo, somada a criaturas renegadas e rejeitadas pelo ser superior que as baniu.
– Você foi expulso do Paraíso também?
Senti seu receio de imediato mesmo que não estivesse fazendo contato visual com ele.
– Sim, eu fui. – Ele afundou sua cabeça entre seus joelhos.
– Então você é... – Não consegui dizer a palavra,
Ainda congelada e frisada no tempo, virei em sua direção (mesmo sabendo o quanto eu deveria estar horrorosa) e fiquei lá, olhando sem parar para aqueles cabelos avermelhados.
Quando eu pensava na aparência de um demônio, imaginava algo maligno com chifres, ossos roídos, sangue, sombras e outras características realmente bizarras. Gabriel não era assim, ninguém diria que ele era um ser insanamente maléfico, que já tinha sido um anjo bom.
Os olhos azuis daquele cara (que não era bem um cara) tinham a mesma precisão dos de Ariel a me persuadir. Tinha algo naqueles olhos que colidia com minha alma, desnorteando meu mundo e meus sentidos. Ele tinha a fórmula perfeita pra me fazer enlouquecer.
Ainda era difícil compreender o significado de tudo o que eu já sabia até o momento. Pensa só comigo, eu estava na companhia de um demônio, e aparentemente de toda essa história que ele tinha me contado, dava a se entender que existia outro demônio preso dentro de mim, que por ironia era uma eu mesma do passado.
A teoria que elaboraram para a transformação da forma de anjo para humano seria verdade? Eu nunca desconfiaria que os irmãos gêmeos não eram o que aparentavam ser, quanto mais que eles seriam anjos sobre pele de pessoas normais
– Emilly, você não precisa temer a mim. Eu nunca faria alguma coisa pra te prejudicar, foi você quem me fez querer ser diferente.
Senti uma agitação na parte de minhas emoções, mas ignorei.
– Continue, e não me chame desse nome novamente.
– Tudo bem então, Mariana. – Ele sorriu – Retomando mais adiante, Ariel sempre foi um anjo bom. É claro que ele se apaixonou por você também, ele sempre quis tudo o que eu queria, mas isso não vem ao caso. Agindo de forma egoísta, sem consideração nenhuma por nada além do seu próprio final feliz, ele pediu ao nosso pai que tivesse misericórdia da impureza de sua amada.
Uma dúvida empertigou-me na mesma hora.
– Quem era o pai de vocês? Digo, vocês eram anjos de lados opostos, possivelmente rivais declarados. Quem era o pai legítimo de vocês ao certo?
– Na verdade só nós anjos o chamamos de pai, ou pelo menos alguns de nós costumávamos chamá-lo. Pra facilitar a sua compreensão o nome DEle é Deus, o criador de todo o universo e merecedor de toda a exaltação. – Gabriel revirou os olhos deixando a angústia infiltrar-se por entre as palavras.
Não precisei fazer outra pergunta pedindo uma explicação melhor, era provável que minha cara já implorasse por isso.
– Não sei como explicar isso pra você, mas Deus determinou que nós éramos irmãos. Nós nascemos no mesmo momento que um do outro e nosso cosmo à princípio costumava ser idêntico, até eu me entregar para as Trevas. Você pode notar que até mesmo na nossa forma de humanos somos parecidos, então não sei como esclarecer a entidade que nos torna familiares.
Fiz um som com a intenção de ser uma concordância, mas acabou saindo mais como um grunhido medíocre.
– O que acontece depois do pedido do meu irmão é que Deus concede sim algo a vocês, só que totalmente inesperado por ambos. – Ele cerrou os punhos com força, esbanjando uma raiva em grandezas que eu desconhecia.
– O que Ariel pediu precisamente?
Até eu fazer essa pergunta estava mais controlada e calma, foi então que abruptamente eu senti que não deveria querer saber mais. Era um instinto inconcebível que estava fazendo de tudo pra me impedir de passar por essa névoa espessa de dúvidas. Só que eu estava esgotada disso, e já tinha tomado a minha decisão de ser forte, claro que na prática eu falhava, mas não custava tentar.
– Pediu que nosso Pai concedesse um espaço no Paraíso para você também.
– Mas eu era uma Nephilim/demônio – Argumentei na mesma hora – Eu era filha do primeiro que trouxe a lasciva e o pecado ao mundo... Quer dizer, o fruto de um monstro no Paraíso de Deus? Olha só essa história está viajando na maionese!
Gabriel assentiu com a cabeça.
– Sim, eu entendo o quanto deve ser difícil pra você acreditar. – Ele fez uma breve pausa, e apenas observei a sua mão direita pousar delicadamente sob o peito onde jazia meu coração – Mas isso aqui sabe que eu estou te contando a verdade não sabe?
Prendendo as lágrimas de comoção apenas concordei com a cabeça mordendo o lábio furiosamente.
– Então me escuta tudo bem? É melhor que eu te conte a verdade, não há coisa pior do que viver sem estar a par de tudo que te aguarda futuramente, você tem que saber. – Ele suspirou e tirou sua mão do meu coração e entrelaçou-a mais uma vez com a minha. Talvez a minha primeira impressão ao seu respeito sobre ele ser arrogante que eu tivera ao me encontrar com ele estivesse errada. Ele estava sendo muito gentil, até demais (e agora eu sabia parte do motivo, mesmo que isso ainda tivesse um sabor muito amargo para mim) – Deus impôs que uma Profecia seria cumprida em um Dia Determinado pelo qual ninguém saberia, nem mesmo o próprio Ariel. Aquelas palavras assombram minha cabeça até hoje, mas vou recitá-las porque você não merece viver frustrada assim. Antes disso acontecer você renegou à todos, isso inclui as Trevas e seu próprio pai para fugir de tudo. Ariel levou-a para o Trono Sagrado, que você já deve imaginar que é onde o Rei da Glória se assenta, e fez o pedido de aceitação, mas ninguém podia esperar pela resposta que vocês tiveram. Todos pagam um preço por seus pecados e iniquidades, e é o que você vai pagar ainda Mariana. Se é que não pode se dizer que já esteja o fazendo.
As suas próximas palavras remexeram intensamente em meu interior, fazendo eu quase explodir de tanto formigamento em minhas membranas e células.
A melodia que vinha de cada sílaba, palavra e cada pronuncia despertava memórias em mim, e aos poucos tudo foi se tornando claro em câmera lenta. Até o espaço à nossa volta pareceu se curvar diante daquela cena, como se tudo já estivesse programado, ensaiado e destinado a acontecer.
“Devo reconhecer que você foste a única de sua espécie a amar verdadeiramente e honesta, ainda que a maldade ocupe um certo espaço em seu coração. Meu filho veio ao meu encontro, e me pediu que eu lhe concedesse a vida eterna, como se reside em toda a minha Glória, mas negarei isso perante aos fatos.
Você se arrepende por seus erros, eu vejo isso. Mas como recompensá-la com uma dádiva tão preciosa se o que fizeste para o teu próximo foi somente o mal e apenas para satisfazê-la? Como presenteá-la se fostes tão rude com as minhas doutrinas?
Para conquistar a Paz e meu perdão, terás que superar a tentação [...]”
Aquelas eram as palavras do sonho que eu tive pelas quais eu não entendia nada, mas agora tudo estava se encaixando. Cada peça estava encontrando seu lugar no quebra-cabeças!
“Não lhes será revelado o dia, nem a hora, muito menos o ano. Eis que ela será renascida em outra carne, a lástima carne mortal pela mesma que tanto desprezou e tirou a vida por todos esses éons. É bom que fique claro que no Dia Determinado, toda a sua natureza de demônio se revelará para destruir o mundo que eu mesmo, o Deus dos exércitos, criei. O seu poder que já é assombroso se intensificará de forma implausível, causando a temida devastação da humanidade, caso a humana que será você mesma não consiga reprimir tal tentação e impulso de exterminar.”
Após a ultima frase senti um delíquio desleixar todos os meus sentidos, e sem uma pausa para me restaurar, aquela mesma sensação de estar voando do meu sonho culminou tudo em mim, desde os meus neurônios até a ultima terminação nervosa do meu corpo. Aquela impressão paralisava-me fazendo com que eu apenas permanecesse de olhos fechados, incapacitada de tentar recobrar a consciência de novo.
Sem obedecer ao meu comando, a cena mudou e involuntariamente eu estava de olhos abertos naquele mesmo espaço de azul límpido, assentada em algum degrau flutuante (se é que aquilo poderia ser descrito assim), assistindo à outro episódio daquela maratona de lembranças antigas.
Havia como da última vez aquele trono esculpido em ouro maciço e uma luz totalmente divina que ocupava o seu assento, tornando realmente impossível dirigir o olhar diretamente lá. Apunhalada plenamente desprevenida avistei Ariel ao lado da jovem mais linda que eu já tinha visto na minha vida.
Ela tinha cabelos ruivo-escuro e seus olhos tinham um tom de esmeralda que mesmo da distância que eu estava eram de fato sobrenaturais. Não existiam adjetivos satisfatórios e bons o suficiente para elogiá-la, aquela mulher era dona de uma beleza impecável, e instantaneamente me senti oprimida por ter sequer ousado pensar que Ariel via alguma coisa em mim.
Mesmo me sentindo um pouco desamparada, estava apreensiva para entender aquela situação. Quem era aquela mulher?
A minha audição demorou um pouco para chegar até mim, e tudo o que fiz foi permanecer calada e eminente até conseguir me focar no diálogo.
[...] “O seu poder que já é assombroso se intensificará de forma implausível, causando a temida devastação da humanidade, caso a humana que será você mesma não consiga reprimir tal tentação e impulso de exterminar.”
– Mas que tipo de absurdo é esse? – A mulher formosa deliberou antes de Ariel retomar a conversa e impedir o seu ataque de surto.
– Pai, eu não entendo. Estou lhe clamando isso pelo próprio bem dela, esse preço é alto demais, o que têm tais humanos tão fracos e indefesos a ver com essa maldição? E se ela está de fato sendo sincera ao sentir uma das suas dádivas que é o amor, por que condená-la com tal crueldade?
“Ariel meu filho precioso, ainda és ingênuo e nunca será capaz de compreender minha vontade. Lembre-se que por trás de cada decisão há um propósito maior. Apenas confie e descanse em minha destra, e verás o que tenho a fazer futuramente...”
Após um silêncio que pareceu uma eternidade para mim, aquela voz tenebrosa ressoou mais uma vez clara como um trovão:
“Essa Profecia dará início ao Processo de Transição a partir do momento que ela reencontrar em sua outra vida, totalmente inocente e desprovida, os mesmos pelo qual seu tão egocêntrico coração um dia se apaixonou. Que fique claro o seguinte: O Processo de Transição é o tempo que vai levar até que sua necessidade por destruição comece, e quanto mais ela souber ou se relembrar sobre o seu passado, mais ele se acelerará. Podem tentar evitá-la na próxima vida, mas está determinado que ela descobrirá com ou sem ajuda de ambos. E a partir do instante que isso acontecer, o selo que aprisiona essa necessidade insaciável se romperá, então essa Profecia se cumprirá. Ela viverá uma vida completamente normal até que chegue a hora da Transição, pela qual seus poderes e sua antiga insana personalidade maléfica se manifestarão, causando o caos.”
Eu encarava cética e incrédula a situação, ainda sem ser capaz de retomar o equilíbrio emocional e mental. Paralisada por aquelas palavras apenas permaneci estagnada, sem reação alguma, reprimindo com toda força que podia a vontade desesperada de gritar de horror.
“Emilly, você terá um certo prazo, a partir da hora em que tudo lhe voltar a tona e seus poderes forem libertos do meu selo. Terá que lutar contra suas próprias primordialidades provindas de sua espécie assombrosa, para salvar não apenas aqueles que amará na próxima vida, como também para se libertar da sentença que você mesma escolheu para si. Essa é minha condição para que desfrute de meu Reino: lute enfrente e destrua o seu próprio passado e assim obterá a Vida Eterna. Assim está dito e que assim seja! Essa Profecia recitada se iniciará a partir de...”
Com vigor eu tentei encontrar a beira da minha consciência de novo, mas meus olhos não queriam deixar de mirar no que estava prestes a ocorrer.
Aquela silhueta humana que se mantinha assentada no trono ergueu suas duas mãos para o alto da cabeça, com outra explosão de luz e energia no meio delas, ainda mais robusta do a que já o encobria como uma coberta.
Foi como se eu tivesse apertado o mudo do controle remoto da minha mente, porque tudo foi silencioso e lento, como se eu estivesse dopada por alguma droga. Aquela forma ser humano brilhante arremessou a bola de luz do meio das suas mãos em Emilly, que era a minha antiga eu do passado! Foi com esse fim trágico que tudo acabou com um flash cegante e eu abri meus olhos carnais e me vi envolvida nos braços de Gabriel, que me fitava com um desespero evidente.
Ele ficou me chacoalhando feito louco dizendo inúmeras coisas que eu não era capaz de ouvir, tentando me animar e me trazer de volta para mim, só que uma parte de mim ainda havia ficado para trás, presa e envolvida naquelas últimas palavras que a lembrança não havia completado, e foi dessa forma, entoando meus pensamentos em voz alta, que minha boca disse a palavra que a memória havia cortado, sendo acompanhada de várias lágrimas e desespero:
– Agora!
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