Pulsos Atados
24 Capítulo 23 – Fuga - Mariana
Conforme eu continuava naquela oscilação maluca entre alucinação e realidade, uma explosão de energia e formigamento culminava cada parte do meu corpo, desde física até psicológica.
– Mariana, O Processo! – Gabriel continuava agarrando meus ombros e me chacoalhando – A Transição está se adiantando eu posso sentir! O que eu fui fazer? Eu decretei espontaneamente a futura causa da extinção desse mundo para a própria destruidora! Você sempre consegue arrancar de mim tudo o que quer Emilly! Isso não é justo! Agora a sua “casca” vai liberar toda essa sua fúria desnecessária sobre todos! E o pior, é claro que alguém terá que te impedir, e advinha só quem será? Claro que não serei eu! [...]
Tudo girava e girava, trazendo uma agonia lancinante, e Gabriel para colaborar não fechava a boca um minuto. Mal dava pra escutar o que ele resmungava tanto, apenas havia aquela escuridão e incapacidade de matutar com destreza a situação em que eu me encontrava.
Eu sendo a mesma fastidiosa Mariana dessa vida pacata de sempre, sentia-me inútil ali mais uma vez. Quanto mais eu avançava o passo adiante mais eu tinha que recuar, era como lutar contra uma areia movediça, totalmente frustrante e angustiante.
Do nada eu rosnei e rugi ao mesmo tempo, como um animal feroz. Bizarramente em seguida eu soltei um grito avassalador, lutando contra uma força oculta, que minha mente interpretou na hora como sendo a própria Emilly tentando se apoderar do meu controle e temperamento. Só os céus sabiam como minha cabeça estremecia internamente de dor e do quanto um zunido ensurdecia meus tímpanos.
– Emilly? – Gabriel gritava naquele conflito que me assolava, com um vestígio nítido de contrito em sua face e em seus gestos desesperados para me animar.
Eu sentia tanto dó e pena dele.
Nunca na minha vida eu desejei tanto poder voltar no tempo, retomar as rédeas mais uma vez e trilhar pelo caminho sagaz, que era o de eu ter me perdurado nas dúvidas e descrenças, mas não!
Mais um embargo surgiu para me fazer surtar no martírio daquele momento, que foram mais cenas e visões turvas e desconexas. Todas eram incoerentes, e foram lentamente tomando forma, como as que eu tivera anteriormente.
Pude ter discernimento o bastante para reconhecer aqueles cabelos esvoaçantes ruivo-escuro e os olhos puramente lapidados de esmeralda bem fluorescentes.
“Olhe nosso passado Mariana...”
Eu estava impotente e totalmente frágil para outra dose de loucura, então agindo como fiz das outras vezes, mantive-me paralisada e atenta. Logo o espaço se alternou entre um monte de espelhos, amenizando passageiramente o caos da minha cabeça, roubando minha atenção para eles.
Não esperava me deparar com o reflexo da minha antiga “eu” assim tão de cara, porém, foi o que ocorreu, me fazendo recuar vários passos para trás. Eu sei que é muita idiotice dizer que “aquela minha pessoa” era incontestavelmente mil vezes mais bonita e atraente do que eu, mas também era inegável afirmar que algo a tornava parecida comigo, só não sabia dizer o quê.
Tive a breve sensação de estar em um vídeo-game e na mesma hora eu perdi o controle sobre mim mesma, como se estivesse no piloto automático. Não há uma forma de explicar isso, porque em um exato momento parecia que aquela consciência e ações que me comandavam eram minhas, e em outro não.
Em seguida, um breve movimento vindo do campo leste do salão me entreteve e foi aí que avistei um cara amordaçado com diversas correntes, pendurado sobre o teto do salão de ponta cabeça. Sua expressão era repleta de desesperança e redenção, mantinha-se esgotada. Seus olhos não fugiam dos meus, eles apenas me encaravam em discórdia, como uma presa esperando o ataque imponente de minha parte.
Aquela visão apavorou a minha mente de humana, mas a de imortal se estabilizava entre fria e inalterada. O pouco acesso que eu tive sobre aquela mente brutal me deixava convicta de que aquela pessoa, (no caso a “eu” perdida do passado) já estava acostumada a fazer isso, e se deliciava com prazer daquela bestialidade. Essa conclusão me fez lembrar do sonho que eu tivera, quando estava naquele abismo de fel e névoa obscura, pelo qual eu também me sentia revigorada com aqueles atos de tortura à minha volta.
Sim, aquela era a verdadeira Emilly, insana e nequícia que havia se apaixonado por dois anjos.
Eu não precisava ser vidente para saber o que iria acontecer em seguida. Observava aquela cena e era quase como se pudesse ver fios de maldade suspensos no ar controlando-me como uma marionete. E então houve um movimento muito rápido vindo de mim mesma, como uma cobra dando o bote fatal, porém o ataque foi direcionado para as correntes que prendiam aquele cara.
Foi algo que me pegou totalmente desprevenida, e por isso senti meu espírito oscilar e quase escapar daquele corpo imortal, que era tão inacreditável quanto pote de ouro escondido em arco-íris. Interiormente boquiaberta observei as correntes serem cortadas pelo meu golpe inumano e derrubarem o homem no chão.
Com ele naquele estado, apesar de estar meio virado para o lado, pude observar melhor as suas feições: aparentava ter no mínimo 21 anos de idade, jovial, barba escassa, loiro e olhos que tinham uma cor que eu fui incapaz de identificar no momento, por ele estar de olhos fechados.
Pra acumular mais convicção que aquela não era eu, contemplei meu corpo se ajoelhar ao lado do cara, ajeitar seu dorso para que ficasse deitado de barriga para cima e logo em seguida eu montei em cima dele. Sim, como se fosse uma perita na arte da sedução, mas por dentro eu me tremia, e não era de excitação, era nojo de como aquela outra parte de mim podia ser tão cruel.
Quer dizer, sem a menor sombra de dúvida ela ia matá-lo, mas antes ela provavelmente ia tentar provocar algo mais. Aquilo me deixou mais incrédula e aborrecida do que estava desde que me fora revelada a verdade.
Emilly começou a roçar as suas mãos naquele cara, desde o peito até o ombro e bíceps, e foi aí que foi descendo e descendo até...
“Já chega!” – Gritei enfurecida e enojada – “Eu não sou obrigada a ver isso”
Tentei criar uma imagem na cabeça da minha áurea do presente, se deslocando e fugindo daquele corpo e daquela visão. Como se estivesse me poupando, ou cedendo à minha vontade, a cena pareceu avançar no tempo e eu ainda tive a amargura de flagrar a pior parte: a hora em que ela consumia alguma energia da essência da alma dele.
Não foi algo agradável para o fragmento que continha a minha humanidade, mas já para outro que era bestial...
Foi com um doce sopro, seguido de uma longa inspiração que começou aquela onda de vertigem nauseante recheado de um prazer indescritível, muito intenso e único. Nunca provei drogas, mas sei que realmente aquela dose de regozijo tão incomparável não podia ser adquirida por nada que existisse no mundo. Nada! Como eu já mencionei, não há palavras que possam descrever como aquilo era bom ou o quanto despertava a dependência imediata, uma obsessão e uma necessidade insaciável.
O garoto começou a ter um colapso, quer dizer, ele se convulsionava como se estivesse tendo um Mal de Parkinson. Minha mente indagava e questionava sem parar se ele estava morrendo mesmo ou se seria só uma reação àquela coisa que Emilly estava arrancando dele.
“HAHAHAHAHA” – Uma risada se reproduziu por mim de repente – “Você obviamente quis dizer que nós estávamos arrancando dele certo?”
Neguei com o vigor que me restava o que aquela monstruosa estava insinuando.
“Não, Emilly. Não me inclua na sua série de horrores do passado. Foi você quem fez isso não eu.”
Aquela risada se intensificou e propagou ainda mais alta pela minha cabeça, realmente achando graça do que eu dissera.
“Olhe bem para o nosso lanchinho, Mariana. Contemple o seu último suspiro e veja por si mesma: eu sou você e você sou eu. Não vou deixar você esquecer isso”
Pelo jeito Emilly deveria ter vagado por essa vasta memória diversas vezes, pois foi bem depois dela finalizar aquela frase que as convulsões do cara se cessaram e passaram a serem movimentos lentos e sofridos, até se encerrarem em uma paralisia precedida de uma ultima tentativa de sugar vida para os pulmões, frustrada é óbvio. O cara estava morto.
Senti uma horrível sensação de arrependimento, culpa e desespero, mesmo sabendo que eu não havia feito aquilo. Ou havia?
O espaço à minha volta começou a se distorcer e eu despertei sendo balançada de um lado para o outro, como se estivesse deitada em uma daquelas redes caseiras. Eu ainda não havia recuperado totalmente a consciência, então levou algum tempo até eu notar que estava sendo carregada por braços rígidos e fortes, que me embalavam perfeitamente, tal como se eu fosse uma bebê indefesa que precisasse de ajuda.
Eu podia abrir meus olhos, mas não queria.
Não depois de tudo que me havia sido revelado até ali, até mesmo a lembrança de um homem sendo morto bem na minha frente com minhas próprias mãos, se é que me entendem;
– Mariana? – Gabriel chamou por mim com uma voz suave e esperançosa.
Merda! Eu devia ter dado algum grunhido ou suspiro involuntário.
Senti aqueles braços protetores me envolverem com mais firmeza e então com cautela me descer até o chão, me deixando prostrada ali.
Pra onde será que ele havia partido, me deixando sozinha ali sabendo dos riscos que eu corria por ele ter me contado tudo? Só naquele momento me transcorreu uma dedução que não foi nada boa: E se ele não estivesse realmente do meu lado? O que poderia se esperar de um anjo das Trevas?
Lentamente abri meus olhos e fiscalizei o ambiente a procura dele, e meus sentidos não encontraram nada além do farfalhar dos pinheiros e da melodia sutil dos pássaros.
Depois de tudo o que havia ocorrido eu estava mais do que nunca convicta de que não era mais capaz de ficar ali, respirando ar próxima a ele e naquele lugar que quanto mais eu pensava conhecer, mais desconhecia.
Decidida da minha vontade, não fiz questão de ser discreta depois que já estava de pé e tinha certeza que ele havia se afastado. Mantive-me em pose de preparo para correr, permitindo ao meu nariz sorver uma pequena nesga de ar para meus pulmões. Fechei meus olhos suspirando, e com uma autoconfiança instintiva, tomei o impulso e parti para a fuga sobrenatural da minha nova vida.
❀◕‿◕❀
Todo o ambiente não era mais que um borrão para minha visão apuradíssima, que somente se focava no que estava a diante, quase como da vez em que fugi da besta que se erguera do chão no terreno.
Meus reflexos eram tão incríveis, tanto que mesmo os mosquitos residentes do ar me assustavam e faziam meu corpo desviar-se de cada um com facilidade.
Tudo parecia muito mais rápido do que aquela vez com o monstro, tipo uma demonstração de que meu corpo estava se transformando cada vez mais...
– Espera! — Gritei comigo mesma, sorrindo com escárnio e raiva como não havia percebido aquilo até agora.
Meus pés soterraram o chão me fazendo parar mais rápido do que seria possível para as leis de física.
– Aquele dia do terreno... — Sussurrei expondo minhas conclusões para o mundo a fora — Aquele monstro que parecia ter saído do pior dos meus pesadelos...
Abanei minha cabeça para os lados, desacreditada e barbarizada, agarrando meus cabelos com as duas mãos, já soluçando minha perplexidade.
– NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃO!
As lembranças não totalmente claras naufragaram o meu corpo diretamente para si, trazendo consigo aquela mesma criatura, vinda de lampejos muito rápidos, acompanhada de uma forma humana masculina que minha aura soube reconhecer muito bem.
– Pai...
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