–Respira. – Sussurrou Mary para si mesma – Eles estão bem, você está bem, está tudo bem.

As lágrimas brotavam em seus olhos, o desespero a inundava. Apesar dos pesares, Mary não era como os assassinos normais, estes sem sentimentos ou boas emoções. Mary sentia, e muito, depositava todo o seu amor nas únicas duas pessoas de sua vida: seus pais. E agora, a tiraram tudo.

Parecia que sua represa estava prestes a transbordar, mas de tanto medo não conseguia tirar isso de si. Deitou-se e ficou ali, no chão, imóvel em um torpor para com a situação, ela não sabia mais o que fazer e nada mais queria fazer. Olhava ao seu redor sem entusiasmo, até que um quadrado branco na parede chamou sua atenção.

Ela se levantou cambaleando, com a necessidade de se segurar na bancada que contornava quase toda a cozinha da casa vitoriana. Arrancou o bilhete da parede que dizia:

Mary Leeds, você é conhecida por seus jogos sangrentos e dolorosos. Mas sobreviveria, e acima de tudo, lutaria pelo que mais ama? Você pode enganar a policia, mas não engana a mim. Procure pela pista no ultimo lugar onde você poderia querer estar.

O jogo virou Mary, e agora é você quem está jogando.

≈

Houveram três batidas na porta e um chamado apressado da policia. A Senhora Hamman, deslumbrando seu sobretudo de plumas roxas e seu vestido preto colado demais para a idade, abriu a porta.

–Sim?

–Bom dia senhora. Temos uma intimação para Adam Hamman, ele está em casa? – A mulher, com um olhar quase ofendido hesitou.

–Não, ele não voltou para casa desde ontem. – Disse inclinando para cima do policial. – Mas sobre o que é essa intimação.

O policial deu um passo para trás, fazendo com que a mulher se endireitasse.

–Agressão. Ele agrediu a própria noiva na frente de muitas testemunhas.

–Não se preocupe senhor policial. Entrarei em contato com ele.

– Assim espero, pois desta vez, não haverá fiança que pague pela sua saída. – O Policial, virou-se, deixando alguns papeis com a senhora.

Assim que fechou a porta correu para o telefone, também cheio de exageros. Discou o numero de Adam, mas este foi direto para a caixa postal.

–Filho, filho atenda. Você está sendo procurado, precisa sair da cidade. Venha logo para casa, já estou fazendo suas malas.

E com isso, correu para o piso superior da casa, jogando as roupas do armário em uma mala velha e acabada. Suas lágrimas rolavam, mas ela sabia que era necessário. Uma mãe sempre pensa primeiro em seu filho, não importa o quão mal caráter ela seja.

≈

Mary estava sufocada, não conseguia pensar direito, mas precisava se acalmar. Estavam controlando-a e se ela queria algum dia salvar seus pais, ela tinha que se deixar ser controlada. Saiu para os degraus da casa e ali desabou, com a cabeça entre os joelhos e respirou profundamente até sentir que seu coração não palpitava mais como se fosse pular do peito.

Ela levantou a cabeça e leu o bilhete pela segunda vez.

No ultimo lugar onde você poderia querer estar.

No ultimo lugar.

O penhasco, pensou Mary.

Mary nunca gostara de penhascos, apesar de ser ali onde ela despachava quase todos os restos de suas vitimas, ela sentia como se ali fosse um cemitério sem fim. Um pulo para a tragédia. Mas Mary tinha um motivo para odia-lo tanto assim.

Aos 9 anos, Mary tinha amigos, e com certeza foram os melhores anos de sua vida, onde ela se sentia feliz, incompleta, porém feliz. Certo dia, Mary e seus amigos foram até o penhasco para uma competição de atirar pedrinhas, a pedrinha que primeiro atingisse a água tornaria a pessoa a chefe de todas as brincadeiras do grupo durante uma semana. Naquela época não havia a cerca de segurança e por isso todos sentaram na borda, as pernas balançando, os olhos vidrados nas ondas e um monte de pedrinhas ao seu lado. Amy, sua melhor amiga, uma menina baixinha com longos cabelos castanhos e olhos extremamente verdes, curvou-se para jogar sua pedrinha. E então aconteceu, Mason Gregory Molovi que na época tinha 12 anos, veio e a deu um susto. Tudo foi como um flash, em um momento Amy estava ao lado de Mary e no outro estava atirada no meio das pedras, com as ondas a levando.

Mary chegou ao abismo, o sol já estava no alto, e seu calor misturado com a agonia estressante de Mary a fez soar. O que eram gotas do seu suor em uma imensidão oceânica?

Mary se inclinou por cima da cerca de segurança e olhou para as pedras. Em um ponto perto, porém seriamente perigoso encontrava-se o papel, preso as rochas enquanto sua ponta voava sem desprender-se.

Uma onda de vertigem dominou-a. Imagens de Amy nas pedras vinham em sua mente repetidamente, rápido como num filme. Ela balançou a cabeça para tentar se desfazer das lembranças, mas elas assim permaneceram. Se Mary queria salvar seus pais era preciso descer o penhasco.

Tirou o casaco que estava vestindo e amarrou fortemente na grade. Puxou-o com toda sua força e ele assim continuou. Mary passou uma perna por cima da cerca e depois a outra, ficando na ponta dos pés. Ainda agarrada a cerca, amarrou a manga do casaco em seu braço direito e puxou-o. Estava firme. Ela tirou um pé, ainda segurando nas barras da grade, desceu um pouco as mãos e o casaco a acompanhou, tentou achar um lugar para apoiá-lo, mas os desníveis da rocha eram demasiado pequenos e escorregadios. O medo invadia Mary, mas esta continuava firme. Tirou o outro pé e tirou a mão da grade, e sentiu o impacto contra a parede de pedras, agora a gravidade a puxava e ela estava tão perto do papel. Mary virou o corpo, uma mão esticada, segurando a manga do casaco e a outra tentando alcançar o bilhete. Mary sentiu um estalo, era o tecido, estava rompendo.

Olhou para o casaco e para o papel, ela precisava fazer isso e a manga tinha que agüentar seu peso. Ela se esticou mais ainda, estava a poucos centímetros até que sentiu o forte tranco, o tecido tinha começado a rasgar verdadeiramente, porém agora ela estava mais perto do papel. Seus pés derrapando na rocha molhada, seus braços ralados se esticando para pegar o papel e as ondas batendo violentamente na parede. O papel estava a cinco centímetros de distancia , ela avançou um pouco mais, o tecido rompendo. E pegou o papel, colocou-o no bolso da calça e começou a subir o muro. Seus pés escorregavam, não havia nada para ela se segurar e agora que seu peso estava todo disposto na manga, os fios começaram a soltar-se.

Seja forte, seja forte. Suba! Pensou Mary. Agarrou as duas mãos na manga e começou a tentar subir. Ela estava chegando no topo quanto o tecido soltou-se do resto do casaco e de ímpeto Mary deu um impulso e agarrou na grade, machucando o queixo.

A manga deixou marcas na pele de Mary, que soltou o nó e deixou o resto de tecido ser levado pelo vento. Agora agarrada a grade, Mary conseguia subir. Pulou-o e desabou no chão, a adrenalina correndo descontroladamente por seu corpo , deixando-a tonta. O alivio a inundou, ela havia conseguido, e com ele viera uma onda de cansaço exaustivo.

Depois de algum tempo deitada do outro lado da grade, Mary se permitiu ler o que havia no papel. Abriu-o e olhou para o que havia ali. Virou do outro lado, nada.

Estava em branco.