Ps:Te Odeio
8 Consciente
Notas iniciais
Às vezes tenho medo do que meu pai é capaz de fazer. A última que ele aprontou foi o jantar de ontem aqui em casa. Ele fez questão que eu fizesse um jantar, para provarmos que estamos realmente apaixonados um pelo o outro. O jantar foi para quatro pessoas, eu o João, meu pai e uma amiga dele – que alias eu não sei de onde ela surgiu. Até que foi bem agradável tirando as partes em que o João me irritava ou dava bandeira, como por exemplo, gaguejar, muito. Mas acho que meu pai se convenceu. Claro, que ele não vai parar por ai!
Estou na minha incansável busca por um ator novo no mercado, para fazer um jogador de vôlei. Até agora, não apareceu um que serve para o papel. Muitos são lindos, mas quando abrem a boca. Como conseguiram o DRT?
Agora estou tentando ajudar um deles. O cara tem tudo para fazer a personagem menos, boa interpretação, que é o que mais preciso.
–- Pelo menos me de um motivo minimamente justo! – ele diz o texto como se fosse um robô
–-Ótimo. Agora tenta em uma versão menos robô – digo colocando um dos dedos na cabeça. – Você esta no meio de uma discussão amorosa. Tenta se soltar mais, gesticular mais, interpretar mais. – digo cruzando as pernas
–-Ta ok. – ele diz concordando
–-Está pronto? – pergunto
Ele respira fundo e afirma que sim
–-Então, quando quiser. – digo
–-Pera um minuto! A gente não se separou. Me de um motivo...
Ótimo, agora ele está falando como se tivesse sobre hipnose.
–-Ok, ok. – grito – Você gravou o texto super bem, mas não dá. – digo levantando e indo até ele -- Você esta mais pra outro estilo de filme. – digo colocando uma das suas mãos em seu ombro
–-Qual? – ele pergunta curioso
–-Eu, o Robô. – digo dando leves tapas em seu ombro – Muito obrigada por ter vindo. – digo e ele sai
Fico olhando por alguns minutos para o texto em minha mão.
–-Próximo! – grito olhando para o relógio
Volto a ler o texto, quando sinto uma presença atrás de mim.
–-Ah, que isso gente. – digo logo após ver um homem com aparência de mais de 40 anos e bem acima do peso, ou seja, nenhuma das características que eu preciso. – Meu amor, você não tem a menor aparência de jogador de vôlei. – digo – Está acima da idade, acima do peso. – digo coçando a testa – Enfim, está equivocado. Grata por ter vindo. – digo – Próximo! – grito
–-Eu posso fazer figuração? – ele pergunta
Além de tudo o cara tem a língua presa, não da pra mim.
–-Figuração? – pergunto – Esta ok, figuração. – digo sorrindo
Ele retribui o sorriso
–-Obrigado. – ele diz se retirando
Pronto minha primeira boa ação do dia.
–-Próximo!—grito novamente
Elisa se próxima de mim e fala ao meu ouvido. Não acredito quando ela diz que tem alguém querendo falar comigo, acredito menos ainda quando ela diz quem.
–-Quem? – digo surpresa
Caminho a sala onde o individuo esta me esperando. Quando abro a porta o vejo terminando de abrir o terno.
–-Posso saber o que você faz aqui? – pergunto fechando a porta – E porque você se identificou como meu noivo? – pergunto cruzando os braços
–-Boa tarde, Maria. – ele diz serio
–-Minha tarde já não estava muito boa, depois dessa visita ela só tende a piorar. – digo
Ele solta o ar
–-Eu não viria aqui, se o assunto não fosse serio. – ele diz enlanguescendo a gravata
–-Ta. Fala, fala, fala. – digo me sentando – Que eu estou com pressa.
–- O seu pai foi me procurar lá na empresa. E ele disse que está, realmente, acreditando no nosso relacionamento...
As palavras dele me cansam.
–- E que esta contente pelo fato de em fim estarmos nos dando bem... – o interrompo
–-Ta. Foi pra isso que você veio até aqui? – pergunto levantando
–-Não, também foi pra lhe falar... – o interrompo novamente
–-João, acabou seu tempo. Depois você diz o que você estava tentando dizer ok? – digo o empurrando para a porta
–-Eu sei que você esta assoberbada de trabalho Maria, mas...
–- Sim, João eu estou cheia de trabalho, ou melhor, assoberbada, como você gosta de falar... – ele me interrompe
Paro de empurrá-lo
–- Eu também estou cheio de trabalhos, mas o que eu tenho para falar é muito serio. – ele diz – Seu pai nos propôs uma coisa que... – ele diz
–-João eu não tenho tempo, que dirá pra você e seus ataques. – digo saindo da sala
–-Mas... – escuto ao longe
–-Tchau João. – digo andando.
A pessoa se desloca do seu trabalho, para vir encher a outra. Eu não mereço, eu devo. O que pode ser tão serio? Aposto que meu pai fez uma proposta ridícula pra ele, mas como é retardado não sabe tomar suas próprias decisões.
Bufo e me sento na minha cadeira, voltando a minha estressante busca por um jogador de vôlei.
Depois de um dia exaustivo, volto para casa. Querendo muito um banho, uma comida e principalmente minha cama. Dou uma olhada no relógio antes de entrar no carro, são exatamente 19h50min. Entro no carro e dirijo até minha casa.
Como sempre pego um transito horrível no caminho. Dou um leve soco no volante
Droga!
Lamento. Meu telefone começa a tocar e vibrar em cima do bando do passageiro. Pego e vejo no visor que é da casa do meu pai. Atendo de imediato
–-Alo. – digo
–-Oi filha. – diz meu pai
Sorrio
–-Oi pai... – digo
–-Você pode dar uma passada aqui em casa? – ele pergunta -- Quero lhe falar.
Posso o imaginar sentando em seu sofá cruzando as pernas como o poderoso chefão.
Já repararam que meu pai fala do mesmo jeito que o João. Ou será que é ao contrario
–-Posso sim pai. – digo olhando para o relógio logo em seguida para o enorme engarrafamento – Estou no transito, talvez demore um pouco. – digo
–-Sem problemas. – ele diz – Te aguardo. – ele diz desligando
Faltou o: ”cambio e desligo”
Demoro um pouco para sair do transito. Um pouco nada demoro muito.
Porque o engarrafamento é tão... Engarrafado?
Ta. Esquece essa pergunta.
Depois que, finalmente, saio do engarrafamento, sigo para casa do meu pai. No caminho me preocupo um pouco com o assunto. O que será que ele quer falar comigo?
Chego, aperto a campainha e não demora muito para ele atender. O cumprimento e entro, esta aqui a Margarida, a tal amiga dele que jantou com a gente ontem. Ela é uma mulher com aparência de uns cinquenta anos, de cabelos castanhos e uma voz doce, mas que não me engana.
Oh, Deus! Será esse o assunto? Papai vai se casar e vai me dar uma madrasta? Não aceito isso na minha vida. Se bem que ela vai casar com ele e não comigo, então tecnicamente a minha vida não tem nada a ver com isso. Não interessa, ele é meu pai, propriedade minha, só minha.
Pensamentos bem loucos invadem minha cabeça. Se eu tivesse o olhar do Ciclope, ela viraria pó.
–-E então pai? – digo me sentando – O que tinha para falar comigo?
Prefiro nem tocar no assunto: ”O que ela faz aqui?” Vai que ele desiste de me dar a noticia que vai desencalhar. Na boa não levo o menor jeito pra ser branca de neve.
–-É sobre a proposta que fiz ao João. —ele diz sentando
Respiro aliviada
–-Ele te contou né? –ele pergunta cruzando as pernas
–-Cla... Claro que ele contou. – gaguejo – Imagina se ele não iria contar. – minto – Ele me conta tudo. Até quando ele vai no banheiro ele me liga contando, uma loucura menino.
Meu consciente esta gritando
Não exagera!
–-Que bom, que ele te contou. – ele diz – E ai?
E ai o que Brasil?
–-E ai, o que? – pergunto
–-Você aceita, o que você acha? – ele diz – Eu confesso que achei loucura, mas a Margarida disse que já que estão tão apaixonados seria uma ótima experiência.
Ih, dando opinião onde não foi chamada? Já odiei
–- E o João disse que precisava te consultar. – ele diz – E então? O que você acha?
–-Eu? – coloco uma das mãos sobre o peito – Bom eu... Eu acho uma ótima ideia. – digo
Eita lasqueira, espero que eu não me ferre, mas meu consciente esta mandando confirmar tudo.
–-Serio? – ele pergunta – Então pra você tudo bem?
–-Claro. Porque não né? – digo tentando parecer saber do que ele esta falando
Que eu não me ferre.
–-Maravilha. Você conta para o João então. – ele diz – Depois decidimos o resto. – ele diz
–-Claro – digo sorrindo
Meu sorriso está mais falso que nota de trezentos.
–-Quer jantar conosco? – papai pergunta levantando
–-Com licença. – diz Margarida entrando na sala – O jantar já esta pronto.
O que ela é? Cozinheira, baba, acompanhante, namorada, amante?
–-Vais jantar conosco Maria? – ela pergunta
–-Não, não. – digo tentando disfarçar o mini ciúmes do MEU pai. – Obrigada, mas vou pra casa, estou cansada. – digo indo me despedir do meu pai
–-Tudo bem meu amor. – ele diz
Despeço-me e saio. Preciso chegar em casa e perguntar ao João que proposta foi essa que meu pai fez a ele. E rezar pra eu não ter feito merda.
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