Ps: Z'
1 Capítulo 1
Notas iniciais
18 de Novembro de 2013.
Era mais um dia de tempestade. Asondas do marcada vez mais violentas batiam nas pedras me deixando cada vez mais inquieta. Gotas de chuvas respingando brutalmente a cada rajada na janela do meu quarto, quase como lágrimas. Ainda eram quatro horas da tarde, mas a chuva estava colaborando para que parecesse ser madrugada. Fechei meus olhos e apertei a coberta para mais perto de meu corpo.
A enormecasaparecia ecoar nos meus ouvidos, mesmocom osfones grudados em minha orelha e com a música alta. Já estava acostumada com aquilo a propriedade nunca foi uma mansão normal. Sempre dominada por alguma força sobrenatural. Não era má. Eu podia dizer que era irônica misteriosa e problemática, mas não má.
Desde criança aquela coisa tentava me assustar. Quero dizer... Não a mim, mas as pessoas que sempre tentavam mantercontatocomigo dentro da casa. As pessoas costumavam ter medo daqui, mesmo à mansão sendo extremamentebonitaelas persistiam em dizer que algo horripilante vivia aqui. Depois dos meus oitos anos eu percebi ser verdade.
Havia acabado de me mudar pra Londres. A bela casa um pouco longe das docas, mas próxima do mar me encantava. Era totalmente branca e dava um ar majestoso com seus enormes jardins com rosas vermelhas. Gostava da sensação de paz e segurança que ela me dava. Papai dissera que naquela época a casa estava muito barata para o porte dela. Mal sabíamos que isso se devia ao fato de todos terem medo do local.
Entrei no primeiro colégio que aceitou meu histórico, coisa fácil já que sempre fui estudiosa e sempre tive ótimas notas. Por ser amigável fiz amigas rapidamente e as convenci a me visitar, com muito esforço admito. Passamos a tarde brincando e quando pensei que tudo estava bom demais nossas bonecas começaram a desaparecer em nossas mãos. As garotas nunca mais pisaram os pés na minha casa, mas não deixei de ser amiga delas, já que uma semana depois todas as bonecas foram devolvidas pelo “ser do além” acreditem se quiser elas voltaram muito mais bonitas que antes. Bárbara minha melhor amiga foi uma das garotas que recebeu uma boneca premiada.
Repentinamente meu telefone antigo começou a tocar me fazendo dar um pulo. O gato branco e gordo preguiçosamente olhou para mim, observando-me com uma cara tipo... “Você não vai atender?”. Levantei do sofá próximo à janela e atendi ao telefone.
- Ei! Fazendo o que de bom, palhaça? – pisquei meus olhos levemente.
- Combatendo mentalmente meu fantasma pra não morrer de tédio, e você?
- Comendo chocolate, quer?
- Eu aceitaria... Se não fosse mais uma tentativa de me tirar do meu quarto.
- Mais precisamente da sua mansão. – Bárbara fala. Soltei uma risada.
- Qual é? Você poderia vir aqui me ver.
- Depois de morta, pra eu descobrir se seu fantasma é gato ou não. – Soltei outra risada da loira.
- Bleh, sua chata. – Respondi esfregando os olhos. – Eu vou na sua casa sempre você nunca vem aqui. – Falei irônica já imaginando a resposta dela.
- Eu tenho motivos bem óbvios você não acha? – Mais risadas.
- Tá... Me ligou pra que mesmo?
- Pra saber se ainda tá viva. Seus pais viajaram pra uma segunda lua de mel e você não sai daí faz três dias... Pensei que algo maligno tinha te puxado pra o seu porão obscuro e nojento com rum embolorado.
- Para de implicar com minha casa! Menina enjoada! – Reclamei rindo. – Meu porão é super organizado pra o seu governo. E NÃO É RUM! É VINHO!
- Tá e por que você tá isolada então?
- Tá chovendo faz três dias Barbie! Eu tô praticamente presa aqui.
- E as redes sociais por acaso deixaram de existir?! E o celular?
- Tô sem energia e sem bateria no celular. A única coisa que ainda pega aqui são as velas, o telefone residencial e meu tão amado mp3. – Revirei os olhos.
- Isso é obra dele.
- Para de falar no fantasma criatura! Ele não é eletricista... Aliás, como você sabe que é ele? Pode ser ela.
- Seu fantasma tem um temperamento sexy demais pra ser uma mulher.
- E se ela for lésbica, Barbie? – As duas deram risada.
- Então boa sorte. – Vocês pararam um pouco pra respirar. – Sério amiga, eu me preocupo com você ai sozinha. Esse lugar isolado, sem sua empregada... E se alguém tentar roubar a casa? Ou sei lá, coisa pior.
- Bárbara... Os alarmes estão ligados, tá chovendo e o Rufles tá aqui. Todo mundo tem medo do meu gato.
- Como se fosse só o gato que fizesse medo. – Ela soltou um riso forçado. – Vem passar a noite aqui pelo menos, pra eu dormir sossegada.
- Barbie eu vou ficar bem, não precisa se preocupar tanto com sua melhor amiga. Ela vive aqui há onze anos. Eu sei me virar.
- Tá. Eu desisto de te tirar daí! Divirta-se com seus amigos imaginários! – Soltei uma risada com a voz emburrada que ela fez. – Eu tenho que desligar o Chris chegou.
- Ah! Que bom que eu não aceitei passar a noite aí. Tô vendo que você vai ficar muito ocupada. – Falei maliciosa, sabendo que Barbie estaria corando as faces pálidas nesse momento.
- Vá cuidar de seu fantasma e me deixa com meu namorado, ok? – Soltei uma risada.
- Quero saber de todos os detalhes depois. – Falei.
- Vai por mim, você não vai querer escutar tudo.
- Humm. Agora que eu quero mesmo.
- Ah! Sua pervertida. – Soltamos uma risada.
- Guarda meu chocolate, viu? – Pedi.
- Tchau Tina. – Bárbara murmurou.
- Tchau Barbie. – Murmurei e coloquei o telefone no gancho.
Esfreguei minhas mãos frias e tirei a franja do rosto observando rufles se enroscar no pé da minha cama.
- Tá frio aqui, né? – Perguntei. Ele olhou pra mim como se não tivesse ouvido.Fala sério... Como se ele fosse responder!De repente a janela do meu quarto abriu-se sozinhadeixandoa tempestade, mesmo que só por alguns segundos, entrasse em meu quarto. Corri e fechei a janela, olhando ao redor com um olhar irônico.
- Muito engraçado. – Falei, quase conseguindo escutar uma risada. Poderia parecer horripilante, mas estava tão acostumada com aquilo que já era quase rotina. – Você podia pelo menos devolver a luz, não? – Olhei mais uma vez o quarto abobadado, mas acho que “o ser do além” já tinha saído do cômodo.
Soltei um sorriso e calcei minhas botas saindo do quarto a procura das velas. Quando minha mãe se mudou pra cá, a casa ainda mantinha os candelabros do século dezoito e os belos lustres de diamantes. Ela não quis jogar nada fora. Quando eu era criança e faltava luz saímos pela casa acendendo-as e inventando histórias de princesas presas dentro de masmorras que fugiam colocando fogo em suas celas. Fazíamos aquilo com frequência já que pelo menos uma vez na semana a casa perde a energia.
Depois de acender a casa praticamente inteira, olhei meu relógio e percebi já ser seis horas. Eu realmente não queria voltar pro meu quarto e ficar apenas observando achuvade novo. Olhei para trás e percebi Rufles caminhando lentamente. Peguei-o no colo e acariciei seu pelo, passando a mão em sua coleira. Logo que toquei em seu pingente em formato de livro lembrei-me de quando ganhei aquilo de um namorado bibliotecário.
Observei-o por alguns segundos e a solução parasairdo tédio apareceu.
- Rufles... Você caiu do céu agora. – Falei colocando o gato no chão. Voltei para meu quarto caminhando apressadamente. Abri a porta do cômodo rosa e procurei por meu casaco e guarda-chuva. Puxei a caixa de fósforos e guardei em meu bolso caminhando rápido em direção aos jardins de fundo.
A construção fora da casa, alojada no meio do jardim, mesmo que embaçada pela tempestade, era tão perfeita quanto à mansão inteira. Corri feito uma louca com meu guarda-chuva grudado em minhas mãos, abrindo destrambelhadamente a porta da enorme biblioteca.
O cheiro de livros antigos assaltou meu nariz, enquanto eu guardava o guarda-chuva ao meu lado e retirava minhas botas. Pisei delicadamente no piso de madeira pegando a caixa de fósforos e acendendo as velas dos candelabros. Aquele com toda certeza era o meu lugar preferido no mundo. Nos momentos de tédio, sempre ia para a biblioteca procurar algum livro. Eu e meu pai gostávamos de nos sentar em poltronas perto da lareira e ler qualquer coisa boa tomando chocolate quente. Ele costumava contar histórias, sempre com uma voz confortável.
Os livros da biblioteca haviam sido deixados na casa quando a compramos. O vendedor dissera que eram livros muito antigos, alguns até eram relíquias perdidas naquele imenso labirinto de estantes. Eu gostava de me infiltrar ali, ler algum livro diferente e deescritacomplicada. O melhor de tudo é que sempre tinha algo novo pra ler. Mesmo que eu vivesse a minha vida inteira plantada ali dentro lendo, eu não conseguiria ler todos os livros de minha biblioteca.
Passei meus pés descalços pela madeira, indo em direção aos outros candelabros e os acendendo um por um. Os ecos dos meus passos ressonavam pelo lugar vazio enquanto aos poucos ele clareava. Subi as escadas indo para a minha tão amado lareira. Observei à fonte de calor e percebi que teria que a acender manualmente, já que não havia energia. Coloquei algumas velas próximas umas das outras e acendi a lareira facilmente.
Levantei-me e caminhei até a mesa de madeira localizada de frente a lareira e no meio das duas poltronas principais. Os últimos livros que li se encontravam em cima da própria. Orgulho e Preconceito e Persuasão. Os dois de Jane Austen. Peguei o primeiro de capa dura e me sentei na cadeira confortável decidida a reler um dos meus livros prediletos.
Sem querer deixei Persuasão cair no chão. Xinguei baixo e me martirizei por deixar o antigo livro cair no chão. Inclinei-me levemente para pegá-lo. Passei minha mão cegamente debaixo da mesa a procura do livro. Aquela parte era tão intocada que havia até teias de aranha. Senti um pouco de nojo, mas nada que não se possa aguentar. Inclinei-me com um pouco mais de esforço e percebi não ter só um livro caído... Mas sim dois. Puxei rapidamente Persuasão e voltei a colocar minha a procura do segundo livro.
Segundos depois puxei o caderno. Havia uma grossa camada de poeira sobre o objeto. A capa era dura e marrom, provavelmente de algum material de couro. Era selado com um cordão simples, do mesmo material que revestia a capa. Havia alguns detalhes ocultos pela sujeira. Passei meus dedos tentando limpar e o dourado rapidamente se mostrou. Nas quatro pontas da capa havia o desenho de uma rosa de ouro, assim como no centro.
Fiquei curiosa. Por que um caderno desse porte estaria jogado embaixo da mesa, sabe-se lá desde quando? Tinha certeza que aquilo não era meu, e nem de ninguém da minha família, já que meus pais nunca gostaram de escrever e pode-se contar de dedo as vezes que algum parente havia vindo nos visitar. O caderno era com certeza dos antigos donos.
A curiosidade tomou minha cabeça, já que a última vez que a casa havia sido habitada fora em 1790. Meus dedos tremeram de hesitação. Aquilo poderia ser pessoal demais. Comecei uma batalha mental comigo mesma imaginando se poderia ou não ler aquilo.Eu gostaria que alguém lesse um pertence meu? Mas isso deve ser super antigo e a pessoa já deve estar morta...! Ah foda-se, eu nunca escrevi um diário mesmo.
Desenrolei o cordão e abri na primeira página amarelada. A letra era delicada, de um refinado floral que só se encontrava no Word. Passei a mão sobre a página, como uma mania antes de começar a ler qualquer coisa. Dei graças a Deus ao perceber que estava escrito em inglês.
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