Ps: Z'
2 Capítulo 2
19 de junho de 1790.
Londres, Inglaterra.
Exatamente oito danoite.
Querido Diário,
Bom, acho que é a primeira vez que escrevo algo assim. Não costumo me expressar dessa forma. Normalmente um diálogo entreamigasresolve qualquer incômodo que eu esteja sentindo,mas comoestoumuito longede Steventon e de minha adorada amiga Jane Austen, para desabafar e levar uma bela de uma bronca por ser tão inocente, optei pelo instrumento que Jane sempre me aconselhou utilizar. A escrita.
Engraçado que mesmo ela tendo somente quatorze anos e eu sendo quatro anos mais velha que a menina, consigo ser mais boba em relação àvidado que ela. Sua imaginação fértil e sua rebeldia lhe permitem isso. Sinto falta dela,apesar defazer apenas três dias que me mudei para Londres.
Não é apenas dela que sinto falta. Minha mãe faleceu há três meses. Naverdadeesse é o real motivo por termos saído de Steventon. Meu pai não estava mais aguentando as lembranças dela pela casa. Mesmo doendo perder Jane, ela está a apenas uma carta de mim, e eu prefiro mil vezes mais escrever a ela do que fazer uma oração com lágrimas por meu pai. Já basta minha mãe.
Acasapara a qual nos mudamos é incrivelmente enorme e bela. Existe quatro jardins de rosas vermelhas e uma biblioteca maior do que o próprio estábulo. É próxima da praia, e o cheiro se mistura com o dos jardins. Meu pai sabe de minha paixão por rosas vermelhas, não deve ser à toa a quantidade.
Meu quarto é de frente ao mar e mesmo o adorando, prefiro contemplar a vista do jardim. Sempre me acalmo aqui e o barulho das ondas lembra-me minha mãe. Ela gostava de praia e iria adorar esse lugar.
PS: Bella Monroe.
Parei por um momento raciocinando sobre o que estava escrito. Ela estava falando da “Jane Austen”. Meu Deus! Eu moro na casa da melhor amiga da Jane Austen. Minha ídola e diva! Minha cabeça deu um piripaque adolescente e depois voltei a ler.
21 de Agosto de 1970.
Londres, Inglaterra.
Seis e meia da manhã.
Querido diário,
Ontem de manhã eu conheci um garoto. Ele corria feito um louco da praia, parecia estar fugindo de alguém. Seu nome é Zayd Malik. Ele é realmente muito bonito e me fez esconde-lo dentro de minha biblioteca. Eu sinceramente não entendi o porquê, até ver suas tatuagens e o seu modo de vestir. Ele não é um homem da alta sociedade o que me meteu medo, já que ficar escondida com alguém contra a vontade poderia acabar com a minha reputação ou até mesmo em coisa pior.
Mas, seu jeito misterioso e rude me encantou. Quando ele me olha é como se estivesse nua. Não fisicamente, mas me sinto mais frágil do que já sou. Ele tem o sorriso mais expressivo que eu já vi em toda a minha vida e os olhos mais turbulentos que qualquer tempestade.
Eu sei o que ele é, mas não me importo muito. Passou a manhã e a tarde comigo na biblioteca. Espantei-me quando percebi que ele sabia ler. Pessoas de seu tipo não sabiam nem como falar direito. Todavia ele teve uma atitude de cavalheiro e tratou-me como a lady que um dia serei. Ao pôr do sol ele foi embora, mas prometeu voltar e me visitar, mesmo eu implorando que não voltasse. Ninguém poderia saber que estive em sua companhia.
Ele é teimoso e me faz rir como ninguém. Apesar de minha boca ter tido adeus, meu coração quase clamou para que ele ficasse comigo para sempre.
PS: Bella Monroe.
Meu coração deu um salto. Ela estava apaixonada... Que lindo. O melhor de tudo... Um amor proibido.
30 de agosto de 1790.
Londres, Inglaterra.
Meia noite e meia.
Querido Diário,
Desculpa não ter escrito, mas eu estava cabisbaixa demais para escrever. Depois que conheci Zayd, não parei de pensar nele e em como prometeu voltar. O problema foi que ele não voltou. Faz dias que aquilo aconteceu e eu acho que ele não vai mais vir.
Sinto-me tão arrependida de ter dito para não me visitar. São nesses momentos que queria ser tão impulsiva quanto Jane.
PS: Bella Monroe.
1 de setembro de 1790.
Londres, Inglaterra.
Duas da madrugada.
Querido Diário,
Eu tive um dia incrível! Zayd veio me ver afinal, como havia prometido. Deus! Como foi bom.
Ao invés de ficarmos na biblioteca ele me fez sair de casa, disse que ninguém iria perceber minha escapulida, já que eu sempre me tranco na biblioteca. Estava a cavalo e praticamente me “raptou”, mas acho que rapto é somente quando a pessoa não quer ser levada.
Ele me colocou em seu cavalo e me levou para a parte mais distante da praia. Estava de tarde, ele trouxera uma cesta com frutas, queijo e seu tão reconhecível rum.
Zayd estendeu a toalha sobre as pedras e me ajudara a sentar ao seu lado. Meu vestido rosa e de renda não ajudou muito. Ele me contou que esteve viajando e me contou um pouco sobre sua vida, assim como contei da minha. Zayd me cortejou muito, sempre me fazendo corar com palavras bonitas.
Ele tentava desesperadamente olhar em meus olhos, porém eu não os mantinha erguidos. Zayd me falou que sou insegura demais, para uma garota de dezoito anos e que minha inocência me deixa ainda mais bonita.
Passamos a tarde conversando. Ele desenhou-me. Eu nem imaginava que ele poderia fazer uma obra daquelas. Coloquei o desenho no diário, ficou perfeito e muito realista.
Ele me jogou na água da praia e me fez ficar completamente molhada. Foram muitas risadas e no fim de tudo ele me beijou. Ele me beijou! Nem acreditei! Foi o melhor dia da minha vida!
PS: Bella Monroe
Havia um desenho praticamente colado na outra página. O desenho era impecável e se a Bella era mesmo assim, ela era linda. Tinha o corpo magro e a pele branca e pálida. Estava sentada em uma pedra observando o horizonte enquanto uma onda do mar se fazia presente. Seu cabelo loiro claro e provavelmente comprido, preso em um penteado simples e delicado, seu rosto fino com maçãs altas, nariz afinado e lábios pequenos, tipicamente femininos. Olhos grandes e azuis. Era o que mais chamava atenção nela dando um ar inocente em seu rosto adolescente.
Por um instante... Senti como se a conhecesse. Como se soubesse quem era aquela garota e soubesse da sua realidade. Fechei meus olhos levemente enquanto algumasimagens repassavam em minha mente.
– Agora não Valentina. – Sussurrei para mim mesma. As imagens de um antigo pesadelo tomaram minha cabeça com um flashback. Um casal, correndo pela praia. Ele me carregava enquanto alguém nos perseguia. As coisas avançavam. Era tudo tão confuso. Em um segundo e em um grito eu caia no chão fitando uma luz... Forte e clara em meio à escuridão.
Voltei à realidade rapidamente balançando a cabeça repetidamente. Fitei o desenho da garota loira exibindo seu rosto que aparentava tanta inocência.
Na verdade ela era inocente. Seu diário comprovava isso. A cada página que eu lia, me sentia no século dezoito e na simplicidade da garota. Sua história era fofa e muito melhor que muitos romances. Me vi intrigada entre o amor dela e de Zayd. Ele sempre a visitava, mas sempre escondido. Já estava na metade do caderno quando li algo surpreendente.
20 de outubro de 1970
Londres, Inglaterra
Cinco da manhã
Querido Diário,
Estou apaixonada. Tenho certeza disso. Zayd é o amor que sempre esperei, e que vivi lendo em romances. Quando estou com ele me sinto em nuvens, me pego esperando por ele todas as tardes. Estou tão louca por ele que nem me reconheço mais. Ele me transformou me fez mais forte, do jeito que eu queria ser.
Mas, a cada dia me sinto cada vez mais triste. Por que eu sei. Sei que nada disso irá durar. Zayd não é de classe nobre. Meu pai nunca aceitaria um casamento com ele. Zayd não tem o porte necessário para nos sustentar.
Acabei de escrever uma carta para Jane, lhe explicando tudo o que passei nesses últimos meses e em como queria que ela estivesse aqui.
Acredito que meu sofrimento será eterno. Nunca poderei ama-lo completamente, semperderminha reputação. É a primeira vez que a dor da morte da minha mãe parece minúscula. A tristeza de saber que irei perdê-lo também me consome dia e noite. Eu o amo tanto, que às vezes me pergunto “eu morreria por ele?”. E eu percebo que morreria.
A cada pensamento a decisão dolorosa me enlouquece. A decisão de deixa-lo ir embora.
PS: Bella Monroe.
Havia algumas partes borradas nesse trecho do diário, acredito que sejam de suas lágrimas enquanto escrevia. Dessa parte até o quase fim do diário ela só escrevia como a coragem lhe faltava toda vez que o via, e em como ela queria e não queria acabar logo com aquilo. Admito que em algumas partes chorei junto a ela. O jeito que ela havia se apaixonado pelo Zayd e em como cada palavra parecia se encaixar na realidade, mostrava que não existia conto de fadas. Eu já estava terminando de ler as últimas páginas do diário e me sentia cada vez mais triste por saber que a história não teria um final feliz.
18 de novembro de 1970.
Londres, Inglaterra.
Onze e quarenta da noite.
Querido Diário,
Acho que nunca me senti tão em dúvida em toda minha vida, quanto hoje! Nessa tarde quando Zayd veio me visitar, falei tudo o que eu precisava falar para ele. Falei que não poderíamos ficar juntos novamente, que iríamos sofrer, mas era a verdade.
Zayd se desesperou. Nunca o viu tão descontrolado, chorando e pedindo que eu ficasse com ele para sempre. Seus olhos caramelados chorosos e procurando todas as maneiras para continuarmos juntos.
Eu nunca chorei tanto... Até ele pedir para que eu fugisse com ele. A proposta ficou no ar por uns quinze minutos de agonia. No fim ele me pediu em casamento e disse que se eu aceitasse me faria à lady mais feliz do mundo. Eu falei que não sabia se seria a escolha certa. Disse que trair a confiança de meu pai a esse ponto o faria morrer de desgosto.
E então... Ele perguntou quem eu escolheria. Meu pai ou ele. Ele falou que o desespero de me perder mataria um dos dois, e que a angústia deveria se cabida a um deles.
Nunca senti tanta culpa e tristeza. Ele foi embora mais cedo, magoado com a minha falta de resposta. Ao cair da noite, minha dama de companhia me entregou uma carta acompanhada de uma rosa dos meus jardins. Eu não fazia a mínima ideia de quem seria até lê-la.
"Bella,
Eu a amo. Sabes que não sou um homem de palavras difíceis e nunca serei. Sabes que o que eu sinto por vós milady é algo incomparável. Você me mudou no momento em que te conheci e eu não estou disposto a perder a melhor coisa que me aconteceu em anos. Eu amo você, e sei que me amas tanto quanto. Vou te esperar, hoje, a meia-noite na costa da praia. Eu rezo, para que estejas lá. A escolha sempre foi sua minha amada.
PS: Z’"
No momento que li a carta, eu soube que ele me deu mais uma chance. Soube que ele é minha escolha, não importa o que aconteça esta noite. Eu havia aprendido com ele, eu faço meu destino. Eu quero minha felicidade mais do que tudo e o único que pode me oferecer tal coisa é Zayd. Acho que é a última vez que vou ver essa vista magnífica do meu quarto. Irei sentir falta disso, porém passar o resto dos meus dias com quem amo, irá recompensar tudo.
PS: Bella Monroe.
E o diário acaba. Como assim? Ela fugiu com o Zayd? Eles ficaram juntos? As perguntas ecoavam cada vez mais em minha mente. O que havia acontecido?
De repente todas as velas se apagaram em um vulto só. Até a lareira que crepitava de uma forma ardente apagou-se. Segurei o caderno próximo de mim quando levei o susto. Tudo ficou escuro e o barulho da tempestade era a única coisa que se ouvia e em menos de segundos... Algo segurou meu pulso bruscamente.
Não algo. Uma mão. De dedos finos e longos.
– Como você ousa?! – Uma voz masculina, suave e irritada sibilou próxima a mim. – ERA O DIÁRIO DELA! – Ele gritou. Levantei meus olhos até seu rosto, mesmo não conseguindo o ver. No mesmo instante um trovão ecoou e clareou a biblioteca, mostrando o homem que estava ao meu lado. Roupas gastas e muito antigas. A camisa dobrada deixando a mostra suas tatuagens. Seu cabelo negro e espetado, corpo alto e magro me fazendo sentir menor do que já sou. Maxilar forte, másculo e quadrado sem tirar o ar de garoto. Nariz reto proporcional as suas faces, a barba por fazer emoldurando lábios pequenos e bem desenhados. Sobrancelhas grossas destacando seus olhos. Os olhos... Os mesmos caramelados que Bella tanto descrevia em seu diário.
Mais uma vez naquele dia a sensação de ter entrado em um antigo pesadelo me dominou e o fato era que na imagem eu fitava o mesmo rosto que eu via agora. Foi como se um choque de milhões de volts entrasse em contato com meu pulso.
Soltei um grito agudo, tão alto e forte que assustou nós dois.
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