Ps: I Love You

62 Capítulo 61 - The Entry Behind the Guitar


A morena correu para debaixo da cobertura do almoxarifado fugindo da chuva. Expremeu os cabelos molhados e bagunçou-os. Não se preocupava com a aparência. Não ligava para seu estado, nem físico, nem emocional.
A verdade é que ela estava “um trapo”, como sua mãe costumava dizer. Sentiu saudades da mãe, teve vontade de estar com ela.
Esse, na opinião da menina, era o lado ruim de estar longe de casa. Ela até podia procurar o apoio que precisava na senhora Sullivan, mas não acharia o calor de mãe naquela mulher, por mais agradável e simpática que ela fosse.
O pior era a situação, não o lugar. Havia muitos motivos pelos quais, nem os melhores amigos, ela poderia procurar.
- Chegou cedo. – disse uma ruiva, que se aproximou lentamente, com uma aparência impecável que vez a morena sentir raiva. Mas ela sabia que não adiantava sentir raiva... E nem devia.
A menina apenas levantou os olhos vermelhos para a outra e, com certa raiva, mas fingindo inocencia, balançou os cabelos com violência, deixando espirrar água na ruiva.
Esta deu um passinho delicado para trás.
- Querida, vou ter que te ensinar modos... – ela disse, e então o sorriso já existente no seu rosto tornou-se malicioso. – É claro, se você me trouxe o que haviamos combinado.
A morena não disse nada. Apenas tirou de dentro da blusa o próprio celular, protegido da chuva.
Ela estendeu o celular e apertou um botão qualquer.
- Eu acho que quero terminar o namoro.
- O QUE?
A ruiva sorriu ouvindo o celular emetir alto a gravação.
- Querida, isso foi o que toda a escola comentou, eu quero ouvir o resto, acha que eu sou tonta?

A morena sorriu.
- Não, ‘querida’. – disse com certa ironia, e então apertou novamente o mesmo botão de antes.
“- Jimmy, por favor, não dificulta as coisas.”
“- Ah, desculpa. Desculpa se eu não estou entendendo aonde você quer chegar com isso. É ridículo, sabia?”
“- Será que você não pode respeitar a maneira como eu me sinto?”
“- Não se você não respeita a maneira como eu me sinto!”

A gravação desta vez foi maior e demostrou mais emoções do que o anterior. Emoções como raiva e ironia. Um som que parecia fortes pisões finalizou a gravação.
Só então a ruiva sorriu realmente satisfeita.
- Agora sim, querida. E olha que foi um mês certinho, ein? Gostei de ver, cumpriu o prazo.
- É. – a morena respondeu com certa rispidez. – Agora você precisa cumprir a sua parte do trato. E você tem só quatro meses pra isso.
A ruiva deu os ombros.
- Pra minha sorte. – disse ela. – Não vai ser difícil te tornar uma lady, você já até tem certa classe.
A morena, novamente, não respodeu. Apenas levantou os olhos para a ruiva e repetiu:
- Quatro meses.

-X-

A sala de música do Colégio Huntinghton Beach, quando não estava sendo usada, costumava ser quieta a ponto de se ouvir o zumbir do vento ao entrar pela janela eradonda.
As paredes, revestidas por um material especial que impedia a propagação do som, davam uma sensação quase clastrufóbica ao lugar.
De repente, um rangido metálico preencheu o lugar de maneira sufocante e a porta se abriu.
O feixe de luz circular que entrava pela única janela e cortava a escuridão da sala foi interrompido por duas sombras.
Podia-se ver, então, o tronco magro e esbelto de uma garota. Não parecia ser muito alta e os cabelos longos se confundiam entre loiros e castanhos devido a luz dourada do sol de fim de tarde.
A segunda sombra era, definitivamente, de um rapaz. Pela parte do corpo que o sol iluminava, percebia-se que era magro, mas a altura era mais que suficiente para intimidar qualquer outro aluno do colégio.

O rapaz parou no meio da sala depois de perceber que a menina havia parado, e então levantou o braço direito, apontando para o fundo da sala.
A menina levantou o celular na mesma direção e improvisou iluminação com a luz branca do visor.
No fundo da sala, encostados na parede, haviatrês guitarras e três baixos organizados em fileira na canto direito; mais à esquerda havia uma grande bateria toda desmontada e uma caixa cheia de baquetas ao seu lado; por fim, no canto esquerdo da sala, onde o estofado da parede parecia ser mais novo e conservado, havia uma guiatarra branca com vários desenhos geométricos que lhe davam um aspecto moderno.
O rapaz tomou a frente e foi até a guitarra branca.
- Está aqui! – ele disse em um sussurro que só foi ouvido porque a sala estava mergulhada em silêncio.
- O que está aonde? – a menina retrucou, deixando-se perceber um tom de ironiua na voz.
Ele apenas apontou para a guitarra e ela teve a impressão de te-lo visto sorrir.
- Alguma coisa está dentro da guitarra ou a guitarra está em algum lugar? – ela perguntou confusa, se abaixando de frente para o intrumento.
A menina correu os dedos pelas cordas da guitarra de cima a baixo.
- Por que essa está separada das outras?
O menino deu os ombros.
- Ela sempre está aí!
A garota rolou os olhos.
- Não respondeu a minha pergunta. – disse ela, pegando a guitarra.
Sua mão, contudo, escorregou pelo braço do instrumento e ele não se moveu nem um centímetro.
O olhar da menina voltou-se irritado para o seu acompanhante.
- É tudo enfeite?
- Não, so esse!. – ele disse, rindo. – E imagine você a minha surpresa ao vir aqui no mês passado para ver como tinha ficado a sala depois da reforma e descobrir que isso é ainda mais que um simples enfeite.
A garota se levantou confusa e o rapaz assumiu seu lugar.
Ele forçou a guitarra, pelo braço, para a direita e a garota ao seu lado estreitou os olhou, esperando que a qualquer momento o falso instrumento quebrasse.

Entretando, a guitarra não quebrou. Ao invés disso, sob um rangido seco abafado pelo estofado da parede, ela girou descrevendo um ângulo de 45 graus, ficando assim na horizontal e, então, desencaixando-se da parede.
O garoto olhou para a sua parceira, que estava boquiaberta.
No espaço da parede que a falsa guitarra estava presa, agora estava exposta uma pequena estrutura de metal que lembrava um trava.
A garota correu os dedos finos pelo metal frio da trava e puxou uma pequena superfície que lembrava a maçaneta de um carro.
O tintilar do metal ecoou pela sala e de repente a parede não parecia mais tão firme.
Na verdade, naquele momento, a menina pôde, pela primeira vez, ver uma fina linha que cortava ao meio um pequeno bloco da parede que não devia ter mais que cinquante centímetros de largura e altura.
Sob o olhar divertido do garoto ao seu lado, ela enfiou os dedos na fresta vertical e puxou com as duas mãos, para lados diferentes.
Como se já não estivesse suficientemente estupefata, aquelas partes da parede se mostraram portas que abriam para os lados opostos e revelavam uma espécie de compartimento secreto em forma de um cubo perfeito.
- Como você descobriu isso? – ela perguntou ao rapaz.
- Já disse, quando vim aqui ver o término da reforma. – ele viu o olhar sarcástico dela e continuou. – A verdade é que quando cheguei aqui haviam pichado esse lado da parede...
- Por isso o estofado novo. – ela concluiu.
O seu parceiro assentiu e tornou a falar:
- Exato! E com a pichação mal-feita o vão entre as portinhas ficou evidente. – ele explicou. – Eu só precisei descobrir como tirar a guitarra daí.
A menina voltou o olhar para dentro do compartilmento.
- Isso é seu? – ela perguntou apontando para uma caixar velha de papelão.
O rapaz sorriu largamente.

- Não, mas você vai, certamente, gostar de descobrir quem é o dono.
Cautelosa e desconfiada a menina puxou a caixa para fora do cubículo e sentou-se no chão examinando a pilha de documentos que havia dentro.
Ela não pôde deixar de se perguntar se ainda teria outras surpresas naquele dia ao ver que os documentos eram relatórios de vendas datas de todas as festas promovidas pela escola nos últimos três anos.
Seu coração batia forte de ansiedade e ela quase podia sentir a adrenalina se espalhar pelo seu corpo.
Ela sabia o que aquilo significava, mas uma parte de si se recusava a acreditar.
- Isso... Isso é... – a garota parou.
Seus olhos surpresos se recusavam a desgrudar dos papéis.
A sala voltou então a mergulhar no silêncio.
- Roubo! – foi a última palavra que o garoto ao seu lado conseguiu dizer.