As pessoas gostam de pensar que suicidas possuem um perfil doentio e traços que dão pistas sobre como tentarão se matar. Gostam de pensar que são todos fechados, quietos, tristes e depressivos. Sempre fui um rapaz mediano. Trabalho mediano, notas medianas, vida mediana, uma felicidade aqui outra acolá e nesse meio tempo um monte de nada, exatamente como todo mundo nesse planeta.

Faz sete dias que estou nesse hospital, mas hoje recebo alta. Só tive um único pensamento durante todo esse tempo, um incômodo e incerto pensamento, que não consigo me livrar. Não faço a menor ideia do porquê tentei me matar. Lembro da minha vida mediana, sonhos medianos, das mesmices e conformidade, até mesmo de alguns momentos bons de felicidade, e depois um lapso que me traz três palavras: “Eu estou partindo”, e agora o hospital. Não lembro de nada além disso.

Minha mãe tem essa amiga, Carla, que é extremamente obcecada com espíritos e demônios. Ela diz que fui possuído e que por isso não me lembro de nada, como se toda essa loucura fosse obra do maligno.

Entrei no carro, saindo da cadeira de rodas e sentando no banco, esperando que minha mãe passasse o cinto por mim. Tenho essas faixas ao redor dos pulsos para proteger os cortes que fiz. Nunca fui uma pessoa burra, não faço a menor ideia do porquê eu tentaria me matar de uma forma tão vagarosa e dolorida, fora as chances de dar errado caso o tempo não fosse suficiente. Se eu fosse me matar, certamente seria com overdose de comprimidos para dormir, não com cortes no pulso.

— Não faço a menor ideia do que aconteceu.

— Você tem que procurar um padre, Tobias. Carla comentou sobre como os demônios agem nas pessoas e ele pode estar ainda aí e procurar matar você de novo.

— Mãe, estamos no século vinte e um, certo? Ninguém mais é amarrado na cadeira enquanto o padre exorciza sei lá o que do corpo. Isso é loucura.

— Tá, mas pode ser que esteja, devem haver novos métodos para tirar essas coisas das pessoas hoje em dia. Agua benta ou algo.

— Os demônios não estão acompanhando a tecnologia. Isso tudo é invenção. Essas coisas não existem.

— Você mesmo me disse que não acreditar em algo não o torna imune àquilo. Você devia ouvir o que você fala. Essa coisa que aconteceu com você é bem séria, foi por muito pouco que você não morreu.

— Mãe, eu disse que não acreditar que aviões caem não faz o seu avião permanecer no ar, mas que as chances de isso acontecer são tão mínimas quanto cair um meteorito sobre nossa casa, então... não parece um exemplo bom para comparar.

— Tá, então você tem que procurar um psiquiatra, um médico, não sei. Eu e seu pai ficamos muito preocupados. Você sempre foi uma pessoa tão feliz.

— Mãe, suicidas não possuem um atestado de suicídio na testa.

— Não foi tentativa de suicídio, Tobias. Você mesmo disse. Para com isso.

Ficamos em silêncio. Eu sabia que tinha exposto minhas veias com gilete, passando-o na vertical até que quase alcançassem meus cotovelos. Com certeza eu queria morrer, e ninguém tinha feito isso por mim.

Cheguei na casa dos meus pais. O médico havia recomendado seis meses, no mínimo, de convívio familiar, proibindo-me de trancar portas, até mesmo de fechá-las, e meus pais foram avisados para tomarem muito cuidado com sinais que eu poderia dar. Eu estou feliz, calmo, em equilíbrio comigo mesmo e não teria qualquer motivo para me matar. Sempre fui covarde, jamais teria coragem o suficiente para fazer tamanho gesto assim, do nada. Algo muito sério tinha acontecido, e eu queria saber o que.

Por um lado, eu estava com muito medo de descobrir que no meio dessa normalidade toda havia um buraco negro que me devorava, mas por outro, eu não podia simplesmente seguir minha vida com esse oco no meu cérebro ecoando aquelas três palavras. “Eu estou partindo”, repetindo e repetindo. Era, de certa forma, amedrontador.

Entrei no meu antigo quarto de colegial no sótão, com aquela enorme janela central, aquela cama de solteiro que range, algo que eu gostava de aproveitar durante o sexo, e aqueles livros que fizeram minha personalidade. Eu sentia falta daquele lugar e meus pais haviam mantido ele exatamente como eu deixei ao ir para a faculdade. Eu queria minha casa, meu ambiente clean, com os móveis geometricamente colocados, todos brancos, iluminados e modernos – algo que eu amava – mas naquele momento o passado me abraçava gentilmente e eu queria retribuir.

Notas finais
Obrigado.