Esse buraco negro de memórias que somem é um pouco aterrorizante, devo confessar. Voltar para casa de meus pais depois de tanto tempo é como receber um abraço afetuoso do passado. Por um lado, me lembro bem dos cheiros e sabores que é ter família no quarto ao lado, por outro, me lembro bem como é não ter espaço para correr.

Meu quarto está como deixei. A cama macia, mas pequena, range quando sento sobre ela. Fora minha ideia mudar meu quarto para o sótão. Era maior, mais espaçoso, com o telhado triangular e a enorme janela no centro, além de mais distante dos demais quartos. Foram ótimos dias, aqueles dias no sótão com livros e amigos do lado. Eu retornava ao passado.

O cheiro de pó estava sobre os lençóis da cama. Meus pais mantiveram tudo exatamente como eu deixei ao partir para a faculdade. Não moveram um livro, uma peça de roupa ou um sapato sequer. Tenho a sensação de que tenho dezoito anos novamente, de que tenho um futuro pela frente novamente, uma dezena de escolhas a fazer. O formulário de preenchimento para colegas de quarto ainda está sobre a cabeceira da cama, com minha letra que nada mudou, rasurado. Lembro-me sobre como fiz o formulário uma dezena de vezes pois sempre errava os detalhes sobre convivência.

As ataduras no meu braço faziam pressão nos meus cortes. Quando eu mexia demais, podia sentir a carne abrindo e arrastando-se contra as gazes. Às vezes ardia, mas na maioria das vezes estava apenas incomodando. Eu adoraria saber quais os motivos daquilo tudo. Estava tudo um pouco confuso. Ninguém dizia nada. Ninguém explicava nada. Embora eu, sinceramente, acredite que ninguém saiba nada.

Algo na minha memória me escapava, sentimentos, sensações, pessoas, principalmente pessoas. Como se eu tivesse sonhado com tudo e esquecido ao acordar. Eu não podia dizer com certeza que antes eu estava infeliz, era tudo muito distante, surreal. Mas algo me dizia que talvez as coisas não estivessem tão comuns quanto eu me lembro, e isso me dá calafrios.

Troquei os forros de cama, troquei a lâmpada, que estava relativamente mais fraca, e vesti um antigo pijama, que ficou curto nas canelas e nos pulsos. Adormeci com o corpo estático sobre a cama, como defunto, porque tinha medo demais de deitar sobre meus braços e abrir minhas feridas todas novamente. Eu estava tomando um cuidado excessivo com os curativos. Eu não tinha a menor ideia sobre como estava aqueles cortes. Só esperava que estivessem cicatrizando.

— Certo, posso gravar?

— Desculpa?

— Posso ligar o gravador e gravar nossa conversa?

— É... acho que sim. Por quê?

— Para que eu possa analisar novamente mais tarde.

— Tudo bem, eu acho.

— Está confortável?

— Imaginei que haveria um divã.

O doutor dá um riso. Entrelaça os dedos, fixa os olhos nos meus.

— Todos imaginam.

— Psiquiatra atuando na psicologia? Pergunto o por quê.

— Falaremos sobre meu diploma?

— Estou apenas curioso.

— Fiz psicologia. Abrangi para a medicina, psiquiatria e, por fim, psicanálise. A mente me atrai em todos os sentidos: das mais sadias as mais doentes.

— O senhor já fez terapia?

— Quando mais novo. Você já fez terapia, Tobias?

— Quando mais novo.

— E como foi a experiência?

— Breve, simples, agradável. Eu era uma criança fácil de lidar, acho.

— E por que fez terapia?

— Dificuldade para prestar atenção, sensibilidade a mudanças, medo do escuro.

— Superou tudo?

— O déficit de atenção não, o medo de escuro, talvez, e a sensibilidade a mudanças, bem, acho que essa eu perdi totalmente.

— É um costume seu falar acho com frequência?

— Sim, sim.

— O que te traz ao consultório?

— O senhor deve ter percebido as ataduras nos meus braços. Elas estão aqui depois de um acontecimento.

— Devemos falar sobre.

— Acho que devemos, mas não temos como falar sobre.

— Por quê?

— Porque não me lembro de absolutamente nada. É por isso que estou aqui.

— Vamos começar pelo que se lembra. Qual sua memória mais recente?

— Acredito que é a de quando acordo no hospital — paro e penso. Reviro os olhos, tento puxar alguma coisa anterior a isso. Uma voz soa, suave, repetindo aquilo que parecia ter saído de um filme. “Eu estou partindo”. Meus olhos lacrimejam, como se um cisco tivesse caído neles. Meu nariz arde.

— O que foi?

Espirro. O doutor ri.

— Pensei que tinha se lembrado de algo — rio também. Abaixo os olhos. Meu rosto fica aéreo.

— Me lembrei de algo. Alguém. Não sei quem.

— O que se lembrou?

— Ela diz que está partindo.

— É sua memória mais recente?

— Não — afirmo. — Não é mais recente. É antiga, eu acho. Acordei com isso em minha cabeça quando acordei no hospital.

— Você tem alguma noção do quanto você perdeu de memória?

— Hm. Um ano e meio.

— Muito tempo! Tem certeza? Esse tempo todo você perdeu? Totalmente? Não se lembra de ninguém a quem possa recorrer, alguém que possa te dar um caminho?

— Não tenho certeza, pode ser mais tempo. Mais de um ano sei que perdi. Vê meus cabelos? — Apontei. — Estão assim, mas não eram assim. Eram bem menores e não eram tingidos. Sabe quanto tempo esse corte demoraria a ser feito? — Argumento, me lembrando das palavras de minha mãe quando me olhei no espelho pela primeira vez ao sair do hospital. Surpreso, puxei os fios para tentar entender o que havia acontecido com a cor deles.

— Não se lembra de ter feito nenhuma modificação nos seus cabelos?

— Não. Acordei pensando que estavam de um jeito, mas estavam de outro. Como se houvesse um espaço enorme de tempo entre o que eu sei e hoje. Não me lembro de ninguém, ninguém que possa me esclarecer as coisas. Minha mãe disse que realmente demorou muito tempo para meus cabelos ficarem assim, que foi gradativo. Meus pais não querem falar sobre isso. Eles querem que eu deixe esse assunto quieto.

— Curioso. Depois da segunda guerra mundial, quando o nazismo caiu, o número de consultas psiquiátricas aumentou. Pais levavam seus filhos aos consultórios em busca de resposta. Aqueles que sofreram com o nazismo, que foram torturados, testados e sujeitados a coisas terríveis, se esqueceram. A repressão fez com que essas pessoas escondessem as imagens que viram, os sentimentos que sentiram, a dor, sofrimento. Alguns, ainda, criaram novas identidades. A repressão aconteceu de forma ampla nesse período, caindo sua ocorrência depois disso novamente. Acredito que você está sofrendo isso.

— Mas eu sou uma pessoa feliz. A minha vida... ela... — eu tentava puxar coisas ruins da memória. Coisas irrelevantes me vinham à cabeça: um dia muito vergonhoso nos últimos anos de faculdade, uma briga muito feia com um antigo amigo, Renan. Nada relevante. — Ela era tranquila. Eu não consigo ver nada que pudesse a fazer mudar de uma forma tão drástica assim.

— É aí que está a mágica da repressão, Tobias. Você se esquece.

Cheguei em casa, um pouco incomodado com as informações que recebi. Com medo de descobrir o que havia perdido e ser afetado de novo. Eu estava sentindo o corpo tão tranquilo. Não conseguia imaginar qualquer coisa que pudesse me afetar dessa forma.

Um ano é muita coisa. Caminhei até meu quarto. Antes de alcançar a escada, minha mãe começa as perguntas.

— E então, Tobias? O que é? Ele percebeu que não foi você? Se lembrou de alguma coisa?

— Não precisa dizer se não quiser — falou meu pai.

— Claro que precisa — afirmou mamãe. — Precisa sim. Precisamos saber se tá tudo bem, se não vai acontecer de novo.

— Aline, acalme-se. Pode fazer mal para Tobias. Deixe-o com o tempo dele.

— Luciano, eu não quero que ele se lembre. Deve ser terrível se lembrar dessas coisas. Eu acho que você devia deixar isso quieto, Tobias. Já falei que nessas coisas a gente não mexe. Se sua cabeça não quer lembrar, é porque tem algum motivo. Pode ser que ela está te protegendo, não pode? Se for, você vai estar piorando as coisas.

— Aline, ninguém consegue viver bem sem um pedaço da vida. Às vezes se lembrar vai ajudar Tobias a não ter problemas como esse no futuro.

— Não consigo entender que problemas. Tinha conseguido um emprego, estava morando em um ótimo apartamento...

— Tinha conseguido um emprego? Mãe, eu tinha?

— Tobias, não se lembra o motivo pelo qual você se mudou para aquele apartamento?

Abaixei a cabeça, passei a mão pelos cabelos e percebi que não sabia sequer o motivo pelo qual eu havia me mudado para meu apartamento.

— Talvez eu... eu só queria... eu acho que eu só queria morar só, não? Onde era meu emprego? Estou faltando o emprego? Eu devia estar trabalhando? Ah, Deus, eu não sei. Tenho que ir até meu apartamento.

— Tobias, não. Para quê isso, hein? Você se demitiu. Você até falou para a gente que tinha sido porque recebeu outra proposta de emprego melhor. Já falei para não ir naquele apartamento, pelo amor de Deus. Me agonio toda só de lembrar.

— Posso falar com você, querido? — perguntou meu pai.

— Aham.

Ele colocou as mãos ao redor do meu ombro e me acompanhou degraus acima. Ia falando a cada passo que dava.

— Veja bem, Tobias... Conhece bem sua mãe, não conhece? Ela está apavorada. Para ser sincero, estamos.

— Perdoe...

— Eu só quero que você entenda que queremos te proteger, tudo bem? E queremos que você nos ajude a te proteger. Mas, acima de tudo, Tobias, eu quero você bem. Queremos. Sua mãe procurou por esse psicólogo durante os sete dias em que você esteve internado, sempre tentando achar o melhor entre eles. Viu o diploma daquele doutor? Um pouco exagerado.

— Um pouco exagerado — concordei.

— Mas para sua mãe ainda faltava qualificações. Porque ela simplesmente está buscando respostas tanto quanto você, porém, não quer ver aquelas respostas que podem ser perigosas. Então ela prefere que todos nós seguimos a partir daqui, sem parar para pensar no que já aconteceu, mas seu lado racional não permite que ela simplesmente ignore. Ela realmente está tentando. Eu também tô.

— Eu sinto muito mesmo. Eu não sei porque fiz aquilo.

— Eu não te chamei aqui para fazer você se sentir culpado — sentamos na cama, após atravessar a porta do meu quarto. Ele colocou a mão sobre meu joelho, abaixou a cabeça e respirou fundo. — Te chamei aqui porque quero te ajudar. Amanhã, logo pela manhã, falarei para sua mãe que iremos comprar roupas. Iremos até seu apartamento. Encontraremos alguma resposta.

Sorri com afeição e abracei-o. Ele cheirava tão bem. Ele e mamãe tinham um cheiro parecido, embora o cheiro de mamãe fosse umas duas vezes mais doce que de papai. O segredo da compreensão dele estava todo nos livros de poemas que ele escrevia. Desde muito novo sempre achei que meu pai possuísse algum dom. Eu via as outras crianças discutindo com seus pais, se tornando incompreensivas e problemáticas, mas eu jamais poderia me tornar uma delas. Mamãe, quando eu fazia algo de muito ruim, corria até mim e beliscava minhas coxas rindo e dizendo que eram formigas. Eu corria para dentro de casa aos risos, evitando as pequenas comichões. Meu pai ficava encarregado, mais tarde, de sentar comigo e colocar as cartas de forma séria na mesa, e ele sempre deixa tudo muito claro.

Quando me deitei, finalmente pronto para o dia que viria, não consegui dormir. As ataduras que pressionavam demais, o calor que me deixava suado e empolava meu pescoço, e depois, quando eu ligava o resfriador, o frio que me doía os músculos, mesmo estando coberto. Eu não sabia dizer bem se aquelas coisas que me incomodavam eram reais e estavam ali ou se era apenas meu cérebro ansioso para o que eu faria a seguir. A luz do poste passava pela janela, que por fim ficara aberta, atingindo minhas ataduras e me dando calafrios toda vez que eu as olhava.

Sentei-me na borda da cama, com as pernas para fora do colchão, pensando se eu devia tentar dormir novamente ou se devia de desistir da tentativa falha. Pensei em trocar os curativos e encarar minhas ações, que até agora permaneciam desconhecidas para mim. Decidi levantar. Coloquei os pés no assoalho, que para minha surpresa estava frio, e procurei embaixo da cama apalpando com os pés meu chinelo. Caminhei até o banheiro. Meus olhos estavam um pouco confusos com a mudança de ambiente e com a luz recém acesa. Ofuscava minhas pupilas, a luz, e eu tentava acostumar com o ambiente claro.

Abri o armário abaixo da pia, procurando gazes, esparadrapo e remédios. Encontrei todos. Sentei no chão do banheiro, ignorando completamente se devia ou não. Coloquei, um por um, os instrumentos ao chão, separando-os. Procurei a ponta do esparadrapo de minhas ataduras e, após encontrar, fechei os olhos e puxei-o de uma vez só. Abri o olho em seguida.

— Diga-me, Tobias, como têm sido a recuperação? — perguntou o médico.

— As coisas andam bem, doutor.

— E a memória? Alguma novidade?

— Bem, meu pai ficou de ir comigo ao meu apartamento para ver se conseguimos recuperar algo. Não conseguimos ir, surgiu um compromisso para ele. Talvez iremos lá amanhã.

— Mas o sentimento de que não há motivos para você ter feito aquilo continua?

— Sim, continua. Não faço ideia.

— Então vamos começar o tratamento, tudo bem? Quero que você feche os olhos e mentalize qualquer coisa que te deixe feliz.

Fechei meus olhos e fiz silêncio. Tentei capturar algum momento feliz, mas nada me veio à mente. Nem momentos bons, nem momentos ruins. Eu simplesmente não conseguia buscar algo sem uma palavra-chave. Precisaria de algum impulso. Abri os olhos.

— Seja mais claro. Algo que me deixe feliz é muito amplo, Doutor. Não consigo me lembrar assim.

— Qual foi a última coisa que você fez que você gostaria de fazer novamente?

— Com certeza minha viagem à Grécia.

— Agora feche os olhos e mentalize a Grécia.

Fechei os olhos.

— Ei, não vai falar comigo? — perguntei. Ela estava de fones de ouvido, sentada de face para a parede, me ignorando completamente. Os fones estavam altos e eu podia ouvir a música através do ambiente, que reverberava. Agachei atrás dela, quase tocando-lhe as costas, mas não a toquei. Sentei-me. “Are you the brutal heart? Are you the brutal heart that I’ve been looking for?”, cantava a voz.

Eu me concentrei em observar o movimento do peito dela que subia e descia, enchendo e esvaziando de ar. Eu não queria incomodá-la. Abracei meus joelhos.

O ambiente estava frio e a chuva caía lá fora. Eu não podia ouvir nada além do ecoar dos fones de ouvido pelo apartamento, mas eu podia ver os relâmpagos através das janelas e o gotejar no vidro embaçado. Os cabelos dela estavam presos de forma desajeitada e estavam molhados. Eu também estava molhado. Minhas meias estavam encharcadas.

— Tobias? — perguntou o doutor. Abri os olhos. — Se lembrou de algo? Permaneceu em silêncio por bastante tempo.

— Uma mulher. Eu... — eu franzia minhas sobrancelhas tentando me lembrar da mulher, mas já havia me fugido da memória novamente. — Eu apenas vi uma mulher.

Notas finais
Comente e opine. É importante para mim. Obrigado por ter lido, até a próxima.