Proprietário
15 Está tudo bem pequeno
Finalmente liberdade.
O rapaz nunca amou tanto sentir o vento gelado bater-lhe no corpo ou ver o sol brilhante no céu. Tinha acabado de sair da prisão e, apesar de só ter passado lá uma noite, jurava a si mesmo que seria um bom cidadão agora e que não iria voltar a ser preso.
– Nunca mais volto lá para dentro. — Murmurou Jackson em modo automático, com os olhos fechados e a cabeça inclinada para cima.
– Acho bem que não! — Jackson virou o rosto e viu a sua irmã sorrir e abraça-lo fortemente. — Reza para o pai nunca descobrir. — Murmurou-lhe contra o ombro.
– Ele já não quer saber de mim desde que fugi de casa. — Responde divertido.
– Desculpa por isso… Fugiste porque não gostavas de mim e ele nunca te perdoou. — Sorri a rapariga.
– Se não tivesses arrumado o meu quarto talvez eu tivesse gostado de ti.
Jackson e Yuri riram e continuaram abraçados por mais algum tempo até sentirem outros braços rodearem-nos. Olharam para o lado e viram Yugyeom com um sorriso idiota no rosto que fazia os seus olhos desaparecerem.
– O que foi? — Pergunta Yugyeom ao reparar que estava a ser observado. — Não estamos a celebrar o facto de Jackson estar livre…? — Agora o rapaz tinha um sorriso envergonhado e as bochechas completamente rosa.
Yuri fez um gritinho adorável e atirou-se, literalmente, para o pescoço do noivo, ficando a voar pois ele era mais alto que ela.
– Hey. — Chamou Jackson sério mas com um pequeno sorriso. Estava feliz por ver a irmã feliz e com um bom homem. — Não quero estragar o momento mas preciso de ver o Bambam.
J❦B
Junior estava chocado com o que Bambam acabará de lhe contar. Ele sempre recebeu muito amor da sua mãe e, apesar do seu pai ter morrido quando ele era muito novo, sabia que sempre o amou muito. Não conseguia acreditar que algum pai trataria assim o filho. Era desumano.
O loiro tinha-lhe contado toda a história da sua vida, desde as regras do seu pai até à pressão psicológica e ao momento da agressão física. Na verdade, Bambam não sabia porque tinha contado tudo isso, apenas começou a falar e quando deu por si já não conseguia parar, tinha que desabafar com alguém e Junior foi o primeiro que se ofereceu para ser ouvinte. Contou coisas que nem Mark ou Jackson sabiam. Naquele momento, Junior era a pessoa que melhor conhecia a vida de Bambam e o moreno estava assustado com isso.
Bambam estava na cama a chorar silenciosamente. As lágrimas cobriam as suas bochechas mas o seu olhar estava apático e a sua mente estava desligada do mundo. Apenas conseguia reviver aqueles momentos horríveis vezes e vezes sem conta na sua mente. Sentia as dores no seu corpo como se tivesse a ser atingido pelo seu pai de novo, mas era apenas o puro fruto do seu cérebro traumatizado.
Apenas despertou dessa dor emocional quando Junior lhe puxou para um abraço desajeitado.
– Que estás a fazer? — Perguntou Bambam sem se mexer, nem para retribuir o abraço nem para o afastar. Apenas ficou ali de braços caídos ao lado do corpo enquanto os braços de Junior o abraçavam timidamente.
– Desculpa-me por te ter julgado mal. — Diz baixinho, enquanto lhe dá o telemóvel. Antes de Bambam ter tempo de o agarrar, Junior puxa o aparelho de volta para si. — Eu quero falar com o Mark, também. — Bambam concorda com a cabeça e Junior volta a entregar-lhe o telemóvel, desta vez deixando que o rapaz o use à vontade. Ainda tinha as suas dúvidas sobre Bambam, mas queria conhecer melhor aquele rapaz que lutou tanto para conseguir fugir das garras do pai.
J❦B
Mark tinha ficado agitado depois da história toda das ameaças, o seu manager só o conseguiu acalmar com vários calmantes mas mesmo assim o rapaz parecia louco. Ele tinha medo de todas as pessoas que passavam por ele, só confiava no seu fiel e amigo manager John.
Após tomar a grande dose de calmantes, John levou Mark para casa e ajudou-o a deitar-se na cama, o que foi fácil, pois o cantor já estava meio adormecido. Não demorou muito tempo para ele cair num sono profundo, sobre a vigia constante do manager.
John estava realmente preocupado com Mark. Ele conseguia controlar o correio que o cantor recebia, mas não podia impedir que ele visse os comentários maldosos na internet.
A conferência de imprensa que tinham programado para esclarecer a fotografia do Instagram, só trouxe mais problemas. Agora, todos só falavam de Jinyoung mas ninguém conseguia descobrir quem ele era. O que era uma sorte. O que menos precisavam agora era de outra pessoa envolvida.
O manager ainda estava no quarto quando o telemóvel de Mark começa a cantar. O cantor mexesse mas estava tão drogado com os calmantes que nem o barulho o acordou. Com receio que fosse outra ameaça ao cantor, John atendeu o telefone.
– Mark?
– Não. Ele está ocupado agora, quem fala? — Responde o Manager, saindo do quarto para não incomodar o sono do rapaz.
– John? É o Bambam.– Diz Bambam com voz débil. Notasse perfeitamente que estava a chorar e até John percebeu isso. Ele conhecia bem o pequeno Bambam porque ele e Mark estavam sempre a visitar-se um ao outro, não interessa em que país o outro estivesse. Arranjavam sempre maneira de se encontrar com regularidade. — Preciso de falar com o Mark.
– Quem é o John? – Ouviu-se uma voz a falar com Bambam.
– É o manager do Mark. — Respondeu Bambam. John manteve-se calado enquanto o que parecia uma discussão começava do outro lado da rede. — Jinyoung! Devolve-me isso! Eu preciso de falar com ele!
– Mark?! – Chama Junior. — Mark, eu quero falar contigo sobre aquele dia…
– JINYOUNG DEVOLVE-ME ISSO! — Gritou Bambam.
– Oi! Rapazes, calma aí! — Pediu John com voz autoritária. — O Mark está a dormir mas eu aviso que ligaram. Ah e… Jinyoung? És o rapaz dos comentários?
– Ele foi embora. — Diz Bambam passado um tempo. — Assim que o Mark acordar diz-lhe que preciso de falar com ele com muita urgência!
O manager concordou e logo desligaram a chamada.
J❦B
Na Coreia do Sul, Junior estava sentado no sofá, abraçado aos joelhos a fingir que via televisão. Tinha ficado estranhamente chateado ao saber que Mark estava a dormir sobre os cuidados de John. Uma raiva enorme tinha-lhe atravessado a garganta e ele não conseguia perceber de onde vinha, deixando-o ainda mais irritado.
– O Bambam já acordou? — Perguntou JB enquanto tentava estalar as costas, por ter dormido numa má posição.
Jaebum e Youngjae acordaram com a presença do rapaz mas ele não respondia a nada.
– Junior? — Chamou Youngjae. Nada.
JB já ia falar de novo mas ouve passos a descerem as escadas dolorosamente. Estavam só eles em casa por isso só podia ser Bambam. Junior sai rapidamente do seu estado de transe e corre até ao rapaz loiro que choramingava de dores enquanto tentava mexer-se.
– O que estás a fazer?! Volta para a cama! Estás maluco!? — Gritava Jinyoung enquanto voltava a levar o rapaz para cima.
Youngjae e Jaebum estranharam aquilo e seguiram-nos para o quarto. Quando entraram, Junior estava a deitar Bambam cuidadosamente na cama, mas com uma cara de quem o queria matar.
– Como te sentes? — Perguntou Youngjae preocupado com Bambam.
– O que se passou? Quem te deixou nesse estado. — Quis saber Jaebum, ao mesmo tempo que Youngjae.
Bambam olhou de relance para Junior, com o olhar mais triste e desamparado que o rapaz já tinha visto.
– Foi… — Começou Bambam.
– Ele caiu! — Completou Junior. Com cara de quem não ia dar espaço para discussões.
– É suposto acreditarmos nisso? — Rebateu JB de braços cruzados.
– Eu quero falar com o Jackson. Quando o posso ver? — Interrompe Bambam.
Jaebum olha para o loiro durante algum tempo a pensar no que há de dizer.
– Em breve. — Responde simplesmente.
Yuri tinha-lhe dito que ele estava preso, mas ameaçou JB para ele não contar a ninguém. Ela disse que o iam tirar de lá antes que alguém se apercebesse e que não havia necessidade de preocupar toda a gente ou fazer-lhe uma visita. Provavelmente Jackson não ia gostar de ser visto naquela situação e nisso JB tinha que concordar. O amigo era demasiado orgulhoso para isso.
– Já sabem onde ele anda? — Perguntou Junior, suavizando a sua expressão agressiva enquanto se sentava ao lado de Bambam na cama.
– Não… — Responde Youngjae, sentando-se na cadeira da secretária. — Ele continua sem atender as chamadas. Mas também… ainda não tentamos falar com ele desde que acordamos. — Youngjae tira o telemóvel do bolso e começa a marcar o número.
Todos o olhavam com expectativa menos Jaebum. JB olhava para os próprios pés, odiava esconder coisas dos amigos, principalmente de Youngjae. Ele sabia que Jackson não ia atender porque estava preso, mas não podia dizer-lhe isso, prometera a Yuri guardar segredo.
– JACKSON! — Berrou Youngjae feliz para o telemóvel.
Jaebum levantou o rosto de olhos arregalados. “Ele já está livre?! Tão rápido!?”
– Eu quero falar com ele! — Implorou Bambam com a voz mais débil que os rapazes já tinham ouvido. Ele tentou sair da cama e esticar-se para agarrar no aparelho mas Junior impediu-o. Atirou-o de volta para o colchão com cuidado e agarrou o telemóvel de Youngjae, entregando-o a Bambam em seguida.
Jaebum estranhou aquilo e fez uma nota mental de interrogar Junior mais tarde. Alguma coisa tinha mudado na relação daqueles dois e ele queria saber o que era.
– Jackson… — Chamou Bambam enquanto agarrava fortemente o aparelho com as duas mãos e de cabeça baixa.
– Bambam! Tu estás bem?! Ainda tens dores!? Eu estou a ir para ai agora mesmo.– Respondeu ofegante, dando a entender que estava a correr.
Bambam ficou calado por uns segundos. “Se ele sabe que estou mal quer dizer… ele esteve com o meu pai.”Pensou em pânico, começando a tremer.
– Por favor diz-me que estavas com alguma rapariga… Não me digas que foste a minha casa, por favor… Diz-me que não fizeste isso. — Pediu num fio de voz.
Junior observou o loiro tristemente. Agora entendia porque Bambam preferia ser traído ao ter Jackson em sua casa com o seu pai. Sobre os olhares estranhos de JB e de Youngjae, Junior tentou acalmar o rapaz, fazendo-lhe festas suaves nas costas.
– Está tudo bem pequeno. Estou quase a chegar. - Respondeu Jackson, continuando a correr.
– Tu foste mesmo lá… — Murmurou derrotado.
Antes de Jackson responder alguma coisa, Bambam desligou a chamada, atirou violentamente o telemóvel de Junior para o colchão da cama e deixo-se cair para trás, tapando o rosto com as mãos.
“Porque é que foste lá, seu idiota? Ele agora vai fazer-te a vida negra. Não posso deixar que isso aconteça. Ele vai levar-te para longe, como fez com o Mark…” Pensou abatido, enquanto sentia mais lágrimas quererem fugir dos seus olhos.
– O que se passa…? — Perguntou Youngjae, desconfortável com o clima pesado que se tinha instalado na divisão.
Ninguém respondeu ao vocalista. Junior olhava pensativo para o telemóvel nas suas mãos e Jaebum também parecia perdido em pensamentos com o olhar fixo num ponto aleatório do quarto. Aquela história toda estava a comer-lhe os miolos e estava a custar-lhe muito não partilhar o que sabia com o Youngjae.
– Vem comigo. — Disse JB decidido.
Sem dar espaços para negações, puxou o pulso de Youngjae para fora do quarto, levando-o para o quarto da irmã de Jinyoung, onde sabia que iriam ter alguma privacidade no momento.
J❦B
Jackson corria o mais rápido que conseguia. Parecia que tinha ganhado forças quando Bambam lhe desligou o telefone. Estava realmente preocupado com o rapaz e não sabia em que estado o iria encontrar.
Parou em frente à porta de casa de Jinyoung e tocou a campainha insistentemente até que Jinyoung lhe abriu a porta. Jackson mal viu uma pequena abertura e entrou logo a correr dentro de casa, empurrando Junior pelo caminho.
– Jackson! — Chamou o rapaz mas sendo completamente ignorado.
Jackson subiu as escadas indo diretamente para o quarto de Junior onde suspeitava que Bambam estivesse. Assim que voltou a fechar a porta de casa, Junior seguiu o amigo com um mau pressentimento.
O baixista abriu a porta do quarto com violência e mal viu Bambam deitado na cama, correu para junto dele e abraçou-o fortemente mas largando-o logo de seguida quando ouviu um choramingo de dor vindo do menor.
– Desculpa. — Murmurou enquanto lhe acariciou o rosto.
Afastou-se ligeiramente para o poder observar melhor mas não gostou nada do que viu. Bambam tinha um olho negro, um corte na testa, no lábio e na bochecha e sabe-se lá mais o quê que aquelas mantas e roupas escondiam.
Bambam prendeu o pulso que lhe acariciava as bochechas e afastou-o do seu rosto. Sentou-se na cama com alguma dificuldade mas sem deixar que Jackson o ajudasse.
– Porque foste lá? — Bambam foi direto. Estava mais sério do que nunca e isso deixou o outro rapaz confuso.
– Como assim? Estava preocupado contigo obviamente! — Jackson senta-se à sua frente e segura-lhe o queixo com uma mão para poder vê-lo melhor. — Olha o que aquele monstro te fez… Devia ter-lhe batido com mais força. — Diz com raiva.
Bambam fecha os olhos e tenta controlar a respiração. Jackson fica apreensivo nesse momento, sabia perfeitamente que Bambam estava a tentar manter o seu rosto apático e não estava a perceber o porquê disso.
– Tu bates-te no meu pai? — Perguntou pausadamente, ainda de olhos fechados.
– Não estás preocupado com ele, espero eu. — Respondeu Jackson cruzando os braços. — Ele prendeu-te em casa e espancou-te até ficares inconsciente!
– Ele vai-se vingar. — Diz sério, voltando a abrir os olhos. A sua expressão facial arrepiava Jackson, pelo simples facto de não existir. Parecia que estava a falar com um cadáver ou um robô.
– Para com isso. — Pediu também sério.
– Não. — Disse de imediato. — Eu não posso estar contigo, isto foi um erro. Eu queria que tu fosses a minha propriedade, mas não era suposto eu também te pertencer.
Jackson franziu as sobrancelhas ao ouvir aquilo. Não estava a gostar nada do rumo da conversa.
– O que raio estás para ai a dizer? Bateste com a cabeça assim com tanta força? — Bambam olhou-o sério, sem responder. — Tu estás seguro agora, ninguém te vai voltar a magoar… — Jackson tentou aproximar-se mas Bambam recuou.
– Ele vai atrás de ti.
Jackson sorri ligeiramente apesar do rosto de Bambam manter-se sério.
– Estás preocupado comigo? — Diz manhoso antes de lhe roubar um beijo. Foi mesmo um beijo roubado porque Bambam tentou fugir e manteve os lábios bem juntos e firmes para não deixar aquilo prolongar mais do que deveria. Mas não demorou nem um segundo até se render e se entregar ao beijo voraz de Jackson.
Ao ver que estava a ser correspondido, Jackson alegrasse e sorri, mas forçasse a separar-se, pois não queria magoar o pequeno que estava ferido. À medida que se afasta, dá um leve beijo no nariz de Bambam e sorri-lhe amorosamente, sorriso esse que durou muito pouco tempo. O loiro tinha os olhos fortemente cerrados e respirava pesadamente. Ao lado do seu corpo, os seus punhos estavam cerrados, chegando mesmo a magoar a palma da mão com as unhas. Quando finalmente abriu os olhos, ele não sorria. Não tinha simplesmente emoção nenhuma.
– FODA-SE BAMBAM! — Jackson gritou irritado, empurrando o rapaz e fazendo com que ficasse deitado no colchão. Inclinou-se sobre o corpo de Bambam, apoiando as mãos ao lado do seu corpo para ficar cara a cara com ele. — Que pensas que estás a fazer?! Achas que tens o direito de brincar comigo assim!? Não foi por esta pessoa que eu invadi uma propriedade privada e fui preso, caralho!
Após o grito estressado de Jackson, outro barulho invadiu o cômodo. Simultaneamente, Jackson e Bambam olharam para a porta do quarto e viram Junior que tinha acabado de derrubar o caixote de lixo, onde Coco agora estava entretida a brincar com papeis. Junior tinha paralisado naquela posição. Tinha os braços esticados numa tentativa falhada de manter o equilíbrio e as pernas semi abertas e dobradas numa estranha posição. Todo o seu rosto e expressão corporal gritava “apanhado em flagrante”.
Jackson franze as sobrancelhas irritado e já ia começar a gritar com o amigo mas para quando sente Bambam a mexer-se debaixo dele. Olha para o rapaz loiro que tentava conter o riso mas acabando por não resistir e começa a gargalhar alto. Bambam ria tanto da situação que até começou a lacrimejar.
J❦B
Mark acordou sobressaltado, a tossir compulsivamente. Tentou abrir os olhos mas não conseguia ver nada, só uma imensa nuvem de fumo. Sabia que estava no seu quarto porque reconhecia a cama, mas não conseguiu perceber de onde vinha tanto fumo e porque estavam tão abafado.
– FOGOOO!!! — Ouviu a voz de John gritar. — MARK! MARK!
O cantor tentou abrir os olhos mas o fumo ardia-lhe a vista então só conseguiu levantar-se aos apalpões. Tropeçou em várias coisas pelo caminho até sair do quarto. Tentou novamente abrir os olhos e conseguiu ver o suficiente para saber que a sua única saída para a rua estava em chamas. Sentia-se zonzo pela falta de oxigênio e o pânico começava a apoderar-se do seu corpo.
Continua...
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