Proposta Irrecusável
12 Capítulo 11
Notas iniciais
“E aí eu tava toda mal, confusa, sem saber se ficava lá ou vinha pra Nova York... pensando também em voltar pra Lima, por causa da Brit, mas, ao mesmo tempo, não sabendo muito bem se deveria correr atrás dela.” Santana comentou, enquanto preparava um sanduíche de geleia com creme de amendoim, usando o balcão da cozinha do apartamento que dividia com Finn.
“Eu não imagino mesmo Santana Lopez correndo atrás de ninguém.” Rachel riu, observando a refeição da amiga, mas decidindo-se por frutas e um copo de água em temperatura ambiente. Esperaria o namorado chegar do trabalho para jantarem juntos.
“Pois é.” Concordou a outra, sorrindo. “Mas o fato é que foi um período ruim... MUITO ruim! E o Finn, mesmo de longe, me ajudou demais! Eu não sei o que eu teria feito sem as nossas longas conversas por telefone, WhatsApp, Face, Skype... Eu acho que nunca perturbei tanto alguém e ele sempre tava lá, disposto a falar comigo.” Contou, referindo-se às semanas posteriores ao casamento de Will e Emma, quando finalmente contatara o melhor amigo e desabafara sobre como sentia que sua vida estava paralisada e era necessário fazer algo a respeito, urgentemente.
“Você podia ter falado comigo também.” Observou, comendo um morango. “Se bem que... bom, eu acho que você tentou me falar sobre querer se mudar pra cá e eu não dei tanta atenção assim, né? Quem eu quero enganar? Eu não sei ser como o Finn, tão generoso e atencioso. Eu sempre vou ser Rachel Berry, mimada e egoísta, sempre ocupada com meus próprios sonhos e planos, e dando pouca importância pros das outras pessoas.” Lamentou-se com uma careta culpada.
“Ah! Até que... bom, você perdeu de propósito pro Sam e pra Quinn, uma vez, pra ele ficar feliz e continuar com a gente no coral.”
“Não vale! O coral era tudo pra mim! Egoísmo.” Sentenciou.
“Você... retirou sua candidatura à Presidência do Grêmio Estudantil e ainda tentou fraudar as eleições pro Kurt ganhar. Você é minha amiga e da Quinn, e nós nem sempre fomos legais com você.” A latina argumentou.
“Tudo bem. Eu não sou uma péssima pessoa.” Revirou os olhos. “Mas o Finn... ele é tão especial!”
“É verdade. Eu não sou de ficar rasgando seda pra ninguém, mas temos mesmo sorte de ter alguém assim na vida da gente.”
“É, e eu acho que é por isso que eu ainda fico tão insegura!” Explicou, mostrando-se nervosa de repente. “É por isso que eu quero viver tudo com ele, de uma vez: ter o nosso canto, casar... até ter filhos! Eu... acho que fico apavorada de perder o Finn e não fazer todas essas coisas que eu quero fazer com ele. SÓ com ele, sabe?”
“Uhum.” Santana assentiu, com a boca cheia. “Eu entendo, mas eu acho que você vai ter que segurar sua ansiedade, Rach.”
“Porque ele não quer nada disso agora, não é?” Indagou, cabisbaixa.
“Você falou certo. Ele não quer isso AGORA!” Frisou. “Ele definitivamente quer tudo isso com você. Ele só não quer agora. Talvez porque ele tenha entendido, finalmente, que vocês não precisam ter pressa. Talvez porque ele tenha percebido que vocês se amam, sim, mas que o que levou vocês a terem pressa não foi o amor, e sim as inseguranças, o fato de vocês acharem que não tinham mais nada de especial na vida, além da relação de vocês. Cá entre nós, isso não era saudável, Rach.”
“Eu sei.” Ela respondeu, baixinho, e um silêncio se instalou, quando Santana mordeu mais uma vez seu sanduíche e ela enfiou duas uvas na boca, pensativa. “E você e a Brit? Vocês tem se falado?” Questionou, um pouco depois.
“A gente conversa por Whats às vezes, mas eu to aqui, ela tá em Lima, e eu não quero uma relação à distância. Na verdade, eu... to saindo com uma menina há uns dias.” Comentou, como se não fosse nada demais, levantando e colocando o prato, agora vazio, dentro da pia.
“Santana! Como você diz isso assim? Me conta isso direito!” Animou-se.
“Ah, é coisa nova. A gente tá se conhecendo ainda.” Deu de ombros. “O nome dela é Dani e ela trabalha comigo no Spotlight Diner. A gente logo percebeu que tinha várias coisas em comum, e...”
“Sobre o que as mulheres da minha vida tão falando com tanto interesse que nem me ouviram entrar, hum?” Finn perguntou, abraçando Rachel por trás e beijando o pescoço dela. Realmente nenhuma das meninas tinha escutado a porta se abrindo, porque isso acontecera no exato momento em que Rachel quase gritara de empolgação.
“A Santana tá me contando da Dani... sobre quem, certamente, você já sabe os mínimos detalhes.” Bancou a ciumenta, mas se virou, sorridente, beijando os lábios dele.
“Acho que a Santana me falou sobre uma pinta que ela tem...”
“Finn!” A amiga tentou repreender, mas soltou uma gargalhada enquanto batia no braço dele. “A Rachel vai acreditar que eu fico te falando esse tipo de coisa, seu... gigante maluco!” Continuou, não controlando o riso e os outros dois também caíram na gargalhada, mas a de Berry era mais para disfarçar um certo alívio, porque não queria se imaginar sendo apresentada à tal Dani com o namorado ao lado, sabendo que ele conhecia detalhes do corpo da menina, ainda que narrados por alguém.
Passaram todos um bom tempo na cozinha, falando sobre a mais nova conquista de Santana, e sobre os trabalhos dos três, depois que Rachel decidiu preparar uma massa para ela e Finn comerem. Santana foi se arrumar para encontrar Dani, quando a refeição ficou pronta, e o casal ficou, até tarde, vendo filmes e namorando, naquela última noite de sábado antes do reinício das aulas e, coincidentemente, também da estreia da peça em que Rachel faria sua primeira aparição nos palcos de Nova York.
A semana foi super corrida, é claro, com novas aulas para ambos, ensaios finais e provas de figurino para Rachel, e alguns problemas escolhendo uma péssima hora para acontecerem no trabalho de Finn, como a briga entre dois atores do elenco de um dos musicais, que culminou com o pedido de demissão de um deles, e um vazamento enorme no camarim da protagonista do outro espetáculo em cartaz da Companhia Rupert Campion, que fez a diva ameaçar não trabalhar enquanto a questão não fosse resolvida.
“Eu não sei se vai dar pra chegar.” Finn disse ao telefone para Santana, que estava com Dani na porta do teatro em que Rachel se apresentaria, esperando por ele, na sexta-feira à noite.
“Você já falou isso pra ela? Ela vai ficar furiosa!” A amiga indagou, balançando a cabeça negativamente e mexendo os lábios para explicar a situação à nova namorada, enquanto esperava a resposta dele.
“Eu sei.” Falou, e era possível perceber em sua voz o quanto ele lamentava. “Pior do que isso. Ela vai ficar decepcionada... magoada.”
“Mas o que houve, afinal?” Questionou, com o semblante desanimado, deixando Dani também com uma aparência preocupada e entristecida. “Mais cedo, quando a gente se falou...”
“Tava tudo bem! Mas isso só até o segundo iluminador sair correndo daqui, porque o filho caiu e levou não sei quantos pontos no supercílio. O Rupert não tá em Nova York, a Stacy tá no outro teatro, tentando resolver um problema de figurino, e eu fiquei preso aqui.”
“E você sabe fazer o trabalho do iluminador por acaso?” Ela desdenhou e ele revirou os olhos, ainda que ela não pudesse ver. Era tão típico de Santana aquilo, que às vezes ele não sabia como conseguia tê-la como melhor amiga.
“É claro que não! Mas, se o cara não voltar, eu vou ter que tentar, seguindo as orientações do primeiro iluminador. O que eu não posso fazer, de jeito nenhum, é ir embora e deixar o homem sozinho! Sem o Rupert aqui, eu sou o responsável.”
“E você quer que a gente fale com a Rach?” Perguntou, séria.
“Não. Eu só liguei pra vocês irem entrando sem mim. Eu mesmo tenho que falar com ela.” Afirmou, antes de se despedir e desligar. Não sabia como falar com a namorada, na verdade, e ainda tinha esperanças de conseguir chegar, então pensou em não fazer nada por ora, mas seu celular tocou poucos minutos depois.
“Você já tá aqui? O teatro tá cheio?” Rachel perguntou, ansiosa, do outro lado da linha, logo que ele atendeu.
“N-não. Eu ainda não cheguei.”
“Não chegou? Você tá onde?”
“No teatro. No... trabalho.”
“Ainda, Finn? Vai começar daqui a pouco, amor!”
“Eu sei. Eu...” Ele coçou a nuca, respirou fundo. Como ele poderia dizer a ela que não sabia se assistiria a sua estreia?
“Finn, você vem, não é?” Questionou, com um fio de voz, sentando-se na cadeira que ficava em frente ao espelho super iluminado do camarim, ao sentir as pernas enfraquecerem. “Por favor, não me diz que você não vem.”
“Eu... eu não sei, Rach. Desculpa.” Ele finalmente conseguiu dizer. “Eu to com um problemão aqui e... é claro que eu queria estar aí, mas eu não posso simplesmente...”
“Tudo bem, Finn. Eu falo com você depois. Já tão me chamando aqui.” Disse, porque um dos diretores abrira a porta e fizera sinal para que todos se juntassem na coxia.
“Rach... quebra a perna. Eu...”
“Ok.” Ela disse, desligando e não dando oportunidade para que ele lhe dissesse que a amava. Estava muito chateada para ouvir, mesmo que, no fundo, soubesse que ele não tinha deixado de comparecer por vontade própria.
Fez os aquecimentos e ouviu as palavras de incentivo dos diretores, tentando se concentrar nelas e no fato de que estava começando a realizar seus sonhos, ainda que não fosse ver tudo o que imaginara, quando as cortinas se abrissem. Preparou-se para ver Santana com uma garota loira e muito bonita a seu lado, e uma cadeira vazia ao lado delas, onde deveria estar Finn, e controlou as lágrimas que queriam cair de seus olhos, com a ideia desta imagem um tanto quanto deprimente assaltando seus pensamentos.
O terceiro sinal tocou e ela adentrou o palco, vestida com as roupas e as emoções da personagem, e cantando lindamente uma das muitas baladas dos anos setenta que compunham a trilha sonora da montagem. Pensou em olhar somente para o fundo do teatro, esquecer que havia uma cadeira desocupada na primeira fila e ignorar o vazio em seu coração, ao cantar cada palavrinha da canção de amor que gostaria de dedicar exclusivamente àquele que deveria estar sentado naquele mesmo lugar, especialmente reservado.
Lembrou-se, no entanto, que havia outras pessoas presentes, que estavam ali exclusivamente para prestigiá-la, como seus pais, Santana, Hope, Jennifer e alguns outros colegas de NYADA. Arriscou passar os olhos pela primeira fila, ao se aproximar da frente do palco, seguindo suas marcações, sorriu levemente para Hiram e Leroy, aproveitando que o momento da personagem permitia isso, e foi quando já ia se mover para o centro do palco novamente que ela viu aquele sorriso lindo e inconfundível que tornava o mundo um lugar melhor.
Stacy tinha resolvido rapidamente o problema com um dos vestidos de uma das atrizes da companhia, que tinha engordado alguns quilinhos nos últimos meses e teimava em dizer que a peça de roupa havia encolhido. Tomara conhecimento de que Finn estava preso no outro teatro e, sabendo da estreia de Rachel, correra para substituir o colega e amigo, que, então, conseguira chegar a tempo de ver a namorada atuando no teatro como uma profissional do ramo, pela primeira vez.
Berry pode sentir (e quem a conhecia bem também percebeu) quando ela saiu do automático, da interpretação perfeita, mas muito técnica, e começou a cantar com a alma, o coração, que parecia uma bateria de escola de samba dentro de seu peito, o sangue, que corria nas veias como Usain Bolt. Foi como se uma luz se acendesse em volta dela e dentro de seus olhos, e uma mágica tivesse acontecido, fazendo cada convidado presente na plateia sentir a música e cada verso penetrar suas peles, eriçando os pelos, e a morena acabou aplaudida de pé, mesmo aquele ainda sendo o final da primeira cena de muitas.
Não foi a toa que ela não parou de falar nisso o final de semana todo com os pais e com Finn, que também foram ver a peça no sábado e no domingo, e que continuou comentando e comentando, com toda e qualquer pessoa que desse o mínimo de atenção ao assunto. Estava em um dos corredores de NYADA, na segunda-feira, quando recebeu os parabéns de uma colega, que lhe deu o caderno de artes de um jornal de grande circulação, no qual o musical e ela estavam recebendo elogios de um crítico experiente, indo imediatamente à procura de Finn no prédio dos dormitórios, ansiosa para mostrar os comentários a ele.
“Ora, ora, se não é a nossa Lily Leon.” De repente, ninguém menos do que Brody Weston se postou em frente a ela, não deixando que continuasse a caminhar e chamando-a pelo nome da personagem que interpretava. “Você tava ótima!”
“Hum?” Ela franziu o cenho, não registrando bem o que ele estava dizendo e não gostando nem um pouco da abordagem dele.
“Eu te vi ontem. Você tava muito bem no papel... e linda!” Falou, dando um tom sedutor à palavra e se aproximando demais para o gosto dela.
“Obrigada, mas... me deixa, Brody. E me deixa passar.”
“Calma, gata. Eu só to te elogiando.” Continuou, debochado. “Eu acho que a gente devia tomar um café e eu poderia te dar uns toques pra você ficar melhor ainda. Você tem potencial pra...”
“Eu acho que você sabe muito bem que eu voltei com o Finn, Brody. E, mesmo que eu não tivesse, eu não teria interesse em receber nenhum conselho seu. Eu não teria interesse em tomar café ou qualquer outra coisa com você. Me dá licença, por favor?” Pediu, irritada.
“Fiquei sabendo, sim, que o otário voltou com você, mesmo depois de ter visto como era quente nós dois juntos. Eu superestimei o cara! Ele é mais babão do que eu pensava.” Comentou, fazendo careta de nojo. “Mas você é mais esperta, gata. Você sabe que eu sou muito melhor pra você e pra sua carreira.” Acrescentou, segurando-a pelos braços e encostando o corpo dela na parede.
“Você tá me machucando, Brody. Me larga.” Implorou, com medo.
“Ela disse pra você largar!” A voz de Finn penetrou os ouvidos dela e a garota não soube se deveria sentir alívio ou ainda mais pavor. Gostou da ideia de ser socorrida, é óbvio, mas não queria o namorado envolvido em confusão por causa dela.
“Ah, é?” O rapaz mais velho a soltou e se voltou para o mais novo, inquirindo com ironia. “Acho que escutei alguma coisa, mas eu não tava a fim. Eu sei que ela gosta de se fazer de difícil...”
“Cala a boca!” Hudson o interrompeu, se aproximando e pegando-o pelo colarinho.
“Calma, cara.” O outro levantou as mãos, como se estivesse se rendendo. “Não precisa partir pra ignorância, não.”
“Eu já tive paciência demais com você, Weston! Com aquele seu papinho de me ajudar, me envenenando contra a Rachel, cara. Parece que você não se toca nunca!”
“Aí é que você se engana, cara. Eu já me toquei muito pensan-“
Brody não conseguiu terminar a frase, pois quando viu já estava caído no chão, depois de levar um certeiro soco de Finn, que por certo deixaria um de seus olhos com uma bela mancha roxa em volta. O rapaz mais alto estava sobre ele, segurando de novo sua camisa, com os punhos e os dentes cerrados, os olhos brilhando de raiva, o rosto corado pelo sangue quente. Teria socado de novo o adversário imobilizado, se a namorada não tivesse implorado para ele não perder mais tempo e nem sujar mais suas mãos com alguém como Brody.
“Se você não consegue ter respeito pela Rachel por bem, você vai ter por mal.” Finn declarou, olhando bem nos olhos do inimigo. “Eu não quero saber de você chegando mais perto dela, ou dirigindo a palavra a ela, ouviu? Fica bem longe dela! Fica longe da minha futura esposa!” Terminou, finalmente soltando o garoto e abraçando Berry, com quem saiu andando para o prédio das aulas.
“Futura esposa, hum?” Ela perguntou, um pouco depois, quando já tinham ido ao armário dela, buscar alguns cadernos, e se dirigiam para um dos auditórios.
“É. Você não acha que a gente vai casar um dia?”
“Eu não acho... eu tenho certeza! Mas... sei lá, eu gostei de ouvir.” Deu de ombros.
“Eu sei que você esperava que fosse logo, Rach, mas...”
“Tá tudo bem, meu amor.” Ela sorriu amplamente. “Eu juro! Eu andei pensando muito, conversei com algumas pessoas, e percebi que a gente não precisa ter pressa.”
“Então a gente pode casar quando tivermos mais de vinte e cinco, e já tivermos recebido vários Tony Awards?” Levantou a sobrancelha.
“Essa fala é minha, Finn. E eu acho que vinte e cinco é uma boa idade, mas... talvez nenhum de nós tenha conseguido um Tony até lá, então... melhor deixar de lado essa parte, ok?” Riu.
“Ok.” Ele concordou e beijou os lábios dela. “E, enquanto não temos nenhum prêmio, a gente precisa emoldurar isso.” Declarou, apontando o jornal que ela tinha mostrado a ele afinal, um pouco antes.
“Você tá convivendo muito comigo!” Ela observou aos risos e ele também soltou uma gargalhada, antes que outras pessoas vissem os dois e resolvessem congratular a mais nova revelação de NYADA.
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