Prongs
12 Quando Lily Evans chamou Você-Sabe-Quem de... você-sabe-quem.
Notas iniciais
Lily me procurou quando voltei a Hogwarts depois de me despedir do meu pai. Estava um dia fresco e ensolarado no jardim, onde eu estava tentando me refrescar com um pouco de sol. Acabei dormindo ali estirado na grama. Meus olhos estavam fechados e eu sentia o gostoso calor no rosto, mas em um determinado momento fiquei incomodado com a sombra que surgiu...
– Saia do meu sol, Peter, quantas vezes eu tenho que...?
– Seu sol?
Abri meus olhos depressa quando ouvi a voz dela. Estava em pé, segurando a bolsa pelos ombros, e os cabelos soltos. Meu sorriso foi mais iluminado que o sol.
– Estou sonhando? – indaguei. – Por favor, nunca me acorde então...
– Podemos conversar?
– Sempre – eu disse, apalpando o espaço no gramado ao meu lado para ela se deitar.
Ela não se deitou.
– James – pediu com a voz baixinha. Dei um suspiro e finalmente me levantei para encará-la.
Estava aflita, ou era apenas o sol incomodando seu rosto por deixá-lo tão franzido. Ela tirou rapidamente uma mecha do cabelo que insistia em cair por seu rosto, observando o lago por um instante, meio que tentando se desviar dos meus que não se afastaram dela um segundo.
– Estranhei que não tiveram azarações hoje e Black me contou sobre seu pai. Sinto muito. – Ficou um tempinho em silêncio, me encarando com os olhos verdes. – Eu não posso imaginar como deve estar se sentindo.
– Meu pai costumava dizer para nunca temer a morte porque não será exatamente o fim. Gosto de imaginá-lo em um céu dos bruxos que só terá o jogo dos Montrose Magpies em que ele poderá berrar sem minha mãe brigar com ele.
Ela sorriu com isso. O horário indicava que deveríamos seguir até a sala de Defesa Contra as Artes das Trevas. Peguei minha mochila do chão e Lily andou ao meu lado, no mesmo ritmo dos meus passos, pela primeira vez.
– Tal pai, tal filho então? Torciam pelo mesmo time.
– Como é que sabe que eu torço por eles também?
– Você realmente não percebe que compartilha sua vida inteira com todo mundo, não é?
– Bom, nunca achei que você prestasse atenção. E eu não compartilho tudo – confessei, abrindo um pequeno sorriso. Ela continuou andando ao meu lado, o que me fez dizer: – Eu torço pelos Magpies porque tive medo de que meu pai me odiasse se eu torcesse por outro.
Lily olhou para mim, curiosa. Eu nunca tinha confessado isso em voz alta, para ninguém, nem para Sirius, nem para Remus, para ninguém. De algum modo, eu me senti seguro por confidenciar isso a ela. E também mais leve... estive segurando aquilo por minha vida toda, e eu sabia que Lily não ia me julgar.
– Que foi? – perguntei, notando que ela ia me dizer alguma coisa, mas pensou duas vezes.
– Nada... é só que, bem, algumas crianças que vieram de uma família como a sua, quero dizer, uma família de puro sangue... têm medo de que os pais a odeiem por outra coisa.
Entendi o que ela quis dizer.
– Não, ele não tinha esse preconceito com trouxas, ou nascidos... – concordei. – Ele tinha uma idade muito avançada e acho que quando nasci ele acabou entendendo que existiam coisas mais importantes com o que me educar.
Ela estava olhando para mim.
– Que foi? – sorri. – Estou careca de novo?
Ela desviou o olhar para frente. Mudou de assunto.
– Michael saiu da ala hospitalar. Acho que deveria ir até ele e se desculpar pelo que fez, mas é só uma sugestão minha. Sei que nunca faz nada do que pedem.
– Faria tudo por você – eu confessei, sorrindo de lado. Eu tinha essa maneira de flertar com as garotas, mas só comecei a duvidar que isso dava certo quando passei a dizer essas frases a Lily, que nunca reagia da forma como eu esperava, como eu queria.
Notei que eu nunca disse nada daquilo a nenhuma outra garota. Nunca faria nada por nenhuma outra garota.
Ela segurava a alça da bolsa quando meio que a encurralei entre mim mesmo e a parede atrás dela. Queria tocá-la, queria senti-la. Beijar a boca dela como nenhum outro garoto faria. Eu estava louco de vontade por isso.
– Não faça nada por mim – ela disse. – Faça por ser a coisa certa.
Ela me fez pensar com isso. Ela me fazia pensar o tempo todo.
– Licença, James – pediu, mas não saí da sua frente.
Lily tentou me ultrapassar e eu agarrei o seu braço, literalmente jogando seu corpo delicado contra a parede atrás dela. Meu coração disparou, como se quisesse explodir dentro de mim, quando encarei aqueles penetrantes olhos verdes. Eu precisava disso. Precisava que ela soubesse que eu era louco por ela...
Senti o cheiro de morango antecipadamente, que vinha do seu cabelo, e meus lábios entreabertos ficou há dois centímetros de distância dos dela, quando suas mãos pousaram em meu peito e imediatamente me impediram.
Não me afastou com raiva, nem mesmo com náusea. Me afastou de susto. Sua expressão estava assustada, como se ela não estivesse mesmo esperando aquilo.
– O que está fazendo?
Eu queria explicar, queria mesmo, mas eu era péssimo com as palavras. Fui sincero com palavras diretas:
– Estou afim de você e quero te beijar.
Ela me afastou mais uma vez quando tentei me aproximar de novo, como se confessar aquilo tivesse mudado a vontade dela sobre me deixar beijá-la.
– E acha que tem o direito de me empurrar na parede mais próxima só porque você está afim?
– Bem, você estava conversando comigo e...
Lançava uns olhares diferentes.
– Só porque uma garota conversa com você não quer dizer que ela está esperando você enfiar sua língua na boca dela.
Ela estava muito alterada, colocando os cabelos para trás das orelhas o tempo todo que evitava meu olhar.
– Lily, eu quero mesmo sair com você um dia. Qualquer dia. Todos os dias... você não entende, eu estou–
Ela não estava escutando. Passou por mim como um furacão e desapareceu de vista. Fiquei parado no corredor e encostei a testa na parede, ouvindo os passos dela se afastando depressa.
Acho que estraguei tudo.
***
A verdade era que Michael Stebbins era um cara legal. Não mereceu o que fizemos contra ele, mas eu estava um pouco ferido por vê-lo com Lily, então nunca cheguei a me desculpar. Não era somente um Corvinal sabe-tudo, mas também Monitor como ela. O exemplo de aluno. O garoto perfeito.
– Ele é mais feio – Sirius queria me animar indicando todos os pontos negativos de Stebbins. Nem ele achou muitos.
Estávamos no Três Vassouras, com nossas cervejas amanteigadas para nos esquentarmos da noite mais fria do ano, véspera de Natal. Estávamos embalados com nossas roupas de inverno, cachecóis e gorros. O bar estava com as mesas lotadas com grupos de amigos e casais, porque ninguém queria passar o tempo lá fora.
– O que indica que Lily não se interessa pelas aparências – comentou Remus.
– Ele não é o Capitão do time de Quadribol. – Ao meu outro, Sirius insistiu em me ver para cima.
– O que indica que Lily não se interessa por jogadores.
– Isso é você tentando ajudar, Moony? – perguntei meio irritado.
– Estou querendo te fazer enxergar, cara, que o que você exibe de si mesmo para ela... não está funcionando.
– Começou a namorar Dorcas e está falando como ela – Sirius abanou a cabeça. – Casais.
– O que me lembra em perguntar... Marlene falou com você depois que vocês ficaram ano passado?
Sirius manteve-se sério.
– Está jogando alguma coisa na minha cara?
– Não – ele disse. – Só acho irônico que você caçoou ela durante todos os anos em Hogwarts e só ficou com ela por ter notado que ela está muito atraente...
– Atraente? Moony, ela está gostosa. Um nível a mais do que apenas atraente. E agora fica aí... dando amassos em todo o cara que vê pela frente.
Havia ciúmes aparente em sua voz, especialmente no olhar indiscreto que lançou a Marlene McKinnon agarrada a um cara do sétimo ano. Estavam se beijando para valer mesmo.
– Preocupado que ela se decepcionou com você, Padfoot? – caçoei.
– Ela adorou – ele disse. – Adorou ficar comigo. Eu curti também, então não entendi porque ela agiu como se não tivesse sido grande coisa.
– Ela apenas está evitando que você quebre o coração dela, Sirius.
Foi Dorcas Meadowes quem disse, no momento em que trouxe uma cerveja amanteigada para Moony. Eles trocaram um beijinho e ela se sentou ali com a gente, ao lado dele. Remus tinha magoado ela por dizer que teriam problemas se ela tivesse algum problema com a gente, mas no fim Dorcas notou que isso era verdade, e decidiu tentar a chance de nos conhecer melhor.
– Vocês são tão obtusos – ela girou os olhos por causa de nossa expressão confusa. – Marlene é apaixonada pelo Sirius desde o primeiro ano e tudo o que ela viu ele fazer até agora foi quebrar pobres corações. Ela só não quer ser a próxima, e está seguindo em frente com outros garotos.
– Eu não quebro pobres corações – ele disse. – Garotas apenas criam expectativas demais em mim.
– Você não pode exceder expectativas pelo menos uma vez? – perguntou Dorcas sorrindo.
– Por que é que você deixa ela sentar com a gente, Moony? – ele perguntou em um incômodo bastante sarcástico. – Olha, Meadowes, só excedi expectativas uma vez em minha vida. E foi no N.O.M’s.
Nem mesmo ela deixou de rir com a resposta de Sirius.
Mas nossas risadas foram cortadas por um grito potente que foi capaz de cobrir as vozes altas do Três Vassouras. E calá-las.
Uma garota saiu escancarando a porta do banheiro, trêmula da cabeça aos pés. Não parava de berrar desesperada. Depressa, eu e Sirius levantamos para ver o que estava acontecendo. Alguns recuaram assustados quando ela gritou:
– Tem uma garota morta no banheiro!
Começaram a correr para fora do Três Vassouras. Alguns ficaram para segurar a garota no momento que ela desmaiou ao constatar aquilo. Eu corri ultrapassando uma multidão que ia embora, assustados, mas corri na direção do banheiro feminino.
Quem era? Eu só estava me perguntando isso.
Quem era a garota?
Não pensando em mais nada, fui o primeiro que teve coragem de entrar no banheiro.
Senti o cheiro de magia das Trevas antes mesmo de ver o corpo caído dentro do toalete aberto. Seu corpo estava rasgado e o assassino se certificou de que ela não morresse pelos cortes, mas sim pelo colar que apertava ao redor do pescoço. A cor morta da pele indicava que fazia tempo que seu corpo estava ali. Mantive-me firme, firme por entender, compreender, que eu conhecia o corpo da garota.
Era Mary Macdonalds, nossa colega desde o primeiro ano. Nascida-trouxa.
Rosmerta entrou no banheiro junto com o professor Slughorn. Rosmerta fez um “não” desesperado. E Slughorn tinha a expressão desolada e imediatamente girou a varinha na direção do chão para limpá-lo. Depois retirou com um feitiço o colar contra o pescoço inchado dela.
Alguém abriu a porta e entrou depressa.
Era Lily. Eu me apressei a tirá-la dali.
– Sai daqui, por favor, não veja isso.
Ela fez uma expressão impaciente e me empurrou com força para se aproximar do toalete, do corpo de sua amiga Mary. Mas acabei segurando-a quando quase desabou.
– Srta. Evans, se afaste...! – Slughorn disse de um modo alarmante.
– Os olhos dela estão abertos – disse, e ninguém foi capaz de impedi-la de se aproximar para fechá-los ela mesma.
– Rosmerta, chame Dumbledore. Eu ficarei aqui vigiando o corpo da srta. Macdonalds. Preciso que vocês saiam agora – disse Slughorn, virando-se para mim, para Lily, Sirius e mais alguns estudantes curiosos. – Preciso que deem espaço, por favor.
Eu fui muito hesitante apoiar a mão no ombro de Lily, que não conseguia desviar os olhos de Mary ou sair do lugar. Fiquei bastante preocupado que ela fosse me socar por eu estar tocando nela, mas apenas virou o rosto para mim e disse baixinho como se precisasse se explicar:
– Não posso deixá-la.
Eu compreendi.
– Então não vamos deixá-la.
Slughorn não conseguiu vencer a discussão; Lily se recusava a deixar a amiga sozinha, então eu não deixei que ele a tirasse dali. Esperamos Dumbledore chegar com Hagrid e mais dois professores, incluindo McGonagall. Dessa vez não tivemos chance, fomos obrigados a deixá-los cuidar do corpo de Macdonalds sozinhos.
Não consegui dormir naquela noite. Peter ficou chorando baixinho na cama ao lado. Remus ainda não tinha subido para o dormitório, pois estava consolando Dorcas perto da lareira na sala. Sirius andava de um lado para o outro, inquieto, e eu ficava verificando cada canto do Mapa do Maroto, se tinha aluno em algum local suspeito naquele momento, provavelmente se escondendo.
No dia seguinte, Hogwarts inteira sabia por que ela morreu.
Todos os alunos que assinaram a lista de quem ficaria para o feriado de Natal naquele ano foram devidamente interrogados por Minerva McGonagall na manhã seguinte. Todos, inclusive os amigos de Mary. E, enquanto não recebia nenhuma resposta, nenhuma pista, interditou os passeios noturnos por três meses. Basicamente, então, naquele feriado, só pudemos ficar na Sala Comunal da Grifinória, especulando e discutindo.
– Vocês acham que alguém da escola fez isso? – perguntou Alice, baixinho. – Ou foi alguém que trabalha para Você-Sabe-Quem?
– Alguém que quer trabalhar para ele – disse Frank. – Talvez... não sei, essa seja a iniciação.
– Pode ser – concordou Sirius. – Matar algum trouxa ou nascido-trouxa para se reunir a Você-Sabe-Quem. Minha prima Bellatrix teve que fazer. – Ele pensou direito. – Ou ela só estava querendo se exibir para o lorde deles, porque não acho que meu irmão teria bolas para assassinar alguém. Régulus só gosta de se mostrar o verdadeiro sabe-tudo de Arte das Trevas, acho que ele só se reuniu para servir, no máximo, um chazinho a Você-Sabe-Quem. Se bem que meu tio...
– Er, já entendemos que sua família inteira é Comensal da Morte – disse Marlene, estremecendo um pouco.
– Não é mais minha família – ele apressou-se a dizer. – Fui deserdado, não faço mais parte disso. Eu nunca me uniria a Você-Sabe-Quem, não sou como eles.
– Sabemos disso, cara – eu disse, vendo seu desespero.
– É, Sirius – concordou Marlene, baixinho, olhando para ele. – Não se preocupe.
Sentada na poltrona, Lily mordia distraidamente um pedaço da manga cumprida do moletom, sem ter a mínima idéia de que tinha essa mania. Ela estava olhando para o vazio quando perguntou:
– Por que a Mary? Se o assassino procurava matar um nascido-trouxa, poderia ser qualquer um. Poderia ter sido qualquer outro aluno daqui.
Poderia ter sido ela.
Lily também estava pensando nisso, mas não transmitiu o pensamento em voz alta.
Tive vontade de me levantar da outra poltrona e ir até ela, apertá-la em meus braços para nunca mais soltá-la, impedir que algo de ruim acontecesse com ela.
Foi muito difícil me conter.
Não era um assunto que foi deixado de ser discutido em pouco tempo. Dumbledore fez um longo discurso na volta do ano letivo depois do ano novo, explicando sobre como precisamos nos apoiar a luz em tempos de trevas. O silêncio que reinava em Hogwarts era cortante, e ficou mais cortante ainda depois do que ele disse. “São as nossas escolhas que revelam o que realmente somos, muito mais do que as nossas qualidades.”
O correio coruja trazia o Profeta Diário diariamente, com informações sobre o assassinato de Mary Macdonalds – além de outros inúmeros crimes fora de Hogwarts.
– O quê? – ouvimos Lily exclamar inconformada na mesa do salão principal. Segurava o exemplar aberto do Profeta Diário da primeira semana de janeiro. Estávamos almoçando. Foi uma exclamação involuntária, pois corou imediatamente quando percebeu os olhares curiosos dos colegas que a ouvirem.
– O que houve, Lily? – Marlene perguntou.
– Um bruxo confessou. Ele disse que assassinou a “estudante nascida-trouxa de Hogwarts” por estar sob o efeito da Maldição Imperius durante sua estadia em Hogsmeade...
O pessoal que estava ao redor na mesa parou para escutar sua leitura da matéria. Ao fim dela, ficamos calados e absortos com a menção do uso da Maldição para fins mortais. Pessoas inocentes matavam sem a consciência... a forma mais injusta de ser incriminado por uma fatalidade.
– Não tem como escapar mais – murmurou Alice e Frank imediatamente envolveu um braço ao redor de seus ombros tensos. – Se os comensais começarem a usar essa Maldição em todo mundo... todos irão se ajoelhar a ele.
– E parece que o Profeta Diário está começando a fazer – murmurou Remus, fechando o seu próprio exemplar. – Não estão mais divulgando o obituário... estão ocultando informações de mortes e caça aos trouxas. Posso apostar que a matéria que Lily leu é totalmente para despistar o verdadeiro assassino...
– O Ministério, agora o Profeta Diário e assassinato em Hogsmeade... – Frank se lamentou. – Você-Sabe-Quem está tomando o poder em todos os lugares.
– Não em todos – eu ouvi minha voz sair alta. Eles olharam para mim. – Enquanto houver resistência, ele não vai nos atingir.
– Todos que dão resistências estão morrendo – argumentou Peter.
Sirius bateu o punho na mesa.
– Eles não estão morrendo, eles estão se sacrificando. E lutar por um ideal é o jeito mais nobre de se sacrificar, e não ficar aqui resmungando com uma batata cheia na boca, Peter! Ou escrevendo redações inúteis, Dorcas! Ou chorando, Alice! Isso não vai ajudar ou muito menos trazer os mortos de volta a vida.
– Vejam, nós achamos que o modo como se aproveitam os anos em Hogwarts pode ser uma grande perda de tempo – eu contei aos nossos colegas, limpando minhas mãos engorduradas pelo frango. – Claro, você precisa de notas excelentes para passar nos N.O.Ms, mas... vocês não estavam em Hogsmeade quando vimos um Auror duelar com um Comensal da Morte.
– Foi como ter visto o mundo lá fora – continuou Sirius. – Enquanto nós estamos aqui com a preocupação de receber notas. Não é isso que vai salvar o seu traseiro lá fora, Frank.
Frank estava absorvendo as palavras de Sirius.
– O que sugere que façamos? – perguntou Marlene. E ela parecia disposta.
– Não vamos ficar calados quando ouvirmos um sonserino ou qualquer outro aluno ofendendo um nascido-trouxa – eu dei a sugestão. – Mesmo que acabe levando uma detenção por azará-lo ou socá-lo na fuça. Sério, não tenham medo de detenção, uma vez que fica frequente chega a ser fácil aproveitá-la.
– Podíamos sugerir que o professor de Defesa Contra as Artes das Trevas nos ensinasse mais do que desarmar o oponente – disse Sirius. – E realmente nos ensinasse a derrubá-lo.
– Duelos – continuei, sabendo que tínhamos a atenção deles. – Tivemos algumas demonstrações ao longo desses anos, mas não será a mesma coisa se vocês um dia tiverem que enfrentar um Comensal da Morte. Ele não vai jogar uma azaração para fazer furúnculo pipocar na sua cara, os outros comensais vão debochar dele.
– Entendam, estamos no nosso sexto ano – Sirius olhou para cada um deles. Marlene, Dorcas, Emmeline, Lily, Frank, Alice. Todos olhavam atentamente para nós, inclusive Lily. – O ano que vem será o que? Rachamos nossas cabeças para os N.I.E.Ms, sendo que o verdadeiro teste é o que está acontecendo lá fora?
Alguém aplaudiu e Sirius virou o rosto. Não foi um aplauso caloroso, mas sim bastante irônico.
Avery e Mulciber se aproximavam da mesa da Grifinória.
– Bonitas palavras, Black – disse Avery. – Aposto que vai ser o próximo a morrer. Não, não – ele fez uma expressão pensativa e coçou o queixo magro. – Eu não acho que você será o próximo, acho que a sangue-ruim será a próxima.
Lily teve uma reação mais rápida do que qualquer um quando se levantou. Ela foi estúpida ou corajosa o suficiente para, no meio do Salão Principal – com Dumbledore e todos os funcionários olhando –, esticar o braço e apontar a varinha contra Avery. Os olhos verdes dela podiam ser de vidros, porque o encaravam friamente.
A mesa da sonserina debochou quando viu aquilo. Os demais alunos, apreensivos, se levantaram para observar o que estava acontecendo. O barulho dos talheres chocando-se contra os pratos parou e as vozes das conversas se calaram.
– Parece que chamou atenção para o Salão Principal inteiro, sangue-ruim.
Lily não se moveu.
– Olhe para mim – ela ordenou diante do sorriso escarnecido dele.
Notei que Avery estava mesmo tentando evitar contato com os olhos de Lily. O pedido dela foi tão intenso que o rapaz falhou no sorriso e agora a encarava com desprezo, os lábios tortos.
– Quando me ofender – continuou dizendo em seu tom calmo –, não ofenda como se estivesse com medo de mim. Com medo de eu ser mais bruxa do que você um dia vai ser capaz. Só vai me dar mais pena de você.
Avery fez um breve movimento, que foi interrompido com a voz de Lily:
– Se sacar a varinha agora, precisará contar a Voldemort que uma sangue-ruim o desarmou. Isso seria humilhante, então eu não correria o risco se fosse você.
O maxilar dele estava rígido. Ninguém mais estava rindo. Foi a primeira vez que ouvimos algum aluno dizer o nome de Você-Sabe-Quem sem tremer na voz.
Algum nascido-trouxa.
Eu era incapaz de desviar os olhos de Lily Evans naquele momento.
E acho que o Salão Principal inteiro também.
– Como ousa dizer o nome do Lorde das Trevas, sua sangue-ruim imunda? Mostre respeito! – disse Mulciber, tirando a varinha do bolso.
Um lampejo e a varinha dele, que só estava metade para fora de seu bolso, rodopiou até cair no molho de tomate sendo servido na mesa da Corvinal. Desapareceu dentro da panela.
Os aplausos vieram de todas as mesas (menos da Sonserina, que estavam estupefatos demais para tal coisa), inclusive das dos professores. Lily pareceu despertar de um transe, mas não sorriu pelo perfeito desarmamento não-verbal que fez. Ao invés disso, guardou a varinha.
E ultrapassou o Salão Principal para ir embora, sem esperar alguém segui-la. Sirius, cuja expressão era de alguém que havia visto Lily Evans pela primeira vez na vida, abriu um largo sorriso no rosto. Sacou a varinha e, com um aceno, fez a panela de molho flutuar até a cabeça de Mulciber e Avery, que não estavam conseguindo esconder as expressões humilhadas. Entenda, ninguém gostava de ser desarmado, especialmente na frente de Hogwarts inteira.
– Não se esqueça de pegar a varinha, Mulciber – disse Sirius.
Os aplausos se transformaram em risos quando a panela virou para o lado e os dois levaram um banho bem delicioso de molho. O problema era que estava apimentado, então os dois saíram berrando com as mãos nos olhos.
Eu não deixei de acrescentar a minha parte. Transformei as mãos de Avery em tentáculos, que se grudaram ao rosto. Gargalhadas para todos os cantos, inclusive de Remus, que nunca gargalhava com nossas azarações.
Os professores fingiram que estavam entretidos com conversas e eu podia jurar que Dumbledore estava cochilando em meio aquele tumulto todo.
Resumindo, voltamos para a Sala Comunal da Grifinória extasiados, comentando sobre o desarmamento de Lily. Meus amigos estavam tão entretidos em discutirem que só eu vi um cabelo ruivo entrando numa das salas vazias dos corredores. Sem avisá-los aonde eu iria, eu a segui.
Tive o breve desgosto, por um momento, de achar que ela poderia estar indo se encontrar com Michael Stebbins para darem uns amassos, mas passava longe de ser isso. Quando entrei na sala vazia, vi Lily sentada ao lado de uma garotinha do primeiro ano em cima da mesa do professor.
– Não vamos deixar nada acontecer com você – ela estava dizendo a garota, que tinha as mãos tampando o rosto. Os ombros dela chacoalhavam, indicando que estava aos prantos. – Confia em mim? Melinda, preciso que confie em mim e pare de chorar...
– Não... consigo... eu estou... com medo... eu quero... ir... pra minha... casa!
Lily me viu na porta e fez um olhar suplicante para mim, quando abraçou a menina pelos ombros. Eu estava angustiado, então dei alguns passos até elas.
– Oi, Melinda – eu disse. – Você tem uma varinha?
Ela tirou a mão do rosto porque ficou curiosa em ver quem era a nova voz falando com ela. Melinda assentiu com a cabeça, mas pareceu envergonhada por um momento. Foi quando Lily me mostrou sua varinha...
– Eu a flagrei quebrando ela – contou Lily. Estava partida ao meio.
– Eu... não quero ser bruxa... – explicou. – Eles dizem que não mereço ser... eu vou morrer por isso...
– Deixe-me ver – falei, estendendo a mão para receber as duas partes da varinha. – Meu Merlin.
– Que foi? – perguntou a menina quando joguei ela na carteira mais próxima, como se estivesse me queimando.
– Meu Merlin, essa é a varinha mais poderosa que eu já vi na minha vida. Veja isso! – imitei o sr. Olivaras. Eu sabia fazer ótimas imitações. – Pelo de unicórnio... 24 centímetros... e se você colocá-la o mais perto possível do ouvido... – aproximei a varinha perto do ouvido da garota – você consegue escutar o couro do dragão raspando. Fascinante, realmente fascinante...
– Não estou escutando nada – ela disse. Tinha parado de chorar para se concentrar em ouvir.
– Claro que está. Ouça, Lily. Não está escutando o couro do dragão também?
– Estou sim, James.
– Vocês acham que eu tenho cinco anos?
– Pelo jeito que você estava chorando...
– James! – ralhou Lily.
– Essa gravata que está usando, senhorita, é da Grifinória – eu disse, inclinando-me para ficar em frente ao seu rosto. – A casa dos destemidos, como meu pai sempre disse. Você está sendo destemida agora?
– Não...
– Você merece ser uma bruxa. Sabe como eu sei disso? Não é pelo seu sangue, não é pela família que você veio... é porque essa varinha pertence a você. Não tente destruir algo que pertence a você... só porque alguém te disse que você não merece. Tudo bem? – perguntei, estendendo a varinha rachada a ela.
Hesitou, olhando para os destroços.
– E você está aqui em Hogwarts para aprender a se proteger – continuei. – E eu conheço uma garota, talvez a garota mais brilhante que eu conheci em minha vida, que é nascida-trouxa como você. E... eu não acho que o mundo bruxo seria o mesmo sem ela. Não será o mesmo sem você, também, se sair de Hogwarts.
– Você acha? – ela limpou os olhos com a manga do uniforme. – Acha... acha que vou fazer alguma diferença aqui?
– Todo mundo faz. Então, Melinda, volte a ser bruxa para orgulhar a Grifinória com sua coragem.
Ela pegou a varinha de minha mão. Passou seus braços ao redor do meu pescoço e me deu um forte abraço. Saiu correndo dizendo que precisava enviar uma carta a mãe pedindo para comprar outra varinha. Voltou instantes depois porque havia se esquecido de abraçar Lily também.
Quando eu e Lily ficamos sozinhos, ela não saiu de cima da mesa, nem mesmo quando me sentei ao seu lado.
– Vou pedir desculpas a Stebbins – eu contei depois do nosso silêncio.
Ela cruzou os braços, fazendo um muxoxo. Achei que era para mim, desacreditada, mas na verdade foi por outro motivo.
– Aquele idiota covarde.
Assustei com o que ouvi, mas foi um susto bom.
– É tão bom te ouvir brava com outra pessoa, Evans. O que ele fez?
– Fugiu como uma garotinha assustada quando ouviu que Mary Macdonalds havia sido assassinada no Três Vassouras. – Disse aquilo muito inconformada, brava, decepcionada.
– Então garotos que fogem como garotinhas assustadas não estão na sua lista de homens dos seus sonhos.
– Não, definitivamente.
– Vou anotar.
Ela se deixou sorrir por um instante. Depois de um tempinho silencioso, talvez com nós dois pensando na mesma coisa... eu acabei dizendo:
– Escute, peço desculpa por ter tentado te beijar aquele dia. Daquele jeito. Foi inapropriado. Você não sente o mesmo que eu sinto, eu devia respeitar isso. Eu, nesse momento, dou a minha palavra... nunca mais vou te chamar para sair.
Quis acreditar que aquela expressão dela foi de decepção. Então acrescentei:
– Vou te fazer querer sair comigo. Porque eu não estava brincando quando eu disse que faria tudo por você.
Acho que fiz algo certo dessa vez, porque quando me aproximei um pouco apenas para inclinar meu rosto e encostar meus lábios na pele da bochecha dela, bem acima das inúmeras sardinhas, por menos tempo que eu desejaria mas por mais tempo que eu esperaria, ela não me empurrou.
Aproveitei sua permissão para acrescentar num sussurro:
– Você foi brilhante hoje, enfrentando Avery. Você é brilhante desde o dia em que a conheci. E sou apaixonado por você, Lily Evans.
Manteve-se muito calada depois que eu disse aquilo, mas não era como se eu dissesse para ela me responder de volta – eu só queria que ela soubesse disso, caso ainda tivesse alguma dúvida. Sorri antes de me afastar dela, o cheiroso perfume de seu cabelo ainda impregnando todas as minhas extremidades, para nunca me fazer esquecer. Ela trocou um olhar comigo e, só então, só então, eu girei meus calcanhares para sair da sala.
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