Prongs
13 Entre balaços e cachecol e um pouco de sorte
Notas iniciais
Uma vitória no Quadribol faria os alunos se despertarem para um pouco de alegria depois da terrível notícia sobre Mary Macdonalds. Como o Capitão do time, eu era responsável pela performance de cada um dos novos jogadores que coloquei. E eu estava apostando com a nova batedora...
– Marlene, não desconte o seu nervosismo nos alunos do primeiro ano – pedia Lily suplicante, enquanto as meninas se aproximavam dela na mesa da Grifinória para o café da manhã antes do jogo. Imediatamente, afastei meu corpo para o lado e esperei ansiosamente que Lily se sentasse no espaço.
E realmente se sentou, mas estava tentando acalmar uma Marlene McKinnon extremamente nervosa, zangada, impaciente, já com o seu uniforme, que não olhou para mim.
– Vai dar tudo certo – Alice prometeu, ao seu outro lado. – E se perderem...
– Não pense nessa possibilidade, Alice! – ela disse rispidamente. – Eu vou jogar pra ganhar. Não jogo por outra coisa!
– Ok, ok... Só estava dizendo que não é o fim do mundo perder uma partida...
– Marlene, desconte seu nervosismo na cara do Mulciber – eu disse e Lily se virou para mim, como se só tivesse percebido que sentou justamente ao meu lado naquele instante. Meu cabelo estava mais comprido então os fios rebeldes insistiam em cair no meu rosto. Quando me olhei no espelho, naquela manhã, estava incrível. Abri um sorriso inclinado para Lily. – Bom dia, Evans.
– Bom dia, Potter.
– Tem razão, James... preciso canalizar a minha raiva e soltá-la no jogo de hoje. Bem na cara daquele sonserino miserável! – Marlene olhou para o prato vazio e engoliu em seco. – Não sei se vou conseguir comer...
– Não sei por que está tão nervosa, Marlene – eu disse.
– Não sei por que você consegue ser tão calmo!
– Er, talvez porque eu sempre capturo o pomo de ouro? Relaxa! Aproveite. Seja confiante. Eu gosto de confiança no meu time. Você se saiu bem no primeiro jogo... sabe que joga bem.
– É que os sonserinos ficam zombando quando uma garota é batedora... vocês sabem do que eles acham de garotas...
– Acho que é bem sexy – Sirius disse em voz alta quando se sentou a frente de Marlene, no outro lado da mesa. – As mais nervosas são as melhores na cama.
– Isso foi tão inapropriado – Alice disse, embora estivesse sorrindo.
– Desde quando Sirius Black é apropriado, de qualquer forma? – brincou Lily.
– Só acredito que a honestidade é a melhor política – ele disse, sem se abalar. – Boa sorte hoje, McKinnon. Vou ficar te observando.
Deu uma piscadela, enquanto o pessoal da Grifinória tirava sarro dos dois. Mas Marlene, pela primeira vez naquela manhã, abriu um largo sorriso.
Eu tirei o sorriso do meu rosto para dizer inconformado:
– Eu achei que você só assistisse ao jogos por minha causa, Padfoot. Vou ficar chateado de não saber que está olhando para mim da arquibancada.
Elas deram mais risadas.
– Prongs, eu já tenho você por vinte quatro horas. Não seja egoísta, vamos deixar um pouco para as garotas também.
Foi bom ouvir a risada de Lily com as amigas ao meu lado. Desde a morte de Mary Macdonalds, eu reparei que ela estava séria e calada, mas ouvi-la rir fez com que eu me sentisse calmo e tranquilo para o jogo.
Quando o horário do jogo ficou próximo, fui com meu time até os gramados do campo de Quadribol. Torcedores passavam por nós para chegarem as arquibancadas, suas bandeiras da Grifinória já no ar, indicando que eles esperavam o melhor de mim e do meu time.
Falei para Marlene avisar ao time que os encontraria mais tarde, eu precisava fazer uma coisa antes, um ritual que adquiri desde o ano passado depois que meu pai morreu.
Afastei-me do pessoal que batia nas minhas costas para me desejar boa sorte e, em um canto sem que ninguém visse, eu tirei o cachecol da Grifinória, surrado e rasgado, que uma vez, há muito tempo, pertencera ao meu pai em sua época. As faixas douradas eram mais finas do que as que eram atualmente... Fui colocá-lo ao redor do meu pescoço, mas estava fazendo um calor muito insuportável.
– James? – a voz de Lily soou do outro lado. Passava com Alice por perto. Eu olhei para elas. – Não vai se aquecer para o jogo? – Ela reparou no cachecol e sorriu. – Está bem aquecido, pelo visto. Por que está usando um cachecol nesse calor?
O tecido começou a me coçar, mas eu não podia jogar sem a presença dele em campo. Meu pai nunca deixou de assistir a um jogo meu quando estava vivo...
– Preciso de um favor seu – eu disse, desenrolando o cachecol. – Use ele?
– Por que eu faria isso?
– Pois ele me pinica quando estou jogando, não posso usá-lo em campo.
– James Potter tem um amuleto da sorte? – ela disse, erguendo as sobrancelhas, enquanto sorria, e olhando de mim para o cachecol e do cachecol para mim. – Bom, se faz tanta questão...
– Não faço questão. Só é muito importante pra mim.
Nós nos encaramos por um tempinho. Ela viu o quão sério eu estava e, meio hesitante, estendeu o braço para pegá-lo de minha mão. Mas eu fiz outra coisa. Eu envolvi o cachecol por trás de sua nuca, as duas pontas opostas descendo por seus ombros. Eu sorri, quando isso a fez ficar um pouco próxima do meu corpo. Tinha ficado grande nela.
– Obrigado. Cuide bem dele, era do meu pai.
A expressão dela foi adorável. Como de alguém que havia sido designada a uma tarefa de proteger o tesouro mais precioso do mundo.
– James, não posso fazer isso... era do seu pai... Eu não posso, eu não tenho a permissão de usá-lo assim e...
– Ele não se importaria. – Sorri para Alice atrás dela, que estava com a expressão surpresa. – Até a festa de comemoração, meninas.
Mas não teve festa de comemoração. Apenas me lembrava dos primeiros minutos do jogo. Estava disputado e violento, como se a Sonserina não quisesse apenas ganhar, mas também machucar cada um de nós. Talvez eu não estivesse concentrado o suficiente, distraído com algumas coisas, porque não vi o balaço que chegou a minha direção. Diziam que o melhor jogador de Quadribol aguentava o balaço no rosto sem deixar de cair na vassoura. Por alguns minutos, eu consegui me segurar nela... mas foi no momento em que eu voava perto das arquibancadas, então a vassoura perdeu o rumo e chocou em direção a arquitetura de madeira. Perdi minha consciência ao sentir o gramado contra meu corpo.
Acordei algumas horas depois, na ala hospitalar, com Sirius, Remus, Peter e os jogadores do meu time ao redor da minha cama.
– Nunca achamos que esse dia chegaria, cara – disse Sirius com seu cabeção na minha visão embaçada. Senti a dor latejando na lateral do meu rosto.
– Nós... perdemos?
– James! – era a voz de Marlene. – James, eu sou horrível! Eu devia estar lá para te proteger, mas o idiota do Wilkinson segurou minha vassoura e me impediu... Ah, James, a culpa é toda minha!
– Mas não se preocupe – apressou-se a dizer Remus. – Já demos um jeito em Mulciber pelo balaço que ele tacou na sua cara.
– O que vocês fizeram? Me orgulhem – pedi.
– Sabe a Torre da Grifinória e aquela estátua com as espadas? Digamos que ele ficará por um bom tempo pendurado – disse Sirius. – Dependendo se a cueca dele for resistente.
Apesar de estarem nervosos, ele riram um pouquinho. Eu também abri um sorriso, feliz por eles terem aprendido bastante coisa comigo.
– Sem comemoração hoje? – eu perguntei fracamente.
– Bom, depende do seu ponto de vista, cara – disse Sirius e ele abriu um sorrisão. E depois contou: – Eu realmente nunca vi Lily Evans daquele jeito.
Sentei rapidamente na cama, ignorando os avisos dele sobre não poder me sentar na cama.
– Daquele jeito como?
– Tipo... realmente preocupada. Realmente nervosa. Realmente desesperada. Por você!
– Cadê ela?
– Eu não sei, Alice disse que ela correu depressa para a Sala Comunal quando viu o que aconteceu com você... Meu palpite? Foi chorar!
Eles estavam felizes por mim.
– Preciso ver ela...
– Madame Promfrey não vai deixar você sair – disse Marlene depressa.
– Sirius e eu sempre temos um plano para isso.
Levantei-me da cama e Sirius trocou de lugar comigo. Foi fácil dessa vez, porque a cama estava envolta de pessoas, então Madame Promfrey não reparou que era eu mesmo quem estava saindo daquele lugar.
Mesmo com dor de cabeça, zonzo com as poções, eu fui até a Sala Comunal da Grifinória.
Quando eu entrei, Lily se levantou depressa do sofá.
– Eu não mereço usar o cachecol do seu pai – ela falou baixinho. Havia dobrado-o com muito cuidado para então chegar perto de mim para devolvê-lo. Não conseguia me encarar, como se estivesse envergonhada. – Eu só dei azar... você se machucou. Desculpe, James, desculpe.
– Tudo bem, Lily...
– Não está tudo bem. Você não devia ter feito isso, foi uma responsabilidade imensa segurar o cachecol. Eu não era a pessoa certa. Devia ter deixado Sirius segurar, devia mesmo. E por que está sorrindo?
– Você é a pessoa certa – eu disse. – Só porque perdemos o jogo, não significa que o cachecol não tenha dado alguma sorte. Os caras da Sonserina queriam machucar, talvez algo terrível fosse acontecer se você não estivesse com o cachecol... a verdade é que ele é apenas uma presença do meu pai, quem me dá sorte mesmo é você.
Deve ter sido a pancada na cabeça. Soou bem patético, eu sei, mas Lily não riu.
– Jogo sempre pensando em ganhar por você – continuei. – Acho que hoje pensei demais e acabei me distraindo, mas a culpa não é sua se me faz sentir assim. Não se culpe.
Ela jogou os braços ao redor do meu pescoço e me abraçou. Fez isso de um jeito desajeitado, tanto que seu braço bateu em meus óculos e o tirou do apoio do meu nariz, mas não me importei. Ela me abraçou e estava cheirosa. Disse muito perto do meu ouvido, fazendo tudo em mim se arrepiar:
– Teria ganhado o jogo, James.
Apoiou as mechas do cabelo atrás das orelhas quando voltamos a nos olhar e, mordendo os lábios antes de abrir um sorriso, passou por mim para sair.
Nunca recebi um abraço dela quando venci, mas recebi quando perdi.
Vencer não era tudo.
Fiquei parado na sala e ajeitei meus óculos sobre a base do meu nariz. Olhei para o pano antigo das minhas mãos, dobrados por Lily com sua gentileza. Acho que o cachecol do meu pai me deu mais sorte do que eu esperava.
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