Prongs

14 A força de um Patrono


Notas iniciais
Capítulo grande dessa vez para recompensar o pequenino anterior! Para quem nunca conheceu o conto que a J.K Rowling escreveu do James e do Sirius, LEIAM: http://potterish.com/2008/06/leia-a-historia-dos-marotos-escrita-por-jk-rowling/ Não podia deixar de escrever esse conto na própria visão do James, no começo do capítulo (e aproveitar para introduzir a moto do nosso amado Padfoot!) :) Boa leitura!

"Ela começou a sair com ele no sétimo ano, depois que James sossegou e parou de azarar as pessoas só para se divertir." – Harry Potter e a Ordem da Fênix

***

Era possível que uma motocicleta mágica fosse mais veloz do que uma vassoura de corrida. A que Sirius comprou nas nossas férias de verão de 1977 excedia os limites de velocidade dos radares de Londres.

A Triumph Bonneville possuía um ronco mais poderoso do que os de Peter e seus motores eram largos e potentes. Sirius dirigia com um sorriso maravilhado no rosto, como se seu sonho estivesse sendo realizado. Quando alcançamos uma velocidade impossível, ele berrou todo o ar de seus pulmões. Eu o acompanhei, sentado como carona no side-car, segurando com toda a força até as extremidades dos meus dedos ficarem brancas.

O motivo da pressa? Estávamos sendo perseguidos por três Comensais da Morte. Nada de bom acontece quando você bisbilhota o Caldeirão Furado tarde da noite, ou bebe uísque de fogo demais.

– Acha que os despistamos? – gritei.

– Tem uma luz vermelha e azul nos seguindo!

Olhei para trás. Era um carro.

Pudemos escutar o som alto da voz do policial como se ele estivesse falando em um mega-fone.

– Parem o veículo, imediatamente!

Sirius demorou um pouco para obedecê-lo. Não teria obedecido se a rua que entramos na cidade não tivesse um beco sem saída. Sirius freou tão rápido que a moto quase derrapou, mas ele não deixou que colidíssemos com a parede de tijolos. Fiquei meio zonzo quando estacionamos, mas só chacoalhei a cabeça e passei a mão nos cabelos, sorrindo pela adrenalina.

O veículo da polícia trouxa parou, os pneus raspando pelo asfalto. O beco era apertado para as portas de ambos os lados se abrirem, então os dois caras que saíram do veículo tiveram certa dificuldade para isso.

– Saiam da moto!

Foi como ouvir McGonagall, porém mais bigoduda e pesada. Por isso, quando Sirius e eu obedecemos ao comando do policial, tínhamos um sorriso no rosto que pareceu enfurecê-lo ainda mais.

– Sem capacetes! – gritou apontando para nossas respectivas cabeças. As luzes azuis do carro ofuscavam nossa visão. – Excedendo o limite de velocidade por uma... considerável quantia! Não parando para a polícia!

– Nós adoraríamos parar para um papo – eu disse, ajeitando os óculos. – Só que estamos tentando-

– Não seja insolente comigo, estão encrencados! – gritou o segundo policial. – Nomes!

– Nomes? – Sirius franziu a testa, pensativo. – Er, bem, vamos ver. Existe Wilberforce... Bathsheba... Elvendork...

– E o legal desse aí é que você pode usar para menino ou menina – eu acrescentei.

O segundo policial lançou um olhar furioso.

– Ah! Os nossos nomes, você quis dizer? – perguntou Sirius. – Devia ter dito antes. Esse aqui é James Potter e eu sou Sirius Black!

– As coisas vão ficar seriamente pretas para vocês em um instante, seus insolentezin-

Uma movimentação atrás deles nos alarmou. Três pontos na escuridão do beco indicavam que os comensais do Caldeirão Furado estavam se aproximando... Só podiam ser eles, já que estavam voando em nossa direção no estreito beco, com vassouras.

Os policiais não viram.

Sirius e eu sacamos as varinhas por um reflexo rápido. Isso despertou os policiais:

Baquetas? Engraçadinhos vocês, não? Certo, estamos prendendo vocês sob a acusação de...

Com o aceno da varinha de Sirius, o carro se ergueu por suas rodas traseiras. Os policiais se embolaram com a visão disso, caindo no chão. Foi bem na hora que ouvimos três baques ensurdecedores, indicando cada um dos três idiotas se chocando de encontro ao carro.

Isso nos deu vantagem. Voltamos para a motocicleta. Sirius pulou no assento e ligou novamente o motor. Com o queixo despencado, o policial conseguiu nos encarar.

– Muito obrigado! – a voz de Sirius se fundiu a engrenagem. – Te devemos uma!

– Sim, foi muito bom conhecê-los! – eu disse. – E não se esqueçam. Elvendor! É unissex!

Sirius girou o guidão e pegou vôo pelo céu do beco. Escapamos por pouco.

Nossas férias de verão foram assim. Sirius não voltou mais para a sua família, uma vez que ele havia sido deserdado, e decidiu encontrar um local para morar sozinho com o dinheiro que ele herdou de um de seus tios que não o odiava. Além de uma moto, é claro.

Com a nossa vontade de fazer alguma diferença nesse mundo, entramos em encrencas com Comensais da Morte, então a última coisa que eu estava esperando era receber aquela coruja de Hogwarts, logo no fim de agosto. Trazia consigo uma caixinha e, dentro dela, um distintivo.

Sirius, que passava os últimos dias de férias em casa, viu o que eu estava segurando e se levantou tão depressa que tropeçou. Olhou assustado para o distintivo.

Era de material dourado, revestido com as iniciais “MC”.

– Dumbledore deve ter achado que Moony está passando as férias aqui – eu quis me convencer disso diante da expressão de Sirius.

Mas a coruja ainda tinha mais um envelope. Quando o abri, não escondi minha surpresa.

Prezado Sr. James Potter,

Sinto orgulho em nomeá-lo o novo Monitor-Chefe da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Fique atento para os horários e as regras contidas nesse envelope. Lembrando que sua função como Monitor-Chefe deve ser exercida a partir do dia 1º de Setembro, nem um dia a mais e nem um dia a menos. Espero um bom e proveitoso trabalho.

Diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts,

Albus Dumbledore.

– Bom, aqui está a prova concreta de que ele está ficando mesmo caduco, coitado – lamentou Sirius enquanto analisava o distintivo sob a luz do sol refletida da janela do quarto. – Nomeando Prongs como o Monitor-Chefe! Ele sabe quem você é e o que andou aprontando nesses últimos anos, por acaso?

Peguei meu distintivo de volta de sua mão.

Ele se assustou com minha expressão.

– Você está lisonjeado! – notou horrorizado.

– Dumbledore está confiando em mim, como não posso ficar lisonjeado? Depois de tudo o que a gente aprontou...

Ele cruzou os braços, dando um sorrisinho.

– Só está feliz assim porque sabe que obviamente Lily pegou o posto de Monitora-Chefe e vocês andarão juntinhos esse ano.

Ele fez as pontas dos dedos de suas mãos se tocaram, simulando beijinhos, bem idiota.

– É um bônus, caro Padfoot, é um bônus.

Se isso acontecesse há dois anos provavelmente eu estaria debochando de mim mesmo. Mas naquele ano não. Pousei meu distintivo em minha mesinha perto da cama e todas as vezes que eu passei por ele, parei para olhá-lo com certo orgulho. Meu pai ficaria feliz, e faltou isso aqui para minha mãe pedir para o Profeta Diário anunciar a novidade.

Eu fui nomeado o Monitor-Chefe pelo diretor em pessoa – eu poderia dar ordens, ser o exemplo, ser admirado e mostrar a Lily Evans que eu não era mais o cafajeste, tirano e arrogante que ela conheceu nos nossos primeiros anos de Hogwarts. Seria uma ironia, entretanto, dar o bom exemplo. Eu não fui, digamos, um bom exemplo para ninguém.

Remus não ficou chateado quando eu lhe contei que Dumbledore me nomeara o Monitor-Chefe, no dia que nos reencontramos no trem para a última viagem a Hogwarts. Peter tinha franzido a testa e comentado:

– Mas achei que Moony seria o escolhido!

Remus apenas deu uma risada.

– Eu também achei. Mas acho que entendo a escolha de Dumbledore. Quem sabe designando essa responsabilidade a você, finalmente tome jeito, Prongs.

– Lembrando que uma vez Maroto... sempre Maroto. Nossas noites de Lua Cheia não vão acabar – prometi a eles.

– E azarações?

– Passinhos de bebês, amigos, passinhos de bebês. Só porque tenho um distintivo não quer dizer que vou virar o maior exemplo de responsabilidade em Hogwarts de repente.

Foi logo na primeira manhã de Hogwarts que eu senti o peso do distintivo em meu peito enquanto andava pelo corredor movimentado.

– Arrume os cadarços! Sou Monitor-Chefe, não me encare desse jeito. Você aí, não me deixe vê-lo puxando o cabelo daquela menina de novo. Ei! Não corra perto de mim! Já quer que eu tire dez pontos da Sonserina no primeiro dia de aula? E cem pontos a mais para você, meu lírio, por iluminar o caminho com essa beleza estonteante.

Lily cruzou os braços quando paramos um de frente para o outro no meio do corredor. Eu abri um largo e orgulhoso sorriso, quando estufei o peito e fiz questão de que ela observasse o brilho do meu distintivo. Lily estava linda, os cabelos soltos e os brincos delineando os melhores traços delicados do rosto, especialmente seu nariz fino. Senti falta dela naquele verão. Três meses sem vê-la era tempo suficiente para observar certas mudanças e melhorias, não somente em sua postura, como também em seu corpo. Ela também carregava o distintivo no peito. Olhei para a região, com um sorrisinho, depois voltei a encarar seus olhos, que eram ainda mais atraentes.

– Eu não sou seu lírio, Potter. E já abusando do poder? – ergueu as sobrancelhas.

– Apenas aproveitando oportunidades, Evans, apenas aproveitando.

Ela descruzou os braços e começamos a andar juntos, lado a lado, mesmo ritmo. Eu me sentia poderoso naquele momento, fazendo algo ao lado de Lily Evans.

– Preparada para nossa primeira ronda como os Monitores-Chefes mais atraentes que Hogwarts já teve?

– Meu Deus, você está mesmo empolgado. Achei que eu teria que arrastá-lo para as tarefas.

– Tantas coisas que ainda não conhece sobre mim – soltei um suspiro teatralmente. – Qual é a nossa missão?

– Bom... temos que observar o andamento dos novos monitores do quinto ano. Se eles estão seguindo as regras e tudo o mais.

– Sim. E depois?

– Escrevermos um relatório sobre os rendimentos de cada um deles. Quantas detenções eles deram? De que forma eles resolveram alguma situação... essas coisas.

– Escrever? – vacilei um pouco. – Essa parte é só com você, né?

– Não, essa parte é nossa. Você escreve a dos monitores, e eu escrevo a das monitoras. Precisamos enviar esses relatórios ao diretor no fim de cada mês.

– Ah, eu sabia que o poder sempre vinha com algum preço.

Ela abriu um sorrisinho.

– Achei que o preço maior para você pagar seria, afinal de contas, ter que seguir regras, uma vez que passou sete anos ignorando a existência delas.

– Bom, há certos sacrifícios que valem a pena. Passaremos mais tempos juntos e eu não trocaria isso por nada.

– Não posso negar, é verdade que teremos que nos aguentar. Por isso espero que se comporte.

– Ei, você está olhando para o Monitor-Chefe agora, e não somente o bonito, bem-humorado, Capitão do time da Grifinória, mestre em azarações, James Charlus Potter.

– Mais uma coisa para exibir – lamentou, embora não soasse nervosa.

O tempo todo fiquei com uma vontade incontrolável de beijá-la, profundamente. Sentir o gosto da boca dela na minha, de saber como era o beijo dela. Passava de curiosidade a necessidade, mas desde aquele dia que ela me impediu de seguir com os meus impulsos... prometi a mim mesmo que me controlaria e não daria um passo sequer sem ter a plena certeza de que ela cederia. Por isso, mesmo que fosse um sacrifício, eu me contentava em conversar com ela, tentar mantê-la sorrindo pelo máximo de tempo. Não era o suficiente, mas, pelo menos, era melhor do que tê-la me olhando de uma forma desgostosa e reprovadora.

Minha prioridade, naquele ano, era manter Lily Evans o mais perto de mim. E se isso significasse mostrar algum tipo de responsabilidade, então que seja. Eu tentaria parar de azarar qualquer um pela frente... ou, como sendo esse um costume difícil de largar, evitaria que ela me encontrasse fazendo isso.

O sétimo ano em Hogwarts nunca prometeu ser um ano tranquilo, e realmente não foi. Sempre consegui manejar meu tempo para as lições, para as excelentes notas e para aprender novos feitiços, adquirir habilidade e sempre buscar a utilidade do Mapa do Maroto. Mas as minhas obrigações como Capitão do time de Quadribol e Monitor-Chefe estavam ocupando o tempo livre que usualmente tivemos ao longo dos anos, então não tínhamos tempo nem para ficarmos entediados. McGonagall sugeriu que eu passasse o posto de Capitão para alguém do sexto ano e acho que ela ficou bem nervosa quando eu disse que ela estava ficando caduca se achava que eu ia fazer isso. "Posso dar contar, professora."

E realmente dei conta.

O namoro de Dorcas com Remus pareceu, de alguma forma, juntar nossos respectivos grupos de amigos no final de semana em Hogsmeade. Aproveitávamos causando gargalhadas em Rosmerta, que parecia nunca se cansar de nossa presença.

Talvez Sirius estivesse mais maduro ou mais alto, porque Rosmerta lançava olhares provocadores a ele. Aceitava com muita boa vontade os flertes e, certo fim de semana, ela pediu para Sirius ajudá-la no estoque do Três Vassouras. Consertar alguma coisa... Não soubemos o que foi, mas soubemos que resultou em Sirius saindo de lá com a camisa virada do avesso.

– Um cavalheiro nunca se gaba das suas conquistas – citou, quando voltou a se sentar a mesa e viu nossas expressões. Eles tinham ficado tempo demais dentro daquele local.

De alguma forma, quando Sirius sorriu e bebeu a cerveja indicando tudo o que ele fez com Rosmerta sem precisar de palavras, Marlene foi embora.

– Prongs, estou preocupado com você – ele disse para mim uma vez. Eu estava tocando uma gaita que comprei em uma loja trouxa nas férias. Eu só sabia assoprar, não saía um som muito legal, mas era divertido. – Somos melhores amigos, já te contei tudo o que fiz com algumas garotas... E você está enrolando. Enrolando pra transar. Quero dizer, veja a Helena Jones. Quis voltar com você duas vezes desde o ano passado mesmo depois que você deu o pé na bunda dela. E agora tem essa garota do quinto ano que parece ter um fetiche por você... toda hora quase te mostrando o sutiã, e você fica aí tocando essa gaita estúpida e suspirando Lily Evans.

Depois que ele terminou de despejar aquilo para mim, eu apenas fiz um longo som no instrumento. Isso o fez pegá-lo da minha boca e tacá-lo longe, para fora da torre, chegando a quebrar o vidro da janela do nosso dormitório. Nunca mais vi aquela gaita.

– Sou seu amigo, Prongs. Sei que gosta da Lily, cara... e ela é uma garota legal, mas... sei lá, talvez você esteja perdendo tempo...

Gosto da Lily? – estreitei os olhos, levantando-me. – Não me interesso por outra.

– Não me leve a mal, tenho o maior respeito por ela, principalmente depois do jeito que ela desarmou o Mulciber. Só não quero ver você aí na punheta, cara.

– Era gaita.

Ele riu.

– Mesma coisa. E se você cedesse pra safadinha do quinto ano? Só uma vez. Botar ciúmes na Evans, quem sabe... Ouvi dizer que Roran McBride já chamou ela pra Hogsmeade no Halloween... e ela vai com ele, Prongs.

Roran McBride. O artilheiro da Corvinal. Um dos meus rivais no meu esporte predileto, saindo com a garota que eu queria?

Comecei a respirar pesadamente. Isso se canalizou em um ciúme poderoso, forte o suficiente para eu começar a sentir raiva e, sem pensar, andar depressa pela Sala Comunal mesmo sendo três horas da madrugada. Não pensei, sentindo raiva de Lily, raiva por um motivo que eu não sabia explicar, tanta raiva que eu não me importei em ir até o seu dormitório feminino e bater na porta. Três batidas. Seis. Doze.

– O QUE VOCÊ QUER!?

Ela abriu a porta e sua expressão era de intensa raiva e incômodo.

Meu punho parou bem no ar.

Eu tentei continuar com raiva dela, tentei mesmo. A forma como ela parecia estar ignorando o meu esforço... a forma como ela nunca cedia facilmente... parecia que estava me fazendo de idiota. E ainda, queixando-se por eu ser um arrogante numa vassoura, ia sair com o idiota do McBride! McBride! Ele se exibia na vassoura tanto quanto eu. O pior disso tudo? Ele. Nem. Sequer. Era. Bom! Eu, pelo menos, era excelente. Tinha motivos para me gabar, para me exibir. Ele não.

Mas quando ela abriu aquela porta, toda essa raiva sumiu. Meu peito ficou bem pesado. Ela estava com os cabelos despenteados – geralmente penteava-os liso e perfeito, mas vê-lo daquele jeito despretensioso era absolutamente sensual – e o rosto contraído de sono misturado com a raiva por ter sido acordada. A alça do pijama fino deslizou por seu ombro nu, indicando que ela não tinha nada embaixo do tecido...

Ela era magnífica. Não podia culpar outros caras por quererem ter essa visão o tempo todo. Podia culpar a mim mesmo... por ser um idiota, alguém que achava que ela deveria gostar de mim. Ela não precisava... sentir o mesmo que eu sentia. Ela não tinha nenhuma obrigação.

Mas eu precisava ter certeza. Ter certeza de que eu teria alguma chance, em algum momento.

– Potter! – ela chamou outra vez, muito cansada. – O que você quer?

Eu vou tentar. Eu vou tentar de novo. Se ela me empurrar, juro que vou desistir. Juro que vou desistir dela.

– James, quando você recuperar sua voz, me acorde outra vez às três horas da manhã para NADA, ok? Boa noite.

– Lily? – a voz abafada de Alice chamou dentro do breu do quarto delas. – Quem é que ta aí uma hora dessas...?

Mande embora, Lily! – era a voz nervosa de Marlene.

Lily olhou para elas, colocando a alça da blusa para cima do ombro novamente. Isso me despertou. Ia responder alguma coisa, fechando a porta, mas fui rápido.

Eu a puxei para fora de seu quarto e a encostei na parede ao lado da porta. Ela era delicada. Lily olhou para mim bem séria. Ela pareceu ter acordado de repente; o sono não existia mais.

Até aquele momento ela não me empurrou. Eu verifiquei todos os traços do seu rosto, mas demorei mais nos lábios. Não fui apressadamente até eles... Com as duas mãos segurei cada lado de seu rosto, afogando os dedos numa parte do cabelo ruivo despenteado.

Seu olhar não estava mais correspondendo ao meu, porque tinha se direcionado para a minha boca. Ela estava verificando a minha boca, se ela se aproximaria... se eu ousaria.

Foi um momento fantástico. Ela cederia. Ela ia beijar também.

Ela estava fechando os olhos antecipadamente, mas os abriu depressa, num susto. Sobressaltados, fomos interrompidos quando a porta da Torre se abriu e era Minerva McGonagall trazendo um grupo de meninos do primeiro ano que, claramente, foram pegos tentando explorar o castelo. Ela estava ralhando com eles.

Nos afastamos depressa. Lily limpou a garganta e tirou o cabelo do rosto. Lançou uns rápidos olhares para mim antes de descer as escadas e ajudar McGonagall a levar os garotos de volta para o dormitório deles, porque ela era uma Monitora-Chefe muito dedicada.

Na manhã seguinte, na mesa da Grifinória, estávamos bastante cordiais um com o outro.

– Pode me passar a colher, Potter?

– Claro, Evans. Me passe a xícara, por favor?

Quando fui alcançar o chá, ela tentou o mesmo e as pontas de seus dedos roçaram as costas da minha mão. Imediatamente ela levou uma mecha do cabelo para trás da orelha. Nesse momento, Marlene lhe perguntou alguma coisa, e ela forçou um sorriso.

Ela manteve-se bem rígida e calada durante as aulas daquela manhã. Estive observando ela o tempo todo, na primeira carteira. Houve um momento na aula que Slughorn lhe fez uma pergunta. Ela corou vagarosamente.

– Desculpe, professor, poderia repetir a pergunta, por favor?

Nunca achei que o fato de sermos populares entre nossos amigos fosse, de alguma forma, nos atrapalhar. Assim que o período das aulas terminou, fui tentar alcançá-la em sua mesa para conversarmos, mas Sirius apoiou seus braços em mim para me contar uma novidade, Peter começou a fazer perguntas e Moony queria me mostrar alguma coisa... No caso de Lily, as amigas não pararam de sugerir onde deveriam passar a tarde no sábado de Halloween e queriam a opinião dela. Eles nos afastaram para lugares opostos.

Finalmente, o horário da ronda chegou.

Estávamos bem silenciosos, absortos, Lily com as mãos juntas à frente do corpo e eu com as minhas nos bolsos. Sabia que ela estava pensando que, se McGonagall não tivesse entrado naquele momento, ela teria me beijado na noite anterior.

– Ouvi dizer que McBride irá lhe comprar umas cervejas amanteigadas amanhã em Hogsmeade – puxei assunto olhando para os dedos. Odiava silêncio.

– Ouviu dizer?

– É uma fonte confiável.

– A mesma fonte que espalhou para Hogwarts que Emmeline Vance tinha adquirido Varíola de Dragão nas férias passadas?

Piadinha de mal gosto a do Sirius, só porque Emmeline Vance espalhou para as meninas que Sirius Black não era tudo aquilo na cama.

– Então não é verdade?

– McBride pode ter sugerido a oferta.

Por que estávamos falando tão cordialmente? Aqueles distintivos não estavam nos fazendo bem.

– Mas não aceitei – ela acrescentou, antes que eu transparecesse minha decepção.

Olhei para ela ao meu lado.

– Então não sou o único que sofre com as suas rejeições. Isso é reconfortante, de algum modo. Eu seria intrometido por perguntar o motivo dele ter merecido sua rejeição?

– Sim, seria – ela disse com muita sinceridade. – Mas desde quando você se importa em não ser? A princípio falei que eu pensaria na possibilidade de sair com ele, mas depois que ele espalhou para os amigos que eu realmente ia sair com ele, bem, não tive mais vontade.

– Babaca.

Ela continuou olhando para frente. Mordeu os lábios, respirou profundamente e finalmente disse:

– De qualquer forma, eu não poderia ir a Hogsmeade amanhã, já que o professor Slughorn estará fazendo uma festa de Halloween do clube.

Não sei por que mas toda vez que ela vinha com esse papo do clube do Slugue eu tinha vontade de rir.

– Uma festa de Halloween? E vocês vão vestidos do quê? De pequenos Slughorns? Seria tão fofo. E iriam ficar numa rodinha ali tomando seus chazinhos e contando sobre seus feitos admiradores! Além disso, posso até imaginar, aquele Wilkinson tentando te chamar pra dançar e você, toda pomposa-

– Pois caçoe – ela disse dessa vez brava. – Continue caçoando, James, ele deu a permissão de convidarmos alguém que não fosse necessariamente parte do clube... Bem que eu gostaria de ver a sua cara ao se divertir por lá.

– O que quer dizer com isso?

– Apenas acho que você quebraria a sua cara de deboche se soubesse que o Clube do Slugue pode ser-

Eu parei de andar, aproximando-me dela, ficando a sua frente.

– Não. O que quer dizer com isso? Isso é um convite? Lily, não brinca comigo.

– Bom, até seria um convite se você não tirasse tanto sarro-

– Eu disse que o Clube do Slugue é uma coisa ruim? Eu nunca disse, de fato, amo o Clube do Slugue.

Ela girou os olhos.

– Lily – eu disse de novo. – Isso é mesmo um convite?

– Eu só quero que você pare de caçoar.

– Quer outra coisa também, quer sair comigo. Você quer sair comigo.

– Olha, não venha tirando satisfação agora... não estrague tudo. É só um simples convite! Não gosto que caçoe do Clube e gostaria de dar a oportunidade de você conhecê-lo melhor.

– Por que isso seria tão importante para você?

Não faça perguntas, James! Aceite! Lily Evans. Quer. Sair. Com. Você.

– Não sei – mentiu Lily, pois ela sabia. Fechou os olhos como se estivesse lutando contra um monte de coisa dentro dela. – Talvez... talvez... eu também queira dar uma oportunidade a você... Potter, só diga sim ou não.

Olhei profundamente para ela, passei um dedo pela mecha do seu cabelo, e eu disse:

– Você só pode ser louca de achar que ainda preciso responder. Eu não consigo dizer não pra você. Não quero dizer não para você. Nem que eu for esmagado por um trasgo, nem que amanhã, por algum motivo, eu pegue varíola de Dragão de Emmeline Vance, nem que eu seja atropelado por um testrálio, nem que um hipogrifo apareça hoje a noite no meu dormitório para me-

– James – ela me interrompeu e sua expressão era de alguém que estava tentando não sorrir muito. – Deu pra entender... Nos vemos amanhã então.

E se afastou depressa, mesmo que a ronda não tivesse terminado.

Eu estava louco para gritar ao mundo que Lily Evans ia sair comigo, mas me contive. Depois que ela recusou sair com McBride por ele ter espalhado para todo mundo que ia sair com ela e, só por isso, ela perdeu a vontade, eu não podia fazer nenhuma besteira até lá.

Mas comecei a meio que desconfiar que ela tivesse recusado McBride por outro motivo... Ela não estava interessada nele.

Aquela sexta-feira foi lua cheia, portanto Sirius, Peter, eu e Moony corríamos pela Floresta Proibida até os locais mais longes e extremos do terreno de Hogwarts. Passamos boa parte da noite em uma colina que nos dava a visão privilegiada do horizonte. Estava iluminada pela lua cheia. Se eu estivesse em minha forma humana nesse momento, eu estaria sorrindo, apreciando a paisagem. Eu não era de ficar apreciando paisagens, mas era impossível deixar de imaginar se Lily estivesse ali naquele momento, vendo o que eu via...

A beleza da paisagem, em alguns minutos, tornou-se obscura. As gramas começaram a perder sua cor viva e eu tive a pior sensação da minha vida. A sensação de que eu estava caindo infinitamente de uma vassoura, a sensação de que mais alguém, naquele castelo, morreria. Meus olhos de cervo captaram movimentos suspeitos. Sirius também teve essa impressão, pois olhou para a mesma direção, farejando.

Vultos negros, no máximo meia dúzia deles, aproximavam-se. Vultos que não tinham pernas, estavam flutuando por cima do extenso lago que, com a passagem deles, tornava-se negro e sem vida.

Moony fez um uivo e fugiu, o lobo espantado com a aproximação dos Dementadores. Por isso me senti seguro para voltar a ser humano. Apanhei minha varinha e gritei:

Expecto Patronum!

Foi na primeira tentativa. Eu ainda não havia adquirido habilidade para fazer um Patrono, impossível me concentrar na lembrança mais feliz. O estranho foi que ao ver o cervo prateado saindo de um feixe de luz na ponta da minha varinha, eu não estava me concentrando em lembrança alguma.

Eu só estava... feliz. Eu estava pensando em Lily Evans.

Meu Patrono é um cervo. Como minha forma animaga. Como a forma masculina do Patrono dela...

O cervo trotou em direção aos dementadores que se aproximavam para sugar a felicidade de Sirius, ainda em sua forma animaga. Não vi Peter em lugar algum.

Mas eram vários Dementadores, meu único cervo não sustentaria o poder de espantá-los. Enquanto três dissipavam, mais dois aproximavam-se fantasmagoricamente. Todas as minhas forças se esgotaram, e minhas pernas bambearam. Tive a sensação de ir ao enterro de todas as pessoas que eu amava e que eu nunca mais fosse ser feliz em minha vida... eu queria morrer...

Mas posso ter subestimado o poder do meu Patrono... Depois que a sensação desapareceu, dando lugar a uma angustiada sensação de pesar, percebi que meus sentidos começaram a falhar e, então, tudo escureceu.

No próximo momento que acordei, estava sentindo um peso estranho e foi quando me deparei com uma bola de pelos negros deitado na cama da ala hospitalar, bem ao meu pé. Era o cão negro. Era Sirius.

Ainda parecia ser bem cedo de manhã, pois o sol não estava iluminando o local. Madame Promfrey estava conversando com alguém, as vozes aos cochichos. Por que Sirius ainda estava em sua forma animaga?

Dumbledore surgiu da escuridão do canto da ala, onde conversava com Madame Promfrey, e se aproximou de minha cama.

– Boa noite, sr. Potter. Encontrei o cão trazendo-o pela Floresta Proibida, meio que o arrastando pela perna já que estava desmaiado. O que aconteceu?

– Demen... dementadores – eu respondi sem pesar a consequencia. Ele perguntaria o que eu estava fazendo a uma hora dessas na Floresta Proibida e descobriria sobre mim e meus amigos. – Meia dúzia deles... aproximando-se de Hogwarts...

Alarmado com a informação e sem nem mesmo duvidar dela, deu ordens rápidas a Madame Promfrey e, sem discutir, ela saiu depressa de sua ala hospitalar.

– Consegui espantar alguns – falei, sentindo dor de cabeça. – Mas... não foi o suficiente...

– Foi o suficiente. Não vimos nem um sinal de dementador pela escola. Mas acredito que esteja falando a verdade. Um Monitor-Chefe nunca mentiria...

Dizendo essas palavras, levou seus dedos para passarem a mão no cão deitado aos meus pés.

– O melhor amigo do homem – disse apenas com um breve sorriso. – Coma um pouco de chocolate, Potter, irá lhe fazer bem... podem voltar para o dormitório, não precisam passar a madrugada aqui.

É claro que Dumbledore sabia.

Olhei para ele, agradecido por não fazer perguntas. Mas eu queria fazer.

– Professor...? Por que Azkaban enviaria seus dementadores para o castelo?

– Ótima pergunta. Tenho minhas suspeitas de que é um aviso.

– Aviso?

– Voldemort quer tomar Hogwarts – ele disse. Havia tensão em sua voz. – Poderia estar esperando um ataque surpresa de seus dementadores, mas parece que o senhor o atrapalhou nesse plano. Por isso, e apenas por isso, não vou perguntar qual é o nome do cão.

Voldemort quer tomar Hogwarts. Por que isso não soou uma novidade? É claro que ele tentaria... já havia tomado poder nos jornais, nas casas, nas ruas, no Ministério e também podia atacar a qualquer momento a vila de Hogsmeade outra vez se ela não estivesse sendo guardada por Aurores ao redor dela.

Moony estava envergonhado quando voltou para o dormitório, o corpo arranhado novamente. Ele não adquirira mais a mania de se machucar como lobisomem desde o momento em que nos tornamos animagos, mas dessa vez não pareceu se controlar.

– Foi um instinto... quando vi os dementadores... precisava ir embora o mais rápido...

– Tudo bem, Moony...

– Vocês estão bem? – olhou de mim para Sirius, em sua forma humana deitado na cama.

– Com a sensação de que nunca mais vou ser feliz na vida – ele disse sombriamente.

– Eu também estou com ela – confessou. Dizendo isso buscou alguns pacotes de chocolates em seu malão, comprados desde a última vez que visitamos a Dedosdemel. Ele deu um pedaço para cada um de nós. Aos poucos, fui me sentindo bem melhor. – Onde está Peter?

– Fugiu logo que viu os dementadores. Nem ficou para ajudar. – Sirius parecia inconformado.

Peguei o Mapa do Maroto e tentei encontrar seu nome.

– Ele está aqui – eu disse. – Está na cama...

Embaixo da cama. Um rato gorducho estava trêmulo, roendo alguma coisa, desesperado. Quando ergui o edredom, ele saiu em disparada.

– Não está conseguindo voltar a forma humana – reparei. Com o reflexo que eu tinha pelo Quadribol, peguei-o pelo rabicho quando passou perto do meu pé. Entreguei o restante do chocolate para o rato e, em alguns minutos, Peter voltou a ser o Peter.

– E-e-e-eu assustei... Sirius, eu não q-quis fugir...

– Moony não controla os instintos dele em forma de lobisomem, mas você controla, Peter. Sabe que não pode abandonar os seus melhores amigos porque ficou apavorado.

– M-mas... o jeito que eles... chegaram... eu nunca tinha visto dementadores! N-não sei fazer o Patrono...

– Deveria ter tentado, pelo menos!

– N-não sou corajoso como vocês! – ele disse depressa. – Confesso, sou um covarde e-

– Não, Peter – eu disse diretamente. – Confessar a covardia é querer que a gente sinta pena de você. Não vai rolar. Nós entendemos que precisou se esconder... da próxima vez, tente alcançar mais coragem, ok?

Ele assentiu com a cabeça.

– Os próximos planos de Você-Sabe-Quem podem envolver Hogwarts – disse Sirius olhando para Peter. – Segundo o próprio diretor. Então Hogwarts precisa dos corajosos, e esses somos nós, da Grifinória. Você também é um, Peter, então aja como um.

– V-vou agir, me desculpem. Não farei mais isso... não abandonarei vocês...

– Descanse um pouco – Sirius disse, amenizando a expressão. – E pegue mais chocolates.

A caminho do Salão Principal para tomarmos café da manhã, Sirius se sentiu seguro para dizer:

– Estou preocupado com Peter. Acho que desde a morte da Mary Macdonalds ele tem agido assim...

– Assim como?

– Ele está mais assustado. Eu acho que ele começou a compreender o que é essa a guerra em que estamos... Entender o que Você-Sabe-Quem é capaz de fazer...

Os rumores de que Dementadores tentaram invadir os terrenos de Hogwarts circulou rapidamente entre os alunos. De algum forma, notaram que éramos os envolvidos nisso, então, durante a tarde toda, no Salão Comunal da Grifinória, eu e Sirius contamos uma história convincente de como vimos e interditamos a chegada deles, sem envolver Moony e o nosso segredo.

Não tinha me esquecido que havia uma festa de Halloween para ir com Lily Evans na noite de sábado. Sirius me emprestou sua jaqueta trouxa quando eu me queixei que não tinha nem uma fantasia, então quando Lily me viu descendo as escadas para nos encontrarmos perto dos sofás, ela franziu a testa.

– Isso é uma fantasia?

– Sou um guitarrista trouxa – falei depressa. – E você? Uma bruxa sexy?

– É a minha roupa normal, James. Não precisamos ir de fantasia a festa.

– Estou certo, de qualquer forma – sorri para ela o meu melhor sorriso e fiz um gesto para atravessarmos a porta.

Enquanto saíamos, todo mundo do Salão Comunal exclamou atrás de nós:

– Tchau, bom encontro!

– Tchau James!

– Boa sorte aí James!

– Conte os detalhes para nós depois, Lily!

– Lily sortuda!

– Vão monitorar o armário de vassouras essa noite!

Lily estava vermelha quando alcançamos o corredor para irmos até a festa do Clube do Slugue, mas eu estava sorrindo.

– Sirius não deixa passar uma – eu comentei, percebendo que ela estava linda ao meu lado. Usava uma saia que não era do uniforme da escola e seus ombros estavam aparecendo por causa da blusa de manga cumprida. Ela tinha sardinhas por ali também, o que me deixou hipnotizado. Ela estava usando um colar. Nesse colar, tinha um anel. Eu imediatamente falei: – Bonito colar, Lily.

Ela olhou para ele. E então sorriu.

– Ganhei esse anel da minha mãe.

– Por que não o usa no dedo?

– Porque ganhei a corrente do meu pai – respondeu, ainda com o sorriso que eu adorava em seu rosto. – Queria usá-los juntos.

– Bem pensado. Você está linda.

Eu sempre a provocava com esse elogio, só para ver a reação dela, mas essa foi a primeira vez que ela sorriu verdadeiramente para mim. Porque eu disse apenas com a necessidade de que ela soubesse.

Ah, cara, eu queria beijá-la. Por que ela parecia ter um escudo que me impedia de ser impulsivo e agarrá-la ali mesmo?

Porque não era assim que as coisas funcionavam com ela.

– Posso lhe fazer uma pergunta? – ela questionou de repente.

– Sempre.

– Se o que você e Sirius disseram sobre os dementadores é verdade, como conseguiu se livrar deles? Quero dizer, eram seis.

Estava ela impressionada?

Jamais admitiria, é claro. Por isso falei com sinceridade:

– Consegui conjurar o Patrono naquele momento. Acho que finalmente encontrei um pensamento suficientemente feliz para me concentrar.

Ela não perguntou que pensamento era aquele. Perguntou algo melhor.

– E como é a forma do seu patrono? Você conseguiu ver?

– É um cervo – eu sorri, já imaginando a reação dela.

– Coincidência – ela disse depressa, rígida.

– Acho que não.

– Pois é sim, não é possível

Fui impulsivo minha vida toda e não estava mais aguentando.

Ela não me empurrou dessa vez, muito embora tivesse as palavras que ia dizer ainda presas nos lábios, porque saiu um som de sua garganta, um som breve e cauteloso, quase um gemido, que me deixou maluco quando eu virei seu rosto para mim e a beijei. Nós paramos imediatamente de caminhar para darmos atenção aquilo.

Os lábios dela não me decepcionariam. Na verdade, eram melhores do que eu esperava, do que eu sonhava. Eu os apertei com os meus, sentindo o gosto dela, o gosto natural dela... Era possível escutar nossas respirações pesadas enquanto tentávamos encontrar um modo de apoiarmos nossas mãos em algum lugar. Ela segurou uma parte da jaqueta em meu corpo, depois eu desviei minha mão até sua cintura, a outra afogada em sua nuca, despenteando os cabelos soltos e ruivos. Nossos corpos se colaram, eu precisei de ar, então com a boca entreaberta afastei-me da sua. Mas quis voltar depressa para ela.

Ela me provocou por um tempinho, afastando os lábios quando tentei capturá-los para mim de novo. Abri meus olhos, frustrado, e vi que ela estava sorrindo. Ela fazia de propósito, então? Ela me deixava louco de propósito? Depois me torturou, pressionando o meu lábio inferior entre os dela, sugando-o lentamente.

Eu não queria soltá-la nunca mais.

Com um breve movimento da minha língua, rocei a fragilidade do lábio superior dela até que ela pudesse me ceder uma passagem dentro de sua boca. Com uma satisfação que só foi controlada quando a encostei na parede, ela correspondeu ao toque da minha língua com a sua, quente e macia. Quando elas se entrelaçaram, notei que sua mão estava despenteando os cabelos espetados da minha nuca.

Ela me soltou primeiro, embora devagar, depois do que me pareceram dias, meses, anos. Tinha afastado a boca para dizer alguma coisa, mas não conseguiu. Eu cortei o silêncio e encostei a testa na dela.

– Ainda temos uma festa pra ir.

Ela me corrigiu baixinho:

– Ainda temos um encontro. Não me decepcione.

Mordeu os próprios lábios vermelhos pela pressão do meu beijo, erguendo os olhos verdes para mim como se estivesse me desafiando. Voltamos a seguir o caminho até a festa, lado a lado, respirações tentando voltar ao normal, os lábios formigando de calor e excitação; eu louco por mais um beijo seu, embora soubesse que não seria assim tão fácil.

Se eu enfrentasse um dementador agora, ele não teria a força para afastar aquela sensação boa que perdurou em mim por tanto tempo. A sensação dos lábios, da língua e das mãos de Lily Evans.

Notas finais
Finalmente, finalmente, finalmente. Queria que fosse diferente, queria que Lily o chamasse para sair quando realmente quisesse sair com ele, sem o clichê do "sai comigo, Evans?" "sim, claro!" porque não imagino que tenha sido assim! E ainda mais para uma festa que James CAÇOAVA? É a maior ironia de todas! Bom.... tomara mesmo que tenham gostado desse capítulo, eu não aguentava mais esperar para escrever eles se beijarem! E ainda teremos o próximo e o próximo e o próximo... o sétimo ano deles promete :)