Prongs
5 O que acontece em Hogsmeade FICA em Hogsmeade
Notas iniciais
"Nunca se via um sem o outro, não é mesmo? O número de vezes que os dois estiveram aqui, aah, me faziam rir o tempo todo. Uma dupla incrível, Sirius Black e James Potter!" – Madame Rosmerta, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban.
***
– ... e é por isso que bruxos há três séculos usaram a magia da transfiguração para... Sr. Potter e sr. Black, silêncio em minha aula, por favor.
Ergui a mão depressa, afastando-me da carteira de Sirius e voltando a olhar para frente.
– Professora, tenho uma dúvida.
Ela ergueu as sobrancelhas, pois não achou que estávamos prestando atenção na aula. Acalmou-se com ar de quem não estava com muito bom humor naquela manhã, para perguntar pacientemente:
– Pois não, Potter?
– Quando vamos aprender a nos transformar em animais?
Ao ouvirem minha pergunta, meus colegas observaram McGonagall com expectativas. Ela não conseguiu ignorá-los, porque respondeu:
– Certamente não no terceiro ano. A arte humana de se transformar em um animal exige aplicação de um avançado estudo de Transfiguração que, em poucos casos, o sucesso é obtido.
– Então nem todos têm a habilidade para ser um animago? – perguntou Sirius.
Ela olhou com um ar curioso. Sirius Black e James Potter fazendo perguntas? Essa era nova.
Acho que foi por isso que ela continuou:
– Isso vai além de habilidade, sr. Black. Tornar-se um animago exige uma concentração mental que só adquirimos com maturidade. Observem.
Sempre ouvimos boatos de que Minerva McGonagall conseguia se transformar em um gato. Ela, então, demonstrou que eram boatos verdadeiros. Ela estava ao centro da sala quando sua figura humana rapidamente diminuiu de tamanho e se transformou em um felino preto com manchas arredondadas nos olhos.
O gato deu um salto para a carteira de Peter, que imediatamente olhou assustado – Peter tinha medo de gatos – depois subiu a carteira de Evans, e ela sorriu encantada. A maioria dos alunos observou com grande admiração. Eu nunca havia me impressionado com um professor desde o próprio Dumbledore.
McGonagall pulou de carteira em carteira até voltar a sua mesa no fundo da classe, os olhos curiosos e admirados de todos os alunos acompanhando os saltos. Sua forma humana voltou sentada atrás da mesa com a postura exemplar e ereta. Ajeitou os óculos na face e não escondeu um sorriso satisfeito quando começamos a aplaudir. Até nos liberou de uma leitura, porque depois de sua transformação a classe ficou dispersa.
– Aquilo foi incrível – comentou Sirius enquanto caminhávamos para a próxima aula, de Adivinhação. – O jeito que ela se transformou! Pareceu ser bem fácil...
– Por que vocês estão curiosos com isso? – perguntou Remus.
– Veja bem, você se transforma todo mês. Acabamos nos sentindo deslocados – eu disse e ele deu uma risada sarcástica. – Sirius e eu estávamos pensando que se nos transformássemos em algum animal...
– Péssima idéia – ele disse já imaginando nossa intenção. – Por isso acho que vocês vão tentá-la.
– McGonagall disse que não é fácil – lembrou Peter. – Pode demorar anos...
– Por isso vamos começar o mais cedo – eu disse, baixinho, quando alguns alunos passaram por nós. – Teremos que passar um bom tempo na biblioteca.
– Não vou precisar me preocupar então – disse Remus ajeitando a gravata no colarinho. – Vocês nunca passariam mais do que dois minutos na biblioteca por vontade própria. Ou passariam? – preocupou-se.
– Não duvide do James quando ele quer alguma coisa – disse Sirius, observando indiscretamente uma moça do sétimo ano passar desfilando por nós quatro, sem dar a mínima atenção para nossa existência.
Ela ajeitava os cabelos loiros escuros e ondulados enquanto conversava com um rapaz da mesma idade. Ainda estávamos observando a moça quando alguma coisa puxou a saia dela para cima. Tivemos uma visão que melhorou a nossa manhã. Sem pensar duas vezes, a moça deu um tapa na cara do rapaz e se afastou dele, completamente zangada e ofendida.
– Que foi que eu fiz?! – exclamou indignado e a seguiu desesperadamente.
– Muito maduro, Sirius – comentou Moony, sorrindo, quando Sirius pigarreou disfarçando e guardando a varinha. – Com certeza uma mente desenvolvida para ser um animago.
– Nunca perde o encanto, vocês não acham?
– Quem era aquela? – perguntou Peter.
– Muita areia para o caminhãozinho do Sirius, é claro – eu respondi dando um tapinha consolável em seu ombro. Conhecia aquela expressão dele. A de que tentaria enfiar a língua na boca dela na próxima vez em que se encontrarem, mesmo que ela fosse mais velha que qualquer um de nós e não se interessasse por garotos de 13 anos.
– Meu caminhãozinho é maior do que pensam.
– Não que pensamos no seu caminhãozinho. Muito menos no tamanho dele. Mas, cara, tem meu apoio.
– Acha que Mary Mcdonalds pensa no meu caminhãozinho? – Peter suspirou no exato momento em que passamos ao lado da nossa colega da Grifinória. Ela fez um aceno para nós e começou a andar em nossa direção. Aterrorizado com a aproximação da garota, Peter ajeitou a gravata e gaguejou alguma coisa parecida com “olá, oi, como vai” misturados em uma só palavra, que foi ignorada quando Mcdonalds entregou um convite na minha mão, sem dar sinal de que sabia da existência de Peter.
– Esse é o convite da festa do meu aniversário sábado no Três Vassouras – contou, eufórica. – E não diga que eu disse isso, Potter, mas Layla Stevenson da Corvinal está doida para jogar sete minutos no paraíso com você. Bem, foi o que eu a ouvi dizendo no banheiro feminino essa tarde.
– Que jogo é esse? – perguntei, e julgando pela expressão de Mcdonalds, parecia ser absolutamente imperdível.
Duvido que fosse melhor do que Quadribol.
– Oh meu Deus, vocês não sabem? – ela colocou a mão na cintura e riu como se fossemos inocentes. – Bem, não me admira já que é mais um jogo que os trouxas costumam jogar em festas. Você e uma garota são escolhidos para ficarem sete minutos dentro de um armário, no caso o de vassouras, e podem fazer o que quiserem lá dentro. Repito: o que quiserem. – Voltou os olhos para Sirius e acrescentou especificamente com um sorriso: – Você também foi convidado, Black. Lupin, se quiser também ir... Tchau, meninos.
– E eu? – Peter perguntou desesperado.
Mas Mcdonalds se afastou com as amigas, sem olhar para ele.
Eu me enganei. Era melhor que Quadribol.
– Quem é Layla Stevenson? – perguntou Sirius.
Passei a mão pelos cabelos, sorrindo.
– Isso importa?
Ela queria passar sete minutos no paraíso comigo.
– Importa se você não quiser ficar preso com uma garota por sete minutos se ela tiver mais acne do que Johanna Shaw da Sonserina – disse Sirius Black, seriamente, no instante em que passava ao lado de McKinnon. Ela fez um muxoxo incrivelmente alto ao ouvi-lo dizer aquilo. Sirius não notou. – Precisamos estabelecer uma regra antes de irmos a festa da Mcdonalds. Se formos escolhidos com alguma garota feia ou sonserina, fingimos que estamos passando mal e saímos. Fechado?
– Fechado.
Não descobri quem era Layla Stevenson até a tarde de sábado em que fomos a Hogsmeade. Peter ficou cabisbaixo a semana inteira por não ter sido convidado por Mary Mcdonalds, mas decidimos levá-lo para a festa mesmo assim. Passamos três anos indo a qualquer lugar juntos, não parecia certo deixá-lo entediado na sala comunal sozinho.
Quando Mcdonalds o viu no momento em que entramos juntos pela porta do Três Vassoura, ela correu perguntar a Sirius:
– O que ele está fazendo aqui? Ele assusta as meninas!
Peter estava fingindo se concentrar em suas cutículas, porque a garota não teve nenhuma preocupação em diminuir o tom de voz. Sirius, então, colocou um braço nos ombros da garota e, o que quer que tivesse falado em seu ouvido, fez Mary Mcdonalds mudar de idéia e dar uma risadinha.
– Tudo bem então.
Provavelmente Sirius deve ter combinado alguma coisa com Mary Mcdonalds, e descobrimos o que era quando a menina se postou a frente do pessoal do terceiro e quarto ano, e começou a anunciar o jogo mais esperado da festa.
Percebi que eu estava ansioso, procurando com o olhar alguma garota do quarto ano que pudesse estar a fim de mim. De preferência, bem bonita.
– O primeiro casal para estrear sete minutos no paraíso será – Mcdonalds tirou um pedaço de pergaminho do copo vazio de cerveja amanteigada – Marlene McKinnon e Peter Pettigrew.
Foram só risadas e exclamações, quando Marlene se levantou com um desespero claro. Peter quase teve um infarto de excitação. Sirius pediu mais cerveja amanteigada para aproveitar aquele momento de vingança contra sua maior rival de Quadribol.
Mas parecia que fugir do jogo era covardia e, grifinória do jeito que era, McKinnon aceitou o desafio ao entrar no armário de vassouras do pub com Peter. Enquanto os sete minutos passavam e a curiosidade de saber o que estava acontecendo nos deixava mais ansiosos, uma garota se aproximou de mim.
– Oi.
– Oi – eu disse depressa.
Ela era alta e atraente. Tinha olhos azuis, o cabelo cumprido até a cintura e uma tiara. Eu retribuí o sorriso.
– Aquele é o seu amigo que entrou com a McKinnon?
– E eu sou James Potter.
– Eu sou Layla. Estou no quarto ano. Quer comprar uma bebida para mim?
Esqueci como se dizia “não”. Pedi duas cervejas amanteigadas e, no momento em que elas chegaram, Marlene e Peter saíram do paraíso.
Sirius parou de rir imediatamente quando viu o sorriso idiota do rosto de Peter quando ele se aproximou da gente, todo avoado.
– McKinnon te beijou? – Sirius não parecia acreditar, esticando o pescoço para ver a garota voltando a se sentar em uma das mesas, com a expressão indecifrável, ignorando os garotos tirando sarro dela.
– Ela disse que se eu encostasse um dedo nela, quebraria todos os meus ossos, esmagaria meus testículos e os daria para a Lula Gigante. Ficou os sete minutos me ameaçando...
– Então por que ta com esse sorriso?
– Eu fiquei sozinho com uma garota por sete minutos!
Sirius abanou a cabeça, tristemente. Mas disse:
– Bom pra você, Peter.
Mais três casais foram anunciados, incluindo Remus e Dorcas, Sirius e a própria Mary Mcdonalds (Mary voltou a fechar a porta quando abriram para eles saírem, incapaz de largar Sirius Black tão cedo), até que finalmente chegou minha vez:
– Agora... o próximo casal é James Potter e Layla Stevenson!
Risadinhas acompanharam o momento em que eu bebi todo o líquido da cerveja amanteigada em segundos. Layla pegou meu pulso quando apoiei o copo vazio no balcão e ela fez questão de me levar até a porta do armário. Sirius levantou os polegares em aprovação e Remus sorria. Mas acho que ele sorria porque devia ter ganhado o primeiro beijo de sua vida, com Dorcas.
Uau, que sorte, pensei. Layla Stevenson era mesmo muito bonita. Quando entrei com ela no armário de vassouras, não pude ver seu rosto porque estava escuro, mas ela estava cheirosa.
– Oi – ela disse de novo e notei que a voz estava baixinha e ansiosa.
– Oi – repeti, sentindo um calor que passou pelo meu corpo inteiro.
– Então... Sete minutos para fazermos qualquer coisa.
– E o que você quer fazer? – perguntei pateticamente.
Senti a aproximação dela, como se ela estivesse dando sua resposta. Achei que eu deveria dar a minha e um instinto me levou a colocar minhas duas mãos na cintura dela. Condenei-me por notar que minhas mãos começaram a suar, principalmente quando ela colocou os braços ao redor do meu pescoço.
Depois, foi difícil descrever.
Eu tinha treze anos e minhas únicas experiências com beijos foi com Eleanor Rogers, que tinha sido úmido e não mais de três segundos, e no ano passado quando uma garota do primeiro ano me roubou um selinho de surpresa, quando eu a defendi de um idiota que a chamou de sangue-ruim.
Nada até aquele momento teve comparação com o beijo que dei em Layla Stevenson, um ano mais velha e da Corvinal, dentro do armário de vassouras, depois de três copos de cerveja amanteigada. Fiquei bastante preocupado com o meu rendimento, principalmente quando começou a envolver nossas línguas, mas acho que acabei me saindo muito bem. Foi uma disputa sem qualquer tipo de sintonia, eu estava afobado, ela abria muito a boca, e eu inclinava minha cabeça fazendo o beijo ficar desajustado, mas isso não quis dizer que eu não estava curtindo. E ela também. Minhas mãos não tinham saído do lugar, porque estavam bem paralisadas. Eu só movia o músculo da minha boca contra a dela, que era macia e tinha gosto de sorvete.
Foi o meu primeiro beijo de verdade. E, por isso, me senti incrível quando terminou.
– Acho que ainda deve ter mais uns minutos sobrando... – eu comentei quando ela deu uma risadinha e se apoiou no meu braço para então abrir a porta do armário.
Nós saímos juntos e ela não quis se livrar de mim. Eu queria ir até Sirius e Remus para contar como tinha sido, você sabe, dessa vez tiveram mais detalhes, mas Layla me puxou para uma mesa do Três Vassouras, pediu que a levasse para um encontro, ignorando as risadas e as provocações de nossos colegas. Passei aquela tarde só com ela, descobrindo se havia mais algum casal se formando por causa do jogo, e, depois de nos despedirmos com mais beijos, eu estava de humor relativamente bom ao voltar para a Torre da Grifinória. Quase cantando.
Esbarrei em Evans na entrada da Sala Comunal da Grifinória, que estava saindo no instante em que eu queria entrar.
Eu estava tão de bom humor que fiquei provocando ela perto da Mulher Gorda. Quando ela deu um passo para a direita ao tentar se desviar de mim, eu dei um passo para direita, bloqueando a passagem dela.
Até que ela perguntou com preocupação:
– Nossa, Potter, você consegue sair da minha frente ou é mentalmente incapaz disso?
– Noite linda, Evans – sorri largamente.
– Não sei como está vendo, se nem enxerga que tem uma pessoa querendo que saia do caminho dela.
Ela ameaçou se desviar de mim, mas eu não ia deixar tão fácil. Estiquei meu braço, apoiando a mão na parede ao nosso lado, impedindo-a de sair. Pelo menos até eu tirar minha curiosidade.
– Não estava na festa da Mcdonalds no Três Vassouras? Foi bem legal.
– Se não sair da minha frente, Potter...
– Eu vi McKinnon por lá. Você perdeu Frank e Alice saindo do armário de vassouras, pareciam dois pimentões. Estão apostando que eles se beijaram, o que você apostaria?
– Você está mesmo tentando puxar papo comigo?
Dei de ombros, sorrindo.
– Não posso?
– Oh, claro que pode. Com quem está interessada. Licença?
Dizendo isso de forma bem ácida, Evans fez um breve aceno com a varinha na direção do meu braço que a bloqueava da saída. Sem mais paciência para me aturar, conjurou um feitiço.
Não consegui tirar minha mão da parede. Minha palma estava grudada com cola. Olhei admirado, ainda mais depois que Evans passou por mim sem esforço.
– Evans – exclamei, olhando-a por cima do ombro, tentando inutilmente descolar minha mão da parede usando a outra, que acabou se grudando em meu braço também. Agora eu não podia nem pegar a minha varinha para me soltar. – Evans, estou impressionado. Acabou de me azarar? Nada mal, nada mal mesmo.
– Tem uma mancha bem aqui – relatou.
Por um reflexo eu tentei passar minha mão na região, mas não consegui porque, claro, elas estavam grudadas na maldita parede! Evans escondeu um riso vingativo no rosto, me vendo tentar limpar minha bochecha com o ombro, bem patético. Quando notei a mancha rosa na minha manga, abri um sorriso propositalmente arrogante.
– Ah, é só batom.
Depois disso Evans não se importou em desfazer a azaração e foi embora. Tive que esperar uma alma bondosa me ajudar a descolar minhas mãos com feitiço. Ou seja, durante uma hora precisei ouvir o pessoal da Grifinória entrando e saindo sem deixar de perguntar “Quem te grudou aí, Potter?” ou “Quem é que conseguiu te azarar desse jeito? Cem pontos para a Grifinória!”.
E Evans ainda teimou que foi merecido.
Hogsmeade era a vila mais movimentada entre os alunos do terceiro ao sétimo ano de Hogwarts. Era somente diversão quando passávamos uma tarde de sábado na Zonko’s, comprando doces na Dedosdemel, apreciando o gosto exótico, quente e delicioso de uma cerveja amanteigada no Três Vassouras (e também a dona do bar, Rosmerta, uma moça jovem indiscretamente bonita e sedutora que tinha a atenção disputada por todos os garotos que entravam lá). Buscávamos a sorte de ver alguma briga corpo-a-corpo entre bruxos bêbados no Cabeça de Javali. As garotas da nossa idade sonhavam em serem levadas para um dos locais mais românticos da vila, Madame Puddifoot, então era o motivo de fofoca e risadinhas toda vez que um novo casal se formava em Hogwarts. “Vi os dois saindo da Madame Puddifoot semana passada! De. Mãos. Dadas.” A mais fofoqueira do nosso ano era Emmeline Vance e foi ela quem espalhou para todo mundo que eu, James Potter, estava namorando, mesmo que eu nunca tivesse feito pedido algum para Layla ou ela tivesse mencionado que me queria como namorado.
Foi durante o terceiro ano que as meninas e os meninos começaram a se misturar. Não existia mais a rígida idéia de que meninas deveriam andar somente com meninas e vice-versa. Claro que muitos ainda eram tímidos para correr atrás, mas não se existia timidez para nós: Sirius e eu. Peter repelia garotas e Remus era tão tapado que ele nunca reparava que, quando uma garota pedia suas anotações emprestadas, queria dizer que ela estava paquerando, e não interessada na matéria.
A professora de Adivinhação confiscou uma troca de bilhetinhos entre Emmeline e Dorcas no meio de uma super interessante aula sobre xícaras. Aquele momento me acordou e me fez limpar a baba. Professoras nunca chamavam atenção das meninas, então era um espetáculo quando isso acontecia.
Sem nenhum pingo de sensibilidade, a professora pigarreou para ler para a turma toda:
– ‘Vou pedir para o Lupin sentar ao meu lado amanhã. Será que ele vai querer?’ – pegou o outro pergaminho na mão. – ‘Vamos ler isso nas xícaras, é mais interessante do que saber se vai chover. Que matéria chata.’ Ora, muito obrigada, srta. Vance. Dez pontos a menos para a Grifinória – acrescentou ao olhar indignado e constrangedor de Dorcas, que tentou a todo custo não olhar para trás, onde Remus estava sentado em dupla com Sirius.
– Você tem que falar com ela! – insistíamos a ele durante uma tarde no Três Vassouras.
– Qual é o problema, afinal de contas? Não acha que a Dorcas ficou... bonita? – perguntei, apalpando dois seios invisíveis de forma pomposa. – E vocês se beijaram na festa da Mcdonalds!
– Não chamaria aquilo de um beijo – ele disse constrangido. – Quero dizer, não sei. Olha, eu não posso...
– Todo mundo pode. É fácil, é só fazer um biquinho assim e esperar ela se aproximar. – Para zoar, Sirius aproximou o biquinho na bochecha de Remus, e ele o empurrou, enquanto gargalhávamos com os efeitos dos copos de cerveja amanteigada.
– Olha só, o Ranhoso! – exclamou Peter apontando diretamente para uma das mesas no Três Vassouras. Girei minha cabeça nessa direção para ver Snape sentado sozinho, olhando para as mãos, o ombro caído, e o cabelo seboso escondido em um gorro. – Oi, Ranhoso!
– Saiu da caverna, Ranhoso!? – exclamei. – Veio encontrar com uma garota?
Ele mostrou o dedo do meio para nós. Rimos.
– Aposto que é aquele trasgo em forma de menina da Sonserina! – provocou Sirius, no exato momento em que Lily Evans saiu do banheiro feminino e se aproximou da mesa para sentar com ele.
Tentamos não ficar muito de queixo caído.
– Não sei por que não gosta de cerveja amanteigada, Sev, é bem deliciosa... o que foi? – dizia, sem reparar em nossa mesa.
Ranhoso ainda nos enviava um olhar fulminante quando ela sentou a frente dele.
– Ela sabe que você a arrastou para um encontro, Ranhoso? – perguntou Sirius.
– Só ignora, Severus – mandou Lily, não querendo perder saliva brigando com a gente. Eu não poderia culpá-la. – Eles vão cansar uma hora. Não vamos sair daqui só por causa deles.
Paramos um pouco para avaliarmos a situação como uma tática de jogo. Não podia passar despercebido. Evans e Ranhoso sentados juntos e tomando cerveja amanteigada como se eles estivessem em um encontro? Aquela era a hora. Minha varinha estava queimando em meu bolso, louca para ser usada naquele momento, e minha capa também.
Papai odiaria saber que eu usei a Capa de Invisibilidade para aquilo, mas não estava me importando com muita coisa. Acho que ver Evans sorrindo para Ranhoso não era uma visão que eu gostava de ter.
Fui ao banheiro, estava vazio, então tirei a capa da sacola de compras e a joguei por cima da minha cabeça. Desviei de alguns garotos que entraram no banheiro e fui em direção a mesa de Evans e Snape, para ficar embaixo dela.
Estavam conversando sobre presentes de Natal.
– O que seu pai te deu esse ano? – Lily perguntava, curiosa. – Tuney me deu essa echarpe horrorosa.
– Por que usa se acha horrorosa? – perguntou com aquela voz completamente neutra, baixa, o oposto da voz animada de Lily.
– Porque ela me deu um presente. Ela não me dá um presente desde que recebi a carta de Hogwarts... não achei certo ignorar.
Sussurrei um feitiço. As próximas palavras de Snape foram:
– Nipo bum casi foi.
– Não entendi o que falou, Sev.
– Paois quês o elo taco nitro castelo.
Tive que morder minha mão para não gargalhar.
– Oi? – pelo som da voz dela, deu para notar que ela estava confusa, mas ao mesmo tempo com vontade de rir. – O que você tomou antes de vir pra cá, Sev?
– P-pora! – ele exclamou, finalmente percebendo o que estava acontecendo com ele. – Mimo! Pasmen! Huhula! POLLER!
Evans entendeu a última palavra.
– Potter? O que tem o besta do Potter?
Ranhoso se levantou bruscamente da mesa. Com a capa, eu saí de baixo dela para ver o que ele ia fazer. Apontou o dedo para a mesa onde Sirius, Remus e Peter gargalhavam. Esse tipo de azaração não tinha um efeito demorado, então ele disse:
– Potter fez isso!
– Ei, ele nem está aqui! Foi no banheiro! – disse Sirius. – Acho que você precisa aprender a falar com as garotas antes de sair com elas, Ranhoso!
Voltei para o banheiro e tirei a capa. Saí me espreguiçando, como se eu não tivesse feito nada além das minhas necessidades corriqueiras. Já estava acostumado com as ameaças vazias do Ranhoso, então só bocejei e, decidindo ignorá-lo, comentei com Evans:
– Não ficou ruim em você.
Ela fez uma expressão confusa.
– O seu cachecol é horroroso, mas conseguiu ficar bem em você.
Evans olhou para a echarpe novamente, depois olhou para mim.
– Cala a boca – mandou, empurrando-me, e Snape a seguiu para fora do Três Vassouras.
Voltei a sentar com meus amigos, sem segurar a risada.
– Foi muito boa – elogiou Sirius. – Acho que foi a mais engraçada que fez contra o Ranhoso.
– Acha que eles estavam em um encontro mesmo? – perguntei.
Fizemos um segundo silencioso para pensarmos na impossibilidade disso. Depois saiu um “naaaaah” bem descrente de nossas bocas, e voltamos a rir. Sem querer, me peguei dizendo:
– Evans é bonita demais pra um seboso que nem ele!
Sirius cuspiu a bebida e Peter pulou assustado ao sentir o líquido no rosto dele. Remus até parou de ler seu livro.
Os três me encaravam.
– Que foi?
– Você disse que Evans é bonita? – perguntou Sirius, tentando desentupir os ouvidos com os dedos. – Evans, a garota que te odeia mais do que garotas odeiam o Peter? Essa Evans?
– Ei! – Peter protestou. – Garotas não me odeiam tanto assim.
– Acho que ele disse isso mesmo, Sirius – Remus me olhou preocupado. – E o que ele falou da echarpe dela?
Os três me imitaram:
– É horrorosa, mas conseguiu ficar bem em você!
– Não disse nada! Eu só estava zoando. Foi só para provocar o idiota do Ranhoso. Está claro que ele gosta dela! E eu falo bem mais másculo do que vocês três juntos, só para saberem. Rosmerta, mais uma rodada aqui! – pedi desesperado.
Ela limpava os copos atrás do balcão quando me ouviu. Ao trazer mais quatro cervejas amanteigadas, ela comentou:
– Vocês, marotos, são os únicos que conseguem ficar bêbados com cerveja amanteigada, sabiam disso? – mas não estava chamando nossa atenção.
– Só estamos ajudando – disse Sirius com um sorriso brilhante. – Sabe, com os consumos e tudo o mais. Vai dizer que reclama da nossa presença, Rosmertinha?
– Claro que não. Vocês já viraram meus fregueses favoritos! – ela deu uma grande risada e despenteou o cabelo de Sirius, antes de desfilar de volta para o balcão, cada passo sendo detectado por todos os olhares masculino daquele local. Menos o de Peter, que caiu com a cabeça na mesa porque muita cerveja amanteigada para ele o fazia desmaiar de sono.
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