Promessa de Sangue
2 Segredos
Notas iniciais
A vida nunca teve a aparência de um mar de rosas, perfumadas e bonitas de todas as formas. Mas seria a perfeição que muitos colocam como rosas uma coisa boa? Afinal, as belas flores que elas se mostram tem seus espinhos, você se afoga em seu perfume e a medida que afunda se fere. A vida se parece muito com essa flor. A parte boa e ruim de viver é retratada nela. Todos nós morremos, ou era assim que deveria ser.
Era noite de domingo na pequena cidade em Louisiana que parecia calma, organizava um pequeno compartimento de madeira. A pouca claridade em meu pequeno gabinete era de uma vela deformada já no fim de sua cera esbranquiçada. A chuva repentina era acompanhada de trovoadas próximo à igreja, e seguia a grande nuvem engolindo o céu estrelado da noite formando um lençol por cima de casas antigas.
Eu nunca senti medo da noite, na verdade, me familiarizava com ela. Gostava do seu silencio e das estrelas que nunca largavam os céus.
Quando criança meu pai me contava historias que à medida que fui crescendo deixava de acreditar, pois supostamente conhecia a verdade, assim como a maioria das pessoas acham que conhecem. Mas chegou um dia em que um enigma me veio em forma de pessoa, em uma noite de chuva forte e ventos frios.
Passaram-se algum tempo dês de que me tornei, por fim, padre. Era uma coisa que almejava dês da morte de minha mãe de criação, Madeline D'angelo.
Ouvi alguém entrar pela porta da igreja e a voz feminina chamava meu nome.
— Padre D'angelo? — Estava distraído, mas reconheci a voz que me chamava do lado de fora, dona de cabelos castanhos, longos e ondulados, Sarah. Abri a porta me deparando com a pessoa de porte baixo que por algum motivo mostrava-se inquieta.
— Está quase anoitecendo, por que não está no convento? — Perguntei.
— Na verdade... Vim te dar os parabéns por tornar-se um padre tão jovem assim, vinte e três anos... — Ela me entregou uma caixa embrulhada com pano quadriculado vermelho. — Um presente.
— Não precisava, obrigado — Realmente estava grato. — Agora que você é uma noviça¹, quando vir a se tornar uma freira, vou retribuir — Ela sorriu.
Mas fora por um curto período de tempo, percebi que as pessoas na cidade estavam agitadas pelas luzes que se acendiam de suas casas, todos pareciam agitados através da janela da igreja. Logo se ouviam baques na porta da igreja que ecoavam aglomerados com chamados que pela voz era de um homem. Passei as mãos pelo meu pescoço e tirei de dentro de minhas vestes uma corrente que se acentuava por uma cruz de prata acima de meu tórax. Girei a maçaneta e abri a grande porta me deparando com um homem conhecido e sua expressão de incomodo.
— Padre Sebastian D'angelo — Me saudou, parecia apressado e estranhamente desesperado.
— Oficial Bane — Retribui com um sorriso simpático. Eu era um pouco mais alto que aquela pessoa a minha frente, então o fitei com a cabeça levemente inclinada para baixo. – O que houve? Parecia que meia dúzia dos seus homens estava tendo problemas — Afirmei quando fitei o alvoroço do outro lado da grade que separava o cemitério das ruas.
— Eu sabia que estaria por aqui neste horário padre, peço, por favor, que vá para casa – Ignorando a pergunta sobre o recente caos o mais velho se apressou em voltar para as ruas se juntando com seus homens. Sarah me olhava assustada.
Observei a figura desaparecer e sobrar apenas minha própria pessoa e de Sarah iluminados pela pouca claridade que vinha da porta do gabinete aberta, e claro, minha pergunta ignorada. Voltei-me para dentro e por fim apaguei única fonte de luz presente naquele lugar. Escutei a calmaria que tomava o lugar depois do som forte da chuva ligeira que passara ali que havia simplesmente desaparecido, deixando apenas o sereno fino. Tranquei as portas de madeira talhada e guardei a chave dourada.
— Vou levar você — Disse enquanto ela me seguia pelas ruas de pedras após trancar as portas. Quando cheguei ao convento ela sorriu amarelo acenando, retribui o aceno me despedindo não antes de verificar se ela estaria segura até entrar.
Naquele momento me vi sozinho não que fosse uma situação estranha para minha pessoa, mas não teria de me preocupar se algo acontecesse apenas comigo. Estava começando a chover e o céu tremia diante dos trovões, tive que me apressar a chegar a minha casa antes de uma nova chuva passasse por lá. Era escondida, a mesma onde eu e meus pais vivíamos. Dentro de um bosque, uma casa de madeira antiga ao final de uma trilha de terra.
O caminho que percorria para minha casa nunca fora uma coisa perturbadora, mesmo que passasse pela trilha, também passava por um espaço vazio de grama até chegar a um bosque denso e solitário. Apenas eu morava naquele local. Era calmo e silencioso, o barulho da cidade incomodava, e minha pequena casa engolida por algumas árvores era o que sempre havia almejado. Mas especialmente naquele dia causava um desconforto, mas não era medo, aprendi a lidar com esse tipo de sentimento antes mesmo de tornar-me padre.
A calmaria me fazia apreciar a noite, ao entrar naquela pequena estrada enfeitada com arvores dos lados nada fazia parecer mais agradável. Contudo o som que ouvira ao meu lado deixou-me cabreiro, apenas um galho. Mesmo que existissem apenas alguns coelhos, ratos e pássaros.
Quando cheguei preocupei-me em abrir a porta e a sensação novamente me atacava, mas não a temia por algum motivo distante. Já era noite e a chuva era violenta, acendi as velas que pouco iluminava o local e me deparei com uma pia incrivelmente desorganizada mesmo vivendo sozinho. Prendi meus cabelos e percebi o quanto estava longo.
Estava arrumando a cozinha e finalmente havia acabado aquelas obrigações que antes pensava que não seriam tão pesadas assim. Abri a porta de madeira que separava a cozinha do corredor e percebi que precisava de um concerto após ver os pinos que estavam soltando. Dirigi-me a mesa enquanto começava a o espanar, um trovão havia me assustado, estava chovendo incrivelmente forte, a ponto das arvores de inclinarem pelos ventos, ao perceber isso, meu coração havia gelado, ao ver a figura do lado de fora daquelas grandes janelas empoeiradas.
Aproximei-me, talvez pudesse ser perigoso, mas não poderia deixar uma pessoa naquele estado, então, rapidamente abri aquelas portas com as chaves antes guardadas em minha batina² preta, não reparei em sua aparência, mas seus cabelos brancos me chamavam atenção por não parecer tão velha, ela hesitou a adentrar, como se algo a impedisse.
As roupas rasgadas e pés descalços, sujos de lama e sangue, a boca ferida e os cabelos curtos, brancos ainda pingando, escondiam seus olhos com uma franja desalinhada repicada. Estava na chuva que passara antes, talvez quem o oficial Brown e seus homens estivessem perseguindo aquele tempo todo estava ali. Aquela forma feminina e vulnerável.
— Entre, não tenha medo — Parecia que estava esperando ser convidada. Seus pés descalços e sujos de barro e folhas pisavam trêmulos no chão de madeira. Eu apenas a levei para dentro e a sentei no sofá enquanto fechava a porta.
— Espere-me, vai ficar tudo bem — Quando me dei conta, havia realmente alguém que necessitava de cuidados, seu rosto cabisbaixo, suas roupas ensanguentadas e sujas, seus pés feridos, mostravam uma pessoa que pedia por socorro.
Eu havia subido as escadas para o segundo andar a procura de toalhas e o pouco medicamento que tinha, quando voltei, não havia ninguém, mas o ambiente ficava mais sombrio e as velas antes acesas, estavam apagadas, e algumas até finalmente cessarem seu fogo, por alguma razão meu temor veio à tona, quando o clarão que dera fora daquele lugar, iluminava a sala, senti calafrios, mas não temia aquela figura furiosa a minha frente. Seus olhos emitiam ódio, sua boca, palavras escondidas e seu corpo ofegante, sede. Aquela mulher veio até minha direção mais rápida do que eu mesmo poderia fugir, senti a mordida dolorosa e precisa em meu trapézio, nesta hora, eu estava com pavor. Seus dentes pareciam afundar a cada segundo e senti como se aquela parte dolorida iria ser arrancada a qualquer momento. Mas o medo que sentia foi momentâneo, como se algo me aliviasse.
— Irá ficar tudo bem... Eu prometo — Minha voz estava forçada. Coloquei minhas mãos em seus cabelos úmidos, seus dentes se desprendiam de minha carne como pregos sendo retirados de uma madeira firme e se afastou lentamente, seu olhar era de arrependimento, mas não apenas isso, sentimentos entrelaçados difíceis de distinguir tantos.
— Droga... — Ela tampava seu rosto com suas mãos enquanto suas unhas com barro se fechavam junto com os dedos formando punhos, parecia sentir raiva de si mesma. Eu havia me aproximado, não queria assustá-la, mas ela se forçava a se afastar, até que a parede de madeira a impediu.
— Finalmente... Resolveu falar, não é? É um avanço — Sorri, minha voz entrecortada não hesitava em mostrar a dor. Entrelacei os braços em volta daquela figura desprotegida, a acolhendo. — Não precisa se desculpar... Eu entendo, por mais impossível que pareça, eu sei o que sente — Ela me fitou, seus olhos se mostravam na cor do sangue, não brilhavam nem reluziam, mas havia um mistério por trás deles que causava certa admiração e curiosidade em quem os fitassem e esse foi meu caso.
— Porque eu tenho de ser deste jeito? — Me surpreendi com sua pergunta, e sua mudança na voz, mesmo sendo grave, acentuava o tom entristecido. — Ter que fazer tudo isso, viver de um modo tão... – Mordeu seu lábio inferior o machucando com o ato. Retirei suas mãos do rosto as abaixando.
— Não é errado querer sobreviver – Disse sincero.
Ela fitou-me com os olhos em seu mais completo vinho, e soube naquele momento, que havia um enigma em minha frente, com historias eternas. Eu estava preso em um querer curioso em querer saber, quem ela realmente era.
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