Promessa de Sangue
1 A sede e remorso de Rose
Notas iniciais
Na escuridão de um quarto alugado eu me escondia nas sombras, naquela manhã que passava sentada temendo um dos poucos feixes de luz do sol que saía das janelas que havia tampado com grossos cobertores na janela do hotel. Ficara ouvindo as conversas de pessoas, das quais os sons se mesclavam ao barulho dos carros passando pelas ruas de pedra. Então, quando ao cair da noite tudo se cessava, eu sabia que chagara a minha vez de sair.
Pegando minha mala pesada desci pelas escadas de madeira em passos rápidos, dando um ultimo "Adeus" daquela noite para o balconista, ouvindo o som do sino da porta após sair. Apenas a luz fraca dos postes iluminava a rua de paralelepípedos molhados pela chuva que passara por ali antes. Meu sobretudo estava manchado e meus cabelos desarrumados, era de se esperar de uma pessoa que não liga muito para a aparência.
Caminhava calmamente quando avistei um conhecido que aparentava estar no auge de seu divertimento, abraçando uma mulher de longos cabelos dourados e vestido extravagante, a mesma parecia estar bêbada, pois ria enquanto olhava para meu rosto nada feliz com a situação.
— Rose! Não vai beber nada? Sinto que você não se alimenta há dias! —Exclamou puxando os cabelos da mulher para trás exibindo o pescoço pálido e os olhos azuis que me olhavam assustados. Confesso que uma pontada de pena me encorajou a quase ir até lá e livrá-la das mãos de Bartholomeu, do qual, mais cedo ou mais tarde iria cair nas mãos de Dante e de sua esposa Ophelia. E ele estava sóbrio o bastante para saber que estava jogando o tratado no lixo.
— Barth, se divirta sozinho está noite, estou indo nessa — Passei por ele acenando sem me dar o trabalho de virar. —Amanhã, se ainda estiver vivo, nos falamos — Ouvi uma risada abafada, antes de o som dar lugar ao de um pescoço sendo perfurado e um leve suspiro feminino que travava.
Semelhante a um gato que perambula em cima dos muros cautelosamente, sou eu pelas ruas que passava até chegar a um antigo portão enferrujado com vinhas enroscadas e secas. Podia seguir meu caminho e continuar como se não tivesse sentido algo que impulsionou meu corpo sem o meu conhecimento.
Adentrei aquele portão tão antigo que até as vinhas pareciam parte da entrada. A uma distancia próxima podia ver a pequena igreja com uma de suas janelas refletindo a luz que vinha de dentro, porém, para alcançá-la teria de passar naquele cemitério, que por mais incrível que pareça, pelo tempo que vivi, lembrava e conhecia cada pessoa que tinha seu nome talhado nas pedras. E no topo de um relevo de terra gramado enfeitado com uma única e grande árvore que banhava o lugar com as folhas secas caídas por todo o lugar, existia acima de suas raízes uma lápide bem cuidada e com lírios recém colhidos ressaltando a beleza triste que mostrava.
O som dos meus coturnos pisando nas folhas secas pela pequena trilha, era a única coisa que ouvia, pois o pulsar de meu coração era inexistente, silencioso como àqueles túmulos. Parecia que à medida que andava, as estatuas do lugar tinham seus olhos cinzentos voltados para mim, como se estivessem observando o ser imortal não bem vindo em seu território de paz eterna.
Em fim, cheguei as grandes portas de madeira talhada da igreja.
— Padre Sebastian D'angelo Dousseau, você me sentiu e mesmo assim não veio me dar um "Oi", isso deixa uma pessoa triste — Aquelas portas se abriram e o homem esperado mostrou-se, junto com uma cruz de prata que pingava no chão de mármore a sua água-benta. Com um passo para trás me distanciei. — Não sabia que tinha um acessório assim, está na moda ultimamente pelo que vejo — Debochei.
— Desculpe por isso, faz tanto tempo que não a vejo que estranhei sua presença — Disse em um tom arrependido, mas a nostalgia do sorriso largo e animado que deu após essa estranha situação, fez-me alegrar, mesmo não mostrando tanto o sentimento ao ver aquela pessoa.
Coloquei o peso que carregava no chão e o convidei a caminhar fazendo um gesto com o dedo indicador. Mesmo não sendo um dos melhores lugares para passeios, andamos abaixo de uma única luz que iluminava o lugar, a da brilhante lua cheia, um céu sem nuvens, apenas ela e duas pessoas conhecidas de longa data.
Sentamos em um banco de madeira velho que construímos. Peguei um charuto em meu bolso e iria acendê-lo se não sentisse um olhar reprovador do jovem padre que o tirou dos meus lábios logo em seguida. Um riso abafado ligeiro de minha parte veio à tona enquanto guardava o isqueiro.
— Sabe que isso faz mal ao seu corpo. Prometa a mim que vai parar com isso — Os olhos cor de rubi me fitaram esperando uma resposta sincera de minha parte.
Não que fosse isso que podia me matar, mas, se fosse tranquilizado, assim fiz. Inspirei e segurei o ar, até por fim, exalar junto com a palavra esperada.
— Prometo — Ele sorriu como se estivesse acabado de realizar um grande feito, colocando uma de suas mechas loiras para trás com seus dedos longos e levemente rosado as pontas. Gesto que exibiu seu pescoço longo e pálido. Senti-me estranha, minha garganta me parecia deserta, como um humano sem beber água após uma longa corrida, rapidamente balancei a cabeça como se isso fosse afastar um pensamento como esse. Percebi um brinco em sua cor vermelha, há sete anos atrás pensava que padres não pudessem usar algo assim, por ser visto como mutilação. Curiosa, tomei a liberdade de perguntar sobre.
— Pensei que padres não usavam brincos, mudaram isso? — Perguntei um pouco forçado pela reação corporal anterior, não mostrando muito interesse e olhando para os túmulos atrás de uma pequena gradinha, e senti que Sebastian hesitava em responder.
— Está se alimentando direito, Srta.Lambert? —Mudou de assunto com uma rapidez surpreendente, parecia inquietar-se. Olhei de soslaio intrigada pela reação repentina por parte do loiro.
— Cada dia que passa é mais difícil se alimentar apropriadamente, as caças humanas parecem estar se intensificando e ouvi rumores de vampiros sendo caçados por humanos, e até... por eles mesmos — Dei uma pequena pausa com o sentimento repentino e desagradável. — Alguns de nós resolvemos acabar de vez com o tratado de paz já que a situação estava assim. Estão matando homens e mulheres como se fossem... Baratas... — Me esforçava para continuar, mas uma crise de tosse decidiu se intrometer em meio às palavras arranhando minha garganta.
— Você está bem?! — Perguntou Sebastian preocupado e aparentemente chocado com a crise.
Suas mãos grandes e quentes pousaram delicadamente em minhas costas e seu rosto se aproximou consideravelmente do meu. Sentia o pulsar de seu coração, o sangue correndo em suas veias e o calor que sua respiração proporcionada, fazendo meu corpo reagir instintivamente. Em um milésimo de segundos estávamos no chão, minhas mãos prendiam as dele por cima da cabeça do mesmo. Meu nariz roçava próximo de seu pescoço, sentindo aquele cheiro que há tanto tempo não inalava de tão perto, o cheiro prazeroso de sangue humano. Mesmo abaixo da pele de seu pescoço sentia o cheio metálico, era excitante estar tão perto assim do que seria minha caça, e eu, seu predador natural. Meus dentes doíam ao se acrescer por ficar algum tempo sem se exporem, ao tocarem aquela pele. Foi quando ouvi aquela voz rouca e serena em meu ouvido.
— É doloroso, não é? Se controlar perto de um humano —Não consegui responder, deixando a pergunta no ar e ao mesmo tenho me apavorando com meu comportamento. Ele não mostrava medo em sua voz, ao contrario, estava tão calmo, como se estivesse apenas abaixo de um lençol. Continuou — Uma mulher que visa à eternidade — Senti que mostrou o mesmo sorriso de mais cedo, nostálgico, mas em vez de me sentir feliz, a dor de perceber o que estava quase prestes a fazer com um amigo não era aceitável para mim. Ninguém merecia aquilo.
— Me perdoe — Arrependimento, uma coisa que esqueci de sentir voltou mais forte e ela me acusava. Afastei-me de seu pescoço observando aquela figura com seus fios dourados espalhados pelas folhas secas, o rosto delineado, o queixo bem desenhado. Pude vê-lo agora mais detalhadamente, principalmente seus olhos azuis voltados a mim. E o quanto havia mudado.
Levantei-me de cima de seu corpo, ele logo se ergueu exibindo seus ombros largos acima da minha cabeça.
— Não vou mais ficar por aqui, vou deixá-lo em paz. Pensei que estaria sobre controle depois de todos esses anos — Mordi o lábio inferior. — Tenho que ir para o Mississippi, eles haviam me convocado por lá, e ainda não entendo como conseguiram me encontrar... — Pausei ainda encabulada com o fato dito. — Merda... — Sussurrei, mas com certeza ele ouviu, Sebastian detestava xingamentos, pude sentir seu olhar reprovador por cima de minha cabeça. — Não devia ter desviado de meu caminho, foi um erro. — Passei por ele apressada a me afastar do cheiro de seu sangue tão convidativo.
Como pude perder o controle tão rápido assim? —Pensei.
— Rose! — Gritou. Recusei-me a atendê-lo, aumentando a velocidade dos meus passos. Mas não me importaria de ser morta, já que ainda respeitava o tratado de não atacar humanos, seria mais efetivo que esse corpo caísse de vez antes de levar alguma outra pessoa para morte antes de sua verdadeira hora.
Senti um arranque em meus ombros que me obrigava a virar para trás, mas a última coisa que queria era olhar para os orbes brilhantes.
— Olhe para mim — A firmeza em que disse a pequena frase me pegou de surpresa, aquele que parecia ser o embaixador de toda a serenidade. Estremeci. Lentamente meus olhos passavam pela batina do padre mostrando a figura alta até pousar em seu olhar sério. — Sabe quanto trabalho eu tive de fazer sozinho depois da sua grande ignorância de sumir por sete anos? — Ele parecia zangado, uma expressão rara no rosto do jovem padre. — Que coisa... — Afagou os dedos em seus cabelos. Iria tentar argumentar se não fosse minha vontade em não deixá-lo mais bravo do que estava. — Venha.
Ele virou-se caminhando e resmungando algo, tentei segurar um riso que queria sair de minha garganta em um som pigarreado que não deixou o padre nada contente, o mesmo suspirou dando um o que seria sorriso desconfortável.
O caminho tornou-se silencioso, não completamente pelo barulho da respiração dele que para mim tinha um som elevado, apreciava até o barulho de suas mechas movidas pela brisa da noite e a chegada do inverno que alertava o grande corpo em minha frente pelos seus calafrios.
— Angel —Senti algo ao chamá-lo pelo apelido depois de tanto tempo, mas era incapaz de reconhecer esse tipo de sentimento. Percebi que ele relaxou mais os ombros. — Como você me vê? — Perguntei sem finalidade me distraindo com os nomes apagados nas lapides como uma brincadeira de descobri-los.
— Por que disso de repente? — Perguntou agora mais calmo.
— Não consigo me ver em espelhos, o reflexo tem repúdio de nós.
— Bem... — Olhava para cima pensativa com a dobra do dedo indicador em seu queixo. — vejo uma mulher de cabelos estranhamente brancos e curtos, rebeldes, como essa mesma pessoa — Riu baixinho — Pálida assim como a neve e os olhos em seu mais completo vinho que por algum motivo não sabem para onde realmente visar. E você rose? Como realmente se vê?
Aquela pergunta parecia me prender em seu mundo de duvida. Pensava que sabia de tudo sobre minha pessoa, pois tive tempo o bastante para conhecer-me, mas não tinha nada a oferecer em resposta se não meu silêncio.
Paramos ao lado do pequeno relevo gramado, as folhas da mesma grande arvore que apreciava antes ao entrar balançavam serenas.
— Você ainda cuida bem dela — Observei a luz branca da lua passar entre as falhas que algumas folhas secas deixaram, iluminando em pontos brilhantes a grande sombra da árvore, especialmente, o nome de Madeline D'angelo de um jeito lindo, mas triste. Sebastian permaneceu calado, continuando seu caminho, deixando para trás o nome da mulher que me dera a maldição da vida eterna.
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