– Bom dia, Bocchan.

– Hn... Bom dia...

– Deseja o café na cama?

– Não, irei comer no salão. Prepare meu banho.

– Yes, my Lord.

Era sempre assim. Numa monótona rotina, nós seguíamos juntos, demônios, imortais, numa eterna ligação... Eternamente aprisionados.

E o tédio não era minha única companhia – quem dera fosse. A solidão e a melancolia me deram as mãos no instante em que Sebastian descobrira a verdade sobre o pacto entre Hannah Annafellows e Alois Trancy.

– Seu banho está pronto, jovem senhor.

Era sempre assim. Nenhum sentimento ousava permear sua face. Sua voz era pura indiferença. Com uma mesura, virou-se e voltou ao banheiro para me esperar.

Dois anos se passaram e eu ainda não me acostumara a essa inexpressividade. Não que meu mordomo agisse como aquela coisa vermelha que denominava a si mesmo de shinigami, mas antes Sebastian costumava sentir.

Sob sua aparente calma, ele ria, se irritava, debochava, se frustrava, se esforçava, isso era claro para qualquer um que estivesse perto o suficiente para sentir sua aura ou olhar em seus olhos. Esse “qualquer um” geralmente era eu.

Agora ele fazia tudo por fazer, na mesma irritante indiferença. Não me dirigia a palavra senão para relatar o cumprimento de uma ordem, não me tocava se não fosse estritamente necessário. Não mais me olhara nos olhos.

Segui-o até próximo à banheira. Ele voltou-se para mim, começando a desabotoar meu pijama, mal tocando em minha pele para retirá-lo. Parecia até ter asco de mim.

– Chega, Sebastian. Eu mesmo faço isso. Vá servir meu café.

– Hã? – Me encarou confuso.

– Tomarei banho sozinho! Vá fazer suas obrigações!

Sua face voltou ao vazio de sempre rapidamente. Poderia dizer que foi um milagre este demônio ter esboçado alguma reação, mas ironia tem limites. Assim que ele saiu, suspirei cansado. Já não aguentava mais conviver com ele.

Não, conviver não é a palavra correta. Já não suportava sua indiferença para comigo, não poderia, não vinda da pessoa mais íntima minha, a que melhor me conhecia.

Tomei meu banho rapidamente, me vesti o melhor que pude e logo estava no salão de jantar. Quando Sebastian olhou pra mim, emitiu um som de reprovação.

– Tsc, deveria ter me chamado ao terminar o banho. – a mesma inflexão na voz. Ajeitou minhas roupas, fazendo um laço nos meus cadarços e gravata.

O resto do dia seguiu-se parecido a isso. A mesma rotina, as mesmas ações. Sebastian parecia um corpo sem alma – se é que demônios a possuem. Mas, diferente dos outros dias, eu já não aguentava mais, não conseguia mais continuar assim. Talvez já tivesse chegado a este ponto há muito tempo. Só não queria encarar as consequências.

Observando o pôr do sol, tomei minha decisão.

– Sebastian!

– Sim, Bocchan. – Já estava lá, sempre rápido.

Virei-me para ele, encarando seus orbes vermelhos e frios.

– O que você fez hoje?

– Nada mais que minhas obrigações.

– O que você tem feito nos últimos dois anos?

– Nada mais que minhas obrigações.

– Por que continua fazendo isso? Por que continua ao meu lado? – eu tinha que saber, mesmo que não fosse gostar da resposta.

– Como mordomo da família Phantomhive, eu...

– Por quê? – o interrompi. O silêncio que se seguiu chegou a me dar esperanças, mas...

– Pelo nosso contrato. – ele finalmente respondeu – Estou preso a você, assim como você está à mim.

Então era por isso. Claro, o que você queria, Ciel? Ele é um demônio... Assim como você. Mas não era totalmente verdade, eu não estava preso a ele, minha alma não poderia ser devorada. Já sua ligação à mim existiria enquanto eu existisse.

– Não, não mais... – sussurrei com o olhar baixo, mas sabia que ele podia me ouvir – Agora você tem seu livre-arbítrio de volta.

– Como? – o demônio pareceu-me surpreso, apesar da inflexão na voz.

– Está liberado de suas funções como mordomo, está livre do contrato, entenda como quiser.

– Mas, meu dever... – não deixei que terminasse.

– Você está livre Sebastian! Está livre de mim!!! – o encarei firme, para voltar a olhar através da janela – Apenas vá...

– Mas, Bocchan, eu...

– Sebastian. – chamei-o, retirando meu tapa-olho – É uma ordem... Você está livre para fazer o que bem entender. Saia pelo mundo, devore almas, viva sua vida como demônio. Já não deve mais nada a mim.

– Sim, meu senhor. – falou calmamente, sem nenhuma reação contrária ou a favor. Espero que, um dia, eu o veja reagir.

Ele estava prestes a pular pela janela, quando algo veio a minha mente.

– Sebastian... – falei baixo, e acho que ele virou em minha direção. Eu não estava o olhando para ter certeza disso.

– Sim?

– Se algum dia eu te chamar... Você virá?

Quando eu achava que ele não iria responder, escutei uma frase, que sempre adorei ouvir em sua voz, saindo de seus lábios.

– Yes, my Lord.

Após isso, saltou e sumiu.

Uma única coisa eu queria receber dele, um último desejo que eu não poderia ordená-lo a realizar: aquele sorriso doce e gentil que ele me deu quando derrotou o anjo. Mas acho que sua gentileza está longe do meu alcance agora.

Uma gota solitária desceu por meu rosto.

A primeira e última lágrima que derramei por ele.

Notas finais
Bom... Espero que tenham gostado desse comecinho! É minha primeira fic, então comentem para que eu saiba se gostaram ou não dela. Críticas construtivas, sugestões e elogios são bem-vindos! ^^