Notas iniciais
Gente, este capí­tulo, assim como o prólogo, foi betado pela Maricchi Pichu. E eu espero que os outros continuem sendo, certo, Mari? ^^ Bom, aqui está o capítulo 1.

Um bipe irritante perturbou meu sono, e o som algo se espatifando acabou por me despertar. Acho que terei de comprar outro despertador, é pouco provável que este tenha sobrevivido.

Com um suspiro, me levantei, coçando os olhos. Mais um dia acordando às 5h da manhã para ir trabalhar.

Trabalhar...

Quem diria que algum dia eu, Ciel Phantomhive, iria precisar trabalhar como uma pessoa qualquer, recebendo ordens como um empregado comum. Bom, nem tão comum. Eu era um modelo em ascensão, e muitos diziam que eu tinha um futuro brilhante nessa carreira.

Mas esse trabalho era unicamente para pagar minhas contas e para que eu pudesse comprar todo o material necessário para o curso de Artes Plásticas.

Após algumas décadas perambulando pelo mundo à caça de almas, comecei a desenhar como distração. Tentava retratar os rostos de que me lembrava: Lizzy com seus vestidos fofos; Meyrin e seus óculos redondos; Bard com o lança-chamas; Tanaka-san bebendo seu chá; Madame Red coberta por vermelho; Finny e Pluto correndo pelo jardim... Até Claude e Alois já tinham sido passados para o papel.

A cada dia eu desenhava mais e mais e a cada dia eu percebia que apenas fazer esboços em preto e branco de minhas memórias já deixava de ser suficiente. Comecei a buscar outras coisas para retratar, assim como tentei variar o material que usava para fazer isso. De lápis, passei para a tinta a óleo, e então para aquarela, carvão, lápis pastel...

No fim, esse hobby acabou virando uma paixão e decidi fazer faculdade de Artes Plásticas. Eu estava no terceiro período e tinha as melhores notas do curso, afinal, sou um demônio – e tanto!

Comi algo rápido, tomei uma ducha, me vesti e corri para o estúdio fotográfico, chegando lá às 5h15min. Infelizmente, não poderia saltar até o andar em que ficava o estúdio – quem diria que paredes de vidro virariam moda no século XXI, então demorei mais cinco minutos para subir. Andei rapidamente até a porta já conhecida e entrei.

– Cieeeel! Que bom que você chegou, querido! – uma voz afetada me saudou.

– Menos, Christian. Já estou atrasado. – resmunguei.

– Meio minuto! Ciel, relaxe! O diretor não chegou e o fotógrafo ainda está montando a câmera. Nem o cenário está pronto. Temos tempo suficiente para eu transformar essa carinha de anjo na de um belo demônio sugador de sangue. – enquanto falava, Christian arrumava sua maleta de maquiagem no balcão à minha frente.

– Ainda não sei como aceitei isso...

– Pare de se lamentar. – me cortou – Fazer um ensaio para a capa de um livro não é tão ruim. Além do mais, não deixarei que saia desta sala enquanto não estiver espetacular! – sorriu pra mim.

Revirei os olhos. Teria que aguentar meia hora de ataques e gritos agudos.

– Credo, que mau humor! Ainda bem que já sou imune. – Christian brincou.

Bufei com o comentário, mas acabei sorrindo de lado. Apesar dos pesares, eu gostava do Chris. Ele me divertia durante os ensaios fotográficos, e até durante as aulas – é, Teatro e Artes Plásticas têm algumas aulas em comum.

Dono de olhos cinzentos e inquietos como tempestades, o que acentua sua personalidade agitada e animada, o rapaz de cabelos dourados realmente gostava e se preocupava comigo. Sem motivos, mas se preocupava...

Nos conhecemos no colégio há uns dois anos, quando vim para Montreal. Aquela criatura loira e eufórica havia se imposto na minha vida de uma forma que me enervava. Ele me arrastava para todos os lugares, me obrigava a comer e a conviver com seus amigos, me seguia até minha casa, me jogava para “possíveis pretendentes” e ainda se achava no direito de se meter na minha vida.

Um mês disso e eu não aguentei. O joguei contra a parede de uma sala vazia e perguntei por que ele fazia aquilo, por que simplesmente não me deixava em paz.

Ele abriu um sorriso e respondeu: “Porque você parece uma criança, e eu não queria que alguém tão fofo ficasse depressivo e sem amigos como eu fiquei no meu primeiro ano do ensino médio.”.

Eu só pude responder, balançando a cabeça: “Christian, ou você é muito idiota, ou muito sem noção...”.

Assim que o soltei, ele me abraçou, tirando todo o ar dos meus pulmões com o impacto. E eu fiquei agradecido de não mais precisar respirar, senão havia sérias possibilidades de eu ter morte encefálica por deficiência de oxigênio.

Hoje, acho que posso chama-lo de amigo – apesar de que sou mais como um guarda-costas do Christian. Ingênuo do jeito que é, iria acabar caindo em vários golpes e enrascadas sem me ter por perto.

– Pronto! Você está um arraso!

Virei para o espelho e tive que concordar. Chris realmente sabe o que faz. Ele havia prendido meu cabelo – que, estranhamente, cresceu em camadas ao longo dos anos – num rabo de cavalo baixo com uma fita de veludo, deixando as mechas mais curtas ao redor do meu rosto. Minha face estava ainda mais pálida, com sombreados artificiais que a deixavam mais aristocrática e “adulta”. Meus lábios estavam levemente avermelhados.

– Agora só falta o toque final. – Chris levou uma colher à minha boca.

– O que é isso? – indaguei olhando torto para a mistura vermelha no talher.

– Suco de morango em pó, mel e chocolate em pó – ele riu com a cara que eu fiz – Relaxa, não é tão ruim. A textura e a cor são quase iguais às do sangue.

– Eu não vou colocar isso na minha boca, esqueça.

– Prefere que eu corte meu pulso e coloque meu próprio sangue? – falou com um ar de riso, prevendo meu arregalar de olhos e sua “vitória” nessa discussão.

– Acho que prefiro essa gosma a seu sangue, obrigado! – bufei. Só aceitei porque ele era capaz daquilo, já tinha feito uma vez no Halloween. Tive que correr quarenta quarteirões com ele nos braços, sem nem poder usar minha velocidade demoníaca.

– Ah, Ciel, não é tão ruim! – começou impaciente, revirando os olhos – Anda, prova. – empurrou a colher por minha boca adentro, ansioso pela minha opinião.

Eu senti aquele líquido doce descendo pela minha garganta. Realmente não tinha o gosto enjoado que imaginei. Era até bom.

– Ok, é suportável.

– Ótimo! – falou animado – Coma umas três colheres, espalhando bem pelos dentes. Eles vão ficar um pouco vermelhos.

Assim que fiz o que ele queria, Christian tomou o pote de “sangue” de mim e começou a lambuzar meus lábios, deixando algumas gotas escorrerem até meu queixo.

– Se você fosse meu tipo, eu te agarrava agora, Ciel. – o encarei com olhar e sorriso tortos.

– Duvido muito de que você conseguiria me agarrar.

– Frágil e delicado desse jeito? Seria mais fácil que roubar doce de criança – se virou, buscando algo em sua mochila.

Não pude impedir um riso irônico. Se ele soubesse o que eu era, jamais diria isso. Apesar de que seria divertido vê-lo tentar. Parei ao ouvir um som de foto sendo tirada.

– Perfeito. Você está pronto.

Fomos até a sala em que seriam tiradas as fotos, onde ele me entregou um sobretudo negro, dizendo para eu o fechar até a altura da clavícula, escondendo a gola da minha blusa.

– E as lentes especiais de que você me falou, Ciel? – Christian perguntou empolgado, ajudando nos ajustes da iluminação.

– Estão na minha mochila, eu já volto.

As lentes a que ele se referira eram meus olhos quando vermelhos. Dias atrás, ele comentou que não conseguia definir um conceito para os olhos dessa maquiagem e estava frustrado com isso. Não queria o vermelho sangue clichê, tampouco outras cores pareciam apropriadas. “A cliente disse que gostaria de algo que marcasse a íris de algum dos olhos, que seria importante para o enredo! Como se fosse simples fazer algo assim!” Chris reclamou certa vez. Então eu comentei, como quem não quer nada, que sabia de um cara que produzia lentes de contato coloridas e com símbolos para fantasias – tudo mentira, obviamente.

Na mesma hora, seus olhos cinzentos brilharam, as sobrancelhas levantaram e os lábios se abriram em um sorriso, uma expressão que faria Elizabeth gritar: “Kawaii!”. Ele implorou para que eu conseguisse essas lentes e eu somente respondi que veria o que poderia fazer.

Passei uns cinco minutos no camarim, fingindo procurar as tão esperadas lentes. Pude sentir meus olhos vibrando em vermelho, a marca de meu antigo contrato ardendo no olho direito. Arrumei minha franja de modo que somente o olho marcado pudesse aparecer e voltei ao estúdio.

Nesse meio tempo em que fui maquiado, lambuzado e arrumado, as pessoas que faltavam chegaram. A sala onde seriam tiradas as fotos parecia um formigueiro agora, comparada ao vazio demográfico que era meia hora atrás. Pessoas andavam apressadas para organizar o cenário e a iluminação, além de bancadas com lentes de diversos tamanhos, maquiagem, acessórios para as fotos, frutas e tudo o mais que julgassem necessário. Estranhamente, ninguém esbarrava em ninguém, nem mesmo no diretor que ditava ordens àquelas pessoas, parado no meio do organizado pandemônio.

– Então, o que acham? – indaguei alto, fazendo com que todos parassem e virassem para mim.

Ofegos e gemidos de incredulidade e satisfação puderam ser ouvidos pelo ambiente. Logo em seguida, aplausos e assobios. Christian correu até mim.

– Ciel, você está incrível! Eu nunca vi nada assim! O impacto dessa imagem na capa vai atrair qualquer um, a cliente vai ficar felicíssima! – bateu palmas, animado.

– Christian, menos. Só estão faltando os pulinhos. – comentei sarcástico, ao que ele mostrou a língua pra mim, enquanto alguns dos presentes riam.

Peguei uma bengala de punho de prata trabalhado em arabescos, me posicionando para o início da sessão de fotografias, que foi bem rápida. Em quarenta minutos já estávamos escolhendo nossas fotos preferidas enquanto Carlos, o fotógrafo, as passava para seu notebook.

– Bom, acho que qualquer uma dessas fotos merece ir para a capa do livro. Mas eu gostei bastante desta. – Chris apontou para uma em que um canto dos meus lábios arqueou-se num suave sorriso de canto, enquanto encarei sombriamente a câmera. Carlos analisou-a e torceu um pouco os lábios.

– Nada contra, mas eu prefiro essa. – apontou para uma em que eu sorria sarcástico, com o queixo elevado e um olhar quase de deboche.

– E você, Ciel? Escolha alguma, nós imprimimos pra você. – meu “maquiador particular” piscou.

Encarei as imagens, sem ver alguma que eu realmente desejasse. Moro sozinho e nunca fui do tipo narcisista, pra que iria querer uma foto minha se somente eu ia vê-la? Mas acabei avistando uma que me interessou.

– Eu quero aquela, no canto da tela. – indiquei para os dois.

– Hum... Boa escolha. É uma bela foto. – comentou o fotógrafo, ampliando a imagem e mandando a máquina imprimi-la.

A fotografia que escolhi era um close do meu rosto, pego pela diagonal. Minha boca ensanguentada só não era mais impactante que meu olho vermelho incandescente, marcado pelo contrato. Tudo isso entrava em conflito com uma face angustiada, entristecida. Parece comigo de algum modo, quando me pego pensando no passado.

– Certo, aproveitando que só tenho essa sessão hoje, vou começar a estudar para as provas. – comentei, olhando para o loiro à minha frente.

– Tão cedo? As provas só começam dia 22. – Chris falou, confuso. Pude ver Carlos segurando o riso, e apenas balancei a cabeça.

– Christian... Hoje já é dia 20. – sorri maldoso e me apressei para os elevadores, pressentindo o grito agudo de pavor que iria ouvir.

Mais três segundos, dois, um...

– DIA 20??! AAAAAAAAAAAAHHHHHHHH!

O berro foi interrompido pela porta do elevador se fechando. Pobre Carlos, acho que ficou surdo dessa vez. Voltei rapidamente para casa, estava ansioso para começar a estudar.

Não, não sou um desses nerds ou cdfs que não têm vida social, mas adoro estudar. Sempre fui uma criatura curiosa – sendo demônio ou não – e agora tenho tempo de sobra para ler e saciar essa curiosidade, que é um dos meus motivos de viver. Preenche um pouco esse vazio que eu sinto.

A chegada de Christian em minha vida também amenizou essa sensação, mas nenhuma dessas coisas foi suficiente para fazer com que eu me sentisse completo. Esse sentimento de algo faltando me acompanha há muito tempo, tanto que já parece ser intrínseco a mim. Nem lembro quando foi a última vez que me senti pleno, de felicidade, ou mesmo de raiva e tristeza. Acho que foi antes mesmo da morte de meus pais. No entanto, mais de um século com essa sensação e, o que antes era frustração e agonia, hoje não passa de um incômodo: presente, mas geralmente ignorável.

Chegando em casa, tomei uma ducha, fiz um sanduíche e procurei algum livro sobre as artes plásticas no período clássico, e sua influência na época renascentista. Duas horas depois, eu já lia sobre Leonardo da Vinci e sua misteriosa Mona Lisa, e também sobre o ideal de beleza masculina baseado no famoso Davi de Michelangelo.

Michelangelo...

Me faz lembrar de um nome que não pronuncio a muito tempo, de uma pessoa sobre a qual não tive mais nenhuma notícia. De alguém que já fez esse vazio em mim quase desaparecer.

Certo, Ciel, chega desses pensamentos que não te levarão a lugar algum! Melhor eu rever tudo o que Christian teve dúvida porque ele não me deixará em paz enquanto não explicar todas as matérias pra ele – sim, todas. Até mesmo as que não coincidem de também serem minhas.

~X~

– Oh, Deus, o que foi aquela prova?! – Chris sentou pesadamente na cadeira à minha frente, jogando a cabeça pra trás e gemendo injuriado. Soltei um risinho de escárnio.

– Isso, continue, Ciel. Ria dos menos favorecidos intelectualmente... – o rapaz fez um bico e cruzou os braços.

– “Menos favorecidos intelectualmente”? Quem é você e o que fez com meu Chris? – Rafael indagou com uma fingida – e ridícula – cara de espanto. Christian mostrou-lhe a língua em resposta.

Rafael era negro, sua pele chegava a ser azulada de tão escura, e seu cabelo era preto, curto e um tanto rebelde, apontando para todos os lados. O que chamava atenção em seu rosto eram os olhos: azuis-claros, quase brancos. Faziam um belo contraste com a tez morena. Quanto ao corpo, era alto – tinha quase dois metros, mas possuía ombros largos e músculos bem definidos, então não tinha aquela aparência de “vara pau”. Eu diria que ele é bonito, Chris e todas as garotas da universidade diriam que Rafa é um – belo e gostoso – pedaço de mau caminho.

Rafa era um dos amigos de Christian com quem fui “obrigado” a conviver. Mas, ao contrário da maioria, ele tinha algo na cabeça. Sempre tinha ideias e comentários inteligentes e pertinentes sobre os mais variados assuntos, além de ser um tanto irônico, principalmente com Christian, o que me divertia muito. Ele cursava o quinto período de Jornalismo e já era convidado a trabalhar em dúzias de jornais de renome ao redor do mundo. Mas não tinha pressa de começar uma carreira – ao contrário de muitos, queria fazer mestrado e doutorado antes de sequer pensar em trabalho. “Posso ter talento, mas, sem uma boa preparação, o mundo lá fora ferra comigo sem aviso prévio e eu vou estar destroçado antes que você possa falar The Times, amigo.”

– Quando pararem de tirar uma com a minha cara, me avisem. – Chris emburrou.

O sinal tocou e eu arrumei rapidamente minhas coisas, jogando a mochila por sobre o ombro.

– Ei! Aonde você vai? – Rafael indagou.

– Exercer minha profissão. – falei por sobre o ombro, sorrindo comigo mesmo.

A professora de Técnica de Desenho e Pintura* me pediu que fosse modelo para meus colegas de curso que não estavam tendo bons resultados com seus trabalhos. Aceitei, mais por não ter nada pra fazer após a aula do que por realmente me interessar em ajudá-los. Salvo dois ou três, todos os que estavam naquela aula extra não tinham o mínimo interesse na matéria – ou até no curso em si. Alguém que não se interessa por Artes Plásticas não deveria estudá-las, essa ‘relação forçada’ não pode resultar em nada de bom.

Cheguei à sala e fui para trás de um biombo num dos cantos do local, para trocar minha roupa por uma túnica leve, semelhante às que usavam na Grécia Antiga. Ao que parece, todos já estavam à minha espera.

Bem... Quase todos.

A porta foi aberta com um estrondo e um ruivo de olhos dourados entrou, sem nem notar o que sua entrada causou: mais de cinco pessoas derrubaram pontes de tinta no chão e alguém teve que trocar de tela, pois havia perfurado a anterior com o lápis graças ao susto que levou.

– Boa tarde, bando de nerds! – o “aluno exemplar” da turma berrou, mascando chiclete em alto e bom som. Aquilo teria me dado náuseas, se eu pudesse adoecer.

– Sempre delicado, não é mesmo, Jonas? – a professora responsável pelo curso comentou mordaz, suspirando em seguida – Bem, não importa. Ciel, querido! Obrigada por fazer esse favor. – senhorita Amélia, a professora, sorriu pra mim.

– Sem problemas, senhorita. O que devo fazer? – respondi calmamente.

– Poderia deitar-se no divã? Faça a expressão mais inocente que puder. – e dirigiu-se ao restante da sala – Quero ver como interpretarão a imagem que veem à sua frente.

Fui para minha posição, suspirando. Aquela seria uma longa tarde.

Notas finais
* Só um esclarecimento: eu inventei o nome dessa cadeira do curso, não sei se ela realmente existe. Não achei nenhuma cadeira específica para isso, então coloquei Técnica de Desenho e Pintura para se adequar na história.
Bom... Espero que tenham gostado desse capí­tulo tanto quanto eu, e que tenho curtido o Christian e o Rafael :) Tô super feliz pelos reviews que recebi, não achei que fosse receber tantos! ^^ Até o próximo capí­tulo.
Bjs!