Promessa De Voltar
8 Capítulo 7
Notas iniciais
Quando cheguei à mansão, já estava encharcado pelo que agora virara uma tempestade. Entrei pela janela do quarto que eu dividia com Chris, fechando-a logo em seguida e buscando uma toalha. Por mais que fosse impossível para eu adoecer, o ar gélido do fim de outono não era agradável quando se estava pingando da chuva.
Notei o montinho trêmulo na cama ao lado da minha, coberto apenas por um fino lençol e suspirei, indo pegar a manta que ele derrubara no chão. Nem mesmo dormindo Christian consegue ficar quieto. Sentei na cama vazia e algo pulou no meu colo, mas antes que eu pudesse reagir, o ‘algo’ miou, lembrando-me da gata que parecia se apegar a mim cada vez mais. Passei a mão por seu pelo macio, impressionado por ele quase não estar sujo, mesmo sendo ela uma gata de rua.
— Você não vai ficar com o Chris, não é? – indaguei, e minha resposta foi um ronronar satisfeito – E ele vai achar um jeito de me convencer a ficar com você, e eu nem posso mais dizer que sou alérgico – suspirei – Eu nunca gostei de gatos, sabia?
Ela miou alto, soando indignada, a cauda chicoteando de um lado para o outro, os olhos dourados fixos em mim.
— Está bem, admito que você parece mais esperta que a maioria dos gatos, e estou impressionado com o quão bem você se move com uma pata imobilizada. Costume? – ela piscou devagar, reabrindo os olhos com enfado. Tomei isso como um sim – Uma pena... Sabe, eu realmente devia escolher um nome pra você.
Esfreguei suas orelhas geladas, observando as gotas d’água batendo na janela, a conversa que tive com Grell ecoando em minha mente contra minha vontade.
“... Sebastian Michaelis é, na verdade, Belial...”
“... estranho que não soubesse disso... vocês são bastante unidos, né?...”
“... Belial, o Príncipe do Inferno...”
“... ele sempre passa por Londres... procurando por você...”
“... Sebastian... Belial... procurando por você...”
Fechei os olhos, dando o meu melhor para tentar ignorar aquelas palavras. Aquelas revelações que tornavam inexplicável o reaparecimento de Sebastian em minha existência. As suposições do shinigami tão incapazes de serem verdade, e ainda assim tão lógicas pelas poucas informações que ele tinha.
Mas era apenas por isso que elas aparentavam ter lógica, e apenas por isso. Afinal, não há maneira de Sebastian vir a Londres todos esses anos sem um bom motivo para si, coisa que o que Grell sugerira não era. Obviamente ele não se daria ao trabalho de vir aqui somente para me procurar. É claro que não.
“Apenas esqueça, Ciel”, pensei comigo mesmo, “Apenas esqueça e vá dormir.”
Mas dormir era a última coisa que eu conseguiria fazer; revirei-me na cama por horas, tentando relaxar e falhando totalmente, tentando me concentrar no barulho da chuva para abafar os ecos na minha cabeça, sem o mínimo sucesso. Com um grunhido de frustração, levantei-me e saí do quarto. “Alguma coisa nessa maldita mansão tem que conseguir me distrair!”
Vagando pelos corredores ocasionalmente iluminados por um relâmpago do que agora era um temporal, acabei chegando a uma ala da Mansão Phantomhive a qual eu não visitava há anos. Considerando que a mansão inteira tivera que ser reconstruída desde sua fundação após o incêndio que matou meus pais e que todos os cômodos eram novos agora, eu nunca havia me aventurado nesta área. Afinal, o fiel Cão de Guarda da Rainha nunca teve tempo a perder com nostalgias e reminiscências.
Mas agora com todo o meu passado retornando como uma avalanche mais uma camada de neve não faria diferença. Então, abri a imponente porta – que nunca fora trancada, nem aberta – dos aposentos senhoriais da mansão.
Ali ficavam o quarto do Senhor e da Senhora Phantomhive, o berçário que um dia fora meu, o estúdio pessoal de meu pai e a sala de desenho de minha mãe. Cômodos que eu não visitava desde me tornara o Lord da família. Obviamente, eu os teria assumido caso me casasse com Lizzie, mais esse dia nunca chegou, e a mansão continuava sem Senhores até hoje.
Ao entrar na sala de desenho, deparei-me com os mais variados materiais de arte; minha mãe sempre tivera talento para desenho e pintura, fora assim que ela conquistara meu pai, segundo Madame Red. E, relembrando o pouco de minha infância que ainda guardo em mente, sou obrigado a concordar.
Aos poucos uma ideia surgiu-me: talvez eu deva parar de tentar frear as memórias que tenho de Sebastian e apenas deixá-las fluírem para fora de mim. Como uma música que gruda na cabeça e só sai quando é cantada. Talvez eu deva apenas deixá-lo surgir, e sumir.
Então peguei algumas folhas de papel e lápis, começando a desenhar esboços de olhos frios e penetrantes, belos lábios finos curvados em sorrisos sádicos, pescoços com leves curvaturas elegantes levando a perfis da mais nobre aristocracia.
Mas apenas matizes de cinza não eram o suficiente, então busquei com que trabalhar, achando pincéis, tinta a óleo e solvente. Teria que bastar. Logo os lábios deixavam a palidez de um desenho e ganhavam uma palidez realística, íris passavam de cinzas a vermelhas.
À medida que minhas mãos fluíam pelas folhas, memórias fluíam soltas em minha mente.
“Voltávamos do funeral de Madame Red. Elizabeth dormia no meu colo num sono exaurido após tanto chorar. Sebastian a nossa frente, quieto e contemplativo, ladeado pela dama de companhia de minha prima. O silêncio na carruagem era quebrado pelos parcos soluços que ela deixava escapar, mesmo inconsciente. Já estávamos no final da estrada que dava acesso à Mansão Midford.
— Lizzie – chacoalhei-a com delicadeza – Já chegamos à sua casa. Você precisa acordar.
Aos poucos, ela abriu os olhos, e focou-os em mim, sorrindo em seguida e murmurando “Chieru-kawaii”, como se fosse um título meu; o que praticamente era.
Mas seu sorriso foi murchando quando ela começou a lembrar do motivo de estar ali comigo.
— Madame Red... Ela está... m-mesmo...? – indagou baixinho, incapaz de terminar, parecendo tão frágil que quebraria ao menor movimento, e eu apenas assenti. Seus belos olhos encheram-se de lágrimas e seus soluços retomaram a força. Baixando a cabeça, ela apertou a saia de seu vestido preto até os nós de seus dedos esbranquiçarem.
Respirando fundo, tomou o porte altivo de uma futura Lady e segurou minha mão em despedida. Dei-a um aperto de volta e guiei-a para fora do veículo, onde um pajem já aguardava sua saída. Sua aia saiu logo atrás dela, acolhendo-a em um abraço suave. A porta da carruagem foi fechada e recostei-me no assento, fechando os olhos.
— Impressionante como os humanos deixam-se atingir pela morte. Não é ela a contraparte natural da vida?
Abri os olhos ante a pergunta, encarando meu mordomo.
— Do que está falando, Sebastian?
— Da influência que a morte possui sobre sua espécie, Bocchan – comentou levemente, mas eu podia notar um quê de desprezo em seu rosto – Como Madame Red foi incapaz de matá-lo apenas por ser você filho de seu antigo amor. Como você foi incapaz de matá-la por ser ela sua tia. Como a Srta. Elizabeth é incapaz de aceitar a morte de Madame.
— Você mesmo o disse, Sebastian: a morte é a contraparte da vida. Por que o surpreende que uma influencie a outra? – comentei, e ele deu-me um sorriso torto.
— Tem razão, mestre. Talvez eu apenas não entenda toda essa comoção que vivem os humanos. Essa fraqueza que acomete até mesmo você, Bocchan – estreitei os olhos para isso.
— Fraqueza? – indaguei irritado.
— Se deixar levar por emoções, tornando-se vulnerável. No seu caso, pela raiva em especial. Algo realmente lamentável.
— Esta raiva da qual fala é o motivo de estar aqui, é o que me move para o dia de minha vingança, por que você tanto anseia, Sebastian. Além do que, – falei, cruzando os braços – você, mordomo demônio, pareceu tomado de desespero quando Madame ameaçou me matar, ao ponto de quase perder o braço.
— Você não a mataria, e não posso permitir que morra antes de encerrado o contrato. Era uma obrigação a ser cumprida e, se desespero foi o que esta casca demonstrou, — desdenhou, indicando seu corpo – foi porque essa era a reação humana a ser encenada naquela situação. Nada tem a ver com o que eu sinto – sorriu tenso, escondendo sua raiva.
— Esta ‘casca’, como você diz, reage por suas emoções, como qualquer outro corpo. Sente como qualquer outro. Sente desespero por estar prestes a perder sua tão sonhada refeição, sente frustração ao ter Pluto agarrado a si, sente um amor doentio ao estar perto de gatos. Mas ela só sente porque você sente, não é encenação. Você sente, Sebastian, não é algo grande de se admitir...
— Demônios não sentem – sua frase, firme, curta e fria, como o corte de uma espada, não apenas me calou: paralisou-me por completo. Não fui capaz de mover um músculo, tentando absorver aquela frase, enquanto ele, com um rosto sério, continuou – Mais do que isso, somos incapazes de sentir. Minha espécie não possui sentimentos ou coisa do tipo, é algo sincero... puro demais para nós. Nós somos corrompidos por natureza, e sentir é algo que não se encaixa em nosso comportamento. Somos dignos apenas de provar dos sete pecados capitais.
Ele inclinou-se, tocando meu rosto num doce afago, enganosamente gentil, descansando a palma em minha face suavemente como uma carícia, como se eu fosse de porcelana.
— Demônios não se desesperam, demônios não se frustram. Mas, principalmente, demônios não amam. Não alimente ilusões, Bocchan. O corpo que criou pra mim engana muito bem, mas não é humano. E nunca vai ser.
Permaneci calado pelo resto do caminho, e além. De fato, apenas voltei a falar quando já estava na cama, e Sebastian estava prestes a retirar-se para seus aposentos.
— Sebastian... – chamei, vendo-o parar. Só então continuei – Fique comigo até eu dormir.
O demônio virou-se para mim, curvando-se como sempre e recitando seu jargão.
— Yes, my Lord.
E assim continuamos, como se aquela conversa jamais tivesse existido.”
Mas ela existiu, e me lembrou do porquê de eu dever esquecer o que Sutcliff sugerira e o que aquelas ideias me levavam a pensar. Para vir à minha procura, Sebastian precisaria sentir algo por mim, um mero apreço que seja. Qualquer coisa.
E demônios não sentem.
~X~
Voltei ao quarto de hóspedes horas depois do amanhecer, já que era improvável Christian acordar tão cedo, e fui recepcionado apenas por um miado preguiçoso. Acordei Chris e descemos para a sala de jantar. Aquele seria o último dia da viagem, e os professores nos deixaram livres para escolher o que queríamos fazer.
Grupos se organizavam para diferentes programas no café da manhã, conversas eram travadas entre os vários ocupantes da mesa, até que a porta que vinha dos aposentos principais se abriu, revelando uma bela moça, de olhos verdes e cabelos dourados, rosto sério e decidido, e ainda assim continha uma delicadeza que remetia a minha prima, Lizzie. Sem dúvidas, aquela era Lady Midford.
— Bom dia a todos, espero que as acomodações estejam a seus gostos – começou, dando um sorriso que aliviou o clima tenso de sua entrada. Sentando-se à cabeceira, continuou – Tivemos que nos organizar rapidamente, mas um pedido de Amélia me é impossível de ignorar – disse candidamente, ao que a professora mandou-lhe um beijinho e sorriu pelo resto da refeição – Meu nome é Eleanor Midford, sou a Senhora da Mansão Phamtomhive e...
Risadas e tropeços interromperam sua fala, tornando-se mais altos até que pararam antes da porta por onde ela entrara. Com um aceno e um sorriso torto, ela indicou a entrada ao mordomo, que lhe obedeceu num segundo. Logo estava dando tapinhas encorajadoras em duas crianças de olhos arregalados, guiando-as para dentro da sala.
—... E estes são meus filhos, Chiara Antonella e Alessandro Midford-Matarazzo – completou, condescendente. O pequeno casal possuía pele bronzeada e cabelos num louro mais escuro que o da mãe, mas o olhar tinha o mesmo verde característico dos Midford. Correndo os olhos pela mesa, ambos sorriram ao ver a Srta. Amélia, e apressaram-se para perto dela.
— Zia Lia! – gritaram em uníssono, jogando-se nela, que já havia se levantado, como se soubesse que aquilo iria acontecer. Rindo, os três caíram sobre o tapete – A gente tava com saudades!
— Eu também, piccolos— riu, beijando a ponta do nariz de cada um. Risos percorreram a mesa enquanto meus colegas superavam o choque de ver a professora no chão, com duas crianças em cima dela. Ao meu lado, Christian praticamente gania: “Que fofinhooos!”.
— Meninos... – ambos encolheram com o tom da mãe – Essas não são maneiras de tratar sua tia – a fala era firme, mas Lady Midford tinha um semblante terno – Vão se lavar e voltem para o café.
— Podemos sentar com a zia Lia? – perguntaram.
— Se ela deixar, podem. Mas agora vão.
Os meninos rapidamente obedeceram, sendo seguidos de perto por James.
Cochichos rondaram a mesa após isso, em específico, comentários sobre o parentesco da Srta. Amélia com a anfitriã e sobre as crianças. Não demorou muito para elas voltarem correndo, um James ofegante em seu encalço. Eleanor deu-lhe um olhar apologético, ao que ele apenas sorriu, dispensando-o com a cabeça.
O incidente foi sendo esquecido à medida que as pessoas voltavam a falar excitadas sobre os passeios que fariam, e logo a algazarra das crianças não era mais comentada.
— Então, Ciel. O que você quer fazer? – Chris virou-se para mim.
— Ainda não sei... Alguma ideia?
— Estava pensando em ficar com o grupo dos jardins, a Srta. Amélia disse que seus sobrinhos irão posar pra nós! – ditou animado, a voz subindo uma oitava no final – Imagina que coisinhas lindas! Provavelmente não sabem posar, mas vai ser divertido!
— Prefiro trazer a gata comigo e usá-la como modelo, é mutuamente satisfatório: ela dorme e eu pinto, o que acha? – comentei sarcástico e ele caiu na gargalhada. Levantamo-nos e fomos para o quarto.
— Até quando vai chamá-la de ‘gata’, Ciel? – jogou-se na minha cama, coçando a cabeça da felina em questão.
— Estava pensando nisso ontem, na verdade. Que acha de Michaela?
— Michaela... Mica... Soa bem – sorriu, puxando a gata para o colo – Que acha, Mica? Gostou do nome? – um miado satisfeito foi a resposta que ele ganhou – Michaela a nomeio, então – falou, num tom solene, e eu apenas ri de sua palhaçada.
Batidas na porta anunciaram o mordomo da mansão.
— Perdoem-me o incômodo, cavalheiros, mas Lady Midford mandou-lhe esta missiva, Sr. Bluehive – curvando-se, James apresentou-me a carta. Aceitei-a e ele rapidamente retirou-se – Com licença.
— Lady Eleanor? O que ela quer com você? – indagou curioso. Li brevemente o bilhete, cada vez mais confuso.
— Acabo de ganhar um compromisso para a tarde...
A mensagem curta e polida dizia apenas:
Caro Ciel,
Adoraria que me acompanhasse no chá das cinco. Minha querida Amélia comentou que temos em você um conterrâneo, e tenho certeza de que sente falta desta antiga tradição britânica.
Encontre-me no centro do jardim de rosas.
Lady Eleanor Midford
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